Os Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAM) constituíram uma série de encontros organizados pelos principais representantes do modernismo europeu e seu principal idealizador foi Le Corbusier. Os congressos aconteceram em 10 edições, durante 26 anos (1928-1956) e foram responsáveis por discussões e pesquisas inéditas, até então. Caracterizaram-se, essencialmente, por uma busca de princípios e diretrizes para a arquitetura e urbanismo modernos, como a definição da residência mínima e o design para as massas, que revolucionaram o pensamento estético, cultural e social do período.
A busca da “habitação mínima” foi tema do segundo CIAM, em Frankfurt, 1929. Os objetivos dos CIAM se resumiam essencialmente em formular o problema arquitetônico, apresentando a ideia arquitetônica moderna; fazendo “essa idéia penetrar nos círculos técnicos, econômicos e sociais; zelando pela solução do problema da arquitetura”. O quarto CIAM aconteceu em Atenas, em 1933 e teve como tema a sistematização dos princípios do urbanismo. A Carta de Atenas consolidou a cidade funcional: “as três funções fundamentais pela realização das quais o urbanismo deve velar são: 1º. habitar; 2º. trabalhar; e 3º. recrear-se” (INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL – IPHAN, 1933, ver Anexo 2). Na terceira parte do documento, nas conclusões, percebe-se a fusão destes conceitos fundamentais modernistas, residência mínima e urbanismo:
88 - O número inicial do urbanismo é uma célula habitacional (uma moradia) e sua inserção num grupo formando uma unidade habitacional de proporções adequadas.
Se a célula é o elemento biológico primordial, a casa, quer dizer, o abrigo de uma família, constitui a célula social. A construção dessa casa, há mais de um século submetida aos jogos brutais da especulação, deve tornar-se uma empresa humana. A casa é o núcleo inicial do urbanismo. Ela protege o crescimento do homem, abriga as alegrias e as dores de sua vida cotidiana. Se ela deve conhecer interiormente o sol e o ar puro, deve, além disso, prolongar-se no exterior em diversas instalações comunitárias. Para que seja mais fácil dotar as moradias dos serviços comuns destinados a realizar comodamente o abastecimento, a educação, a assistência médica ou a utilização dos lazeres, será preciso reuni-las em "unidades habitacionais" de proporções adequadas.
A evolução dos estudos das tipologias residenciais tem um marco importante, representado pela Unidade de Habitação (1947-53), em Marselha (FIG. 11 a 15). O bloco de doze pavimentos de altura é formado por 23 tipologias diferentes para os apartamentos. Os elementos de fechamento padronizados se encaixam em combinações variadas, procurando evitar a repetição, garantindo uma composição rica e não repetitiva do volume final. Os corredores longitudinais dão acesso aos apartamentos, no pavimento inferior de uns e no pavimento superior de outros. Para isso, em cada unidade, as salas possuem pé-direito duplo, ligadas a uma sacada na parte superior e outra na inferior, permitindo uma organização da trama volumétrica também no sentido vertical.
FIGURA 11 - Unidade de Habitação, Marselha. Arquiteto: Le Corbusier. Perspectiva axionométrica do apartamento tipo. Fonte: site oficial Le Corbusier, Ville Firmine
FIGURA 12 - Corte esquemático, representando dois apartamentos-tipo Unidade de Habitação de Marselha. No centro do corte, o hall de acesso aos apartamentos.
Fonte: LE CORBUSIER, 2009.
As características especiais do projeto produzem outros efeitos significativos no conjunto. Todos os apartamentos são duplex e apresentam aberturas para as fachadas leste e oeste do edifício. As amplas esquadrias permitiram criar áreas de permanência noturna e diurna, contribuindo para maior conforto térmico e, ainda, conforme intenção do arquiteto, conectando o morador com o “ritmo do dia”. As aberturas em ambas as faces do edifício também proporcionam conforto térmico: a ventilação cruzada, renovando continuamente o ar interior, ameniza a temperatura do apartamento. A cozinha, o banheiro e dormitórios tem metade da altura da sala de estar. A organização inusitada dos apartamentos, diferenciada na altura dos pés- direitos e no tipo de acesso às unidades, permitiu o surgimento de uma rua interna. Para Le Corbusier, a existência de uma rua conectando o andar de ponta a ponta, expressava a noção de uma “comunidade unida”.
FIGURA 13 - Planta baixa de um apartamento tipo, Unidade de Habitação de Marselha. Fonte: LE CORBUSIER, 2009.
FIGURA 14 - Unidade de Habitação, 1947-53, Marselha. Arquiteto: Le Corbusier Fonte: GREAT BUILDINGS, 2010.
FIGURA 15 - Unidade de Habitação, esquema da fachada. Fonte: LE CORBUSIER, 2009.
Ainda estão presentes no edifício outros elementos “essenciais” para caracterizar a arquitetura moderna, tais como o terraço, onde se localizam o playground, a pista de corrida e a piscina; o pilotis, garantindo uma grande área sombreada sob o edifício; a planta-livre, cuja estrutura de concreto permite o encaixe livre das células habitacionais que formam o conjunto.
A Unidade de Habitação de Marselha foi inaugurada por ocasião do nono CIAM, em 1953. Este edifício, sem dúvida, representou a concretização dos princípios modernistas lançados pela Carta de Atenas, passados exatos vinte anos de sua publicação, em 1933. Mas, para um grupo de participantes, o chamado Team X (Equipe Dez), era necessário buscar um novo padrão, que expressasse mais adequadamente as complexidades da cidade e suas intricadas relações sociais. Os
jovens arquitetos dissidentes que formavam o Team X defendiam que era preciso humanizar a arquitetura funcionalista e suas inter-relações com o espaço construído. E uma das principais críticas desse grupo, em contraposição ao modelo universalista, era a despolitização e a abstração das propostas, características do urbanismo funcional.
A intenção fundamental dos jovens era questionar a validade desses princípios universais a partir da noção de que o homem se organiza em comunidades, que desenvolve a necessidade de se diferenciar, se identificar com o local que habita, criar vínculos sociais e apreender o espaço a partir de seus próprios valores culturais (BARONE, 2002, p.58).
Acreditavam que não era mais possível conceber a cidade como resultado de uma segregação funcional, como preconiza a Carta de Atenas (INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL – IPHAN, 1933, ver item 77 no Anexo 2). Para eles, a concepção abstrata da cidade, reduzindo a análise urbanística a um mecanismo composto de funções essenciais, impede a consideração dos aspectos históricos e a memória urbana local, na formação dos grupos sociais. Através das ideias discutidas pelos arquitetos do grupo, uma nova representação da “vida em comunidade” começou a se manifestar nos projetos, que agora eram desenvolvidos sob forte influência do aspecto social local. O grupo trabalhava sob o princípio da identificação do homem com o lugar, baseado em sua relação com a rua, da rua em relação ao bairro e do bairro em relação à cidade. Os conjuntos projetados sob estes princípios traziam uma ideia de cluster, articulando habitações organizadas como “cachos”, que formavam as territorialidades da comunidade. Entretanto, foi o arquiteto italiano Giancarlo de Carlo (1919 - 2005) que levou para os debates a ideia da prática profissional como processo social, como possibilidade de transformação e de ação política. Em 1956, passou a integrar o Team X, criticando fortemente a apropriação indevida do racionalismo na Itália nos anos 40, que fez surgir uma arquitetura fascista e também o purismo e a abstração do formalismo corbusiano.
Em seu processo de trabalho buscava considerar a participação da comunidade para a qual estava projetando, utilizando uma linguagem que dialogasse com a
história local. Para o conjunto residencial de Matera, Itália (1954-57), utilizou uma linguagem simples do ponto de vista da técnica construtiva, economicamente acessível, que dialogava com a cultura local, inserindo o projeto entre construções antigas sem agredir a imagem do conjunto. Para o arquiteto, os projetos participativos eram um meio de consolidar os espaços democráticos, obtendo resultados mais satisfatórios e realistas para as comunidades às quais se destinavam. A participação do usuário se dava em todas as fases do projeto, inclusive no uso da edificação. As fases que Giancarlo se refere são: a definição do problema, a elaboração da solução e a avaliação de resultados. O arquiteto envolvia profissionais de outras áreas como sociólogos e antropólogos para a elaboração do diagnóstico da situação inicial. Para ele, a equipe interdisciplinar era bastante útil na eliminação de uma visão particularizada ao encarar o problema arquitetônico. Durante a elaboração da proposta arquitetônica, sempre esteve aberto para ouvir as expectativas populares, trocando informações relevantes com os futuros usuários. A avaliação era o momento de conscientização do processo como um todo.
Ao ser contratado para elaborar um conjunto de residências para industriários em Terni, Itália, Giancarlo colocou como condição inicial a participação política dos futuros moradores no processo de projeto (FIG. 16). A área original continha casas operárias, construídas na década de 30. A administração local propunha a demolição das construções antigas, substituindo as por novas, com padrões de densidades mais elevados. Os trabalhadores temiam que uma solução adensada desencadeasse um processo de especulação imobiliária e optaram por uma solução intermediária, de baixa altura e alta densidade. Todas as residências tinham acesso direto à rua e jardim próprio. O programa ainda contemplava jardins públicos, escola, áreas comerciais e estacionamento (PIZA, 2007).
FIGURA 16 - Residências em Terni, Arquiteto Giarcarlo de Carlo Fonte: PIZA, 2007.