O distrito de Setúbal, devido à proximidade ao mar e à eficiente rede de transportes e vias de comunicação, é considerado um distrito de grande potencial de desenvolvimento nas áreas de saúde, trabalho, economia, turismo e educação. A cidade de Setúbal, caracterizada pela sua extensa costa litoral é dotada de uma enorma riqueza e beleza natural e um vasto património arquitetónico e cultural, assumindo um papel determinante para a sua afirmação, quer ao nível turístico, quer pelo seu contributo para a economia de Setúbal [128]. A área circundante à Central de Setúbal destaca-se pela presença de diversos elementos de caráter natural, para os quais se obtém linhas panorâmicas favorecidas a partir das suas infraestruturas, nomeadamente dos GGV, com destaque para o Parque Natural da Serra da Arrábida (Fig. 26 (a)), e para a Reserva Natural do Estuário do Sado (Fig. 26 (b)), duas áreas sob protecção nacional e para a Península de Tróia. Para além disso, a Central tem uma localização de excelência em termos de acesso a meios de transporte públicos, o autocarro e o comboio.
Fig. 26 – (a) Vista áerea da Central de Setúbal para a Serra da Arrábida (b) Vista áerea para o Estuário do Sado
Setúbal em termos de atividades culturais dispõe de cinco museus, com um único museu industrial – Museu do Trabalho Michel Giacometti [129]. O Forúm Municipal Luísa Todi é a principal sala de espetáculos onde se realizam inúmeros eventos.
Na envolvente da Central destaca-se o Instituto Politécnico de Setúbal (IPS), o Porto de Setúbal, e a área central da cidade (Fig. 27).
As chaminés da CTS tornaram-se numa referência urbana pois são vísiveis de vários locais, como do Castelo de Palmela, Serra da Arrábida, Marina e Porto de Tróia, entre outros.
7.1 Reutilização Adaptativa da Central Termoelétrica de Setúbal
Numa reunião com elementos da Câmara Municipal de Setúbal, nomeadamente com o Sr.º Arquitecto Fernando Travassos e com o Geógrafo Técnico da Divisão do Planeamento Urbanístico, Vasco Raminhas da Silva, apresentou-se a corrente situação da Central Termoelétrica de Setúbal, numa tentativa de descobrir uma viabilidade de reutilização, enaltecendo-se o valor patrimonial industrial da CTS. Durante a reunião discutiu-se sobretudo a implementação de um Parque de Ciência e Tecnologia nas infraestruturas da Central, que se pretende construir em terrenos virgens relativamente perto da Central, o que permitiria a sua preservação. Existem dois planos estratégicos nos dossiers da Câmara Municipal de Setúbal que na sua execução poderiam visar a reutilização adaptativa da CTS: o Plano Estratégico de Setúbal Nascente (PESN) e o Plano Estratégico do Parque de Ciência e Tecnologia de Setúbal. O PESN reafirma os valores da Cidade de Setúbal, salientando a Música como elemento mobilizador na área na qual a Central está localizada. Recorde-se que esse plano assume a implementação de um parque temático designado «Parque da Música e do Som» como um dos elementos de corporização da visão estratégica, que promove o conhecimento, a ciência, a tecnologia e que «deverá apresentar espaços e equipamentos de grande dimensão e envergadura simbólica para a realização eventos e atividades indoor, assim como espaços exteriores onde se possam desenvolver atividades ao ar livre, mais dirigidos a famílias e escolas, e contemplando zonas para a realização de conferências e workshops temáticos» [130]. A Central Termoelétrica de Setúbal foi referida na otimização desse parque, e referenciou-se o estabelecimento de um acordo de parceria com a EDP para a reconversão das suas estruturas edificadas, após a desativação desta, que até à data não se concretizou.
À luz dos casos da Tabela 1, a CTS tem o potencial de poder vir a ser readaptada para os fins em vista nestes planos. O próprio Landschaftpark Duisburg é palco do tão famoso festival Piano do Ruhr, o que demonstra a capacidade que semelhantes infraestruturas têm para estes eventos. No caso do Parque de Ciência e Tecnologia, destaque-se a existência de diversos gabinetes, laboratórios e oficinas e recorde-se igualmente os testemunhos de elementos que afirmam que as estruturas têm ainda muito material disponível e que poderia ser aproveitado. Neste sentido, destaca-se a importância da reutilização, que ao evitar custos de construir novo, evita muitas das implicações associadas à nova construção, como a emissão de CO2, utilização de matérias-primas, utilização de terrenos virgens e
por consequência desflorestação, entre outros.
No primeiro capítulo falou-se da dificuldade de novas funções para estruturas técnicas. No caso de estudo da CTS esta situação é particularmente verdade para os edifícios das caldeiras e dos DE, uma vez que têm a tecnologia diretamente incorporada na sua construção. São estruturas únicas, visualmente impactantes, dominando a área em que estão inseridos. Contudo, destaca-se a capacidade de atracção turística que estes objetos museológicos poderão vir a ter, tornando-se numa mais valia ao novo complexo a implementar.
Transcreva-se de seguida o seguinte texto de José Amado, que referencia o caso da Tate Modern na reutilização para outros fins: «(...) certas estruturas industriais, pela sua escala e dimensões, são apropriadas para a exibição de obras de grande porte, como se tem verificado na Tate Modern, em Londres, instalada numa antiga central termoelétrica, cuja sala das turbinas tem possibilitado a exposição desse tipo de objectos. Neste caso, as instalações integram-se no contexto de uma nova
relação estabelecida entre o património, a cultura e a economia, além de se localizarem junto ao rio Tamisa, o que se enquadra também no movimento de valorização das “frentes de água”, tão em voga nas últimas décadas» [9].
A relevância desta citação nos termos de uma possível reutilização da Central de Setúbal é crucial, uma vez que além das dimensões da Central de Setúbal se assemelharem às da Tate Modern, existe a a proximidade ao rio Sado, ou a designada Costa Azul, tornando-se imperativo na preservação deste complexo para fins turísticos, fomentando o desenvolvimento económico, social e cultural da região.
7.2 Central Termoelétrica versus Central Tejo
Durante este estudo, foi recorrente a afirmação de várias pessoas que a Central de Setúbal não tem o mesmo valor patrimonial que a Central Tejo. Mas coloca-se a questão, será que se pode comparar património de épocas tão distintas de construção? Será que a Central de Setúbal não foi identicamente um motor de desenvolvimento local que faz parte da memória da cidade? A título de exemplo, recorde-se que em 1973 Setúbal destaca-se numa notícia no Jornal do Comércio por vir a ter a maior central térmica do país [42]: «Mas no sector das centrais térmicas, há que contar com a de Setúbal. (...) A implantação parece corresponder a um reconhecimento implícito do peso cada vez maior do distrito de Setúbal no nosso desenvolvimento».
E o reconhecimento da cidade de Setúbal na produção de energia elétrica pelo autor do livro História da Electricidade, Mário Mariano: «quase 50 anos depois (...) uma nova central (...) irá utilizar as águas do Estuário do Sado para a refrigeração dos seus condensadores: o mesmo cenário, diferentes escalas [a fazer referência à Central da Cachofarra em Setúba]» [40].
Atente-se à seguinte tabela:
Tabela 11 - Complementaridade do Museu da Eletricidade e da Central Tejo [40][105]
Central Tejo Central Termoelétrica de Setúbal
Localização Zona turística de Lisboa – mercado e
concorrência forte Zona industrial de Setúbal
Início da construção 1913 1973
Potência instalada [MW] 65 1000
Combustível Carvão Fuelóleo
Alimentação de
eletricidade a Lisboa e arredores Ao País
Arquitectura exterior Alvenaria de tijolo nas fachadas De betão armado e ferro Tipologia dos GGV Interior Exterior
Configuração dos GGV Duas ou mais caldeiras por turbogrupo Quatro monoblocos de 250 MW Tipologia dos DE Interior Exterior
Número de efetivos ≈500 ≈240
Controlo Sobretudo manual Automático Ampliações durante a
Exploração
Sucessivas ampliações de potência e de tipo de combustível utilizado.
Estavam previstas mas não houve qualquer alteração nem de potência nem de combustível.
Área Disponível e Novas Funcionalidades
Sobretudo área edificada disponível, reutilizada no Museu da Electricidade e oferecendo exposições, conferências, seminários, eventos ao ar livre (limite de espaço).
A área disponível permite praticamente as mesmas funcionalidades da Central Tejo, com considerável área edificada, contudo oferece uma área exterior consideravelmente maior, que permite diversos tipos de eventos de grande escala (desportivos, festivais de música, etc.).
Na ótica deste trabalho, desenvolveu-se uma visão de importância histórica, tecnológica e social da Central de Setúbal, e aqui procede-se então a uma breve comparação, que pretende provocar a uma nova percepção para as diferenças destas, não se querendo diminuir a importância relativa de nenhuma das duas, mas apenas mostrar que a existência das duas não é sinónimo de redundância deste património industrial. Antes pelo contrário, complementam-se perfeitamente na perspetiva da evolução do sistema eletroprodutor durante o século anterior, nas suas divergências estruturais, sociais, tecnológicas e sobretudo, nas suas novas funcionalidades de reutilização (recorde-se que no caso da Central de Setúbal, esta situação é meramente hipotética).
A potência instalada da Central de Setúbal é notoriamente superior à da Central Tejo, e, contudo, o número de trabalhadores é aproximadamente metade. Nesta perspetiva, a evolução tecnológica e a entrada de sistemas cada vez mais automatizados torna a Central de Setúbal o testemunho físico dessa evolução, complementando a Central Tejo.
Aprofunde-se a comparação geográfica de ambas as centrais, em termos de presença de património industrial classificado. A Fig. 1 - Número de museus com colecções de património industrial por distrito apresenta o distrito de Lisboa com 16 colecções em contraste com o distrito de Setúbal que só tem 6. De uma maneira geral, o património industrial a Sul do Tejo não se encontra tão bem representado como a Norte, o que valoriza ainda mais a CTS.
7.3 Análise social
Procedeu-se ainda ao questionário informal de pessoas num raio de 2,5 km da Central de Setúbal. Os questionários foram realizados porta-a-porta em residências, estabelecimentos comerciais e a peões em geral no Faralhão, Praias do Sado e Manteigadas21, ao longo de dois dias. Entrevistou-se
também um conjunto de pessoas dentro das instalações do IPS, na sua maioria estudantes. Tanto nas redondezas como no IPS não houve nenhum critério de selecção dos inquiridos de maneira a obter uma amostra o mais próxima da realidade. No total foram questionadas 94 pessoas.
Fig. 28 - Faixa Etária dos inquiridos
Fig. 29 – Estatísticas de opinião dos inquiridos
A faixa etária dos inquiridos apresenta-se na Fig. 28. A observação da Fig. 29 apresenta as diversas perguntas que se efectuou aos inquiridos e as percentagens obtidas, para a área de raio inferior a 2,5 km e para o IPS. À primeira vista ressalta a percentagem que apoiaria uma reutilização adaptativa para fins culturais e recreativos (centro museológico, recinto de eventos, parque de desporto), atingindo os 100% nos inquiridos do IPS e perto de 90% nas zonas mais próximas.
A segunda questão que surpreendentemente obteve maior percentagem de respostas positivas foi a de visitar as instalações da Central, revelando interesse na visita às instalações. Seria interessante a EDP permitir o acesso às instalações da Central de Setúbal, num programa semelhante ao desenvolvido pela EPAL para o Aqueduto das Águas Livres (Tabela 2 - Casos de sucesso nacionais de reutilização adaptativa do património industrial), que em 1985 permitiu o acesso ao público durante o verão inteiro22 [131]. A central teve a função de servir o país e não exclusivamente à cidade
de Setúbal. Esta possibilidade permitiria testar a aceitabilidade pública que a Central poderia vir a ter em caso de adaptação para outros fins.
São elevadas as percentagens de inquiridos que consideram as chaminés como elementos caracterizantes da região e que, por conseguinte, não deveriam ser demolidas. O resultado ganha relevos ainda mais concretos se se observar a posição dos inquiridos do IPS. Isto porque, a maioria provém de outras cidades e consideram as chaminés como elemento caracterizador da região.
Para aprofundar a satisfação com que poderia ser recebida uma reutilização, atente-se aos resultados da Fig. 30, com a maioria das respostas dos inquiridos em «Agrada-me» e «Agrada-me muito».
Fig. 30 - Estatísticas de opinião de uma reutilização das instalações para efeitos culturais e recreativos
É indubitável a importância que as chaminés têm nas proximidades, e que são valorizadas pela comunidade como parte da sua própria identidade. Durante as entrevistas, observou-se que os valores patrimoniais nem sempre são aparentes e muitas vezes são mal entendidos. Dada a recente desativação, algumas pessoas afirmaram não saber que a Central já não funcionava. A camada mais jovem do IPS mostrou na sua maioria desconhecer a função das instalações das «chaminés altas», reconhecendo contudo a função de uma função térmica de produzir energia elétrica.