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3 Resultater

3.2 Resultat av sortering

3.2.2 Funn innen psykisk helse

Ainda há pouco empregamos certa expressão que não chega a ser formulada por Mallarmé: obra de artifício. Trata-se, claramente, de uma tentativa nossa de aproximá-lo da resolução romântica para a “poesia artificial” e a “poesia natural”. 265 Dadas as consequências da virada mimológica, a composição, a obra de arte, tem de aparecer determinada pela artificialidade. Mas isso não quer dizer que a obra de arte, no caso o Livro, deixe de assimilar uma borda de partilha (não mais uma oposição) com o mundo. Apesar de nunca lançar mão da noção latente nos românticos, Mallarmé formula algo de sentido aproximado, como aparece em “Mímica”. Um exemplo:

Rien autrefois sorti, pour le illettrés, de l’artifice humain, seul, résumé

en le libre ou qui flotterait imprudemment dehors au risque d’y volatiliser un semblant, aujourd’hui ne veut disparaitre, du tout : mais

regagnera les feuillets, par excellence suggestifs et dispensateurs du charme. 266

Traduz Scheibe: Nada outrora saído, para os iletrados, do artifício humano, só, resumido no livro ou que flutuaria imprudentemente fora sob o risco de aí volatizar um semblante, hoje quer desaparecer, de todo: mas reganhará as páginas, por excelência sugestivas e distribuidoras do encanto. O tópico do artifício humano é bastante ambivalente em Mallarmé. Muito mais do que víamos nos românticos a propósito de a categoria de “poesia artificial” levar ao conceito de

265 Essa aproximação tem sempre de ser ponderada, pois nunca é plena. Mallarmé (Divagations, p. 247) efuta, po e e plo, a a p gi a o ti a ue, segu do ele, us a a unidade literária na ideia de paginação em bloco no livro. Ou ainda, como propõe Blanchot (O livro por vir, pp. 240-241), a recusa mallarmeana da tradição romântica e esotérica a propósito da ideia de substância (o livro substancial detentor da verdade eterna e de revelação oculta) como ideia de verdade permanente e real. Tenha-se em conta, portanto, que o que estamos propondo seria uma aproximação que diz respeito à virada mimológica no tópos do livro do mundo, característica esta que permite entender o conceito de linguagem tanto nos românticos teóricos e Mallarmé. De todos os modos, o uso pejorativo da palavra romântico é algo que percorre toda a história da literatura moderna. Devemos sempre questioná-la enquanto uso retórico, e não como definição de romantismo propriamente. É o que acontece em Mallarmé. É, também, o que aconte em Borges, como veremos.

linguagem e literatura moderna. Essa ambivalência está presente a todo tempo em Mallarmé, pois, a diferença dos Schlegel e Novalis, o francês não sistematiza a questão no interior de sua obra. A proposição da artificialidade da linguagem mallarmeana cristaliza- se a partir da reivindicação de dois outros termos circuntantes na obra mallarmeana, a saber, fiction e spirituel.

O texto “Notas sobre a linguagem” 267

remota a fição à linguagem matemática circunscrita em Discurso do método. Descartes teria dito que a “fábula” [fable] equivale ao método enquanto etapa provisória a caminho do cogito. É algo dessa ordem que Mallarmé vislumbra:

(....) Aux autres, la grande et longue période de Descartes. (...) Enfin du moi – et du langage mathématique.

Toute méthode est une ficiton, et bonne pour la démonstration.

Le langage lui est apparu l’instrument de la fiction: Il suivra la méthode du langage (la déterminer). Le langage se réfléchissant. Enfin la fiction

lui semble être procédé même de l’esprit humain – c’est elle qui met un jeu toute méthode, et l’homme est réduit à la volonté.

Page du Discours sur (sic) la Méthode (en soulignant).

Nous n’avons pas compris Descartes, l’étranger s’est emparé de lui:

mais Il a suscite les mathématiciens français. 268

[(...) Outro, o grande e extenso período de Descartes. (...) De mim finalmente – e linguagem matemática. Todo método é uma ficção, e válido para a demonstração. A linguagem lhe pareceu o instrumento da ficção: ele seguirá o método da linguagem (determiná-lo). A linguagem se refletindo. Enfim, a ficção lhe parece ser o próprio procedimento da mente humana - é ela que põe em jogo todo método e o homem é reduzido à vontade. Página do Discurso sobre (sic) o método (grifado)].

Não compreendemos Descartes, o estranho se apoderou dele: mas ele suscitou os matemáticos franceses.

A ficção como um meio para alcançar as manifestações verdadeiras mediantes as dissimulações do método. Mallarmé entende a categoria de ficção recuperando o étimo de fictio, do verbo fingere. 269 Mas não é um modo de fabulação ou imaginação simplesmente. Trata-se, antes, da produção, do acontecimento artísticio, da “langage se réfléchissant” como naquele “entorno, puro, de fição” instaurado pelo Mímico. A ficção torna-se então elementar para a constituição da linguagem e, em última instância, daquilo que o poeta

267 Notes u te to datado o igi al e te e . Mas s a pa ti de 1929 que passa a integrar as Œu es o pl tes na edição Gallimard, BIbliotheque de La Pléiade.

268MALLARMÉ. Notes , p. . I : ___. Œu es o pl tes. 269 Cf. TADEU. Notas de leitu a , pp. -199.

designa reiteradas vezes como L’Ideé (“a Idéia”, eliminação do acaso), assim aparecendo em diversos momentos das citações comentadas a seguir.

Muitas vezes a definição mallarmeana de ficção iguala-se à poesia:

(...) Quelque chose de spécial et complexe résulte: aux convergences des

autres arts située, issue d’eux et les gouvernant, la Fiction ou Poésie.

Traduz Scheibe: Alguma coisa de especial e de complexo resulta: nas convergências das outras artes situada, surgida delas, e as governando, a Ficção ou a Poesia. 270

Traduz T. Tadeu: Algo de especial e de complexo produz-se: nas convergências das outras artes situada, saída delas e governando-as, a Ficção ou a Poesia. 271

A primeira, a ficção, é uma sorte de plano de ocorrência da segunda, da poesia. E, por fim, tudo devém Idéia, Livro – a eliminação completa do acaso literário. Mas antes de estabelecer uma ordem, hierárquica, ambas correspondem ao espírito humano. E o Livro é a determinante da Idéia nesse caso. É o que permite à linguagem passar pela própria linguagem: “Le livre, expansion totale de la lettre, doit d’elle tirer, directement, une

mobilité et spacieux, par correspondances, instituer un jeu, on ne sait, qui confirme la

fiction.” [O livro, expansão total da letra, deve dela tirar, diretamente, uma mobilidade e

espaçoso, por correspondências, instituir um jogo, não se sabe, que confirme a ficção].

272

Ou como aparece em outra ocasião:

Nous savons, captifs d’une formule absolue que, certes, n’est que ce qui est. Incontinent écarter cependant, sous um prétexte, le leurre, accuserait notre inconséquence niant le plaisir que nous voulons prendre: car cet au delà en est l'agent, et le moteur dirais-je si je ne répugnais à opérer, en public, le démontage impie de la fiction et conséquemment du mécanisme littéraire, pour étaler la pièce principale ou rien. Mais je vénère comment, par une supercherie, on projette, à quelque élévation défendue et foundre! le conscient manque chez nous de ce qui là-haut éclate.

A quoi sert cela – A un jeu. 273

Tradução: Nós sabemos, cativos de uma forma absoluta que, certamente, só pode ser o que é. Modéstia seria ignorar, portanto, sob um pretexto, o engodo, o que acusaria nossa inconsequência negando o prazer que almejamos, pois esse além é o agente e o motor – eu diria se não repugnasse

270MALLARMÉ. Le livre, instrument spirituel , pp. . E a seguir a tradução de F. Scheibe, Divagacões, p. 156.

271

MALLARMÉ. Rabiscado no teatro, p. 111. Trad. de Tomaz Tadeu.

272 Cf. MALLARMÉ. Divagations, p. 276. E a tradução de F. Scheibe, Divagações, p. 183. 273 MALLARMÉ. La musique el les lettres, pp. 647.

operar em público o desmantelamento ímpio da ficção e, por conseguinte, do mecanismo literário - para espalhar a peça principal ou nada. Mas eu venero o modo como, através uma artimanha, se projetam por aí certas elevações proibidas e poderosas! ó consciente falta em nós, o que lá no alto transborda. A que serve isso –

A um jogo.

Quanto à spirituel, trata-se de expressão posta em destaque em Divagações a fim de designar o livro mallarmeano. Esse significante recebe a tradução literal nas traduções brasileiras para “Le livre, instrument spirituel”. Anna Arnar sugere traduzi-lo como

intellectual. 274 Não é que inexista a palavra intellectuel em francês. Mas esperar o óbvio de um poeta como Mallarmé seria livrar-se rápido demais do risco que compete à literatura. Spirituel compõe-se ao longo do século XIX francês mediante camadas semânticas vinculadas ao pensamento, à engenhosidade humana, ao especulativo, etc. Embora a sugestão de traduzi-lo, ao inglês, por intellectual seja capaz de repor sobre caminho reto o desvio denotativo da opção literal que, diga-se de passagem, aparece também em portugês, a opção por intellectual, segerida por Arnar, ainda resulta problemática para nós. Isso porque “intelectual” logo ganhará emprego particularíssimo na França daqueles dias em que se daria a defesa de Dreyfus por Zola no artigo J'accuse, publicado no jornal L'Aurore em janeiro de 1898. É por tudo isso que preferirmos o emprego da palavra “mental” em vez de “intelectual” ao nível do que spirituel significará na obra mallarmeana. Acredita-se, assim, assimilar à palavra mencionada interiormente aquilo que é sugerido como as noções de fiction e spirituel a propósito do Livro. Aliás, é o próprio Mallarmé que varia ao chamar o livro de “mental instrumento” em outro trecho de Divagações:

Une oeuvre du genre de celle qu’octroie en pleine sagesse et vigueur notre Théodore de Banville est littéraire dans l’essence, mais ne se replie

pas tonte au jeu du mental instrument par excellence, le livre!” [Uma obra, do gênero daquela que outorga, em plena sabedoria e vigor, nosso Théodore de Banville, é literária na essência, mas não se redobra toda ao jogo do mental instrumento por excelência, o livro!].275

Assim, temos que o essencial do mecanismo literário de que fala Mallarmé define-se através das noções de ficção & mental. A acepção de linguagem e de literatura é dada como convenção, resultado daquilo que foi essencialmente orientado pelo pensamento com a finalidade de não apenas resultar como um acontecimento, uma especulação, mas acontecimento e realização capazes de interferir deliberadamente durante o processo criativo.

274 ARNAR. The book as instrument, pp. 142-143.

Já para finalizar a significação mallarmeana de ficção & mental, precisamos, agora, vinculá-los ao uso da metáfora matemática na obra de que cuidamos aqui:

Banalité! et c’est vous la masse et universel la majorité, autrement que de

pauvres Kabbalistes ô confrères tantôt bafoués par anectode [sic]

maligne : et je me félicite du coup de vent si c’est de votre côté qu’e en

[sic] dernier lieu il décharge mon haussement d’épaules. Non, vous ne

vous contentez pas de malentendu comme eux et par inattention d’un

Art des opérations qui lui sont intégrale [sic] et fondamentales pour les employer et accomplir, à tort, isolément, et encore une vénération, maladroite. Vous en effacez jusqu’au sens initial sacré. Si! avec ses vingt-quatre signes, cette Littérature exactement dénommée les Lettres, ainsi que par de multiples fusions en la figure de phrases puis le vers, système agencé comme un spirituel zodiaque, implique sa doctrine propre, abstraite, ésotérique, comme quelque théologie: cela du fait uniment, que des notions sont Telles, ou à degré de raréfaction au dela

de l’ordinaire atteinte, que de ne s’exprimer sinon avec des moyens, ty

piques et suprêmes, dont le nombre n’est pas plus que le leur à elles illimité. 276

Tradução: Banalidade! e é vocês, a massa e [universal] a maioria, ó confrades, diferentes dos pobres cabalistas outrora subordinados a uma anedota maligna: e agradeço ao vento se é do vosso lado que ele descarrega em último lugar o desdém do meu levantar de ombros. Não, vocês não se contentam, como eles por desatenção e desentendimento, de destacar de uma Arte as operações que lhe são integrais e fundamentais para empregá-las e cumpri- las erroneamente, isoladamente, o que é ainda mais uma veneração, desastrada. Vocês acabam por apagar até o sentido inicial sagrado. Sim! Com seus vinte e quatro signos, essa Literatura exatamente denominada «Letras» [...] implica sua doutrina própria, abstrata, esotérica como uma teologia: e isso, do fato, regular, que as noções são tais, ou a um tal grau de rarefação para além da espera ordinária, que só se pode exprimir através dos meios, típicos e supremos, cujo número não é ainda mais do que a sua própria ausência de limitação.

A partir das vinte e quatro letras do alfabeto francês a composição é pensada como uma opération. Daí resulta a literatura e a veracidade que ela pode revelar – esta última uma qualidade, uma espécie de coroação da luta do poeta contra o acaso ao pretender uma “Art des opérations” que elimine o significado, o caos, e religue o sagrado, não uma volta à origem, mas o começo da literatura como uma operação teológica, um ritual e um culto das letras.

A metáfora matemática mallarmeana é uma subscrição do que Edgar Allan Poe propõe no ensaio A Filosofia da composição. O escritor norte-americano pretende demonstrar que nenhuma parte da composição poética pode ser atribuída ao azar ou à intuição ao analisar seu próprio poema, “O corvo”. Este poema, segundo Poe, teria sido

276

MALLARMÉ. Texte du manuscrit , pp. A -9 (A)-10(A)-11(A). O texto original traz notas complementares ao pé da página. Por isso, nota-se um desencontro entre o original e a tradução, quando optamos pela eliminação dos suplementos da transcrição.

elaborado passo a passo até uma solução final, com “a precisão e a rigorosa lógica de um problema matemático”. 277

Discute-se então a relação entre pensamento e imaginação na poesia, daí apresentando uma autorreflexão que passaria a caracterizar toda a literatura moderna. O poema resulta de um número fixo de linhas, enfim, de um plano preconcebido de composição. Poe então passa a ser visto na França como um modelo de poeta-filósofo cujas ideias implicam uma acepção de literatura não mais como iluminação do gênio, e sim como produto do cálculo e da disciplina artística, tarefas demandantes de rigor metodológico. Charles Baudelaire, por exemplo, traduz esse ensaio para o francês e acresce um prefácio ao comentá-lo. E Mallarmé – que, aliás, tem uma tradução para o poema “O corvo”, publicada em livro ilustrado pelo pintor Édouard Manet – diz em carta a Cazalis, datada em 12 de janeiro de 1854, que quanto mais avança em sua busca, mais fiel se encontra às severas ideias que lhe chegam do grande mestre Poe. Este, por fim, representa para Mallarmé uma exceção, “le cas littéraire absolu” [o caso literário absoluto]. 278

Parte substancial da proposição mallarmeana referente à “despersonificação da obra” será, pois, influência do “problema matemático” aludido por Poe. Mallarmé explica sua poiésis reivindicando algo da convenção mental, horizonte de trabalho e método literário estabelecidos previamente à inspiração. O “caso literário absoluto” de Poe nada mais seria que a definição de uma veracidade da literatura para o poeta francês. Ou como diz Delfel: “O pensamento de Poe mostra-se, assim, como o primeiro lance de dados arremessado pelo espírito humano no campo da estética, para separá-la do azar”. 279 Mallarmé não ignora tal fato e faz por retomá-lo ao propor a “operação” literária, o plano arquitetônico que tem de determinar o Livro. Ele escreve na folha de rosto de Divagações: “Une livre comme je ne les aime pas, ceux épars et privés d’architecture” [Um livro como deles não gosto, aqueles esparsos e privados de arquitetura]. O cálculo arquitetônico (aqui ainda estamos na ordem do matemático) ajuda a propor uma evanescência do autor, da pessoalidade, aspectos estes ainda não alcançados (seja pela dispersão, seja pelo anedótico) com o livro denegado em Divagações.

277 It is my design to render it manifest that no one point in its composition is referable either to accident or intuition—that the work proceeded step by step, to its completion, with the precision and rigid consequence of a mathematical problem. POE. The Raven and The Philosophy of Composition, s/p. [Final do sétimo parágrafo]. Trata-se de u a ediç o pu li ada e po Paul Elde a d Co pa , ilust ada e se paginação conforme o arquivo digital disponível no acervo do site da Open Library.

278 MALLARMÉ. Divagations, p. 124. 279 DELFEL. La estética de S. Mallarmé, p. 25.

Em quê exatamente consiste a negativa da despersonificação da obra em Mallarmé? Scherer oferece caminhos a uma resposta eloquente:

Refus du personnel? Mallarmé écrit à Cazalis le 14 mai 1867:

“Je sui maintenant impersonnel, et non plus Stéphane que tu as connu,

- mais une aptitude qu’a l’Univers Spirituel à se voir et à développer, à travers ce qui fut moi.” Refus des objets particuliers? Il affirme à

Villiers de l’Isle-Adam le 24 de septembre 1866 qu’il a “compris la corrélation intime de la Poésie avec l’Univers, et, pour qu’elle fût purê,

conçu le dessein de la sortir du Rêve et du hassard et de la justaposer à

la conception de l’Univers.” n même temps, par une dialetique qui

nous est aujourd’hui familière, cette totalité, objet du Livre, peut aussi

bien être conçue coome néant: ne rien vouloir de particulier, c’est

vouloir tout, ou bien rien. 280

Tradução: Recusa do pessoal? Mallarmé escreve a Cazalis dia 14 de

maio de 1867: “Eu sou agora impessoal e não mais o Stéphane que você

conheceu, - uma capacidade que tem o Universo Espiritual para se ver e para se desenvolver através do que foi eu”. Recusa dos objetos particulares? Ele afirma em Villiers de I’Isle - Adam, no dia 24 de setembro de 1866, que

“compreendeu a correlação íntima da Poesia com o Universo e, para que ela

não fosse pura, concebi o intuito de retirá-la do Sonho e do Acaso e de justapô-lo à concepção do Universo”. Ao mesmo tempo, através de uma dialética que nos é hoje familiar, essa totalidade do Livro, pode tão bem quanto ser concebida como nada: nada querer de particular é querer tudo ou então nada. Em duas palavras: o apagamento da pessoa, mas também a cosmogonia do eu. De forma parecida àquela substituição da episteme clássica pela moderna que então separou as palavras das coisas, libertando a representação do domínio da relação determinante, Mallarmé separa o sujeito da obra, isto é, a relação entre aquele e esta: “L’oeuvre pure

implique la disparition élocutoire deu poëte, qui cede l’initiative aux mots” [A obra pura implica a desaparição elocutória do poeta, que cede a iniciativa às palavras]. 281

Para Maurice Blanchot a desaparição de que fala o poeta define um desaparecimento “vibratório”, relativo à natureza e à realidade, e já outro “elocutório”, relacionados ao poeta e à obra. E diz mais:

O poeta desaparece sob a pressão da obra, pelo mesmo movimento que faz desaparecer a realidade natural. Mais exactamente: não basta dizer que as coisas se dissipam e que o poeta apara, é necessário dizer também que umas e outro, ao mesmo tempo que se submetem à indecisão de uma verdadeira destruição, se afirmam nesse desaparecimento e no devir desse desaparecimento – um vibratório, o outro elocutório. A natureza transpõe-se através da palavra para um movimento rítmico que a faz desaparecer, incessantemente e indefinidamente; e o poeta, pelo fato de falar poeticamente, desaparece nessa palavra e torna-se ele próprio o desaparecimento que se cumpre na palavra, ela só iniciadora e princípio:

280 SCHERER. Le Li e / Avant-propos: III– Métaphysique du livre , p. .

nascente. “Poesia, sagração”. A “omissão de si”, a “morte como Fulano”, que está ligada à sagração poética faz, pois, da poesia um verdadeiro sacrifício, mas não para dar azo a confusas exaltações mágicas – por uma razão quase técnica: é que aquele que fala poeticamente submete-se a essa espécie de morte que opera necessariamente na palavra verdadeira. 282

Vibratório, pois a poiésis mallarmeana já não corresponde ao apelo das coisas; não mais se destina a preservá-las, nomeando-as. Como acontece na música, ela procura derrotar o acaso levando a linguagem até o limite do poder exercido sobre tudo no mundo, não comportando nada de anedótico, de real, ou de fortuito. Então passa a ser um ritmo de puras relações, mobilidade pura:

Le vers qui de plusieurs vocables refait un mot total, neuf, étranger à la langue et comme incantatoire, achève cet isolement de la parole: niant,

d’un trait souverain, le hasard demeuré aux termes malgré l’artifice de

leur retrempe alternée en le sens et la sonorité, et vous cause cette

surprise de n’avoir ouï jamais tel fragment ordinaire d’élocution, en