2.1 Marco Teórico
2.1.1 Fundamentos del aprendizaje y trabajo colaborativo
A produção de José Reis na revista inicia-se em 1932, três anos após seu ingresso no Instituto Biológico de São Paulo, e a maior parte de seus artigos se refere a doenças de aves ou ornitopatologias, termo cunhado pelo próprio cientista (Reis apud Nunes, 1998). José Reis dedicou-se às pesquisas sobre o assunto e tornou-se um especialista, tendo, em 1932, publicado o manual Moléstia das aves domésticas, considerado, por um técnico americano especializado na área, uma excelente obra de vulgarização (Reis, José. O
Instituto Biológico e o progresso da avicultura paulista, 1932. Coleção José
Reis. Centro de Memória do Instituto Biológico de São Paulo; Reis, 1983). Mais tarde, em 1936, o cientista publicou o Tratado de ornitopatologia, em co-autoria com dois outros cientistas do Instituto Biológico de São Paulo, Annita Swensson Reis e Paulo Nóbrega. O tratado tornou-se obra de referência para os estudiosos da ornitopatologia no Brasil e no exterior (Reis, 1983 e Ribeiro, 1997).
A repercussão da obra pode ser avaliada pela correspondência recebida por José Reis e Paulo Nóbrega, após o lançamento do tratado (Livro de Correspondência. Coleção José Reis. Centro de Memória do Instituto Biológico de São Paulo). Foram muitas as cartas escritas por cientistas brasileiros e
estrangeiros, bem como por instituições científicas do Brasil e do exterior, parabenizando os autores e elogiando a qualidade da obra. Escreveram-nas muitos cientistas do Instituto de Manguinhos, entre eles: Henrique Aragão, Souza-Araújo, Carlos Chagas, Emanuel Dias, Herman Lent, Arthur Neiva, Genésio Pacheco e César Pinto. Há ainda, entre inúmeras outras, cartas do Museu Britânico e do cientista Emile Brumpt. Essas cartas, além de atestarem o sucesso da publicação no meio científico da época, revelam a relação de proximidade que havia entre os cientistas do Instituto de Manguinhos e os cientistas do Instituto Biológico. O tom das cartas é, em geral, muito informal, revelando o grau de companheirismo que havia entre eles. Esses cientistas, além de publicarem em conjunto, mantinham um intenso sistema de intercâmbio, trocando informações, publicações, vacinas e, até mesmo, cobaias.
José Reis nasceu no Rio de Janeiro, em 1907, estudou na Faculdade Nacional de Medicina (1925-1930), tendo cursado microbiologia como cadeira básica; ainda no período da faculdade, fez o Curso de Aplicação do Instituto Oswaldo Cruz, especializando-se em patologia (USP. ECA. NJR. Biografia, 2003). Em 1929, José Reis ingressou no Instituto Biológico de São Paulo, indo trabalhar na Seção de Bacteriologia, então chefiada por Genésio Pacheco, bacteriologista proveniente do Instituto Oswaldo Cruz. Nessa Seção trabalhavam também Adolfo Martins Penha, Celso Rodrigues e Oto Bier (Reis, 1983). O desenvolvimento das pesquisas sobre doenças de aves no Instituto Biológico levou, mais tarde, em 1934, à criação de uma Seção de Ornitopatologia, da qual participavam: José Reis, Annita Swensson Reis, Paulo Nóbrega, Rafael de Castro Bueno e Milton Giovannoni (Reis, 1983; USP. ECA. NJR. Vox Scientiae, 2003).
O Instituto Biológico de São Paulo teve uma atuação importante na área da ornitopatologia, tanto no que se refere às pesquisas e mapeamento das doenças no Estado, como na produção de soros, vacinas e medicamentos para combatê-las e na assistência técnica que prestava a avicultores em fazendas e granjas (Reis, José. O Instituto Biológico e o progresso da avicultura paulista, 1932. Coleção José Reis. Centro de Memória do Instituto Biológico de São
Paulo). Segundo José Reis, uma das grandes preocupações do Instituto, durante a gestão de Henrique da Rocha Lima, foi a divulgação de informações para os criadores, a qual era feita pela publicação de folhetos, livretos e do periódico O Biológico (Reis, 1983).
Os artigos de José Reis na revista Chácaras e Quintais versavam sobre as ornitopatologias, a profilaxia das doenças e os tratamentos recomendados para cada uma delas. Além dos artigos, José Reis assinava a seção “O médico das aves”, na qual respondia a consultas dos leitores sobre diversas ornitopatologias.
Em alguns artigos, o cientista se detém explicando, de maneira mais detalhada, a etiologia de algumas doenças e sua transmissão. Em outros, José Reis discorre sobre as condições necessárias para se construir um bom aviário. Em um deles, ele explica em detalhes quais seriam tais condições:
“O terreno deve ser escolhido afastado do centro urbano, e longe de qualquer sítio ou quintal ou chácara onde se criem aves. Sempre que possível, escolher terreno virgem, que pela primeira vez se povoe. Quando não se dispõe de um terreno assim, mas de um lote já usado, onde se tenham criado aves, é preciso submetê-lo a uma aração em regra [....] Tem isto por fim desinfetar o solo: destruir os germes daninhos, os ovos de vermes, etc.” (Reis, 1934d, p.686).
Além disso, o terreno deveria ser seco, pois, segundo José Reis, a umidade do solo seria fator predisponente a várias doenças. Em relação a esse ponto, Reis é enfático; ele escreve: “Diante de um charco, não se diga: ‘Vamos tentar criar galinhas aqui’ mas sim: 'Galinha aqui não vai bem; vamos cuidar de outra coisa'” (Reis, 1934d, p. 686). E ainda: “Galinha não é mangue: não se desenvolve no charco. Exige terreno seco” (Reis, 1934d, p. 686).
Outros dois fatores importantes a serem levados em conta na construção do galinheiro, segundo o cientista, são a insolação e a aeração dos galinheiros. Ainda nesse artigo, José Reis ressalta a importância da boa alimentação das aves, da limpeza dos galinheiros, do tamanho dos cercados e da saúde das aves reprodutoras (Reis, 1934d).
No ano anterior, o cientista publica artigo explicando que, para se tornar um avicultor técnico, o indivíduo precisa de tempo, é necessário estudar muito, estagiar em granjas, freqüentar os laboratórios e aprender da própria
experiência, sabendo escolher, dentre os métodos disponíveis, os mais adequados à sua necessidade (Reis, 1933b). José Reis ressalta no artigo a importância que o conhecimento técnico tem para a formação do avicultor, exemplificando a ignorância de alguns criadores sobre o tema (Reis, 1933b).
Em alguns de seus artigos, José Reis enfatiza a necessidade de que os avicultores procurem os institutos científicos, e, em particular, o Instituto Biológico de São Paulo, para obter informações relativas à profilaxia e ao tratamento das doenças aviárias. O cientista informa que o Instituto apóia os criadores, diagnosticando as doenças, seja pelas visitas técnicas às granjas, seja pelo recebimento de animais doentes e mortos para análise (Reis, 1932a; Reis, 1933b). Informa também que o Instituto realizou um censo das principais doenças contagiosas que atingem as aves do Estado e que vem preparando soros e vacinas para combatê-las e disseminando informações relativas à profilaxia dessas doenças (Reis, 1932a).
No final do artigo de março de 1932, José Reis conclama os cientistas e os avicultores a trabalharem em conjunto, assim se expressa o cientista:
”Insistimos na necessidade absoluta de se aproximarem os avicultores dos laboratórios científicos, cujas experiências, feitas em pequena escala e condições muitas vezes artificiais, devem ser por eles comprovadas em condições naturais: o trabalho isolado e divergente dos cientistas e dos práticos difícil e tardiamente frutificaria. As experiências conjuntas, em que cada um dos técnicos entre com os conhecimentos, a aparelhagem e os recursos de que dispõe, são muito úteis e eficientes. A freqüência dos laboratórios pelos práticos que trabalham no campo é altamente recomendável, pois, por meio dela, irá subindo gradualmente o nível de cultura geral do povo e em breve terá desaparecido de nossas massas, e também de nossos governantes, essa horrível incompreensão da ciência e dos cientistas que vive criando obstáculos contínuos ao desenvolvimento regular de nossos centros de estudo e de pesquisa” (Reis, 1932a, p. 298).
Para José Reis, portanto, cientistas e práticos deveriam se apoiar mutuamente em um trabalho conjunto que beneficiaria a avicultura e a ciência, permitindo à última tornar-se mais aceita e respaldada pelo governo e a sociedade.
de um artigo do autor. Em um deles, de março de 1934, José Reis descreve algumas doenças de aves causadas por problemas de nutrição como: a difteria nutritiva, a perose, o raquitismo, a polinevrite e a gota (Reis, 1934a), sendo a maioria delas causada por falta de vitaminas, as chamadas “avitaminoses”. Para três doenças, o cientista explica a avitaminose que as causa e informa em quais alimentos encontram-se as vitaminas necessárias para seu tratamento (Reis, 1934a).
José Reis busca transmitir em seus artigos informações que possam ajudar os avicultores a se capacitar, para lidar com certa autonomia na profilaxia das doenças e até mesmo, em alguns casos, no diagnóstico das mesmas. Esse é o caso de artigo publicado em julho de 1932, no qual o cientista explica como o avicultor deve proceder para fazer a “prova da tuberculinização”, a fim de verificar se a ave está tuberculosa, e a “pulorinização”, para saber se a ave é portadora da Salmonella pullorum (Reis, 1932c, p. 81). No artigo, José Reis explica o que é a alergia, o que são os anticorpos, como são preparados os soros e a reação de aglutinação. O cientista explica ainda que as aves identificadas como portadoras de doenças, por meio dos processos explicados, devem ser eliminadas, e as demais, após vários testes apresentando resultado negativo para as doenças, serviriam, então, para a reprodução (Reis, 1932c).
Em outro artigo, de maio de 1934, José Reis compara os micróbios a espiões que apóiam os exércitos em guerra. Ele diz que os micróbios, às vezes, despistam os anticorpos e acabam por se alojar em alguma parte do organismo, tornando aquele individuo portador da doença (Reis, 1934c). Mais adiante, o cientista explica como certas doenças que acometem os homens são transmitidas a eles por animais infectados, como a brucelose humana. O mesmo acontece com os paratifos, transmitidos pela ingestão de carnes de animais infectados. Alguns desses animais são apenas portadores, não desenvolvem as doenças, mas as transmitem aos que comem sua carne ou bebem seu leite (ibidem).
José Reis ressalta o cuidado que se deve ter com animais que podem parecer sãos, mas que na verdade podem ser portadores e, portanto, transmissores de doença. E ele dá o exemplo da cólera das galinhas:
”Quando a cólera bate num galinheiro e mata quase toda a sua população, sempre sobram algumas aves, que resistem à catástrofe. – Que bichas! Exclama o avicultor; mas é melhor que não se entusiasme demais. Mande examiná-las no laboratório; pode muito bem ser que se trate de uma daquelas que a morrer com glória haja preferido entrar em acordo com o micróbio: e no verão seguinte, ela será o foco de uma nova epizootia... E essas portadoras de cólera, se muitas vezes chamam atenção pela coriza, pelo inchaço da barbela ou das juntas, outras vezes são perfeitamente
perfeitas31, e somente com o auxílio do microscópio, examinando o muco que tem no nariz, é que se pode saber que são portadoras” (Reis, 1934c, p.558).
Como se vê o enfoque adotado por José Reis em seus artigos é o da microbiologia e da veterinária, do estudo dos microorganismos causadores de doenças, do processo de adoecimento dos animais e dos meios de prevenir as doenças e de tratá-las. Esse olhar, como de outros bacteriologistas, decerto contrasta bastante com o de criadores preocupados com as questões de raça e forma dos animais. Em alguns artigos de José Reis, esse contraste fica bem patente. É o caso de artigo de junho de 1934, que fala sobre os reprodutores:
“Ainda é preciso lembrar a importância profilática que tem a saúde dos reprodutores, pois diversas são as moléstias que deles passam aos filhos, principal delas a pulorose (diarréia branca) [...] Preocupados geralmente com a perfeição morfológica das aves que compram e que desejam superponíveis aos clichês dos livros, os criadores novos, com a cabeça cheia de 'standards', regras e recordes, muito freqüentemente se esquecem de pensar na saúde e pagam somas fabulosas por exemplares belos de fato porém, mais ou menos imprestáveis sob todos os pontos de vista realmente úteis, e muito principalmente no que se refere à saúde” (Reis, 1934d, p. 688).
A escolha de animais pela aparência é, várias vezes, criticada pelo cientista, em artigo de novembro de 1933, assim se refere José Reis à questão:
“Conhecemos um avicultor que seleciona raças novas, pra encanto dos olhos. De vez em quando mimoseia-nos com um exemplar doente ou morto; quando o espécime está pronto em ‘ponto de bala’, o diabo do bicho estica as canelas, e lá se vai
a raça por água abaixo. É que o pobre coitado seleciona a sua bicharada (sabe Deus como!) num quintal infecto onde o tempo vem acumulando, com a paciência que o caracteriza, todo um museu de parasitas daninhos....” (Reis, 1933b, p. 612).
Em outro artigo, de julho de 1932, ele explica:
“Não basta, pois, ir à Exposição, contar os bicos das cristas e pesquisar as pintas que não constem dos ‘Standards’. É preciso ir um pouco mais longe e olhar o estado sanitário da ave. Não basta conhecer a linhagem e os recordes de uma reprodutora: é preciso exigir também a prova de não ser portadora de diarréia branca’’ (Reis, 1932c, p. 81).