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Muito se fala sobre erro de tradução, mas pouco se reflete sobre o que vem a ser tal conceito. No Brasil, as pesquisas sobre o assunto ainda são incipientes e nos últimos quinze anos podemos apenas encontrar dois textos que tratam do assunto: o artigo “Erros e lapsos de tradução: um tema para o ensino”, publicado no periódico Cadernos de Tradução, em 2006 e o capítulo “Erros, lapsos, singularidades”, do livro A singularidade na escrita tradutora, em 2000, ambos de autoria de Maria Paula Frota. Em seus estudos a autora se dedica a observar a frequência dos erros e dos lapsos de tradução, destacando o papel do inconsciente na escolha tradutória.

Contudo, no presente trabalho, refletiremos sobre o erro de tradução não apenas como um ato oriundo do inconsciente, mas também do consciente. Para isso, faremos algumas explanações e tentaremos definir o que é erro de tradução e quais seriam suas tipologias.

Para Delisle (1993) existe uma diferença entre erro de língua e erro de tradução. O primeiro diz respeito ao precário conhecimento da língua de chegada, que envolve tanto um domínio insuficiente desta língua como também problemas técnicos de redação (barbarismos, erros gramaticais, ortográficos, mau uso vocabular, etc.); já o erro de tradução seria um erro de interpretação do texto de partida. Porém, se consideramos o texto traduzido como um evento linguístico, não podemos dissociar língua escrita (código linguístico gráfico) e interpretação desta (o sentido que o código linguístico propõe).

Já Gile (1992) faz uma distinção entre malentendido/ falta de habilidade e o erro em si, sendo o primeiro considerado o erro de compreensão/ interpretação do texto de partida e o segundo, o erro de restituição, ou seja, de escrita do texto de chegada. Entretanto, em se tratando de tradução, é quase impossível distinguir a diferença desses dois erros na prática, visto que a restituição só acontece se houver uma interpretação e, logo, o tradutor só vai restituir aquilo que compreendeu.

Diferentemente das concepções de erro de tradução mencionadas anteriormente, Gouadec (1989, p. 38) nos diz que:

L’erreur en traduction est, d’un point de vue générique, une rupture de congruence dans le passage d’un document premier (à traduire, existant,

compris, analysé) à un document second (à venir). En d’autres termes, l’erreur est distorsion injustifiée d’un message et/ou de ses caractères.23 Ou seja, o erro é uma ruptura de emergência na passagem de um texto ao outro. Segundo Gouadec (1989), essa ruptura se dá basicamente pelo não respeito ao conjunto das regras de comunicação (isto é, a tradução não atingiu seu objetivo comunicativo) e ao projeto de tradução da obra (isto é, a não-formação adequada ou o desrespeito aos determinantes do texto de partida – terminologia, vocabulário, tema, público destinatário, etc.).

Em consonância com Gouadec (1989), entendemos aqui o erro de tradução como a marca de uma lógica em ação que rompe com a coerência entre os textos de partida e de chegada e que pode ou não perturbar a apreensão do texto pelo leitor. Isto é, o erro de tradução na retextura será um obstáculo para a realização de alguma função textual – a saber, os fatores de textualidade e os determinantes de coerência total – e que compromete a reformulação autoral do texto fonte.

Alguns autores como Spilka (1984), Nord (1996), Gouadec (1989) e Pym, (1993) tentaram apontar e definir os tipos de erros de tradução mais comuns. A tipologia proposta por eles é, em geral, baseada numa pedagogia do erro no ensino de tradução, no oficio de traduzir e em elementos extralinguísticos.

Spilka (1984) afirma que existe o erro, a falta e o desvio. O primeiro é considerado um erro sistemático, ora por muitos o cometerem no mesmo lugar do texto, ora por ser um fenômeno linguístico que acontece com certa recorrência entre determinado par de línguas em tradução. O segundo é uma falta aleatória, corrigível, mesmo sem recorrer ao original. E o terceiro é um tipo de forma errônea, em que o tradutor coloca no texto traduzido um elemento pessoal que interrompe bruscamente a mensagem a ser transmitida. Percebe-se que esta categorização do erro feita por Spilka não é tão clara, atentando principalmente para o fato que o texto a ser traduzido precisa de atenção, revisão e conferência no ato tradutório.

Nord (1996), por sua vez, nos diz que existem três tipos de erros em tradução: o erro pragmático, o erro cultural e o erro linguístico. O primeiro diz respeito às instruções pragmáticas do texto; o segundo, às normas e convenções estilísticas da cultura de chegada; e o terceiro, àquilo que concerne à gramática, ao léxico, à pontuação, etc. Apesar desta divisão de erro ser possível, a praticidade que essa categorização propõe nos parece mais servir às tipologias de textos técnico-científicos, que a de textos literários; visto que o par de línguas                                                                                                                

23  “O erro em tradução é, de um ponto de vista genérico, uma ruptura de congruência na passagem de um primeiro documento (a traduzir, existente, compreendido, analisado) a um segundo documento (por vir). Em outros termos, o erro é distorção injustificada de uma mensagem e/ou de seus caracteres.” (Tradução nossa)  

usados na tradução de textos literários está sempre e diretamente ligado ao pragmático, à cultura e à gramática. Logo, nos parece difícil disssociar um erro do outro, visto que o conhecimento de uma determinada categoria pode levar ao conhecimento de outra (por exemplo: a cultura pode levar ao conhecimento da pragmática do texto ou a gramática pode levar ao conhecimento pragmático de determinada parte do texto).

Já Gouadec (1989) e Pym (1993) categorizam o erro em duas formas distintas. Gouadec (1989) diz que há o erro relativo e o erro absoluto. O primeiro é o não-respeito ao projeto de tradução do texto, isto é, ao objetivo do texto; o segundo corresponde a uma transgressão não justificada das regras culturais, linguísticas e de uso da língua traduzida. Pym (1993) afirma que há erro binário e não-binário de tradução. O primeiro seria o erro não-aceitável e o segundo seria uma espécie de solução aceitável na tradução, mas que não é a melhor. As classificações propostas por esses dois autores são discutíveis, pois nem sempre o erro relativo vai ser considerado erro, visto que muitas vezes o objetivo de uma tradução é modificado (por exemplo: um texto adulto pode ser redirecionado a um público infantil no ato tradutório: não se respeita o projeto de tradução inicial da obra, mas um projeto de tradução específico); e nem sempre um erro não-binário será considerado erro, já que este é muito subjetivo, pois é um julgamento feito a partir de uma escolha tradutória pessoal.

Diferentemente das classificações de erro de tradução até aqui mencionadas, Dancette (1989) nos propõe um tipologia do erro baseada em sua gênese que é, segundo ela, a má compreensão do texto de partida. Para a autora, o erro de tradução pode ser classificado como uma falta de sentido tanto literal (o significado dicionarizado) quanto contextual (o significado circunstancial de determinado enunciado). O erro de tradução, segundo Dancette (1989), pode ser classificado em não-sentido, contrassentido e falso sentido. O não-sentido é quando o enunciado não apresenta coerência em relação ao mundo de referência do texto; o contrassentido pode ser uma utilização de léxicos errôneos ou uma má construção da relação entre dois ou mais enunciados representando conceitos diferentes; e o falso sentido é um erro lexical ou uma má construção semântica de determinado enunciado no texto.

Somando as reflexões dos diferentes autores aqui anunciadas a respeito do erro de tradução, neste trabalho estabelecemos a seguinte nomenclatura para classificar o erro de tradução na análise das retexturas de Claude Gueux: 1) o erro como desvio para erros culturais, pragmáticos, de falso sentido e de contrassentido; 2) como falha para erros textuais e gramaticais e 3) como inexatidão, para erros de não-sentido, binário e absoluto.

Vale ressaltar que as consequências do erro de tradução em todas as suas tipologias (desvio, falha e inexatidão) são basicamente duas: a descaracterização autoral do texto de

partida – especialmente a descaracterização estilística e discursiva; e a incompreensão e inapreensão do texto pelo leitor devido ao fato de a tradução apresentar trechos obscuros, incoerentes, desconexos e, às vezes, absurdos.