A abordagem do PPP do Curso está centrada no perfil do educando que a EAFC pretendeu formar, nos pressupostos teórico-metodológicos e na organização curricular.
O currículo integrado, na concepção do PPP, pressupõe uma formação humana que privilegie as múltiplas dimensões do sujeito mediante um projeto pedagógico libertador, que tenha o trabalho e a cidadania como referenciais dos eixos temáticos norteadores, no sentido de inserção no mundo do trabalho, na participação social, política e comprometimento com a emancipação humana.
São pressupostos teórico-metodológicos que norteiam o PPP do Curso: o trabalho; os Processos de Auto Organização dos Educandos; as Relações Humanas, Valores/Gênero; a Relação Escola e Comunidade como Elemento Estratégico; o Regime de Alternância.
Na busca de uma práxis enraizada no arcabouço teórico da Educação do Campo, bem como na perspectiva de incentivar a (re)criação de práticas educativas e saberes pedagógicos nos vários níveis de formação, os pressupostos teórico-metodológicos são concebidos como ancoragem no currículo do Curso, conforme o seu PPP:
O Trabalho: ... “Graças ao trabalho, o homem se torna disciplinado e organizado: é preciso ensinar o amor e a estima pelo trabalho em geral. O trabalho eleva o homem e lhe traz alegria; [...] e é por isso que o trabalho é precioso como meio de educação (Pistrak)”.
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Processos de Auto Organização dos Educandos: [...]. A formação é uma forma de ação, de organização, de convivência.
Relações Humanas, Valores/Gênero: Formação é também vivência, [...], respeito à individualidade de cada um; honestidade, disciplina, etc.
Relação Escola e Comunidade como Elemento Estratégico: o curso deverá ser um espaço de discussão, estudo e problematização de questões da realidade que afetam a agricultura e a vida no campo [...].
Regime de Alternância: O regime de alternância é um dos elementos constitutivos deste projeto, [...], sendo esta uma das metodologias que mais se aproxima da sua realidade e necessidade. (EAFC, 2007, p. 15-16).
Como apontado por Marx (2002), o que efetiva naturalmente o intercâmbio material entre o homem e a natureza é o trabalho. Para o autor, o trabalho é um processo do qual participam o homem e a natureza. Pressupõe que o trabalho é intrínseco ao ser humano: o homem utiliza seu raciocínio, a capacidade física de seus movimentos para se apropriar dos recursos da natureza e modificá-la de acordo com as suas necessidades. Quando o homem modifica a natureza são envolvidos vários fatores que vão conceber a finalidade do trabalho, mas a modificação da natureza deve ser considerada na sua sustentabilidade, ou seja, não deverá comprometer a vida das futuras gerações.
No que tange à Educação do Campo, além da revalorização da escola como local e tempo de práticas e saberes, a valorização de outros espaços de cultura com a mesma finalidade pode e deve ser contemplada – como seminários, palestras, serões, pesquisas na própria comunidade e nas outras fora da realidade familiar, considerando que, para a sua realização, a Pedagogia da Alternância se expressa como a mais efetiva no processo educativo.
A convivência com o semelhante, quando baseada na ética, garante trocas de experiências e valores, como companheirismo, solidariedade, responsabilidade; respeito à individualidade; honestidade, disciplina, entre outros. Portanto, corroboro a concepção de que a escola tem uma especificidade sócio-político-pedagógica, na medida em que tem, sob sua responsabilidade, a formulação de um projeto educativo que contribua para que os alunos alcancem uma formação integral (humana e profissional) “[...] visando incentivá-los e qualifica-los profissionalmente para o trabalho técnico com a produção agrícola familiar.” (EAFC, 2007, p. 17).
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Figura 4 – Fazendinha do IFPA – Campus Castanhal, para a realização de práticas agrícolas
Fonte: Carvalho (2009).
Como o percurso metodológico do curso Técnico em Agropecuária – Habilitação em Agroecologia do PROEJA seguiu os pressupostos da Pedagogia da Alternância, em que a trajetória educativa foi realizada no espaço escolar e no espaço comunidade, contempla-se a ideia de que a formação profissional se consagra de maneira efetiva dentro do inter- relacionamento desses espaços-tempo – o Tempo-Escola e o Tempo-Comunidade.
De acordo com os relatos dos educandos durante a aplicação das entrevistas, conforme análise no sexto capítulo desta Tese, a formação se estabeleceu em diálogos produzidos pelos educandos e educadores, pois, durante a realização das atividades pedagógicas nos tempos de alternância, eram discutidas nos momentos de planejamento, as dúvidas quanto aos novos conhecimentos adquiridos.
Em cada Tempo-Comunidade, foram produzidos, pelos educandos, relatórios, seguindo um Plano de Atividades por eixo temático, os quais forneceram subsídios sobre a realidade dos educandos, “[...] a fim de aprofundar os conhecimentos dos diversos conteúdos trabalhados no Tempo-Escola e vivenciar a realidade numa perspectiva nova, a partir de um olhar reflexivo.” (BRASIL, 2010, p. 1) (ANEXO A).
Desse modo, os Relatórios do 10º Tempo-Comunidade produziram dados sobre: produção e comercialização das culturas desenvolvidas pelos agricultores familiares nas
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comunidades; existência e acesso a políticas públicas pelas famílias, como educação e saúde, principalmente; formas de acesso e manutenção da terra; levantamento de impactos ambientais nas comunidades, entre outros.
Na volta ao Tempo-Escola, os relatórios foram apresentados em seminários e discutidos entre os próprios educandos, educadores e coordenação do curso. Nesses momentos de socialização, as dúvidas, críticas e sugestões seguiram a novos planejamentos, no sentido de estabelecer subsídios na busca de novos conhecimentos, num processo de consciência de inacabamento, pois o homem, “como um ser histórico, inserido num permanente movimento de procura, faz e refaz constantemente o seu saber.” (FREIRE, 2011, p. 58).
E, assim, a alternância educativa no curso Técnico em Agropecuária — Habilitação em Agroecologia do PROEJA consistiu
[...] no processo de alternar e integrar momentos de formação nos tempos-espaços da própria escola [atividades de estudo, oficinas pedagógicas, sessões de vídeo, palestras, visitas, experimentação agrícola, etc] e nos tempos-espaços das comunidades [experimentações, diagnósticos, estágios, leitura, etc]. Ela permite aos jovens alternarem período de vida de estudo e trabalho na escola e com a família na propriedade rural (lote), buscando assim desencadear um processo formativo desenvolvido na relação-interação escola, família e comunidade. (EAFC, 2007, p. 17).
Na busca por compreender a dinâmica curricular em mais ações pedagógicas, outro documento apontado é o Relatório de Diagnóstico do 12º Tempo-Comunidade de uma das equipes de educandos, em que, na Atividade Integrada, as disciplinas envolvidas foram Sistemas Agroflorestais (SAF), Extensão Rural, Matemática, Química, Português, Geografia.
O objetivo desta atividade consistiu em que os educandos entendessem o funcionamento do processo da agricultura de subsistência das comunidades Arapuã, Escolinha, Nova Vida e São Pedro, no Município de Ipixuna do Pará. Além de buscarem conhecer o que fazem os agricultores para suprir as suas necessidades, deveriam também compreender o que são redes solidárias, movimentos sociais, sindicatos, e em que ajudam no processo da agricultura familiar.
O Relatório apresentou o seguinte diagnóstico:
a) Beneficiamento dos produtos nas comunidades: a cultura do milho não traz tanta rentabilidade aos agricultores, já que é produzido em pequena escala para a criação de animais e alguma venda para o comércio local. O beneficiamento do milho passa por quatro processos: colheita (retirada da palha); separação
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dos grãos dos sabugos; exposição à luz solar (evitar podridão); armazenamento em sacas.
b) Produto mais rentável: a mandioca, que depois do processo de amolecimento, descascamento, mistura e prensa chega à farinha que depois é vendida.
c) Culturas produzidas para o próprio consumo dos agricultores: arroz e feijão. d) A cultura da pimenta-do-reino é desenvolvida por poucos agricultores, porém a
sua prática traz resultados positivos no período de safra (agosto e setembro). O processo de comercialização ocorre de forma direta ao comércio local e indiretamente para o atravessador.
e) Nas comunidades não existe rede de economia solidária49 ativa. O individualismo prevalece, cada agricultura usufrui daquilo que produz. Fatores como o desmatamento e queimadas levam à dificuldade de existir a economia solidária. Os autores apontam a possibilidade de que ela pode até existir, mas desde que haja a fusão de práticas de consumo solidário. Porém, há impedimento pela própria sociedade, que não crê nesta política econômica pelo fato de estar atrelada à política capitalista. Entretanto, existem sindicados e movimentos sociais em que os agricultores participam, e há cobranças por parte dessas organizações através de mobilizações dos associados e de não associados. O ato “Grito da Terra Brasil” acontece com a finalidade de proporcionar melhorias na vida do campo, de maneira que a assistência técnica e governamental esteja presente no dia a dia dos agricultores, lutando para que as produções sejam satisfatórias e atendam as necessidades de todos. São os líderes comunitários que repassam se ocorrem as cobranças.
A pesquisa dos educandos abordou ainda a relação diversificada entre monocultura, agricultura familiar e complexos agroindustriais de integração. Dentro da realidade das comunidades, esta questão resulta que os três termos são completamente distintos. Não existe a prática da monocultura; a única fonte de sustento das famílias é a Agricultura Familiar; quanto aos complexos agroindustriais, nenhum produto da agricultura passa por transformações, ou seja, tudo o que é produzido e comercializado é produto natural. O resultado dessas considerações é que não há relação entre os fatores mencionados.
49 Compreendida como um jeito diferente de produzir, vender, comprar e trocar o que é preciso para viver. Sem
explorar os outros, sem querer levar vantagem, sem destruir o ambiente. Cooperando, fortalecendo o grupo, cada um pensando no bem de todos e no próprio bem (Portal do Trabalho e Emprego/Ministério do Trabalho e Emprego) (BRASIL, 2014b).
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Na conclusão da referida pesquisa, os educandos relataram que entenderam sua importância, pois perceberam as problemáticas existentes em suas comunidades; que a formação que estão recebendo possibilita outra visão de sua realidade, e ao mesmo tempo lhes proporciona a busca de soluções para melhorias de trabalho para as pessoas das comunidades. Essas ideias conclusivas corroboram vários relatos dos educandos por ocasião das entrevistas realizadas, o que pode ser verificado no capítulo da análise dos resultados.
Ainda de acordo com o PPP do curso em tela, o trabalho e a pesquisa como princípios educativos são norteados por um plano de estudo, constituído por atividades de leitura (leitura teórica ou literária); de pesquisa (levantamento de dados sobre o enfoque da leitura) ou de trabalho (uma prática agrícola) a serem realizados pelos educandos durante cada Tempo-Comunidade, tomando como objeto a realidade vivenciada pelos educandos. E, assim, para atender aos pressupostos da Pedagogia da Alternância,
[...]. O Tempo-Escola é cumprido em regime de internato, permite aos jovens experiências de cooperação e vivência comunitária, o estudo teórico-prático, a experimentação agrícola [...]. No período de comunidade, os jovens pesquisam o funcionamento do meio familiar e comunitário, na busca de construir o diagnóstico da realidade em que vivem, considerando várias dimensões da mesma (histórica, econômica, cultural, social, ambiental, política) [...]. Neste período os jovens desenvolvem ainda as atividades produtivas familiares, momento em que pode experimentar na prática os conhecimentos construídos no processo escolar, buscado ampliar o aprendizado teórico. (EAFC, 2007, p. 17).
A organização curricular destaca os seguintes elementos: o plano de formação; a Pesquisa Participativa [Elaboração de Diagnósticos]; Temáticas Geradoras e Quadro do Tema Gerador; Plano de Estudo, Pesquisa e Trabalho; Cadernos Pedagógicos; Visitas de estudo, Intercâmbio; Serões; Grupos de Estudo e Vivência Pedagógica – GEVP; Projeto de Produção Agroecológico; Estágio Profissional.
De acordo com o exposto no PPP do curso, o envolvimento dos educandos agricultores para obter conhecimentos por meio de eixos temáticos, compartilhando saberes entre si e a comunidade em seminários no Tempo-Escola e Tempo-Comunidade, por certo permite que os educandos alcancem novas práticas e saberes pedagógicos que dialoguem com as práticas educativas não escolares, na percepção de que o trabalho, a pesquisa, a educação estão nos diversos espaços da vida cotidiana.
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