A comunicação primária é a constituição de uma comunicação a partir da mídia primária que, de acordo com que foi apresentado no capítulo 1, parte do próprio corpo do sujeito que se comunica através de símbolos verbais e não verbais (PROSS e BETH, 1990, p.162). É nessa instância, do corpo que se comunica com o outro, que podemos considerar o início dos relacionamentos interpessoais dos familiares. O pai, a mãe
53 O quadro da bibliografia que serviu como base para essa colocação teve como fonte a Revista Brasileira de
e os filhos começam a se comunicar com o corpo e pelo corpo que traz determinadas formas de linguagem inerentes a ele.
Tudo o que foi apresentado no capítulo 1 vai ao encontro dessa concepção de que a família é um organismo vivo mantido pelos relacionamentos das pessoas inseridas nesse grupo social ao fazer uso da comunicação primária. Ora, o que foi visto sobre a organização hierárquica das famílias pautadas pelo modelo patriarcal nos anos 50 é importante para que compreendamos a forma de organização dessa instituição, mas é ainda mais importante a constatação de que a família é a esfera primeira onde o homem nasce e se desenvolve.
O homem nasce com um arsenal comunicativo que lhe permite se comunicar com os familiares logo nos primeiros dias de vida. No caso dos recém-nascidos, podemos dizer que a comunicação não-verbal, identificada nos comportamentos básicos, também constitui uma forma de comunicação (SPITZ, 1998, p. 15). Sendo assim, é imprescindível a consideração de que a família é a principal instância em que o homem começa a desenvolver suas habilidades comunicativas. Ele é agente e paciente das atividades no cenário comunicacional da família.
“O homem não é uma entidade estanque em relação a essa totalidade complexa: é um sistema aberto, em relação de autonomia/dependência organizadora no seio de um ecossistema”. (MORIN, 1979, p. 31)
Partindo do princípio de que o homem é agente e paciente, um sistema aberto em desenvolvimento, parece ficar mais clara a importância da comunicação primária na relação entre o ser humano e o mundo que o cerca. A comunicação primária estabelecida na família é o principal meio pelo qual os familiares se comunicam entre eles e conseguem, a partir de então, se relacionar com pessoas de diferentes grupos sociais.
Porém, antes de avaliar essa interação do homem com seu entorno, é necessário verificar que a comunicação a nível pessoal parte de um pressuposto básico. Se os familiares têm de se comunicar através do próprio corpo, utilizando a linguagem verbal e não verbal, é imprescindível que esses corpos estejam dividindo uma mesma condição espacial e temporal. O ponto de encontro é a principal maneira que permite cada familiar dividir o mesmo espaço e tempo para fazer parte do grupo.
O ponto de encontro só existe porque as pessoas têm a necessidade de se vincular umas às outras. O estabelecimento de vínculos é o que supre, em certa medida, a necessidade de pertencimento a um determinado grupo social (CYRULNIK, 1995, p. 75). Os vínculos estabelecidos a partir do encontro com o outro são “os alimentos do afeto54”, são laços que indicam as condições de pertencimento do indivíduo e, principalmente, é o que garante nosso lugar no mundo.
“Precisamos de uma enorme quantidade e variedade de vínculos biofisioquímicos para viver, e de uma quantidade e variedade maiores ainda de vínculos sociais para continuarmos vivos; vínculos capazes de nos nutrir, que possam alimentar suficientemente nosso sistema. Esses vínculos, como sabemos, são a matéria-prima de toda a comunicação humana, as veias por onde circulam as informações, e que garantem a sobrevivência do indivíduo e do grupo”. (CONTRERA, 2002, p. 41)
A criação de vínculos, que alimenta o sentimento de pertencimento a uma determinada família, é essencial para que a noção de relacionamento seja renovada no ponto de encontro. O ponto de encontro é um complexo conjunto de fatores que atuam concomitantemente entre o indivíduo e o grupo, uma forma de vinculação presencial no qual a comunicação primária faz a ponte entre os que se comunicam num mesmo tempo e espaço. É como se o ponto de encontro fosse o momento ápice do relacionamento entre os familiares, uma vez que a comunicação primária e os vínculos estabelecidos asseguram o pertencimento do indivíduo a um grupo social.
Retomando a questão do homem e seu entorno, é necessário considerar que a comunicação primária tem o corpo como primeiro e último reduto da experiência humana (CONTRERA, 2002, p. 60). O corpo é o ponto de partida e de chegada da comunicação. Logo, a comunicação primária é o que permite o ponto de encontro, especificamente neste trabalho, da família de modelo patriarcal da elite paulistana nos aos 50. Esse modelo de família partilhou dos pressupostos básicos da comunicação primária, pois verificamos que havia o estabelecimento de vínculos e o sentimento de pertencimento que garante a sobrevivência em um determinado lugar no mundo.
É muito interessante observar o que aconteceu com a comunicação primária nas famílias de modelo patriarcal quando surgiu a televisão nos anos 50. A introdução da televisão na esfera familiar paulistana interferiu no cenário comunicacional e na forma como as pessoas se organizavam no ponto de encontro, já que o aparelho de televisão representa um meio terciário55. A partir do momento em que a família da elite paulistana começou a fazer uso da televisão, identificamos o primeiro aspecto básico dessa modificação no cenário comunicacional.
Se antes os familiares se comunicavam por meio do corpo, e do arsenal referente à mídia primária, com a televisão ficou nítida a interferência do aparelho junto ao processo de comunicação. Nesse ponto, é necessário que observemos a mesma questão sob duas óticas diferentes, porém complementares. A primeira diz respeito ao advento da televisão e à utilização de um suporte físico para a transmissão dos conteúdos exibidos por esse meio. Identificamos que houve a introdução do televisor na casa da família, mas antes disso, é necessário ter como ponto de partida a existência do rádio nesses locais.
Seria ingênuo acreditar que o televisor foi o primeiro meio que exigiu um suporte físico para a transmissão de seus conteúdos, já que o rádio dependia do aparelho de pilha ou conectado à energia elétrica. Isso para não falar dos jornais e revistas56 que, em certa medida, também dependem do suporte das folhas de papel para exibir seus conteúdos. O que acontece é que houve um grande salto do rádio para a televisão, à medida que consideramos o suporte do rádio como um transmissor de som e o aparelho de televisão como um transmissor de som e imagem. Sem um suporte que transmita som e imagem não existe televisão
Foi a televisão, melhor dizendo, foi o aparelho televisor que modificou a maneira como os familiares se organizavam nos ambientes em que se comunicavam. O rádio era colocado nas casas das famílias em locais que nem sempre eram de fácil acesso, como em cima da geladeira, em uma prateleira no alto de uma parede, ou ainda, em um canto da sala. Diferentemente do rádio, a televisão não podia ser colocada em qualquer
55 “Meios terciários” foi a expressão criada por Harry Pross para conceituar os aparelhos “que funcionam
quando emissor e receptor possuem aparatos compatíveis, vinculados entre si por ondas eletromagnéticas” (2000, p. 79).
56 Harry Pross define os meios impressos como secundários. Esse tipo de comunicação pressupõe um corpo
lugar sob o risco dos telespectadores não conseguirem visualizar as imagens, como será visto no próximo item deste capítulo.
O segundo ponto sobre a questão da introdução da televisão na esfera familiar é que os familiares passaram a utilizar como ponto de encontro o momento de assistir à televisão. Mais uma vez, surge a comparação inevitável com o rádio. Sabemos que o rádio era um meio que costumava agregar os ouvintes em torno dos aparelhos. As famílias se reuniam em torno da mesa para jantar57, por exemplo, e depois da refeição ficavam em seus lugares para ouvir as radionovelas.
No caso da TV, a ação da família reunida para aproveitar um momento de lazer no ponto de encontro é uma questão mais complexa. Eram pouquíssimas as famílias que tinham acesso à televisão frente ao grande número de pessoas curiosas para saber do que se tratavam esses aparelhos, como tais suportes funcionavam, quais eram os programas transmitidos, enfim, havia muita gente interessada em ter acesso à televisão. Por isso, o fácil acesso por um grande número de famílias, característico do rádio, mudou com a escassez dos televisores. O núcleo da família de modelo patriarcal da elite, composto por pai, mãe e filhos, foi acrescido de parentes, vizinhos e amigos próximos.
A esfera da família paulistana de modelo patriarcal da elite era regida por uma hierarquia que se mantinha rígida, mas o núcleo formado por pai, mãe e filhos se ampliava quando as pessoas de fora desse grupo iam às casas das famílias para conferir a programação. Por esse motivo, não é possível dizer que a televisão na primeira década de sua implantação tenha sido responsável pelo processo de modificação da estrutura familiar, no sentido de separação dos familiares. Pelo contrário, a introdução da televisão nos lares de pouquíssimas famílias fez com que houvesse agregação.
É muito interessante observar que a televisão na década de 50 atuou como um elemento que trouxe união aos lares das famílias paulistanas. Na verdade, não poderíamos nem dizer que foi uma agregação somente do núcleo da família, uma vez que todos os grupos sociais que circundavam essa esfera, incluindo parentes, vizinhos e amigos, também se achegavam à ela; Essa reunião em torno da TV representou o surgimento dos televizinhos58. A família de modelo patriarcal da elite paulistana legitimou
57 Essa questão foi abordada pelos entrevistados e pode ser encontrada na seção de entrevistas em anexo. 58 O surgimento dos televizinhos também foi citado pela especialista Maria Aparecida Baccega.
seu status de possuir uma televisão, ao mesmo tempo em que dividiu esse benefício com as pessoas mais próximas de seu convívio social.
“Os hábitos de vizinhança, os passeios familiares, as cadeiras na beira da calçada, vão cedendo lugar na paisagem urbana brasileira – destacadamente nas grandes cidades – a novas práticas e sistemas de relacionamento, e nesse contexto a televisão tem papel importante, uma vez que contribui para a atomização, para o enclausuramento das pessoas em suas casas. (...) O televizinho, por exemplo, é uma dessas ‘composições híbridas entre o antigo e o novo59’, que surgem nos anos 50 para desaparecer na década seguinte, quando a aquisição do aparelho receptor é incentivada e facilitada”. (SIMÕES, 1986, p. 27)
Apesar da televisão ter sido responsável pelo agrupamento dos familiares e das pessoas mais próximas, não podemos ficar com a visão de que a proximidade criada a partir desse novo meio de comunicação interferiu somente no aspecto físico. Há muitos outros fatores que se referem ao processo de introdução da televisão na esfera familiar paulistana nos anos 50 e que estão associados à questão da interferência da TV na comunicação primária. A televisão como um aparelho representante da mídia terciária apresentou outros fatores relativos à mudança no tempo e no espaço do cenário da comunicação familiar. Além do que, não podemos simplesmente acreditar que a agregação de pessoas para assistir à TV tenha representado uma criação de vínculos por meio do diálogo característico da comunicação primária.