2. Theoretical background
2.2.1 Fundamentals of discriminant analysis
Nas concepções das sociedades clássicas greco-romanas, a juventude se referia a uma idade entre os 22 e os 40 anos. Juvenis vêm de aeoum, cujo significado etimológico é ―aquele que está em plena força da idade‖. Naquela cultura, a deusa grega Juventa era evocada justamente nas cerimônias do dia em que os mancebos (adolescentes) trocavam a roupa simples pela toga, tornando-se cidadãos de pleno direito.
Oficialmente, hoje de acordo com a maioria dos organismos internacionais, considera- se jovem a faixa de 15 a 24 anos, embora outras idades já são propostas em abordagens acadêmicas, na dinâmica da vida política e na mídia. Portanto, podemos dizer sem espanto que ser jovem aos 40 ou aos 50 anos no mundo contemporâneo é algo normal, observando obviamente que essa normalidade advém do estímulo positivo que adquire a noção de juventude na nossa sociedade.
Mas para além do tempo cronológico inevitável que marca nossas vidas com o passar dos anos, o que significa ser jovem hoje? Nessa perspectiva, vejamos como a categoria juventude vem se delineando e como seu significado modificou-se no percurso da história, considerando que as concepções de juventude de outrora atualmente sobrevivem apenas no nosso imaginário.
Assim, pensar a condição jovem, bem como a adolescência, suscita muitas questões que se iniciam com a compreensão dessa terminologia. Ainda pode-se inferir que a juventude como categoria gera na contemporaneidade uma amálgama intrínseca de ressignificações das condições objetivas e subjetivas do indivíduo, consubstanciada em novos formatos distintos de sociabilidade que permeiam as relações nas diferentes dimensões sociais. Entender os seus significados ao longo do tempo, portanto, pode esclarecer seus encaminhamentos atuais.
Para Bourdieu (1983), o conceito de juventude e as divisões entre idades seriam
discriminatórias, pois ―somos sempre o jovem ou o velho de alguém‖ (1983, p.113). Em sua
percepção, os cortes em classes de idade ou mesmo os geracionais teriam uma alteração interna fomentando um aspecto de manipulação. Nesse sentido, a juventude, para esse autor, bem como a velhice não são categorias dadas, e sim construções provenientes da contraposição entre jovens e velhos. Assim, pode-se depreender de suas ideias a compreensão dessa categoria dentro de um critério etário que não pode ser considerado isoladamente, e sim por meio da contraposição mencionada.
Para adensar os pressupostos apresentados nos valemos de uma passagem destacada por Max Horkheimer (1980) quando discute a diferença entre o pensamento tradicional e o pensamento crítico, que pode iluminar, embora fale mais da criança, a questão da dialeticidade dentre as fases do indivíduo.
Dizer este ser humano é agora uma criança e depois será um adulto implica para essa lógica afirmar que existe um único núcleo imutável; ―este ser humano‖; ambas as qualidades de ser criança e ser adulto são grampeadas nele, uma após a outra. Segundo o positivismo, não permanece nada idêntico; ao contrário, primeiro existe uma criança, depois um adulto, ambos constituem dois complexos de fato diferentes. Esta lógica não está em condições de compreender que se o homem se transforma e apesar disso permanece idêntico a si mesmo. (HORKHEIMER, 1980. p.245)
Nessa concepção as fases não podem ser entendidas como compartimentos estanques que se sucedem com substituição ou eliminação das características anteriores. A psicanálise foi a primeira corrente psicológica a atribuir aos primeiros anos de vida uma importância basilar na estruturação da personalidade. Freud39 em muitos momentos assinalou a importância da infância, escrevendo que ―a psicanálise foi obrigada a atribuir a origem da vida mental dos adultos à vida criança e teve que levar a sério o velho ditado de que a criança
39
Freud é o grande iconoclasta da infância ingênua e inocente. A sexualidade humana é, em sua origem, infantil, perversa e polimorfa.
é o pai do homem‖ (FREUD, 1996, p.138), apregoando que é nesse período que o homem adulto é forjado. Nesse sentido poderíamos inferir que a juventude é uma categoria que não é meramente uma transição entre infância e a fase adulta.
Spósito (1997) e Dayrel (2003) compartilham essa ideia. Por meio dessa concepção compreende-se esse período da vida como acúmulo do passado, vivência do presente e momento de prospecção, ou seja, projeção do futuro. Se a juventude passa, ela ainda permanece como biografia como lembrança, como acúmulo de experiências. Dayrrel (2003) avalia que a categoria juventude não pode ser analisada por meio de critérios rígidos, porque ela se constitui em um processo global e totalizante, envolvendo o conjunto das experiências vivenciadas pelos indivíduos no seu meio social. Esse autor indica que no nosso cotidiano deparamos com uma série de imagens da juventude que interferem na maneira de compreender os jovens. Uma das mais arraigadas para ele é a que enxerga a juventude na sua condição de transitoriedade, na qual o jovem é sempre ―um vir a ser‖, tendo no futuro, na passagem para a vida adulta, a confirmação do sentido para suas ações do presente. Sob essa perspectiva existe uma tendência de enxergar a juventude em sua negatividade, ―o que não chegou a ser‖. Por isso é importante manter uma especificidade nessa fase, pois não se trata apenas uma ―sala de espera‖ ou moratória, ela é um momento singular, específico em si mesmo, inscrito em uma inserção social. Nesse sentido, essa categoria porta uma plasticidade na medida em que é influenciada pelo meio social e pelas trocas que este proporciona; desse modo, em sua visão há muitas maneiras, formas diferentes de ―ser jovem‖.
Corroborando com essa ideia, Maria Rita Kehl (2004) chama atenção para a dificuldade de se precisar o que é ser jovem devido ao conceito de juventude na nossa sociedade ter adquirido um caráter de elasticidade. Conforme a autora,
A juventude é estado de espírito, é um jeito de corpo, é um sinal de saúde e disposição, um perfil do consumidor, uma fatia do mercado onde todos querem se incluir. Parece humilhante deixar de ser jovem e ingressar naquele período da vida em que os mais complacentes nos olham com piedade e simpatia e, para não utilizar a palavra ofensiva - velhice -, preferem o eufemismo ―terceira idade‖. Passamos de uma longa, longuíssima juventude, direto para a velhice, deixando vazio o lugar que deveria ser ocupado pelo adulto. (KEHL, 2004, pp.90-91)
Essa tendência de juventude perene, na qual vivemos hoje, tem origem e história que coincidem com a modernidade e a industrialização. Com o aumento progressivo do período
de formação escolar, a alta competitividade do mercado de trabalho nos países capitalistas e, mais recentemente, a escassez de empregos obrigam os jovens adultos a viver cada vez mais tempo na condição de ―adolescentes‖, dependentes da família, apartados das decisões e responsabilidades da vida pública; em suma, incapazes de decidir seus destinos. É conveniente destacar que, para essa configuração de juventude, ficar na casa dos pais não significa viver com eles. Embora esse jovem conviva com seus pais e queira seguridade, ele não abre mão de sua liberdade. Essa juventude ―perpétua‖ implica desvencilhar-se do peso de tudo que tende a repousar sobre si, ou seja, esse jovem goza de todas as liberdades da vida adulta, no entanto é poupado de quase todas as responsabilidades.
Para Massimo Canevacci (2006), as tradicionais distinções em faixas se abrem, a ideia de juventude se dilata virando do avesso as categorias que fixavam faixas etárias e claras passagens geracionais. Canevacci usa o termo ―jovens intermináveis‖ para designar a ideia vigente no mundo contemporâneo de que a juventude pode não acabar. O autor sublinha que
Cada jovem, ou melhor, cada ser humano, cada indivíduo pode perceber sua própria condição de jovem como não-terminada e inclusive como não terminável. Por isso, assiste-se um conjunto de atitudes que caracterizam de modo absolutamente único nossa era: as dilatações juvenis. O dilatar-se da autopercepção enquanto jovem sem limites de idade definidos e objetivos dissolve as barreiras tradicionais, tanto sociológicas quanto biológicas. Morrem as faixas etárias, morre o trabalho, morre o corpo natural, desmorona a demografia, multiplicam-se as identidades móveis e nômades [...] (CANEVACCI, 2005, p.29)
Nessa direção, para a compreensão de como este tema amadurece e se materializa no Brasil, torna-se importante esboçar um painel dos aspectos sócio-históricos sobre a juventude brasileira e dos movimentos sociais a que esta se engajou, sobretudo, a partir da década de 1960, e ainda como esses movimentos no decorrer do tempo se modificaram e deram lugar a outras utopias, que se manifestam na atualidade sob a forma de possíveis reinvenções nos espaços de atuação da juventude contemporânea.
Helena Abramo (1994) considera fator importante perceber qual a singularidade do tema juventude e sua emergência na atualidade, pois o debate sobre o assunto, bem como o das políticas públicas para esse segmento vem ganhando grande visibilidade. Essa emergência se expressa pela diversidade de atores para esta questão; ONGs, fundações empresariais organismos internacionais, acadêmicos, parlamentares, gestores municipais de organismos de juventude e uma multiplicidade de organizações, movimentos e grupos juvenis. É importante
ressaltar que a juventude, como tema político, passa a existir de forma mais efetiva após o processo de redemocratização da sociedade brasileira, depois do debate mais intenso sobre a consolidação dos direitos de cidadania, que ganhou corpo no processo da Constituinte no final da década de 1980. Os sujeitos sociais desse processo foram os movimentos sociais que se articularam na década de 1960, e principalmente a partir dos anos 1970, especialmente pela retomada da democracia e pela constituição de políticas setoriais como educação, saúde,
trabalho entre outras. No âmbito dessa efervescência40 também se compunham os chamados
―novos movimentos sociais‖ com as suas demandas singulares, como o dos negros, mulheres, homossexuais. Nesse momento é que também insurge a pauta dos direitos da criança e do adolescente. Por meio desse trajeto de reconstituição histórico-cultural podemos obter indícios e compreender a condição do jovem na sociedade hodierna.
A juventude, como uma categoria de pesquisa das ciências sociais, não obteve grande desenvolvimento no Brasil; foram realizados apenas alguns estudos esparsos durante as décadas de 1960 e 1970, e que, na sua maioria, referem-se a análises sobre estudantes, principalmente os universitários (ABRAMO, 1994). A pouca visibilidade desse tema se deve também ao fato de naquele momento não existirem sujeitos políticos mobilizados reivindicando políticas ou ações específicas para os jovens. Dayrell [2003] também indica que em um balanço de estudos acerca dessa temática que as reflexões acadêmicas não se dedicaram, a saber, como os jovens vivem e elaboram suas situações de vida. Dessa forma, no Brasil, ao contrário da literatura européia e norte-americana, até os anos 1980, com raras exceções, muito pouca importância foi dada à vivência juvenil no campo do lazer, da cultura, do comportamento e da formulação de estilos e movimentos culturais. Os estudos, principalmente da sociologia, recaíram sempre sobre o papel da juventude como agente político, sobre sua capacidade de desenvolver uma postura crítica e transformadora da ordem vigente. (Abramo, 1994, p.22).
Questões acerca da juventude em outros âmbitos para além da atuação política emergiram como preocupação a partir do processo de modernização desencadeado nos anos 1950. Pode-se dizer que a configuração da condição juvenil está vinculada ao processo de
40
Segundo Abramo (1994), boa parte dos conselhos mais consolidados no domínio do governo federal resulta da articulação e da consolidação destes movimentos e de suas reivindicações na esfera pública. No entanto, para ela a juventude não se colocou neste momento, como questão política, como tema para direitos e para as políticas públicas. Ficaram, segundo ela, como ―tema fora do processo‖, embora muitos jovens e organizações juvenis tenham nessa época se engajado em pautas de outras lutas, e participado ativamente no processo de redemocratização. Nessa direção, a delimitação do período a partir da década de 1960 deve-se ao fato de este ter sido um momento, como mencionado anteriormente, em que houve transformações significativas na vida política, econômica e social do Brasil, tendo a juventude como ator principal dessas mudanças.
modernização social ocorrido no ciclo de transformações estruturais desencadeados no período posterior à Segunda Guerra Mundial.
Pode-se observar, inicialmente, que a juventude se organiza a partir dos movimentos políticos, e só posteriormente, com o pós-guerra, o universo juvenil esboça mudanças significativas na configuração e problematização de sua condição, centradas na sua ampliação e vinculação aos espaços de lazer, à indústria cultural e aos meios de comunicação.
Conforme Abramo (1994), de modo geral, historiadores e sociólogos concordam em apontar as mudanças ocorridas no pós-guerra – principalmente àquelas vinculadas ao novo ciclo de desenvolvimento industrial e às medidas sociais do welfare state –, como fatores que criaram possibilidades para uma nova configuração da condição juvenil.
O que se percebe com esse novo período de desenvolvimento industrial, localizado no pós-guerra, é que houve uma diversificação da produção e pleno emprego, e os benefícios obtidos pelo welfare state promoveram uma fase de afluência e incrementos crescentes no consumo, cujas possibilidades foram grandemente ampliadas pela criação de novos bens e pelo crescimento da importância dos meios de comunicação. Passa-se nesse período a ter maior valorização social do tempo livre, vinculada à redução da jornada de trabalho, que se traduz na ampliação e na diversificação dos bens de entretenimento e de cultura de massas.
Dessa forma, a juventude norte-americana, principalmente, a partir dos anos 1950 passa a receber uma atenção exacerbada ao adquirir a condição de consumidor em potencial. Essa condição inaugurada nos Estados Unidos, do jovem como fatia privilegiada do mercado e difundida no mundo capitalista, trouxe alguns benefícios e novas contradições. Como afirma Kehl (2004),
Por um lado, a associação entre juventude e consumo favoreceu um florescimento de uma cultura adolescente altamente hedonista. O adolescente das últimas décadas do século XX deixou de ser a criança grande, desajeitada e inibida, de pele ruim e hábitos anti-sociais, para se transformar no modelo de beleza, liberdade e sensualidade para todas as faixas etárias [...] (KEHL, 2004, p.93).
Kehl não limita o foco de sua análise em adolescentes da elite, como pode parecer. E sublinha ainda que
Na sociedade pautada pela indústria cultural, as identificações se constituem por meio das imagens industrializadas. Poucos são aqueles capazes de consumir todos os produtos que se oferecem ao adolescente contemporâneo - mas a imagem do adolescente consumidor, difundida pela publicidade e pela televisão, oferece-se à identificação de todas as classes sociais. (KEHL, 2004, p.93)
Portanto, o que prevalece nessa lógica de consumo é o ideal de juventude apregoado pela publicidade que não impõe barreiras sociais, mas permeia no imaginário o jovem hedonista, livre, sensual e belo. O que não deixa, evidentemente, de trazer à tona reações violentas daqueles que se sentem incluídos pela via da imagem, mas excluídos das possibilidades de consumo.
Mas quais as consequências dessa cultura jovem para as gerações futuras? Ao passo que somos todos convocados a sermos jovens perenes, ninguém quer ocupar o lugar de autoridade. Essa é a lacuna que a ―cultura jovem‖ abriu. Nesse contexto, a juventude torna-se
um sintoma da cultura que provoca fenômenos recentes, a exemplo da ―adultuscência‖, que é
a permanência em um estado de adolescência perpétua, em que o adulto se espelha em ideais teen e se sente desconfortável ante a responsabilidade de tirar suas próprias conclusões sobre a vida e passá-las a seus descendentes.
Mas tanta liberdade cobra seu preço em desamparo tanto de crianças como de jovens. Hannah Arendt (2001) expressa bem essa crise da autoridade no seio da família moderna nos dizendo que
O sintoma mais significativo da crise a indicar sua profundeza e seriedade, é ter ela se espalhado em áreas pré-políticas tais como a criação dos filhos e a educação, onde a autoridade no sentido mais lato sempre fora aceita como uma necessidade natural, requerida obviamente tanto por necessidades naturais, o desamparo da criança, como por necessidade política, a continuidade de uma civilização estabelecida que somente pode ser
garantida se os que são recém-chegados por nascimento forem guiados
através de um mundo preestabelecido no qual nasceram como estrangeiros. (ARENDT, 2001, p.128, grifo nosso)
Não é nosso intuito nos alongarmos sobre a crise da autoridade, mas para entendermos o atual processo da crise da educação faz-se necessário tangenciar essas questões, pois estão imbricadas e recorrentemente vêm à tona quando falamos de formação humana.
Conforme constatou Gilles Lipovestsky (1994) em seu livro ―Crepúsculo do Dever‖, as nossas sociedades se eletrizavam com a ideia da libertação individual coletiva, sendo a moral associada ao fariseísmo, bem como a repressão burguesa. Para o autor essa fase já passou: enquanto à ética, uma questão que a seu ver no final do século passado congregou os espíritos e animou os corações reencontrando o seu caráter nobre, fazia emergir uma nova cultura que apenas sustentava o culto da eficácia e da ponderação, do sucesso e da proteção moral. Nessa direção, para ele não existe outra utopia senão a moral, o século XXI será ético ou não será de todos. Nesse sentido, isto não impede que ao mesmo tempo se veja eternizado, na sequência de uma vasta perpetuação secular, um discurso alarmista, estigmatizador da falência dos valores, o individualismo cínico e o fim de toda a moral. Oscilando entre os dois extremos, as sociedades contemporâneas cultivam dois discursos aparentemente contraditórios: de um lado:
O da revivescência da moral, do outro, o do precipício decandentista ilustrado pela escalada da delinqüência, pelos ghettos onde seviciam violência, droga, analfabetismo, pela nova grande pobreza, pela proliferação de crimes financeiros, pelos progressos da corrupção na vida política e econômica. (LIPOVESTSKY, 1994, p.14).
Nessa conjuntura verifica-se ainda que as realidades são eloquentes para o segundo extremo, incluindo ainda a exclusão profissional e social que tende a tornar-se um mecanismo estrutural da sociedade, proliferando os números de refugiados, desabrigados e favelizados,
multiplicando as famílias sem pai, os gang members, que provocam o retrocesso da qualidade
de vida, a gangrena do narcotráfico e da drogadização, a violência entre os jovens, o aumento das violações e assassínios. Outros tantos fenômenos cuja culpabilidade é preciso atribuir às políticas neoliberais, mas ao mesmo tempo à obsolescência das instâncias tradicionais do controle social (Igreja, sindicato, família, escola), bem como uma cultura exaltatória imediata dos desejos.
Corroborando tal situação, Mônica do Amaral (2005) observa que vivemos em uma sociedade de ―homens feitos às pressas‖, cujas relações são orientadas por objetivos em curto prazo, em que predominam a estimulação dos sentidos e as sensações imediatas. Aludindo às constatações de Lipovestsky salienta que estamos na era do hedonismo cool, que em detrimento do hedonismo hot dos anos 1960, e substitui o prazer erótico pela vigilância do corpo, produzindo uma sociedade sem cor, sem vínculos, ou no mínimo marcada pela ausência de traços profundos. (AMARAL, 1995, p.15) Somente por meio da observância
dessas tendências é que poderemos começar a compreender a nova ―classe de jovens‖ mencionadas por autores contemporâneos.
Estudiosos das problemáticas juvenis, Jeammet e Corcos (2005) analisam as condições
de emergência de uma classe de ―jovens‖ e o contexto de seu desenvolvimento atual, como o
fato sociológico e o fato psicopatológico. Esses pesquisadores trabalham em atendimento clínico do Hospital Dia de Paris, e dedicam-se ao atendimento de adolescentes que sofrem do que denominaram ―patologias do agir‖. Estas abrangem desde a toxicomania, o alcoolismo, a dependência de medicamentos, as perturbações alimentares, como a bulimia e anorexia, os cortes na pele e as tentativas de suicídio entre outras. Todas elas, independentemente da estrutura psicopatológica, representam tentativas desesperadas de se dar contornos ou impor um limite corpóreo a uma vida sem limites, sem regras, carregada de contradições e arbitrariedades do ponto de vista moral e psicológico. No entanto, se encontramos nessas condutas extremadas o lado sombrio de alguns jovens, Amaral (2005) nos adverte que esses estudiosos também consideram que há jovens que fazem de sua fragilidade narcísica o motor de uma vida criativa e saudável.
Mesmo assim algo é certo: é necessária uma verdadeira transformação do meio ambiente em que vive o jovem, uma vez que consideram fundamental o tipo de ressonância