Chapter 3 Methods
3.2 Fungal material and preparation of inoculums
A região do noroeste amazônico, não só do lado brasileiro, compõe-se de um vasto sistema social formado por vários grupos linguísticos que compartilham alguns traços culturais. A seguir, serão apresentadas algumas especificidades sociais dos grupos tukano com a finalidade de embasar o leitor com elementos que tornem possível a compreensão dos argumentos desenvolvidos nos capítulos seguintes. Os tópicos abaixo não devem ser lidos como matrizes analíticas, mas se limitam a verbetes explicativos, não abrangendo as discussões teóricas que os envolvem.
Seguindo o exemplo de Goldman, a narrativa mítica é sempre um bom ponto de partida (Goldman, 2014:19). O mito apresentado abaixo é baseado na versão do livro Antes o Mundo Não Existia escrito pelos narradores Firmiano e Luís Lana (Pãrõkumu & Kẽhíri, 1996). Embora esta seja a versão dos Kehíriporã, em essência, todos os grupos dos Tukano Orientais possuem a mesma narrativa. Com base no mito da criação do mundo e da humanidade serão descritos alguns elementos da morfologia social destes grupos.
No capítulo “Origem do mundo e da humanidade”, Firmiano e Luís Lana explicam como a vida surgiu através dos objetos.
No princípio o mundo não existia. As trevas cobriam tudo. Enquanto não havia nada, apareceu uma mulher por si mesma. [...] Ela se chamava Yebá Buró, a "Avó do Mundo" ou, também “Avó da
Terra”. [...] Havia coisas misteriosas para ela criar-se por si mesma.
Haviam seis coisas misteriosas: um banco de quartzo branco, uma forquilha para segurar o cigarro, uma cuia de ipadu, o suporte desta cuia de ipadu, uma cuia de farinha de tapioca e o suporte desta cuia. Sobre estas coisas misteriosas é que ela se transformou por si mesma.
Por isso, ela se chama a “Não Criada” (Pãrõkumu & Kẽhíri,
84 Figura 4: Yebá Buró, a Avó do Mundo foi criada por si mesma através de seis objetos:
bancos, suportes de cuia, cuias de ipadu e de tapioca, forquilhas de cigarro e cigarro. Fonte: Pãrõkumu & Kẽhíri, 1995.
85 Enquanto mascava ipadu e fumava cigarro, a Avó do Mundo começou a pensar como o mundo deveria ser feito. Depois, tirou o ipadu da boca e o transformou em cinco trovões imortais e deu a cada um deles um compartimento ou casas no espaço. Yebá Buró encarregou os trovões de fazer o mundo, de criar a luz, os rios e a futura humanidade. A casa do primeiro trovão ficava no sul. A do segundo, no leste, na cachoeira Tunuí, no rio Içana. A do terceiro ficava no alto; nesta é que ficavam as riquezas, os enfeites para formar a futura humanidade. A casa do quarto trovão ficava a oeste, no rio Apaporis. A do quinto, no norte, na cabeceira. Os trovões só fizeram os rios e não conseguiram fazer a luz e nem a humanidade. Então Yebá Buró resolveu fazer outro ser. Mascou ipadu e fumou cigarro e da fumaça fez surgir um ser invisível, chamado Yebá Gõãmũ, o Neto do Mundo, e deu-lhe a ordem de fazer as camadas do universo e a futura humanidade. Colocando enfeites masculinos e femininos na ponta de seu bastão, Yebá Gõãmũ fez a ponta assumir um rosto humano, que deu luz até os confins do mundo. Acabara de criar o sol. Com exceção do terceiro, os trovões ficaram enciumados com o seu poder. Percebendo que queriam destruir seu trabalho, Yebá Gõãmũ os apaziguou oferecendo ipadu e cigarros. Yebá Buró tirou do seio esquerdo sementes de tabaco e as espalhou sobre esteiras para formar a terra. Depois tirou leite do seio direito e espalhou em cima para adubá-la. Subindo por seu bastão invisível, na direção da casa do terceiro trovão, Yebá Gõãmũ cortou a terra e o espaço em camadas sucessivas. Feliciano Lana, dos Kehíriporã relata a sua versão.
Dividiu o mundo em camadas (tari di pabú). Depois, pegou arumã e fez cinco peneiras: arumã sapo, arumã tipiaca, arumã de água, arumã de massa de mandioca e arumã cobra. Benzeu as peneiras e com elas fez as cinco camadas do mundo:
1. Umusi taribu (céu, local onde se encontram os objetos utilizados nos benzimentos).
2. Pamari taribu (terra). 3. Mũdiá (abaixo da terra).
4. Uhtãmbũ i aribu (camada de pedra comum, tem gente pedra). 5. Uhtãmbó itaribu (camada de quartzo, onde mora Yebá Buró). A terra tem formato de peneira. Ele jogou a peneira por cima dos eixos de cetro maracá e o resultado é um terreno acidentado da terra com montanhas, buracos, pois a peneira é flexível.
86 Figura 5: A esfera da terra com suas camadas de acordo com a explicação dada
por Feliciano Lana. Fonte: Pãrõkumu & Kẽhíri, 1995.
87 O quarto de Yebá Buró fica abaixo de todas as camadas. No segundo patamar, não se sabe o que existe. A terceira camada é a superfície da terra. A quarta é o firmamento. Acima dela, fica a casa do terceiro trovão para onde Yebá Gõãmũ se dirigiu. Ao abrir a porta, apareceu Umukomasũ Boreka, o chefe dos Desana. Os dois entraram na casa e foram saudados de longe pelo terceiro trovão. Primeiramente, foram recebidos pelo cigarro, depois pelo ipadu, em seguida pela tapioca. O terceiro trovão disse que lhes daria os objetos que procuravam e aproximou-se para recebê-los. Estendeu uma esteira, pressionou o abdômen e de sua boca saltaram diversos objetos sobre a esteira. Eram enfeites que representavam a humanidade. O trovão ensinou o benzimento para transformá-los em seres humanos. No mesmo instante, os ornamentos se transformaram em gente, deram uma volta na casa e tornaram a se transformar em objetos. O trovão recomendou que procedessem assim quando fossem colocar as casas de transformação. O trovão recomendou então que cada um colhesse uma folha nova de ipadu de um pé que havia no pátio e a engolisse. Quando sentissem dor na barriga, deveriam ascender a madeira de turi, molhá-lo numa cuia com água e beber o conteúdo, em seguida vomitar em um só buraco do rio. Assim fizeram os dois heróis e apareceram duas mulheres. Então, Yebá Gõãmũ disse a seu irmão Boreka para puxá-las para fora da água. O segundo assim fez, dizendo: “Minhas filhas!”. O vômito deles era como um parto que fez surgir as primeiras mulheres. Os dois heróis as levaram para a casa do terceiro trovão, que verificou que eles sabiam fazer as coisas de forma apropriada. Decidiu acompanhá-los para ajudá-los a formar a futura humanidade.
Uma vez conseguidos os objetos na casa do terceiro trovão, Yebá Gõãmũ retornou a sua morada e depois subiu ao patamar correspondente à superfície da terra e chegou a um grande lago. O terceiro trovão, por sua vez, desceu até atingir esse lago e aí se transformou numa cobra gigantesca, um barco de transformação da humanidade. Yebá Gõãmũ e Boreka eram os comandantes dessa cobra-canoa. A canoa encostou na casa do primeiro trovão, onde os dois heróis entraram e agiram conforme o terceiro trovão havia ensinado. Repetiu-se o que havia acontecido anteriormente (os enfeites transformaram-se em seres
88 humanos). Prosseguiram passando pelas casas de transformação. As muitas casas pelas quais passaram eram locais essenciais para a transformação da proto-humanidade. Faziam sempre da mesma maneira: ao chegarem a uma casa, abriam a esteira que continha os enfeites e eles se transformavam em gente. A canoa navegava por debaixo d’água e as casas continuavam submersas, de modo que os seres humanos surgiram como peixes. Saindo do lago, a quinta casa foi instalada no que seria o litoral brasileiro, tal como as subsequentes. Entrando pelo rio Amazonas, chegaram à 13ª casa, que estaria onde hoje se situa Manaus. Entraram pelo rio Negro e a 15ª casa se localizava onde hoje é a cidade de Barcelos. Na 16ª casa Boreka se separou de seu irmão em meio a visões de caapi e passou a fazer a viagem fora da canoa, com o seu grupo, os Desana. Ele ia estabelecendo as casas desana, enquanto seu irmão, que ia atrás, na canoa, instalava as casas dos tucanos. Na 30ª, casa ocorreram grandes acontecimentos. Yebá Gõãmũ havia resolvido que era tempo da humanidade começar a falar. Cada qual começou a falar uma língua diferente. Nesse preciso momento, Yebá Gõãmũ chamou pela primeira vez Boreka de cunhado, embora fossem irmãos. Desta forma, estabeleceu que os Tukano poderiam casar com os Desana, criando as regras de exogamia linguística. Continuaram a subir até que no rio Uaupés na Cachoeira de Ipanoré, o barco de transformação emergiu à superfície da terra quando os grupos saíram da embarcação e pisaram na terra pela primeira vez. Até este momento, os viajantes eram proto-humanos que se transformavam aos poucos durante os rituais realizados em cada parada nas casas de transformação. A partir do momento em que pisaram em terra, se encontraram em pleno estado humano.
89 Figura 6: O barco de transformação subindo o alto rio Negro com a proto-humanidade. Desenho
de Feliciano Lana. Fonte: Lana, Feliciano 1988.
90 O primeiro a sair foi Waúro, chefe dos Tukano. O segundo foi Boreka, chefe dos Desana. O terceiro foi o ancestral maior dos Pirá-Tapuia e o quarto, dos Siriano. O quinto, foi o ancestral maior dos Baniwa e o sexto, dos Maku. A todos Yebá Gõãmũ dava as riquezas das quais nasceram, recomendando-lhes ser mansos, a fazer grandes festas com danças e reunir muita gente e não fazer a guerra. O sétimo a sair foi o ancestral dos brancos, com a espingarda na mão. Yebá Gõãmũ lhe disse: “Você é o último; dei aos primeiros todos os bens que eu tinha. Como é o último, deve ser uma pessoa sem medo. Você deverá fazer a guerra para tirar a riqueza dos outros. Com isso encontrará dinheiro.” Depois de ouvir estas palavras, o branco virou as costas, deu um tiro com a espingarda e foi para o sul, em São Gabriel da Cachoeira, onde começou a fazer guerra. Para o branco, a guerra é como uma festa. O oitavo a sair foi o padre, com o livro na mão, e Yebá Gõãmũ mandou que ele ficasse com o branco. Cumprida a tarefa, Yebá Gõãmũ e o terceiro trovão voltaram para suas habitações originais. A humanidade prosseguiu rio acima, após ter saído em Ipanoré. Em Iauareté, entraram no rio Papuri os Desana, Siriano, Tukano e Pira-Tapuia. Os Baniwa, Cubeo e Wanano subiram o rio Uaupés.
Com base nesta versão resumida, é possível encontrar elementos-chave da organização social dos grupos Tukano Orientais: exogamia, nomeação, hierarquia, transmissão de conhecimentos, festas e benzimentos.
O noroeste amazônico é um sistema social aberto, resultado de um complexo de relações intercomunitárias, caracterizado pela exogamia linguística e pelas trocas festivas entre clãs e contra prestações (denominadas dabucuris e caxiris) e envolvendo clãs aliados pertencentes a outros grupos exogâmicos ou clãs do mesmo grupo dentro de um vasto território que abrange o noroeste do Brasil e o sudeste da Colômbia (Hugh-Jones, S., 1979:24; Århem, 1981:19-22; Jackson, 1983:5-81). A diversidade de línguas não se configura obstáculo para a integração dos grupos, mas ao contrário, é o cerne de sua união. A exogamia linguística implica na regra de casamento com cônjuge que fala uma língua distinta, resultando o território do noroeste amazônico ser uma área
91 multilíngue.20 Desta forma, espera-se que um homem desana venha a se casar com uma mulher tukano, por exemplo.21 Contudo, há exceções. Os Cubeo praticam um misto de exogamia e endogamia. São endogâmicos porque se casam entre si, mas exogâmicos porque preferem casamentos entre clãs distantes (Pedroso, 2013:36). Ademais, a exogamia possui regras que definem com quem se pode ou não estabelecer laços matrimoniais. Pertencer a outro grupo linguístico não torna alguém bom pretendente. Alguns grupos são considerados irmãos, portanto, seria o mesmo que procurar um cônjuge dentro de seu grupo. Por exemplo, os Tukano, os Wanano e os Barasana não realizam trocas matrimoniais. Além da exogamia linguística, espera-se que o casamento seja composto por membros de clãs que ocupam semelhante posição hierárquica.
As regras de exogamia linguística resultam na formação de grupos residenciais compostos, geralmente, por membros de um ou mais clãs de um mesmo grupo. De forma que em uma comunidade, os membros que vieram de fora são as esposas dos homens que compõem o clã. Assim, o clã é formado por uma descendência agnática e tem o padrão de residência virilocal.
Dentro deste sistema de divisão de línguas, os Tukano Orientais se subdividem ainda em clãs patrilineares, organizados hierarquicamente, de acordo com a ordem de nascimento de seus fundadores ancestrais e com funções rituais específicas. Retomando a narrativa mítica, no momento em que os grupos tukano saíram da cobra canoa na cachoeira de Ipanoré, foi estabelecida a hierarquia entre os clãs com base na ordem de saída. O mito legitima a
20 Exceção é feita aos Makuna, Cubeo e Hupd’äh.
21 Consequentemente, quase a totalidade da população indígena é capaz de compreender e falar pelo menos duas línguas indígenas (materna e paterna) além dos idiomas português e/ou espanhol. Quando pequena, terá maior familiaridade com a língua de sua mãe. Contudo, progressivamente a língua materna dá lugar ao uso da paterna, pois é esta língua com a qual a criança se identificará socialmente. Deve-se notar, entretanto, que o tukano passou a ser a língua franca da região. Este processo de
“tukanização” tem levado a descontinuação do uso de algumas línguas como o desana, por exemplo, a
despeito de inúmeros esforços de revitalização da língua. Assim, o filho de pai desana, provavelmente aprende apenas o tukano, idioma que seu pai conversa com sua mãe, a qual, geralmente, é tukano. Assim, não só em São Gabriel da Cachoeira e em comunidades maiores como Parí-Cachoeira, mas mesmo nas próprias comunidades desana é comum que as crianças aprendam hoje o tukano e o português.
92 hierarquia constituída pela ordem de nascimento. Assim, os primeiros clãs de um determinado grupo linguístico que pisaram em terra firme são chamados de “irmãos mais velhos” e ocupam uma posição mais elevada na cadeia hierárquica em oposição àqueles que por último desceram do barco de transformação, chamados de “irmãos menores” e ocupam uma posição mais baixa na hierarquia. Desta forma, a hierarquia entre os clãs é formada no nível mais alto pela família do irmão primogênito, no caso dos Desana, pelo clã Boreka que é considerado chefe dos demais e se estende sucessivamente pela sequência da ordem de nascimentos (ou saída do barco de transformação) até a família do irmão caçula.
A cada um dos clãs foram designadas funções específicas. Christine Hugh-Jones, elenca os seguintes papéis entre os Barasana, iniciando com o irmão mais velho: chefe, mestre de cerimônia (dançarino/cantor), guerreiro, xamã e servo (Hugh-Jones, C., 1979:19). Embora talvez nunca tenha se encontrado um grupo de clãs exatamente assim, entre os Desana existem dois grupos principais divididos por suas especializações: os irmãos mais velhos, descendentes de Boreka, são responsáveis pelos assuntos de domínio político dos Desana e os irmãos mais novos (grupo dos avôs, também descendentes de Boreka), os Dihputiro Porã, pertencem ao grupo dos xamãs, sendo, portanto, de domínio metafísico, de acordo com a classificação da autora. Parece que essas posições nunca foram rígidas ou pelo menos não o são agora, pois se encontram xamãs ou kumua em todos os clãs desana. Mas, quando se olha mais de perto, entre as subdivisões dos grupos, é possível encontrar clãs com papeis mais definidos, tais como clãs de chefes, mestres de cerimônias, xamãs e servos. Estas divisões de acordo com os papeis atuam como uma matriz ou um template e são levadas à sério quando as disputas surgem.
Este sistema hierárquico, que se estabelece por meio de uma ordem de senioridade, traz implicações no âmbito ritual e político. Mas, sobretudo, a natureza da hierarquia dos grupos tukano consiste numa economia de prestígio, havendo relação com o prestígio e a honra (Pedroso, 2013:55-58; Goldman,
93 [1963] 1979:279). Cada clã tem um chefe e esta posição é ocupada pelo irmão maior do clã. Até recentemente, o chefe era o líder das comunidades, mas esta situação tem passado por mudanças como será demonstrado no próximo capítulo. Mas, retomo alguns pontos da obra de Pierre Clastres ([1974] 2003:43- 64) para trazer o sentido indígena de poder. A ausência de poder ou de coerção não elimina as possibilidades políticas. A chefia nas sociedades indígenas opera pela mediação e está dissociada de violência ou coerção. É neste sentido que o chefe não possui poder, o qual não se confunde com prestígio. As características essenciais de um chefe indígena se resumem a três esferas: o chefe atua como pacificador, negociador e sem possuir poder jurídico para sancionar, mas suas ações fundam-se no consentimento. A segunda característica é a generosidade. O chefe tem a obrigação de dar, muito mais do que recebe. Acusações que afirmam falhas neste sentido podem colocar a posição do chefe em risco, como será demonstrado a seguir. E por fim, o chefe precisa desenvolver o talento da oratória como condição para o exercício de seu cargo político. A questão da chefia será retomada posteriormente com a finalidade de relacioná-la ao conhecimento.
Adicionalmente, a estrutura hierárquica determina a ocupação do território. A ordem de saída dos clãs da cobra-canoa definiu a posição que cada um ocupa ao longo dos rios. (Århem, 1981:114; Hugh-Jones, C., 1979:25). Teoricamente, os clãs de alta hierarquia se localizam ao longo do rio ou rio abaixo e os de baixa hierarquia se encontram rio acima, à beira dos igarapés ou nas cabeceiras (Ribeiro, 1995:22; 36).
Assim, a escala hierárquica é um princípio de classificação formado pela sequência do aparecimento dos ancestrais de cada clã. A hierarquia pode ser encontrada desde a distribuição dos territórios até no nível de profundidade dos conhecimentos. Como principal meio de relação social e de produção de diferenças, a hierarquia repercute nos espaços, nas coisas e nas pessoas (Cabalzar, 2009:337-338).
94 Como mencionado acima, os clãs são grupos de descendência nominados e localizados, cujos membros se consideram descendentes de um dos irmãos ancestrais que fundaram o grupo (Chernela, 1983:61). Porém, há um segundo sistema de classificação que utiliza a nomenclatura de geração para indicar a distância hierárquica. Chernela denomina esse sistema de “classes de geração” que opera como um esquema classificatório no qual todos os clãs de um grupo são classificados hierarquicamente como grupos de “netos” e “avôs”. Os “netos” ocupam a posição mais alta da hierarquia e os “avôs” se encontram abaixo (Chernela, 1983:63-64). Embora utilizem termos de parentesco “netos” e “avôs”, não há aqui uma relação de consanguinidade ou de afinidade (Ribeiro, 1995:40).22 A classificação de geração traz inúmeras implicações no sistema social rionegrino, especialmente nos casos que serão discutidos nesta tese. Assim, é proveitoso apresentar os clãs desana de acordo com a sua classe de geração.
A tabela abaixo apresenta os clãs desana, descendentes de seu ancestral mítico Umukomahsũ Boreka, já apresentado acima na narrativa da criação da humanidade. Os Desana são formados por uma soma de clãs que se reconhecem como descendentes de um mesmo ancestral mítico. Os clãs desana estão divididos em dois grupos principais que se identificam com a classe de geração formulada por Chernela: grupo dos netos ou chefes e grupo dos avôs. De acordo com os papeis designados para cada irmão, com base na ordem de nascimento, o mais velho, como chefe, seria responsável por cuidar dos assuntos políticos e administrativos. O grupo dos avôs foi incumbido por Boreka para fazer os benzimentos e realizar rituais. Desta forma, tornaram-se especialistas. A sua função é servir os demais grupos quando solicitados. Os nomes dos interlocutores que participaram nesta pesquisa, encontram-se em destaque
22 A inversão dos termos de referência ocorre por causa do lapso de tempo entre as gerações. Nos tempos míticos, todos os ancestrais dos clãs de um grupo eram irmãos. Entre o nascimento do irmão mais velho e o do irmão mais novo (o caçula), há um considerável lapso de tempo. Enquanto o irmão mais novo ainda é jovem, o irmão mais velho está bem idoso e já possui bisnetos. Assim, apesar do irmão mais velho e o irmão mais novo se chamarem de irmãos, os descendentes do irmão mais velho serão chamados de netos pelos descendentes dos irmãos mais jovens e os descendentes do irmão mais novo serão chamados de avôs pelos irmãos mais velhos (Jackson, 1983:74).
95 vermelho para que possam ser facilmente encontrados quando as suas histórias forem discutidas.
96 UMUKOMAHS BOREKA
Grupo dos Netos (Chefes) Grupo dos Avôs
1. Boreka - líder do grupo Servos: Porabau e Sekeã 2. Dururã porã
Servo: Gãĩnoa