No Tratado, a analogia é caracterizada como uma similitude de relações entre termos pertencentes a áreas diferentes. Exemplo de argumentação por analogia citado pelos proponentes da Nova Retórica é o seguinte: ―Assim como os olhos dos morcegos são ofuscados pela luz do dia, a inteligência de nossa alma é ofuscada pelas coisas mais naturalmente evidentes‖. Tem-se, nesse exemplo, o que os autores chamam de analogia- padrão, a qual comporta quatro termos: ―inteligência da alma‖ (A) e ―evidência‖ (B) compõem o tema, a conclusão; por sua vez, ―olhos do morcego‖ (C) e ―luz do dia‖ (D) compõem o foro, o esteio do raciocínio.
Compreendida a analogia como um raciocínio referente às relações, as existentes entre o interior do foro e o interior do tema, a natureza dos termos nunca é indiferente. Assim, entre A (inteligência da alma) e C (olhos do morcego) e B (evidência) e D (luz do dia), estabelece-se uma aproximação que conduz a uma interação, o que produz uma valorização ou uma desvalorização dos termos do tema (A e B). Eis um exemplo que, segundo os proponentes da Nova Retórica, esclarece o mecanismo dessa interação: ―... e essa eleição de Aymé [duque de Savóia], solenemente perfeita pela autoridade do sagrado e geral concílio, esvaiu-se em fumaça: seu único resultado foi o referido Aymé ter sido acalmado com um chapéu de Cardeal, como um cão que late com um pedaço de pão.‖ A desvalorização dos termos do tema (―Aymé‖ e ―chapéu de Cardeal‖) é acarretada pela natureza dos termos do foro (―cão que late‖ e ―pedaço de pão‖); mas o valor destes é derivado, em parte, de seu emprego na analogia, pois o latir do cão não é necessariamente objeto de um juízo depreciativo.
Os efeitos da analogia são vários, em conformidade com as transferências de valores entre os termos do foro e os do tema. Assim, por exemplo, o foro pode ser tomado de
empréstimo ao mundo sensível e o tema ao domínio espiritual. É o que ocorre no seguinte exemplo citado no Tratado:
Se uma criança enfiar o braço num vasilhame de boca estreita, para dele tirar figos e nozes, e se encher a mão com eles, o que lhe acontecerá? Não poderá retirá-la e
chorará. ―- Larga alguns (dizem-lhe) e retirará a mão.‖ Tu, faze o mesmo com teus
desejos. Não deseje senão um pequeno número de coisas, tu as obterás.
(PERELMAN; TYTECA, [1958] 1996, p.434) 26
Nesse exemplo, o comportamento do adulto é reconstruído a partir do foro. A conclusão normativa sobre a conduta do adulto é possível em decorrência da transferência, para seu caso, do juízo sobre o comportamento da criança que não consegue retirar do vasilhame a mão cheia de nozes e figos.
Por sua vez, o foro pode ser tomado de empréstimo da vida cotidiana, a fim de esclarecer aspectos da vida social, política ou moral. É o que ocorre com as parábolas bíblicas e platônicas.
Além de esclarecer aspectos das várias facetas da vida, ou de permitir a compreensão e até mesmo um juízo de um tema tomado do domínio não-material, a analogia pode contribuir para determinar um ou até os dois termos do tema. Por exemplo, ao raciocinar-se sobre Deus e sobre as suas propriedades com base em relações conhecidas entre o homem e suas propriedades, está-se dando a conhecer os dois termos do tema pelas supostas relações entre a área do tema e a do foro.
No que concerne a como utilizar a analogia, destaca-se que ela deve ser mantida dentro de certos limites, sob pena de prolongar-se a ponto de comprometer seu valor probatório. Atendendo a esse requisito, a analogia pode ser prolongada por seu próprio autor, que, às vezes, o faz para confirmar-lhe a validade, às vezes, para extrair-lhe valor argumentativo. A analogia também pode ser prolongada pelo crítico, que retirará do prolongamento um meio de refutação.
Os proponentes da Nova Retórica citam como exemplo do prolongamento da analogia pelo crítico a argumentação desenvolvida por Berriat Saint-Prix; o qual, perante um jurista que despreza qualquer referência ao direito romano e à antiga jurisprudência, mas que pretendia descrever, numa obra sobre o Código Civil, ―as veias, os músculos, os traços da
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O Tratado indica a seguinte fonte desse exemplo: EPICTETO, Dissertações reunidas por Arriano, liv.III. cap. IX. p. 259. Retirado da seguinte edição: EPICTETO. Dissertações recolhidas por ARRIANO, trad. de V. COURDAVEAUX, Paris, Didier, 1862.
alma da lei‖, lamenta que o autor não tenha seguido até o fim sua argumentação: ... ele logo teria percebido que todo ser vivo recebe sua organização de um ser anterior que o engendrou. Deste modo, por prolongar a analogia do adversário, Saint-Prinx põe em evidência a fragilidade e a arbitrariedade da analogia primitiva.
O próprio autor também pode mostrar o que há de inadequado numa analogia e, assim, desenvolver sua tese como um inverso de uma analogia possível. Citam os proponentes da Nova Retórica o seguinte exemplo:
Não, para dizer a verdade, não é como na corrida, na qual aquele que recebe a tocha ardente está mais ágil na corrida de revezamento do que aquele de quem a recebe: o novo general, que recebe um exército, não é superior ao que se retira; pois é o corredor cansado que entrega a tocha a um corredor descansado; aqui é um general experiente que entrega seu exército a um general inexperiente. (PERELMAN;
TYTECA, [1958] 1996, p.441) 27
Uma analogia parece mais adequada quando o foro evidencia características do tema julgadas primordiais; sabe-se, por exemplo, que o curso do tempo foi representado por meio de vários foros: o traçado de uma linha indefinidamente prolongada, um rio que corre, uma agulha sobre um disco de vitrola etc. Cada foro insiste em determinado aspecto do tema e se presta a distintos desenvolvimentos.
Concluindo a discussão acerca do como se utiliza a analogia, os autores fazem menção às analogias múltiplas e às analogias enxertadas umas nas outras.
Quanto ao estatuto da analogia no processo argumentativo, o Tratado o caracteriza como instrumento de argumentação instável, pois sofre de rejeição por parte dos adversários e dos partidários, porque quem rejeita suas conclusões tende a afirmar que não há sequer analogia, reduzindo o valor do enunciado a uma vaga comparação; por sua vez, quem invoca a analogia tende a afirmar que há mais que simples analogia.
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O Tratado indica a seguinte fonte desse exemplo: Rhetorica ad Herennium, liv. IV, parágrafo 59. Retirado da seguinte edição: Rhetorica ad Herennium (Ad. C. Herennium de ratione dicendi). Obra por muito tempo atribuída a Cícero, texto revisto e traduzido por Henri BORNECQUE, Paris, Garnier, 1932.