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FUNDS INSIDE NATIONAL ADMINISTRATIONS

O “Sem Terrinha” está num contexto de ocupação de terra em constante movimento, pela agilidade que a conjuntura adquire, forçada pela luta. Nesse contexto específico de acampamento e de itinerância, na escola, se improvisa sala de aula, quadro, carteira, material didático. É construída pela força de vontade, do trabalho voluntário e por necessidade da comunidade de ter uma escola no acampamento. “Espaço do sonho e da esperança de se ter a terra para trabalhar, produzir e poder criar a família, sem ter problema grave com drogas e a criminalidade das cidades, aqui ainda é pacífico, é melhor” diz Sueli (2008).

A discussão nos núcleos de base desencadeou a implantação da Escola Itinerante de 1ª a 4ª série no acampamento Maila Sabrina, processo que se dividiu em dois momentos, um grupo iniciou a “conversa” sobre a implantação da escola dentro do acampamento com os núcleos de base onde se organiza o povo acampado, para saber se havia pessoas com 2º Grau completo, interessadas em dar aulas e, um segundo grupo, iniciou o processo de cadastramento das famílias e realizando a matrícula das crianças em idade escolar, iniciando o recolhimento da documentação que muitos não a possuem, estruturando-se a burocracia escolar das crianças. Como informa Maria Luíza (2007):

Aí começamos a conversar com as famílias acampadas, para ver as pessoas que tinham capacidade, habilidade para trabalhar com as crianças e para dar aulas, pois os professores tinham de ser preferencialmente do acampamento [...] Começamos em oito pessoas os estudos e as conversas nos Núcleos de Base, para saber quem tinha 2º Grau, se tinham interesse em dar aulas e, principalmente se tinham interesse em continuar estudando, fazer faculdade e ser professor.

Esse debate com o coletivo do acampamento sobre a escola a ser construída, levou à participação ampla das pessoas, desencadeando uma discussão envolvente pelo interesse objetivo das famílias acampadas, preocupadas com o transporte dos filhos em cima dos caminhões para estudarem em Faxinal. As famílias dos trabalhadores também estavam curiosas para saber quê escola diferente era aquela que estavam querendo criar? Qual tipo de escola e, qual o seu papel, além da escolarização da comunidade sem terra, ali acampada? As famílias estavam interessadas em debater para saber se seus filhos aprenderiam os conteúdos dados nas escolas urbanas, se teriam os mesmos conteúdos das escolas das cidades. Segundo Eldilvani, no início da escola de 1ª a 4ª série, houve certo receio por parte da comunidade sobre a capacidade de se implantar a escola, mas a necessidade da escola no acampamento falou mais alto, se sobrepondo ao pessimismo daqueles que não acreditavam na capacidade dos trabalhadores de se auto-organizarem e gerirem a educação básica para seus filhos no acampamento Maila Sabrina.

Diz o educador Eldilvani Marcelito.

Houve participação dos acampados na hora que fomos debater com as famílias sobre a escola aqui dentro do acampamento, todo mundo se envolveu realmente, porque o pessoal comentava que era uma escola diferente e todos queriam saber quê escola era essa, que tinha um tempo diferente para a aprendizagem da criança, que leva em conta o tempo que cada um necessita para aprender os conhecimentos necessários de cada etapa, levando em conta o seu ritmo de aprendizagem, suas experiências de vida. (2008).

Enquanto um grupo de educadores/as discutia com os acampados, a proposta dessa escola da classe trabalhadora e onde poderiam ser construídas as salas de aulas no acampamento, outra parte da Equipe de Educação iniciava o cadastramento das crianças em idade escolar, preenchendo a documentação de acordo com as exigências da burocracia estatal e, legalizando a vida escolar das

120 crianças matriculadas na Escola Itinerante Caminhos do Saber. A documentação depois de pronta foi encaminhada à Escola Base Colégio Estadual Iraci Salete Strozak, em Rio Bonito do Iguaçu, à qual se encontrava filiada num primeiro momento, passando depois a Escola Caminhos do Saber, à fazer parte do quadro da Escola Base Colégio Estadual Centrão em Querência do Norte, no Paraná.

Então, nos dois primeiros anos a Escola Caminhos do Saber, pertenceu à Escola Base Iraci Salete Strozak, de Rio Bonito do Iguaçu e, como essa escola era Base de várias Escolas Itinerantes, tendo em torno de 3.000 crianças matriculadas, sem contar as 800 crianças do assentamento onde ela está instalada. Então, por esse número elevado de matrículas, o Setor de Educação percebeu a necessidade de se ter mais uma Escola Base. Foi a partir daí que a Escola Caminhos do Saber mudou para a Escola Base Colégio Estadual Centrão em Querência do Norte, no Noroeste do Estado do Paraná. Essa escola também fica num assentamento e é bem organizada. (ELDILVANI, 2008).

O primeiro passo na construção da escola é envolver a comunidade na sua discussão. Eldilvani diz que quando chegou, visitou os núcleos fazendo um verdadeiro trabalho de base, escolheu um grupo de oito pessoas da comunidade com Ensino Médio, para estudar educação e realizar o debate da escola junto aos acampados. O nome da escola surgiu num processo de escolha realizado pelo debate nos núcleos. Maria Luíza disse que houve até votação para se chegar ao nome: Escola Itinerante Caminhos do Saber. Nas reuniões discutia-se a importância da educação para o acampamento e para o MST, justificativa para a canalização de esforços no debate sobre a criação de uma Escola Itinerante ali dentro do acampamento Maila Sabrina, Brigada Che Guevara.

Para formação continuada dos professores, o MST do Paraná fez convênio com a SEED, Universidades, Faculdades do Interior do Estado interessadas em discutir a educação do campo e, nessa parceria com o Estado, pode-se citar os cursos de formação de professores fornecidos e custeados pela Secretaria Estadual de Educação, que se tornou possível no governo Requião (2003/2006), que abriu o debate com os movimentos sociais sobre a Escola do Campo, sendo implantada a primeira Escola Itinerante no final de 2003 em Quedas do Iguaçu. Em fevereiro de 2006, o ano letivo estava prestes a começar e a Escola Itinerante Caminhos do Saber não tinha carteiras para serem ministradas as aulas.

Como diz Maria Luiza:

Eu fiquei na parte da documentação escolar das crianças e a comunidade se reuniu para preparar as salas de aulas. Reunimos a documentação escolar e fomos à Curitiba, para fazer a conversa com o Setor de Educação estadual do Movimento e com a Secretaria Estadual de Educação – SEED, inclusive levamos o nome escolhido pela comunidade: Escola Itinerante Caminhos do Saber, depois de amplo debate com a comunidade sem terra do acampamento. Voltamos de Curitiba com os encaminhamentos para fazer as matrículas. De início matriculamos 120 crianças, levamos a documentação à Escola Base Iraci Salete Strozak em Rio Bonito do Iguaçu. Solicitamos carteira, quadro negro, material escolar, pois a gente não tinha nada, apenas à documentação de 120 crianças aptas para estudar no acampamento. Na Escola Base Iraci Salete Strozak foram matriculadas as 120 crianças e solicitamos do governo do Estado 120 carteiras, merenda escolar, material didático, caderno, borracha, lápis, etc. Da Prefeitura conseguimos 40 carteiras, tivemos de esperar o ano letivo começar e mais uns dias ainda até chegarem mais carteiras.(2008).

A Escola Itinerante é organizada para escolarizar e alfabetizar as crianças, jovens e adultos sem terra em situação de itinerância nos acampamentos. Quando as crianças enfrentam as marchas com seus pais, a Escola Itinerante continua trabalhando e caminhando junto com os trabalhadores, funcionando em qualquer lugar e sem nenhuma estrutura física, apenas educadoras/es, que também são sem terra e do próprio acampamento e os educandos/as. Mas quando se organiza um acampamento, é importante ter um espaço físico, é necessário instalar um espaço especifico para a escola, pois sem carteira, sem salas, nos dias de chuva, vento ou muito sol, é impossível as aulas serem dadas, além do desconforto das crianças de terem que ficar sentadas na grama sem estrutura ou em bancos e tendo aulas ao relento. Sem dizer que, ao ar livre, a atenção das crianças se dispersa com facilidade, motivo para reivindicar espaço próprio para a instalação das salas de aulas da escola.