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A SOMBRA Coelho Neto

Ao ver-lhe o retrato ilustrando a trágica confissão do crime, amarfanhei o jornal, indignado. “Não! Não era possível! Só se ele houvesse enlouquecido...” Imediatamente resolvi visitá-lo no Quartel da Brigada, onde o haviam recolhido em atenção ao seu título de médico.

Não era possível. Celuta sucumbira a uma septicemia aguda, segundo o diagnóstico dos médicos que a examinaram.

Ao entrar na sala em que se achava Avelar logo o avistei sentado à beira de estreita cama de ferro, em mangas de camisa, fumando, visivelmente acabrunhado.

Ao ver-me fez um gesto de contrariedade como se lhe desagradasse a minha visita. Atirou longe o cigarro e, baixando a cabeça, inclinou-se, com os cotovelos fincados nas coxas. Estendi-lhe a mão. Não respondeu ao meu gesto. Chamei-o. Deu de ombros, mal-humorado.

― Então, o que é isto, Avelar? Que história é essa?

― É isso... ― Levantou a cabeça e encarou-me sobrecenho. A face refranzia- se-lhe em crispações fulgurantes. ― Estás espantado, não? Pois é assim...

Olhou-me de esguelha, sacudindo a perna. Acendeu outro cigarro e pôs-se a fumar. Insisti.

― Mas Avelar... que há de verdade nessa história? ― Não leste a minha confissão? Pois é aquilo. Matei-a. ― Tu!?

― Eu, sim! Eu! E então? Por que havia eu de denunciar-me se estivesse inocente? Por quê? Para quê? Matei-a.

― E por quê? Que razões tiveste para isso...? ― Ah! Razões...

Atirou a cabeça para trás e ficou a olhar perdidamente, com um estranho sorriso no rosto pálido. De repente, levantando-se, plantou-se diante de mim, impôs- me pesadamente as mãos aos ombros e disse-me em voz surda, rouca, voz que lhe saía difícil, como arrancada:

― Suspeita, sabes? O tal micróbio do ciúme. Porque há também micróbios no mundo moral, oh! Se os há! São as tais palavras vagas que nos entram na alma e lá se desenvolvem e proliferam em desconfianças. Foi uma de tais palavras, entendes? E certos risinhos, certos olhares, cochichos... Um dia... Sei lá!

― E como foi?

― Como foi? Pouco a pouco. ― Retesando os braços, repeliu-me de si e, cravando-me olhar que rebrilhava, disse: ― A ciência... uma história! Tudo falha. Nada se pode afirmar, nada! E, queres que te diga? A mais culpada em tudo isso foi a Ciência. Foi ela que me levou ao crime, porque o ciúme... o ciúme... Não havia motivo para ciúme. Celuta era honesta.

― E então?

― Então... eu te digo. Já sabes como a matei, não? ― Envenenada.

― Envenenada? Pois seja. Matei-a com bacilos de tuberculose, esse e outros germes letais. Propinando-lhe as primeiras doses, inoculadas em frutos ― (tratava- se, então, da vingança da minha honra... Pobre Celuta!) esperei as manifestações do mal e... nada! Em vez do deperecimento, dos sinais característicos da ação destrutiva do bacilo de Koch, o que eu via, e todos os apregoavam em louvores, era o reviçamento da vítima; mais robustez, aspecto magnífico, apetite, sono tranqüilos, higidez absoluta. A própria enxaqueca que, de vez em quando, a atormentava, desapareceu. Tu mesmo a felicitaste, uma noite, no Municipal.

― É verdade.

― Pois aí tens o que me desvairou. Não foi o marido o assassino, foi o bacteriologista, o homem de ciência, o prático de laboratório, entendes? O

profissional que não podia compreender que um organismo, frágil como o de Celuta, resistisse ao ataque insistente de tantos vibriões. Era um corpo inçado de elementos mortíferos; cada qual mais violento e nada! Nada! O que então se deu foi horrível. Desanimado da ação dos bacilos de Koch, lancei mão de tudo o que tinha no meu arsenal e... aquele corpo sempre refratário, carne como de Aquiles. Era de enlouquecer! E o pior é que comecei a temê-la, a evitá-la, sabendo, como sabia, que toda ela era um depósito de vírus, que um pouco de sua saliva, do seu suor, do seu sangue, o mais leve contato com o seu corpo poderia transmitir-me a morte. Desconfiando do meu retraimento ela tornou-se mais meiga, mais assídua em carinhos. Horrível! Contemplando-a acordada ― à mesa, na sala, nos teatros, em festas ou adormecida, ao meu lado, no leito, eu não via, a ela, Celuta, não! O que eu via era uma incubadora de morte, uma figura sinistra que encarnava todas as pestes, não lhes sofrendo as conseqüências, como as serpentes não se envenenam com a peçonha que trazem.

“O marido desapareceu ficando apenas o observador apaixonado por uma experiência. E, encerrando-me no meu laboratório horas e horas, dias e dias, eu estudava aquele caso estranho, fenômeno, sem dúvida, mais belo do que a fagocitose, porque era a luta tremenda de germes letais, uma batalha formidável de legiões pestíferas no organismo débil de uma mulher. Um dia, porém, uma de tais hostes venceu... a morte foi rápida. Arrependido, quis intervir, era tarde e a pobrezinha... Aí tens. Os médicos não atinaram, nem poderiam atinar com a causa mortis. Septicemia aguda... é um nome para a cova, posto no rótulo do cadáver. Ninguém poderia saber. Ninguém!”

― Se ninguém poderia saber por que te denunciaste? Por que não ficaste com o teu segredo terrível, tu só?

― Por quê? Por causa da sombra. ― Sombra?!

― Sim. A sombra de Celuta. No dia do enterro, ao voltar do cemitério, notei que, em vez de uma, duas sombras me acompanhavam. Onde quer que eu fosse tinha-as sempre comigo: uma, era a minha; outra, era a da morte. Fiz tudo para livrar-me dela, tudo! Nada consegui. Agora sim...

― Vês? Há aqui apenas uma sombra, a minha, a outra, a de Celuta, desapareceu ontem. Quando entrei na delegacia ela ainda me acompanhava. Subiu comigo, ficou ao meu lado enquanto depus, logo, porém, que assinei a confissão, desapareceu. Não imaginas o horror que é ser um homem seguido por uma sombra que não é a sua, sombra de outro, de um morto. Preso, condenado, perdido para o mundo... que importa! Mas estou só, a minha consciência já se não projeta diante de mim, a sombra de morta deixou-me me paz. Foi melhor assim. Confessei o crime, estou livre. Quantas sombras vês aqui ao sol?

― Uma apenas.

― É isso: uma apenas. A outra, tendo conseguido a minha confissão, recolhe- se ao túmulo, satisfeita. Por que me olhas assim? Julgas-me louco, com certeza. Não, meu amigo. O que te digo é a pura verdade. Os médicos, quando não acertam com as enfermidades, escrevem um nome qualquer na certidão de óbito: septicemia, por exemplo. Assim certas verdades quando ultrapassam os limites do conhecimento são chamadas loucuras. Portas de evasão da inteligência humana. Viste apenas uma sombra ao sol, se me houvesses encontrado ontem terias visto duas... ou talvez não visses porque, enfim, o perseguido era apenas eu É isto...

Haverá juízes que condenem esse pobre louco?

NETO, Coelho. A sombra. In: Org. COSTA, Flávio Moreira. Crime Feito em casa Org.

Os idos de março