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7. Concluding remarks and further research

7.2 Further research

Bourdieu (1999) salienta que a formação de um campo religioso autônomo está muito relacionada a uma mudança na infraestrutura social, devida ao processo de industrialização e, consequentemente, ao aparecimento da oposição campo/cidade, trabalho material/trabalho intelectual. Esse seria o espelho das grandes divisões religiosas que viriam acontecer. Aqui o autor relembra algo que Weber já havia salientado quanto à influência de determinada camada social no tipo de religião (de bens e promessas religiosas) a ser desenvolvida. Tal fato pode ser percebido em relação ao obstáculo colocado pelas classes camponesas ao desenvolvimento de uma religião racionalizada, esta só foi encabeçada por uma camada mais urbanizada e economicamente desenvolvida, como a dos comerciantes e artesãos.

Entretanto, a formação autônoma do campo vai muito além de uma vinculação ao processo de industrialização, é que a racionalização da religião possui uma normatividade própria, uma lógica peculiar, que está relacionada ao

81 “O amor fati é o amor pelo que estou determinado a ser, a determinação de amar essas

desenvolvimento de um corpo especificamente sacerdotal. O desenvolvimento de um verdadeiro monoteísmo estaria relacionado ao desenvolvimento em direção a uma sociedade com agricultura desenvolvida e com uma divisão de classes, onde os progressos da divisão do trabalho desembocam na divisão do trabalho de dominação e, particularmente, na divisão do trabalho religioso. Portanto, falar em desenvolvimento de um campo levando em conta apenas transformações econômicas faz com que se oculte algo de fundamental importância: a autonomia própria a esse campo, onde a ação convergente (a despeito da concorrência que os opõe) de um corpo sacerdotal, dos leigos e do profeta é que estabelece a dinâmica desse campo (BOURDIEU, 1999, p. 37). Ou seja, a moralização da religião, muito além de estar relacionada a uma situação econômica, está vinculada “às transformações da estrutura das relações de produção simbólica” (IBIDEM).

Na separação das competências de cada campo, coube à religião assumir uma função ideológica, a qual determinará o que merece ou não ser discutido. Isso faz com que ela coloque em prática, segundo Bourdieu (1999, p. 46), “a absolutização do relativo e a legitimação do arbitrário”, legalizando assim determinadas posições sociais e reproduzindo a estrutura das relações econômicas e sociais. Ao cumprir funções sociais, a religião não apenas dá resposta às aflições existenciais do indivíduo, mas, além disso, lhe fornece justificativas quanto à posição social ocupada.

Da mesma forma que no campo religioso, no campo científico ocorre também uma luta por poder e reconhecimento. Isso desenrola se num processo onde as escolhas científicas estão voltadas para a maximização do lucro científico e, com este, direcionadas ao alcance do reconhecimento dos pares concorrentes (BOURDIEU, 1983a, p. 126, 127).

A autonomia dos campos é um ponto importante e ao qual se deve estar atento, já havia alertado Bourdieu. Por isso, apesar de o poder ser a alavanca tanto do campo religioso quanto do campo científico, é preciso lembrar que existe algo que é diferenciador desses dois: enquanto a religião é movida pela moral, “o mercado dos bens científicos tem suas leis, que nada têm a ver com a moral” (IBIDEM, p. 133). Isso os coloca em polos opostos.

O principal indicador do grau de autonomia de um campo é o seu poder de refração, de retradução (BOURDIEU, 2004a, p. 22, destaques nossos), o que significa a capacidade que ele tem de recompor as pressões externas; talvez fosse possível dizer até, a capacidade que ele possui de adequá las à dinâmica do campo, sem que este seja transfigurado no que ele possui de genuíno.

O campo exerce um efeito de refração (como um prisma): portanto, apenas conhecendo as leis específicas de seu funcionamento (seu ‘coeficiente de refração’, isto é, seu grau de autonomia) é que se pode compreender as mudanças nas relações entre escritores, entre defensores de diferentes gêneros (poesia, romance e teatro, por exemplo) ou entre diferentes concepções artísticas (a arte pela arte e a arte social, por exemplo), que aparecem, por exemplo, por ocasião de uma mudança de regime político ou de uma crise econômica. (IDEM, 1996b, p. 61, aspas do autor).

Independente do tipo de diálogo que possa ocorrer entre o campo religioso e o campo médico científico, é necessário verificar até que ponto ele pode ser e é mantido, de forma a não conduzir a conflitos quanto ao lugar ocupado por cada um e a sua especialidade, pois, segundo Bourdieu (1983a, p. 127), os produtores de um determinado campo só reconhecem como clientes seus próprios concorrentes, o que faz com que o valor de um produto só seja reconhecido por outro produtor do mesmo campo. Isso pode ser traduzido da seguinte forma: num campo científico com uma forte autonomia um produtor só pode esperar o reconhecimento (e com este reputação, prestígio, autoridade, competência) do valor dos seus produtos dos outros produtores que “sendo também seus concorrentes, são os menos inclinados a reconhecê lo sem discussão ou exame”. Somente aqueles agentes que estão jogando o mesmo jogo têm condições de apropriar se dos produtos de um campo (no caso, o científico) e de apreciar seus méritos. Nesse sentido, deve se lembrar que aquele agente que recorre a uma autoridade exterior ao campo só pode atrair sobre si o descrédito (IBIDEM).

Já no formato de campo religioso proposto por Bourdieu, essa situação não ocorre, visto que os três produtores (sacerdote, mago e profeta) concorrem entre si e são reconhecidos não pelos demais produtores, mas pelos leigos/clientes. Ou seja, uma característica de destaque que pode ser evocada para pontuar as diferenças entre os dois campos é aquela que revela que, ao contrário do campo religioso no qual a produção não é consagrada apenas aos produtores, mas também aos leigos,

no campo intelectual ela é reservada apenas aos produtores82: “Por mais marcante que seja a ruptura entre os especialistas e os profanos, o campo religioso distingue se do campo intelectual propriamente dito, pois nunca consegue dedicar se total e exclusivamente a uma produção esotérica, isto é, destinada apenas aos produtores, devendo sempre sacrificar se às exigências dos leigos” (BOURDIEU, 1999, p. 38). Dito de outro modo, enquanto no campo científico a produção deve ser interessante para os especialistas, no campo religioso, para sobreviver, ela (a produção) deve ser interessante para os leigos, os não especialistas. Essa é a dinâmica a partir da qual se movimentam esses dois campos.

82Não que o trabalho do cientista deva ser interessante somente a ele individualmente; ao contrário,

2 DELIMITAÇÃO DO RECORTE EMPÍRICO E METODOLOGIA

OPERACIONAL

2.1 DELIMITAÇÃO DO RECORTE EMPÍRICO