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Os solos estudados apresentam classes texturais que variam desde muito argilosa a

franco arenosa, reflexo da composição diferenciada dos materiais de origem (Quadro 1).

Por vezes, mesmo quando associados litologicamente a materiais de granulometria mais

fina (como filitos e itabiritos, por exemplo), a condição topográfica resultante da tectônica

transportou sedimentos de granulometria mais grosseira ao longo do declive, criando

rampas de colúvio de diferentes extensões e composições granulométricas.Este fenômeno

dificulta os trabalhos de correlações de solos ao longo de topossequências no Quadrilátero.

As amostras coletadas nos perfis originados de xistos (P1 e P2) apresentaram

quantidades elevadas de material grosseiro (cascalhos e calhaus) provenientes do próprio

material de origem. Na TFSA os teores de silte+argila variaram de 780 g kg

-1

(P2) a

850 g kg

-1

(P1) resultados semelhantes àqueles apontados por Achá Panoso et al. (1978) e

Almeida (1979) para cambissolos derivados de rochas pelíticas do Grupo Bambuí, os quais

destacaram a grande influência de materiais finos, principalmente silte, no adensamento

desses solos.

Os horizontes subsuperficiais destes solos apresentam matiz 5YR, tendendo à

tonalidades mais amareladas indicando a presença de goethita. No horizonte Cr do Neossolo

Regolítico (P1) a cor foi aferida nas faixas onde o solo mostrou-se mais estruturado, uma

vez que este horizonte apresentou bandas com comportamentos distintos de resistência ao

intemperismo: bandas avermelhadas mais resistentes e bandas amareladas menos

resistentes.

A gênese incipiente destes solos, bem como o próprio acamamento

subhorizontalizado observado no horizonte Cr do perfil 1, dificulta a penetração de água e

de raízes resultando no predomínio de uma vegetação herbácea nativa (campo limpo) em

local de topografia plana. Na meia encosta, Cambissolos Háplicos rasos (P2) são cobertos

por campos limpos que predominam sobre os ambientes florestais os quais se limitam a

estreitas faixas ao longo dos talvegues onde parece haver maior acúmulo de solo e umidade.

29 Quadro 1. Características físicas dos horizontes dos solos estudados

- não determinado (continua...)

Símbolo Profund.

(cm) Cor >4mm >2mm TFSA

Areia

Grossa Areia Fina Silte Argila ADA GF Dp

g/cm³ %

A 0-7 3YR 4/4 0,0 28,2 71,8 60 80 200 660 9 99 2,63 0,30 Muito Argilosa

Cr 7-70 5YR 5/6 71,3 9,9 18,8 70 90 290 550 2 100 2,90 0,53 Argila

A 0-15 3YR 4/4 17,8 26,4 55,7 110 110 170 610 12 98 2,66 0,28 Muito Argilosa

Bi 15-40 5YR 4/6 46,2 21,9 31,9 130 90 250 530 13 98 2,66 0,47 Argila BC 40-60 5YR 5/6 32,3 23,3 44,4 60 60 520 360 1 100 2,61 1,44 Franco-Argilo-Siltosa A 0-7 GLEY 1 4/N 0,0 0,0 100,0 0 620 280 100 1 99 2,87 2,80 Franco-Arenosa AC 7-25 GLEY 1 7/N 0,0 0,0 100,0 0 640 290 70 1 99 2,98 4,14 Franco-Arenosa Cg1 25-50 GLEY 1 8/N 0,0 0,0 100,0 0 530 360 110 4 96 2,84 3,27 Franco-Arenosa Cg2 50-75 5Y 8/1 0,0 0,0 100,0 10 460 320 210 10 95 2,95 1,52 Franco Cr 75+ GLEY 1 8/N 0,0 0,0 100,0 0 250 440 310 16 95 2,88 1,42 Franco-Argilosa A 0-15 10YR 3/1 3,2 8,7 88,1 440 360 120 80 1 99 2,90 1,50 Areia-Franca A 0-6 10YR 2/1 ‐ ‐ ‐ 200 420 320 60 ‐ ‐ ‐ 5,33 Franco-Arenosa E 6-22 7,5YR 3/1 ‐ ‐ ‐ 520 240 200 40 ‐ ‐ ‐ 5,00 Areia-Franca Bh 22-41 5YR 2,5/1 ‐ ‐ ‐ 30 400 440 130 ‐ ‐ ‐ 3,38 Franco Bhs1 41-70 10YR 2/1 ‐ ‐ ‐ 240 330 310 120 ‐ ‐ ‐ 2,58 Franco-Arenosa Bhs2 70-80 2,5Y 3/2 ‐ ‐ ‐ 900 0 90 10 ‐ ‐ ‐ 9,00 Areia 2C 80+ 5Y 6/1 ‐ ‐ ‐ 70 10 780 140 ‐ ‐ ‐ 5,57 Franco-Siltosa A 0-7 5YR 4/4 38,1 6,8 55,2 130 30 310 530 19 96 2,88 0,58 Argila AB 7-25 5YR 4/4 65,8 15,2 19,0 280 30 230 460 19 96 2,86 0,50 Argila Bi 25-45 5YR 4/6 56,5 17,6 26,0 240 30 220 510 20 96 2,74 0,43 Argila C 45+ variegada 61,9 13,9 24,1 40 10 710 240 12 95 2,69 2,96 Franco-Siltosa

Silte/Argila Classe Textural

P1 - NEOSSOLO REGOLÍTICO Distrófico (xisto - Grupo Nova Lima)

P2 - CAMBISSOLO HÁPLICO Tb Distrófico (xisto - Grupo Nova Lima)

% g kg-1 %

Horizonte Amostra total Análise Granulométrica da TFSA

P5 - ESPODOSSOLO FERRIHUMILÚVICO Órtico (quartzito - Formação Moeda)

P6 - CAMBISSOLO HÁPLICO Tb Distrófico (filito - Formação Batatal) P3 - GLEISSOLO HÁPLICO Tb Distrófico (filito - Formação Moeda)

30 Quadro 1. Características físicas dos horizontes dos solos estudados (continuação)

Símbolo Profund.

(cm) Cor >4mm >2mm TFSA

Areia

Grossa Areia Fina Silte Argila ADA GF Dp

g/cm³ %

A 0-10 2,5YR 2,5/3 0,0 0,0 100,0 80 40 120 760 14 98 3,12 0,16 Muito Argilosa

BA 10-25 2,5YR 2,5/4 0,0 0,0 100,0 110 30 150 710 13 98 3,18 0,21 Muito Argilosa

Bw1 25-55 2,5YR 2,5/4 0,0 0,0 100,0 90 30 110 770 16 98 3,06 0,14 Muito Argilosa

Bwc 55-75 2,5YR 3/6 2,4 3,4 94,2 110 20 130 740 1 100 3,25 0,18 Muito Argilosa

Bw2 75-130 2,5YR 3/6 1,3 1,6 97,0 70 40 100 790 28 96 3,28 0,13 Muito Argilosa

Bw3 130+ 2,5YR 3/6 0,0 1,8 98,2 70 30 90 810 23 97 3,15 0,11 Muito Argilosa

A 0-20 2,5YR 2,5/2 0,0 0,0 100,0 150 40 170 640 7 99 3,25 0,27 Muito Argilosa

AB 20-50 2,5YR 2,5/4 0,0 0,0 100,0 110 50 110 730 2 100 3,08 0,15 Muito Argilosa

Bw1 50-75 2,5YR 2,5/4 0,0 0,0 100,0 100 50 130 720 9 99 3,17 0,18 Muito Argilosa

Bwc 75-150 2,5YR 3/6 11,5 6,9 81,7 90 50 130 730 6 99 2,96 0,18 Muito Argilosa

Bw2 150+ 2,5YR 3/6 0,0 3,5 96,5 100 50 120 730 23 97 3,02 0,16 Muito Argilosa

A1 0-10 5YR 3/3 72,9 4,7 22,4 270 500 110 120 2 98 4,49 0,92 Franco-Arenosa

A2 10-25 2,5YR 2,5/4 69,5 8,5 22,0 220 520 140 120 3 98 4,84 1,17 Franco-Arenosa

AB 25-50 2,5YR 3/6 71,3 8,6 20,1 140 500 150 210 2 99 4,83 0,71 Franco-Argilo-Arenosa

Bi1 50-110 2,5YR 3/4 72,5 9,9 17,6 180 250 220 350 5 99 4,78 0,63 Franco-Argilosa

2Bi1 110-135 2,5YR 4/4 74,0 12,0 14,1 170 240 220 370 4 99 4,25 0,59 Franco-Argilosa

2Bi2 135-190 2,5YR 3/4 63,1 19,7 17,2 100 240 220 440 0 100 4,28 0,50 Argila

P7 - LATOSSOLO VERMELHO Acriférrico (itabirito - Formação Cauê)

P8 - LATOSSOLO VERMELHO Acriférrico (itabirito - Formação Cauê)

P9 - CAMBISSOLO HÁPLICO Perférrico (itabirito - Formação Cauê)

Horizonte Amostra total Análise Granulométrica da TFSA

Silte/Argila Classe Textural

31

No perfil 3, Gleissolo Háplico Tb Distrófico de altitude (P3), os teores de areia fina

até 75 cm de profundidade variaram de 460 a 640 g kg

-1

e os teores de silte de 280 a 360 g

kg

-1

caracterizando-os como solos de textura franco-arenosa. Ao analisar o gradiente

textural em profundidade observa-se que os teores de areia fina diminuem ao contrário dos

teores de silte, o que sugere uma maior aporte de materiais coluvionares advindos das

rochas quartzíticas adjacentes e maior influência do filito na composição granulométrica

dos horizontes mais profundos.

A formação de solos hidromórficos denota uma condição fisiográfica que permita o

acúmulo de água durante no mínimo três meses ao ano. Em ambientes altimontanos, esta

condição torna-se ainda mais difícil uma vez que a tendência da água é atingir valores mais

baixos de potencial gravitacional. Entretanto, na área estudada, esta condição parece

intimamente relacionada com o comportamento hidráulico do material de origem, neste

caso o filito, que se comporta como um aquitardo

1

, além de sua disposição em relação às

rochas encaixantes adjacentes, os quartzitos, que apesar de maciços, são muito fraturados e

contribuem para o aporte de água na área de ocorrência dos filitos da Formação Moeda.

Essa presença de água no perfil durante parte do ano é responsável pela redução do Fe

3+

em

Fe

2+

refletindo na geração de cores pálidas, gleizadas, como observado neste perfil (matiz

GLEY 1). Pequenas pontuações avermelhadas foram observadas apenas ao redor de raízes

finas, onde a respiração promoveu a re-oxidação do Fe.

A textura do horizonte A do Neossolo Litólico Distrófico substrato quartzito (P4)

guarda estreita relação com o material de origem, em que 80 % da TFSA é composta pelas

frações areia grossa e areia fina com teores de 440 e 360 g kg

-1

, respectivamente. Por se

tratar de um solo raso e com textura arenosa, a água dificilmente permanece no perfil e

tende a ser infiltrar pelas fraturas da rocha.

O Cambissolo Háplico Tb Distrófico (P6) originado de filito da Formação Batatal,

apresenta quantidades significativas de material grosseiro na forma de cascalhos e calhaus

em sua composição, podendo chegar a 81 % no horizonte AB. Na fração TFSA dos

horizontes AB e Bi, que apresentaram maior evolução pedogenética, os teores de argila de

460 g kg

-1

no horizonte AB e 510 g kg

-1

no horizonte Bi caracteriza-os como de textura

argilosa. A contribuição da fração silte nos horizontes amostrados denota a estreita relação

1Aquitardo - formação geológica semipermeável, delimitada no topo e/ou na base por camadas de

permeabilidade muito maior (Feitosa & Manoel Filho, 2000).  

32

com o material de origem. Nestes horizontes a cor do solo apresentou matiz 5YR, com

croma igual a 4 no horizonte AB devido ao poder pigmentante da matéria orgânica e igual a

6 no horizonte Bi.

O Latossolo Vermelho Acriférrico (P7) amostrado no platô a 1.457 m de altitude

apresentou teores de argila que variaram de 710 a 810 g kg

-1

ao longo do perfil

caracterizando-o como de textura muito argilosa. Para minimizar os efeitos da baixa

eficiência no processo de dispersão química e mecânica decorrentes da constituição oxídica

dos Latossolos e que contribui para a formação de microagregados de alta estabilidade,

como já relatado por Moura Filho & Buol (1972), Netto (1996) e Donagema et al. (2003),

foi considerada a densidade de partículas para o cálculo do tempo de sedimentação

conforme princípios previstos na Lei de Stokes.

Os valores encontrados para a relação silte/argila encontram-se inferiores ao limite

máximo de 0,7 estabelecido para o horizonte B latossólico (Embrapa, 2006) apresentando

inclusive valores muito baixos variando entre 0,11 e 0,21, já indicando uma mineralogia

mais oxídica. Apesar da aparente homogeneidade morfológica ao longo de todo o perfil, foi

observada a presença de pequenas concreções e fragmentos de rocha a partir de 55 cm de

profundidade. A cor do solo apresentou matiz 2,5YR em todos os horizontes conferindo-lhe

a classificação de vermelho em nível de subordem e corroborando com a natureza de solos

desenvolvidos a partir de materiais de origem ricos em ferro, como o itabirito.

O segundo Latossolo Vermelho Acriférrico (P8) amostrado em encosta florestada a

1.408 m de altitude, também apresentou teores elevados de argila variando de 640 a 730 g

kg

-1

caracterizando-o como de textura muito argilosa. Assim como no perfil anterior (P7)

foi observada a presença de pequenas concreções e fragmentos de rocha a partir de 75 cm

de profundidade. Em todos os horizontes a cor apresentou matiz 2,5YR conferindo-lhe a

classificação de vermelho em nível de subordem, mas o poder anti-hematítico da matéria

orgânica, que apresentou teores de 11,69 e 6,99 % nos horizontes A e AB respectivamente,

se expressou em cromas mais baixos.

O perfil 9, Cambissolo Háplico Perférrico, comum nas encostas com relevo mais

acentuado, apresentou teores elevados de areia fina até o limite superior do horizonte Bi1

(50 cm) onde a contribuição da fração argila passa a aumentar em profundidade a teores que

chegam a 440 g kg

-1

sugerindo descontinuidade litológica. Cascalhos e calhaus constituem a

maior parte do solo conferindo-lhe o caráter epi e endopedregoso, frações estas compostas

em sua maioria por fragmentos de itabirito imersos numa matriz oxídica aparentemente

latossólica, mas com fragmentos de rocha > 4 mm representando em média 70 % da

33

amostra coletada. Testes com ímã de mão evidenciaram forte magnetização em todos os

horizontes deste perfil. A cor do solo (2,5YR) tem relação direta com sua mineralogia

oxídica, principalmente pelos altos teores de óxidos de ferro constatados pelo ataque

sulfúrico (variando de 528 a 591 g kg

-1

) e pelos difratogramas de raios-X que indicaram a

presença de hematita em todas as frações analisadas. A textura grosseira associada à

quantidade expressiva de fragmentos de rocha ao longo do perfil facilitam a percolação de

água e consequentemente o desenvolvimento de raízes em profundidade. Entretanto por

estar em condição de relevo forte ondulado a água não permanece no perfil por muito tempo

impossibilitando a redução e mobilização do Fe do sistema.

Nos solos oriundos de xistos, filitos e quartzitos a densidade de partículas variou

entre 2,61 e 2,98 g/cm³ e a densidade média de partículas foi de 2,80 g/cm³. Já para os solos

provenientes de itabirito, a presença de óxidos de ferro contribuiu para elevar os valores de

densidade de partículas, principalmente devido à presença dos minerais hematita e

magnetita cujas densidades de partículas são 5,26 e 5,18 g/cm³, respectivamente. Nos

Latossolos (P7 e P8) a densidade média de partículas foi de 3,14 g/cm³ e no Cambissolo

Háplico Perférrico (P9) foi de 4,58 g/cm³, valores estes dentro do intervalo de 3,0 a

5,3 g/cm³ estabelecido por Schwertmann & Taylor (1989) para os óxidos de ferro. Tais

valores levaram à adoção de diferentes tempos de sedimentação durante a separação

granulométrica das frações silte e argila.

Os horizontes pedogenéticos do Cambissolo Háplico Tb Distrófico (P6),

desenvolvido de filito da Formação Batatal, não apresentaram variações expressivas no grau

de floculação em profundidade, variando de 59 a 64 %.

A constituição oxídica conferiu aos Latossolos Vermelhos Acriférricos (P7 e P8)

valores elevados de grau de floculação chegando a 100 % nos horizontes Bwc (55-75 cm)

do perfil 7 e no horizonte AB (20-50 cm) do perfil 8. Os valores de grau de floculação

obtidos para o Cambissolo Háplico Perférrico (P9) também se mostraram elevados

(75 a 100 %) resultado da constituição química do material de origem (itabirito) que leva à

formação direta de óxidos de ferro.

34