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Anúncio está disposto na página de número impar, à página direita, identificada como a parte da frente da folha e que tem um maior impacto visual na interação com o leitor. Em uma única página, o anúncio do perfume Infusion D’Iris (figura 32) lançado no ano de 2007 pela marca italiana de prêt-à-porter Prada, foi publicado edições novembro e dezembro de 2010, maio e dezembro de 2011 da de revista Vogue Brasil.

Figura 32: Anúncio de Infusion D’Iris.

Na topologia do anúncio vemos em primeiro plano o aro prateado com inscrições que formam o brasão de Prada, o mesmo que é colocado no frasco do perfume. Esta organização plástica circunscreve a figura feminina e o perfume no universo da marca. O frasco de perfume parece ter suas dimensões um pouco aumentadas, identificando assim a sua importância ao fazer com que esta mulher se inscreva no universo da marca. A figura feminina está colocada atrás do frasco de perfume, deitada de frente no chão de granito quadriculado em preto e branco; ela se apoia sobre os cotovelos, uma de suas mãos toca seu rosto e a outra toca o frasco, instaurando também pelo toque a ação do perfume. O fundo do anúncio é dado por uma parede branca. O piso de granito e o aro prateado com brasão instauram os temas do luxo, tradição e da sofisticação, e nos remetem a uma espacialização que parecer ser de um palacete milanês, localização dada pela inscrição Milano no brasão. O reconhecer este lugar (um palacete milanês) investe o anúncio de um efeito de sentido de realidade e leva ao crer verdadeiro, como explicam Greimas e Courtés (2011) sobre a sanção cognitiva do reconhecimento interpretativo. Os efeitos desse fazer crer verdadeiro, verossímil como uma “representação mais ou menos conforme a ‘realidade’ sociocultural”, no que concerne ao aspecto sintagmático, gera um encadeamento estereotipado e esperado pelo enunciatário. Disto decorre o caráter veridictório para a avaliação dos discursos narrativos de estilo figurativo, “o discurso verossímil não é apenas uma representação ‘correta’ da realidade sociocultural, mas também um simulacro montado para fazer parecer verdadeiro, e que se prende, por isso, à classe dos discursos persuasivos” (GREIMAS; COURTÉS, 2011, p. 534)

No plano eidético tem-se uma linha vertical que liga o rosto da figura feminina ao frasco do perfume, que orienta a leitura dentro do espaço circunscrito pela marca. Outras verticais se fazem presentes também na escrita do número do SAC e do site do distribuidor, colocados do lado superior direito, além dos braços da modelo e das alças do vestido. As linhas horizontais marcam principalmente o verbal do anúncio. Linhas curvas se fazem presentes no aro prateado que se repete no frasco, na tampa do perfume, nos cabelos e

no corpo da modelo. As figuras circulares e retangulares se opõem na composição instaurando o feminino e o masculino no anúncio (figura 33).

Figura 33: Linhas e formas do anúncio – Infusion D’Iris

Fonte: Traçado desenvolvido pela autora, 2015.

O plano cromático mostra a dominância das cores preto e branco colocadas no piso e no plano verbal. O restante do plano cromático não apresenta grande variação de tonalidades, a pele e os cabelos são claros, assim como o liquido do perfume verde claro que compõe uma organização cromática harmoniosa com o prata. O efeito de sentido criado é de harmonia e requinte que levam em última estância aos valores de luxo e sofisticação, propalados pela marca Prada. O cromatismo dado na iluminação remete ao estado de alma da modelo, que se mostra em conjunção com os valores da marca. Infusion D’Íris é uma fragrância floral verde, presentificada no cromático do próprio líquido do perfume, de fundo amadeirado e persistente que se perpetua no circular do aro que compõe o brasão de Prada.

O plano verbal traz destacado dentro do aro prateado o nome da marca Prada, escrito em branco e em caixa alta. Abaixo e em letras menores aparece Milano, indicando sua cidade de origem, seguido por “dal 1913”, o ano de fundação da marca. A indicação da cidade de Milão, reconhecida como importante centro da moda, unida à referência de que a marca possui mais de cem anos constrói um discurso de tradição e longevidade, bem como institui um enunciador com a autoridade do saber fazer. Reiterando esse fazer discursivo, o aro com o brasão forma a isotopia que faz ver a continuidade, a duração do desempenho de Prada. Assim, o aro que engloba os sujeitos (modelo e perfume) em sua circularidade que se repete, cria a orientação sensível que é simultaneamente apreendida com as orientações cognitivas. Mais abaixo, e

ainda dentro do aro prateado, escrito em preto com uma fonte simples, mas com serifa e em caixa alta está o nome do perfume, INFUSION D’IRIS. O nome Infusion vem de infusão, que parece aquecer e exalar seu aroma pelo ambiente, assim como um como chá extrai pelo calor a essência e o aroma das coisas. D’Iris indica do que esta infusão é feita. Seus aromas são extraídos da flor de Iris, reconhecida na perfumaria como fonte de equilíbrio mental, emocional e espiritual, que é a nota principal da alma do perfume. Mas Íris também é a deusa da mitologia grega18 apontada como mensageira dos deuses para a

humanidade. Ao abordar a relação do título com a pintura, Ana Claudia de Oliveira (2004) afirma que o título circunscreve os limites de abrangência da pintura, no entanto, essa pode ser construída através de metáforas. Edifica a reconstituição verbal do mito, abre-se um diálogo entre esses sistemas. Um referente exterior, o mito verbal, é concebido plasticamente, e entre ele e o referente interno da pintura a interação mantém-se aberta. Estendendo estas considerações para a publicidade e para o perfume, podemos dizer que ao nomear a fragrância como “Infusion D’Iris”, Prada faz uma associação direta do perfume com os valores ligados à deusa grega.

A modelo tem pele, olhos e cabelos claros, sua maquiagem é quase toda do mesmo tom, com exceção dos olhos esfumados que chamam atenção para seu olhar direto e profundo, que nos convoca a interagir com ela. A figura feminina está assim colocada na relação actancial “eu”–“tu”, com o enunciatário posto em um “aqui” e “agora”, em uma aspectualização do durativo. Por seu olhar somos chamados a aderir estesicamente aos sentidos da publicidade, como aponta Landowski: “pela mediação do mesmo olhar, que nós acabamos por aderir estesicamente a um gesto que envolve, em realidade, o sujeito inteiro, como corpo: um corpo que se dá a sentir simultaneamente” (2001, p. 48). Da mesma forma que ela nos olha, ela toca o perfume, como se nos tocasse também, assim o perfume se transforma no equivalente simbólico, metonímico ou metafórico do “Outro”, em última analise, estruturalmente em “a

18

Segundo Barry (2012) Iris é a deusa do arco colorido do céu e mensageira de Hera, representa o lado feminino de Hermes. Era adorada pelos deuses e pelos mortais por sua natureza de bondade. Sempre quando havia uma mensagem para os mortais, Iris tomava a forma humana ou se apresentava como uma mulher alada. Ás vezes cortava o céu com a mesma rapidez que seu marido, Zéfiro, o vento oeste. Outras vezes descia suavemente através do arco-íris que ligava o céu à terra.

nós”, enunciatários inumeráveis. “Com os "sujeitos" e "objetos" caracterizando-se nesse contexto como entidades chamadas a trocar constantemente entre si suas respectivas posições actanciais, o jogo que aqui se joga - o da sedução.” (LANDOWSKI, 2002, p. 135)

O texto visual nos leva a identificar o perfume como sujeito da ação; o tamanho do frasco que parece ampliado (por ser visualmente maior que a versão comercializada, cujo frasco grande do perfume contém 100 ml) lhe confere traços de subjetivação. A posição da modelo deitada no chão junto a ele reitera este efeito de sentido, e por último o toque deixa ver o quanto este contato entre sujeitos é agradável e se torna desejável a quem o olha. Ela toca o frasco suavemente, com a ponta dos dedos, como se lhe fizesse uma carícia em uma relação de sentir recíproco, como explica Landowski (2006), quando afirma que o toque indica a forma como um sujeito se ajusta ou não ao outro.

No anúncio tanto a modelo quanto o enunciatário, ao se olharem rompem seu modo distanciado, e passam a se envolver em um jogo de sedução. Ao mesmo tempo que o sujeito da enunciação atrai sua parceira, ele também assume o papel actancial de objeto de desejo dela. Passa-se então a operar no estatuto do estésico, ao tocar o frasco de perfume ela simula tocar o enunciatário em simulacro de subjetividade (a jovem no anúncio encara o enunciatário). O sentido de desejo é edificado nas insinuações para provocar a libido do outro, pois está implícita no enunciado a presença de um enunciatário a responder o interesse da modelo. A intersubjetividade, instaurada no enunciado, agora se dá no plano da enunciação. Deixa de ser enunciada para tornar-se enunciativa, sendo que para tanto (devido a sua sofisticação) somente um corpo desejante encontra-se figurativizado.

A gestualidade da modelo, com os cabelos estão presos no alto da cabeça em um coque um pouco desalinhado, mostra o pescoço. A posição da mão fechada que toca o rosto deixa em evidencia o pulso, organiza uma forma a expressão corporal que põe em destaque os lugares de se usar e fazer sentir o perfume. Ao se por circundada pelo aro e o brasão de Prada, a figura feminina reitera o fazer de um sujeito que se perfuma com fins simbólicos, a partir da posse e do uso perfume ela se coloca em conjunção com os valores axiologizados pela marca. O luxo, então, considerado como tema principal

desta publicidade, é retirado fortemente pelos traços de expressão acima descritos. O próprio posicionamento e gesticular do corpo apoiado, a leveza da expressão facial (a cor circundante dos olhos e a boca entreaberta), o jogo de contrastes entre claro e escuro, branco e preto, dourado/esverdeado e prateado, a angulação em oposição à circularidade (mais redondo, mais oval, mais arredondado) figurativizam por meio desses traços da expressão a impressão olfativa, que se dissemina e inunda o ambiente, tornando-o luxuosamente agradável ao olfato, sentido recuperado também no agigantamento do frasco diante da modelo.