• No results found

Podemos observar claramente que a “Assembléia de Deus tem um ethos sueco- nordestino. Começou com os nórdicos e passou para os nordestinos. Sem entender as marcas dessa trajetória, não se entende a Assembléia de Deus” (Freston, 1994, p. 76).

Como a “realidade é uma construção social” Berger (2004, p. 14) e a religião é nada mais do que um dos principais fatores da preservação desta realidade, entendemos o porquê do caudilhismo assembleiano e como ele se mantém em terreno tão fértil. Começamos fazendo uma análise sobre as “afinidades eletivas” do pentecostalismo com o coronelismo nordestino, sendo que o modelo coronelístico tem nuanças políticas e econômicas imbricadas desde sua herança na implantação das capitanias hereditárias: um grande chefe, com poderes absolutos e um exercício vitalício.

Politicamente, numa época em que apenas os homens votavam e eram votados30, a Assembléia de Deus apenas seguiu o modelo de liderança masculina. Aliás, algo comum em todas as demais igrejas protestante e católica. E nisto, mais uma vez, o assembleianismo

30 Apenas na Constituição de 1946 é que foi dada paridade eleitoral entre homens e mulheres, pois a Constituição

de 34 permitia o voto feminino apenas das mulheres que exercessem função pública remunerada (Fausto, 1999, p. 400).

brasileiro se distancia do pentecostalismo e do assembleianismo norte-americano (Alencar, 2000, p. 103). Lá, desde o início, as mulheres exercem liderança31.

Os pastores da Assembléia de Deus que foram indagados louvaram a ação dos suecos, quando perguntado sobre a sua liderança. Então, os novos líderes assembleianos, nos primeiros anos, quase todos nordestinos, estão na “escola sueca de liderança”: a palavra carismática (Weber), ou, como alguns falam, “os suecos tinham a doutrina pentecostal”, é dada para ser seguida, cumprida e não questionada. Ressalvando-se às proporções, no Brasil da época, ainda se tem a “inspiração” de Getúlio Vargas.

Acompanhar os 90 anos da Assembléia de Deus é uma boa síntese da história do Brasil. As mudanças ocorridas na igreja e/ou no país, apesar da correlação, não são simultâneas, mas estão absolutamente implícitas umas nas outras. Nas igrejas às mudanças talvez demorem um pouco mais, mas não há dúvida que igreja-sociedade, querendo ou não, se alteram mutuamente (Alencar, op.cit., p. 102).

Tabela 02: Relação Assembléia de Deus e Brasil: desenvolvimento institucional.

CARACTE- RÍSTICAS

DO PERÍODO ASSEMBLÉIA DE DEUS BRASIL

1900-1930 - liderança carismática; - A Igreja é dirigida por visão/revelação;

- todos os obreiros são voluntários sem vínculos financeiros;

- 1a. República; - messianismos;

- o funcionalismo ainda não é burocratizado;

1930-1960 - liderança tradicional, há o início de uma classe sacerdotal; - surgimento dos Ministérios, consolidação de igrejas-sede;

- só a partir da Constituição de 1946 é que temos eleições livres e secretas, incluindo-se às mulheres;

- fortalecimento de grandes

lideranças, a partir de GV; - processo de urbanização e industrialização;

-alternância de ditadura e democracia; 1960-1990 -liderança

racional/burocratização; - cargos na CPAD e CGADB; - pluralização e emancipação de igrejas locais.

- profissionalização do serviço público;

- fortalecimento da sociedade civil; - pluralização e emancipação partidária.

A Suécia da época não era a próspera sociedade de bem-estar em que se transformou, mas sim, um país estagnado com pouca diferenciação social, obrigando mais de um milhão de suecos imigrarem para os Estados Unidos entre 1870 e 1920 (Caldas, 2001, p. 25). O governo implantou em 1864 uma série de reformas liberais que incluiu, formalmente, a liberdade religiosa. Entretanto, apenas em 1905 é que houve o primeiro governo realmente parlamentar, e somente em 1907 o sufrágio masculino universal. “O princípio de sua virada econômica se deu no período da Primeira Guerra Mundial, o qual criou a base econômica para as reformas dos governos social-democrata a partir de 1932” (Freston, 1994, p. 77).

A Suécia da virada do século era muito diferente do denominacionalismo norte- americano, sendo que as pequenas dissidências protestantes eram reprimidas e marginalizadas. “Muitos batistas preferiam emigrar” Freston (1994 apud Martin, 1990, p. 14), foi no meio desses batistas, que o pentecostalismo se firmou. E não demorou muito para sobrepujá-los, confirmando a regra de Martin de que “em culturas luteranas, a dissidência explícita tende a chegar tarde e a adquirir forte componente pentecostal” Freston (1994 apud Martin, 1978, p. 11).

Segundo o relato histórico dos missionários suecos, que tanto influenciaram os primeiros quarenta anos da Assembléia de Deus no Brasil, eles vieram de um país socialmente

e culturalmente marginalizados, e pertenciam as minorias religiosas num país onde vários trâmites burocráticos ainda passavam pelo clero luterano. Desprezavam a Igreja estatal, com seu alto status social e político e seu clero culto e teologicamente liberal. Haviam experimentado um Estado unitário no qual uma cultura cosmopolita homogênea não permitia a dissidência religiosa e à construção de uma base cultural capaz de resistir à influência metropolitana. Por isso, eram portadores de uma religião leiga e contra-cultural, resistentes à erudição teológica e modesta nas aspirações sociais. Acostumados com a marginalização, não possuíam a preocupação com a ascensão social tão típica dos missionários estadunidenses formados no denominacionalismo (Freston, 1994, p. 78).

Tudo isso contribuiu para a maior liberdade da Assembléia de Deus, em comparação com as igrejas históricas, de se desenvolver em mãos nacionais. Forçosamente, suas vidas pessoais foram marcadas pela simplicidade, um exemplo que ajudou à primeira geração de líderes brasileiros a ligar pouco para a ascensão econômica. Assim, o ethos da Assembléia de Deus evitou um aburguesamento precoce que antecipasse às condições oferecidas pela própria sociedade brasileira aos membros da igreja (Ibid., p. 79).

Portanto, o processo de nacionalização ocorreu quando à igreja era muito nortista/nordestina, contribuindo muito para sedimentar uma característica que subsiste até hoje. Assim sendo, a mentalidade da Assembléia de Deus carrega as marcas dessa dupla origem: da experiência sueca das primeiras décadas do século, de marginalização cultural; e da sociedade patriarcal e pré-industrial do Norte/Nordeste dos anos 30 a 60 (Ibid., p. 84).

RELATERTE DOKUMENTER