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5. FINDINGS AND ANALYSIS

5.3 P HYSICAL R ESOURCES

5.3.1 Fuel-Efficient, Modern, Long-Haul Aircraft Fleet

A mais antiga das edições francesas a ser analisada é a de E. T. Simon, da editora Guitel, que em seu longo prefácio apresenta alguns tradutores de Marcial e comentários sobre suas produções. É bastante interessante a advertência que o tradutor e comentador faz, logo no início do texto, sobre os perigos de uma tradução em prosa dos epigramas, atentando para a dificuldade de disfarçar as licenciosidades em uma versão desse tipo.

[...] mas não será o mesmo [o espírito] em uma tradução em prosa: a grosseria da linguagem não será salva por nada, e as imagens obscenas se mostrarão com tudo o que elas têm de revoltante, se o tradutor não tiver a arte de jogar uma ligeira gaze sobre as imagens muito nuas de seu modelo. Substituindo, para os termos próprios que emprega Marcial, as expressões figuradas [...]. (MARTIAL, 1819, p.VIII)

O autor nomeia tradutores de Marcial “Desde o reinado de François I22” (MARCIAL, 1819, p. XXV), detalhe que permite entender

que o poeta latino começa a ganhar espaço naquele país a partir do Renascimento Francês.

[...] nossos poetas geralmente imitavam diversos epigramas de Marcial, e esse exemplo foi seguido por aqueles que escreveram sobre os reinados seguintes, e o é ainda em nossos dias. (MARTIAL, 1819, p.XXV)

Então nos são apresentados os nomes de alguns desses tradutores de Marcial como Clément Marot, Nicolas Rapin, Ronsard, Joachim Du Bellay, Peletier, o Abade de Marolles e muitos outros (MARTIAL, 1819, p.XXV). Mas, segundo o autor, a tradução francesa mais antiga seria atribuída a Hercule Grisel, e foi impressa no meio do século XVI (MARTIAL, 1819, p.XXV-XXVI).

Parece ser unânime a presença da tradução do Abade Marolles nas edições francesas, ao menos o é nas edições analisadas, que não se resumem ao século XIX. Por conta de uma tradução omissa, na maioria dos casos, Marolles recebe críticas bastante negativas, ainda

22 Francisco I (1494-1547), rei da França no período do Renascimento Francês. Seu

reinado permitiu um importante desenvolvimento nas artes e nas letras na França. (http://fr.academic.ru/dic.nsf/frwiki/652363 . Acesso em 23/01/2013).

que receba o mérito de ser a primeira tradução completa dos epigramas de Marcial. O Abade de Marolles publicou sua primeira tradução em prosa em 165823 e a segunda, em verso, em 1671.

Versificação prosaica, expressões baixas e rastejantes, truques obscuros e confusos, construções viciosas, é o que se encontra em cada epigrama da tradução do Abade de Marolles. A variedade que o tradutor acreditava colocar empregando diferentes espécies de versos, não diminui nenhum dos outros defeitos dessa obra, e não exclui uma monotonia muito fatigante. (MARTIAL, 1819, p.XXIX)

Victor Verger também enumera diversas edições de Marcial, mas de publicações em latim, ainda que muitas vezes com notas, sendo a mais antiga a edição de Vindelin de Spire, sem data, mas que apareceu entre 1470 e 1472 (MARTIAL, 1834, p.viij-jx)

Elenca também algumas traduções em outras línguas, além de incluir a tradução de E. T. Simon, outra em 1806 feita por anônimos e a do Abade de Marolles, sobre a qual declara:

Existem muitas traduções francesas de Marcial. O Abade de Marolles, por sua parte, publicou duas; uma em prosa, 1655, 2 vol. in-8º; outra em versos, 1675, in-4º. Esta última sobretudo é tão ruim, que Ménage a chamava de: Os epigramas contra Marcial. (MARTIAL, 1834, p.jx)

Sobre a história da tradução de Marcial no contexto francês é fundamental o artigo de Pierre Laurens “Traduire Martial”, em que apresenta diversos tradutores de Marcial, do século XVII até o século XX. Laurens atenta, em especial, para o fato de que as traduções de

epigramas muitas vezes se resumem à paráfrase ou somente traduzem o conteúdo intelectual do epigrama, desconsiderando a densidade poética característica do gênero (LAURENS, 1998, p.200). É ao tratar da lasciva verborum veritas (“verdade lasciva das palavras”) que Laurens nos apresenta o Abade de Marolles como um tradutor que frequentemente “pula” epigramas licenciosos, justificando: “este epigrama de oito versos é o vigésimo primeiro impossível de traduzir” ou “este infame epigrama de seis versos é o vigésimo segundo que não saberei explicar” (LAURENS, 1998, p.200). Outra solução que Marolles encontra para resolver seus problemas com a licenciosidade dos epigramas de Marcial é a paráfrase:

versiculi...non possunt sine mentula placere, “os versos

licenciosos sem pênis não são aprazíveis”, Marolles traduz: “sem ter um não sei o que que lhes faz amar” e acrescenta em nota: “Sem nada de lascivo. A palavra em latim é pior do que esta”. (LAURENS, 1998, p.201)

Em sua análise e comparação das diversas traduções apresentadas do epigrama IV, 32 (que versa sobre uma abelha presa em uma gota de seiva), o professor francês conclui, assim como E. T. Simon, que as traduções em verso do epigrama são as melhores, ainda que suas razões sejam outras. Simon defende o epigrama traduzido em verso porque dessa maneira são maiores as possibilidades de se enfeitar e diminuir sua licenciosidade. Já Laurens defende exatamente o ponto oposto, acredita que o epigrama

traduzido em verso seja menos infiel, porque o verso é capaz de preservar a vis epigrammatica. (LAURENS, 1998, p.203).

A principal crítica de Laurens é ao que chama de expansion explicative, ou seja, a tradução que explica, que informa. Ainda que esse tipo de tradução não ocorra somente no epigrama, essa “expansão explicativa” acaba por excluir a densidade poética, uma das principais características da poesia.

[...] o método denunciado aqui [...] é o da aplicação geral. De fato é a cada página que constatamos as devastações ocasionadas por esse mito da tradução precisa, quer dizer que especifica, sem respeitar as restrições espaciais pelo brilho, desenvolvimento, explicação, dilatação. (LAURENS, 1998, p.204)

A primeira consequência dessa expansão explicativa é uma leitura reduzida; seja com a perda da densidade poética, das conotações, das ambiguidades, da polissemia, aura poética. (LAURENS, 1998, p.205)

Entre as outras consequências da expansão explicativa está a “perda do mistério”, uma vez que esse tipo de tradução, ao explicar, clarifica o que no epigrama latino está somente sugerido, substituindo a alusão pela banalização (LAURENS, 1998, p.205).

Enquanto Verger somente cita as edições francesas de Marcial, tecendo uma pequena crítica ao Abade Marolles, E. T. Simon defende uma tradução em verso, além de se aprofundar na discussão de algumas traduções. Já Pierre Laurens, em seu artigo de 1998, examina e discute a tradução em Marcial, ou seja, a tradução do epigrama, apresentando em suas comparações, argumentos para a preservação, em especial, da vis epigrammatica, composta da

“brevidade, da facilidade e da agudeza” (LAURENS, 1998, p.207). Afirmando que, para a tradução do epigrama, é necessário encontrar:

a ligação [...] entre brevidade e facilidade, lembrando que a facilidade na dicção, que deveria ser uma qualidade de toda a tradução, torna-se a regra absoluta no epigrama. (LAURENS, 1998, p.208)

A aproximação de Castilho José e as traduções oitocentistas de E. T. Simon e Verger será apresentada em comparação no item 2.3, “A tradução da licenciosidade”, no segundo capítulo, da qual se pode adiantar que o tradutor português adota dos franceses a maneira de traduzir, ou seja, adota a tradução em verso, como indicada por E. T. Simon, ainda que este não a realize metrificada, e adota a utilização da “gaze” (MARTIAL, 1819, p.VIII), utilizada para que os epigramas mais licenciosos de Marcial pudessem ser traduzidos, publicados e lidos no contexto de recepção do século XIX, como será apresentado no item em questão.