2. Metode
2.1. Fuktighetskart
Ao retornar à Espanha em 1547, Las Casas mantinha vivo o objetivo de continuar sua luta em defesa dos índios. Na Espanha, estabeleceu relações dialógicas e amistosas com
222 BRUIT, Héctor Hernan. Bartolomé de Las Casas e a Simulação dos Vencidos. Campinas: UNICAMP,
1995, p. 62.
teólogos e juristas da Universidade de Salamanca, com intuito de conseguir apoio na realização de seus trabalhos. Foi nesse período que Las Casas conheceu de perto o
Democrates Alter de Juan Ginés de Sepúlveda, o qual, é claro, não teve nenhuma aceitação
sua. O resultado dessa oposição foi a instauração de um confronto que, além de acadêmico, transformou-se em pessoal. Essa disputa duraria vários anos, tendo seu ponto alto precisamente em 1550 e 1551.
Embora já houvesse sido publicado em Roma, o Democrates Alter causou grande impacto ao chegar à Espanha, a ponto de serem recolhidos os exemplares que se encontravam em circulação; o que se deveu a Las Casas, que, ao analisá-lo, constatou em seu conteúdo elementos inadequados que poderiam continuar legitimando a guerra injusta nas Índias Ocidentais. A obra foi debatida e reprovada pelos teólogos das Universidades de Salamanca e Alcalá na primavera e no verão de 1548, e considerada imprópria para publicação, embora julgassem que continha aspectos positivos224. A proibição desse escrito, pelo rei e pela Igreja, fundamentava-se na política de redução do poder de enriquecimento dos encomienderos que se fortaleciam progressivamente no Novo Mundo por meio da exploração dos nativos e de suas terras. O Rei e a Igreja se opuseram às idéias de Sepúlveda pelo fato de serem favoráveis ao fortalecimento de uma classe que oferecia forte resistência a essas instituições, mesmo estando distante da Metrópole. Na verdade, atribui-se a censura do Democrates Alter ao fato de que o seu conteúdo não se ajustava à ideologia do império, pois que embora intentasse justificar uma realidade que já se havia imposto, nem Estado nem Igreja queriam reconhecê- la225.
Gutiérrez226 registra que a reação de Sepúlveda foi imediata. Em 22 de dezembro de 1548, após receber a correspondência remetida pelo Mestre Melchior Cano, professor da Universidade de Salamanca, comunicando a censura do Democrates Alter. Sepúlveda assinalou sua resposta via carta escrita, tecendo acusações e repetidos desabafos. Esse fato foi determinante para o humanista perceber que Las Casas não era o seu único embate, mas era inegável a existência de outros, cuja residência se encontrava no cenário acadêmico de
224 GUTIÉRREZ, Jorge L. R. Aristóteles em Valladolid. São Paulo: Mackenzie, 2007, p. 103.
225 MIRES, Fernando. La colonización de las almas: misión y conquista em Hispanoamérica. São José: DEI,
1987, p. 131.
Salamanca e de Alcalá. O bombardeio de refutações à obra de Sepúlveda era constante. Em 1549, Dom Antônio Ramirez de Haro, bispo de Segóvia, deão de Málaga e, posteriormente, de Cuenca, como também abade de Arvas e bispo de Oviedo (1537) e de Calahorra (1541), após uma leitura crítica do Democrates Alter, se opôs oficialmente aos seus argumentos.
Como forma de protesto às forças desconstrutoras de sua obra, Sepúlveda se propôs escrever a Apologia pro libro justis belli causis, enviando-a ao seu amigo, o auditor Antonio Agustin, residente em Roma, para ser examinada e em seguida publicada. Em 1º de maio de 1550 ocorreu a publicação da obra conforme desejava o seu autor. Na Espanha, entretanto, os adversários do humanista constataram que o seu conteúdo era o mesmo do Democrates Alter, o que fez com que fosse denunciada ao Rei, que ordenou o recolhimento dos exemplares em circulação. Com insistência, escreveu um sumário do Democrates Alter em espanhol para que se popularizasse o seu pensamento. Era um texto manuscrito, que circulou não só para divulgação de seus argumentos a favor da Conquista, mas para apontar acusações pessoais contra Las Casas.
Juan Ginés, de posse do Confessionário227, escrito por Las Casas em 1545, conseguiu
que não fosse publicado na Espanha como aconteceu com o Democrates Alter. O Consejo Real das Índias não só não permitiu a sua publicação como ordenou o recolhimento de todos os exemplares já em circulação.
Essa hostilidade personificada entre o teórico e o prático incomodou a todos, especialmente ao Rei e ao Conselho das Índias, que decidiram ouvir as exposições de Sepúlveda e Las Casas concernentes à conquista e ao que estavam realizando no Novo Mundo. Em 7 de julho de 1550, Juan Ginés de Sepúlveda e Frei Bartolomé de Las Casas foram convocados para uma audiência pública a fim de que se realizasse um confronto direto sobre suas doutrinas. Outra finalidade do debate era examinar os prós e contras relativos à
227 O Confessionário era um livro composto de doze regras dirigidas aos confessores, que, aprovadas por uma
junta de teólogos, exigia dos penitentes, especialmente dos encomienderos, mercadores, soldados, uma declaração por escrito, ante um escrivão público, condenando a conquista, reconhecendo o roubo e a matança de índios, e, por meio dela, o penitente restituía os bens tirados dos indígenas. O Confessionário determinava ainda que os que não quisessem fazer a restituição, não teriam direito ao sacramento da penitência e não seriam absolvidos. Os protestos veementes dos colonizadores, por meio do Cabildo do México, ante a corte espanhola, resultaram nas Reais Cédulas dirigidas às Reais Audiências de Nova Espanha e Confins, ordenando a retirada de todos os exemplares. BRUIT, Héctor Hernan. Bartolomé de Las Casas e a Simulação
racionalização dos índios, quer dizer, se estes eram mais racionais que os espanhóis, se dispunham de organização política e social, vida religiosa, hábitos, costumes e legislação228. O fórum escolhido foi o Consejo Real de Índias, composto por uma comissão ad hoc de teólogos, juristas e canonistas, na capela do convento de São Gregório229, em Valladolid. Essa reunião ficou conhecida na história como a Controvérsia de Valladolid230.
A Controvérsia de Valladolid ocorreu em duas fases: a primeira aconteceu em agosto e setembro de 1550, quando Sepúlveda teve a oportunidade de argumentar sobre o assunto. A segunda aconteceu em maio de 1551, quando Las Casas, por cinco dias, contra-argumentou às teses do seu oponente. Na primeira sessão, Sepúlveda falou três horas e Las Casas, cinco dias. A exposição de Sepúlveda estava baseada em um texto escrito em latim, resumo apressado do Democrates Alter, intitulado Apologia, que, traduzido em castelhano, continha 44 páginas231.
Por sua vez, Las Casas preparou sua Apologia também em latim, com 253 páginas, que expressava a parte teórica do seu pensamento e da Apologética história de las Indias, tratado etnológico com 257 capítulos e cerca de 800 páginas232.
228 BRUIT, Héctor Hernan. Bartolomé de Las Casas e a Simulação dos Vencidos. Campinas: UNICAMP,
1995, p. 117.
229 JOSAPHAT, Carlos. Las Casas: todos os direitos para todos. São Paulo: Loyola, 2000, p. 147.
230 A comissão ad hoc era formada pelos seguintes personagens: Teólogos Dominicanos: Frei Domingo Soto,
Frei Bartolomé Carranza e Frei Melchor Cano; Teólogo Franciscano: Frei Bernardino de Arévalos; Juristas: Bispo Pedro Ponce de León e Doutor Anaya; Canonistas: Os lincenciados Mercado (do Consejo de Castilha), Pedraza (do Consejo de las Ordenes) e Gasca (do Consejo de la Inquisición). GUTIÉRREZ, Jorge L. R.
Aristóteles em Valladolid. São Paulo: Mackenzie, 2007, p. 118.
231 BRUIT, Héctor Hernan. Bartolomé de Las Casas e a Simulação dos Vencidos. Campinas: UNICAMP,
1995, p. 121.