• No results found

Frivillig sektors rolle i boligsosialt arbeid

2.  Ulike forståelser av frivillighet innenfor boligsosialt arbeid

2.3.  Frivillig sektors rolle i boligsosialt arbeid

escolarização

A análise dos dados coletados se deu em duas etapas. Na primeira, estudamos os documentos e selecionamos as crianças, na segunda, analisamos as entrevistas com os professores e as famílias. Dessa forma, para ambas as etapas, nos embasamos nas considerações de Bardin (1977) sobre a análise de conteúdo. Na primeira etapa, realizamos uma pré-análise das informações, com o objetivo de organizar os dados. Assim, tivemos, como base, a “leitura flutuante” (BARDIN, 1977, p. 96) e procuramos deixar o material (resultados e relatórios bimestrais) “invadir” as impressões e orientações do pesquisador. A “regra da homogeneidade” contribuiu para a seleção das crianças e permitiu uma análise dos seus resultados escolares obedecendo a critérios precisos de escolha (alto desempenho, baixo desempenho e situações de reforço escolar). Na segunda etapa, a análise das entrevistas, novamente recorremos à “leitura flutuante” e também à formulação de hipóteses que permitiu “interrogarmos” (BARDIN, 1977, p. 98).

Para a transcrição das entrevistas expostas nesse trabalho, procuramos nos embasar em algumas considerações de Whitaker (2002) sobre a transcrição da fala do homem rural. Para o autor, o discurso do informante deve ser respeitado e isso implica em reproduzir os erros de concordância ou regência de verbos. Ela ainda acrescenta que “transcrever erros de sintaxe não configura, portanto, falta de respeito em relação à fala do outro. Falta de respeito seria

99 corrigi-los” (WHITAKER, 2002, p. 116). Dessa maneira, esse estudo considera crucial escrever de maneira correta o léxico.

Retomando a contribuição de Bardin (1977), adotamos o critério da categorização, ou seja, a classificação dos resultados obtidos em agrupamentos segundo o tema ou o gênero. Dessa forma, encontramos as seguintes categorias: a) dinâmica familiar, que engloba: (a.1) os arranjos familiares e os modos de funcionamento das famílias, as maneiras como as famílias de Esmeralda são formadas e se organizam em relação às tarefas domésticas; (a.2) a presença das mulheres no cuidado com as crianças, uma vez que a presença das mães, avós e tias foi predominante nessa pesquisa; (a.3) relações de autoridade e formas de controle, ao discutir uma forma de criação dos filhos mais ou menos sistemática, bem como o “evitamento” do contato com “o diferente de si”; b) quanto ao cotidiano das famílias analisaremos: (b.1) a vivência cotidiana no subdistrito, sobretudo o cuidado com a terra, destacando uma peculiaridade das famílias rurais pesquisadas, o cultivo da terra, que esteve presente em todas as famílias pesquisadas; (b.2) as crianças que frequentam a escola em tempo integral e a rotina dessas crianças quando chegam da escola; (b.3) o que fazem as crianças no tempo livre, as atividades de lazer das famílias, mencionando os hábitos das crianças quando não estão na escola, o que costumam fazer para se divertir; c) rede de relacionamentos das famílias, discutindo o capital social, o círculo de amizade das famílias de Esmeraldas, englobando: (c.1) modos de convivência e sociabilidade das famílias, discutindo como se dá a interação das famílias com o povoado e os hábitos de socialização praticados por essas famílias; (c.2) a relação das famílias com o local de moradia e com a cidade, ao apresentar como as famílias utilizam os espaços da comunidade e como acontece o contato com a cidade; d) a vida escolar da prole e o acompanhamento das famílias, destacando as disposições das famílias em relação a escolarização das crianças, analisando: (d.1) o desempenho escolar na ótica das famílias e dos professores, detalhando o que a família e a escola pensam sobre o desempenho de cada criança selecionada nessa pesquisa; (d.2) modos de acompanhamento familiar da escolarização, refletindo sobre as práticas educativas dessas famílias; (d.3) relação com a escrita e a leitura, para analisar como é a relação das famílias e, consequentemente, das crianças, com a leitura e escrita; (d.5) formas de interação das famílias com a escola e com os professores, descrevendo como as duas instituições socializadoras se relacionam na realidade investigada; e) expectativas escolares: sucesso e fracasso na representação de pais e professores; englobando: (e.1) o que as famílias pensam da escola e o que os professores pensam das famílias, apresentando, principalmente, a relação de satisfação e insatisfação das famílias com a escola; (e.2) representações dos professores e das famílias sobre a criança e

100 sobre a escolarização, discutindo sobre cada criança selecionada; (e.3)expectativas de futuro da família e dos professores sobre a criança, analisando as baixas e altas expectativas.

3.2.1 Dinâmicas familiares

Considerando os estudos de Kellerhals e Montandon (1991), Lahire (2007), Nogueira (2005), Portes (1993) e Viana (1998), é possível afirmar que o desempenho escolar pode ser fortemente influenciado por fatores internos à dinâmica de funcionamento das famílias. Dessa forma, buscaremos analisar as dinâmicas e práticas educativas das famílias de Esmeraldas pesquisadas, considerando a especificidade de cada uma delas e buscando indícios que relacionam o desempenho escolar aos elementos internos das dinâmicas familiares, tais como o funcionamento do cotidiano das famílias, os estilos de criação dos filhos e aos modos de exercício da autoridade.

Nesse sentido, a partir de Nogueira (2005) e dos pressupostos teóricos discutidos no Capítulo 1, buscamos analisar as dinâmicas das famílias rurais de Esmeraldas com o objetivo de perceber algumas características das famílias educógenas, ou seja, aquelas que propiciam aos filhos um ambiente mais propício à construção de disposições que são valorizadas pela escola. Dessa forma, analisaremos, nesta seção, os arranjos familiares e os modos de funcionamento das famílias, a presença das mulheres no cuidado com as crianças e as relações de autoridade e formas de controle.

3.2.1.1 Os arranjos familiares e os modos de funcionamento das famílias

Das oito grupos familiares49 pesquisados, quatro são famílias biparentais: Família 2 (Elisa), Família 4 (Daniel), Família 6 (Joaquim) e Família 7 (Natália). Das demais famílias investigadas, três configuram-se como monoparentais: Família 1 (Anderson e Valentim), Família 3 (Érica) e Família 5 (Diogo), ou seja, um dos pais arca com a responsabilidade de

49 Para identificar as famílias pesquisadas optou-se por nomeá-las de acordo com a numeração apresentada no

Quadro 1 acrescida do nome fictício das crianças. Exemplo: Família 1 (Anderson e Valentin); Família 2 (Elisa), e assim por diante.

101 criar o filho. No caso da Família 3 (Érica), o responsável é o pai. Nas Famílias 1 (Anderson/Valentim) e 5 (Diogo), a responsável é a mãe. Por fim, na Família 8 (Bianca e Rodrigo), as duas crianças, que são primas, são criadas pelos avós.

Nas quatro famílias biparentais, os pais trabalham fora das residências enquanto as mães exercem atividades dentro das casas, sendo que, em duas delas, Família 2 (Daniel) e Família 4 (Elisa), as mães trabalham também em outras atividades externas. A mãe de Daniel é varredora de ruas pelo Programa Renda Mínima da Prefeitura Municipal de Mariana50 e a mãe de Elisa é agente comunitária de saúde. Em todas as famílias biparentais, a mulher é quem fica responsável pelas atividades domésticas e pelo cuidado com os filhos, em alguns casos, elas obtêm ajuda dos companheiros. Foi observado que, em três das quatro famílias biparentais (Famílias 2, 4 e 6), os homens ajudam nas atividades domésticas, sobretudo aos finais de semana, como podemos comprovar por meio do relato da mãe do estudante Daniel: “Tudo eu. Mas ele ajuda bastante. Quando ele pode, ele ajuda. No fim de semana é que gosta de ajudar” (grifo meu).

O relato da Família 2 também detalha bem a distribuição das tarefas domésticas na sua residência no final de semana, e indica que, no decorrer da semana, todas as tarefas permanecem sob responsabilidade da mãe:

Durante semana não dá porque é muito corrido, mas, no final de semana, ele vai, por exemplo, lavar o banheiro, eu já pego a cozinha e ele já fica tomando conta do [filho mais novo, alguns meses de idade] porque [o referido filho] já está andando então não tem como descuidar dele não. Ele mexe em tudo, sobe em tudo, e... É dividido, assim, cada um faz um pouquinho, à noite, para dormir, a gente reveza porque, até que [o filho mais novo] não dá trabalho, não. Ele dorme a noite toda, só acorda uma vez para tomar mamadeira, aí, essa hora, é o pai mesmo que dá, para dormir é o pai que põe para dormir, só dorme com pai, e [Elisa] também é tranquila, dorme a noite inteira, não dá trabalho nenhum... Só para comer mesmo que ela dá... (Mãe da estudante Elisa).

Na Família 7 (Natália), que também pertence ao grupo das famílias biparentais, é a mãe da Natália quem realiza as atividades domésticas. Da mesma forma acontece na Família 8 (Bianca e Rodrigo), que destacou a avó das crianças quando questionada pela pesquisadora sobre quem realizava as atividades do lar: “Essas coisas... Isso aí eu faço. Eu faço tudo sozinha”.

50 Programa da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social e Cidadania da Prefeitura de Mariana-MG, que

se destina a oferecer qualificação e geração de renda alternativa às mulheres chefes de família em situação de vulnerabilidade social. As informações sobre o programa podem ser acessadas no site da Prefeitura Municipal de Mariana, disponível em: <http://www.pmmariana.com.br>.

102 No tocante à participação das crianças nos serviços domésticos, em todas as famílias foram mencionados momentos em que as crianças colaboravam com as atividades, porém isso não nos pareceu fazer parte da rotina da casa, porque elas realizavam as tarefas apenas quando se sentiam à vontade para fazê-las. Nas entrevistas realizadas, compreendeu-se que as famílias não possuem um tipo de funcionamento em que as crianças possuem uma rotina para realizar esses serviços (isso nos pareceu nítido tanto para a realização das tarefas domésticas quanto escolares), sendo que elas colaboram somente quando manifestam interesse. Para exemplificar, quando foi perguntado se as crianças ajudavam a secar os talheres todos os dias, a avó de Bianca e Rodrigo (Família 8) justificou: “Tem dias que eles chegam meio desanimados da escola e eu mesma faço” (Família 8).

Foi observado também que, em três famílias monoparentais (Família 1, 3 e 5), há um modo de organização em que outros membros da família extensiva, que podem morar na mesma casa ou não, colaboram para o cuidado com as crianças. Isso acontece tanto para suprir as necessidades básicas da criança, como higiene e alimentação, quanto para auxiliar no acompanhamento da escolarização dessas crianças.

Na Família 1 (Anderson e Valentim), além da filha mais velha que fica responsável pelas tarefas domésticas, há também outras duas filhas que ajudam no cuidado com os irmãos mais novos. Além disso, foi relatado, pela mãe, que Valentim costuma passar o dia e algumas noites na casa do avô51.

No caso da Família 3 (Érica), o pai de Érica conta com ajuda da avó e de uma tia da criança para o cuidado com a filha. Durante a entrevista, o progenitor relatou que costuma se “revezar” com a irmã para buscar a filha na escola. Com relação aos outros cuidados, ele destacou que quem está mais perto da Érica é quem a ajuda. Desse modo, os membros da família extensiva parecem contribuir tanto com os cuidados básicos quanto com a educação da criança, conforme indicou o relato do pai.

No que diz respeito à Família 5 (Diogo), a mãe é uma senhora de 75 anos que, conforme indicaram os dados coletados, também recebe apoio de outros membros da família. Durante a entrevista, foi relatada a ajuda de uma filha solteira52 que mora na mesma casa que as crianças e também o apoio de uma nora e de outra filha casada que, apesar de morarem em outras casas, conseguem auxiliar no cuidado com a criança devido à proximidade entre as

51 Mencionamos o avô como grau de parentesco do Anderson e Valentim, mas é importante destacar que a

família considera tal parentesco, pois a avó, já falecida, era casada com esse homem.

52 O apoio dessa filha solteira pareceu-nos ser um pouco conflituoso, pois, no momento da entrevista em que a

mãe contava à pesquisadora os serviços que essa filha realizava, ela se mostrou insatisfeita e começou a interferir na fala da mãe de outro cômodo da casa e de maneira bastante grosseira.

103 residências. A nora e a filha casada acompanham a criança no seu processo de escolarização, tanto que as duas estavam presentes no momento da entrevista e ajudaram a responder as perguntas feitas pela pesquisadora.

Em referência à divisão das tarefas domésticas, assim como no grupo das famílias biparentais, nas famílias monoparentais investigadas, as mulheres são quem regularmente realizam as atividades domésticas. Mesmo no caso em que o cuidador é o pai, este solicita a ajuda de outras mulheres da família extensiva (mãe e irmãs). Esse aspecto pode ser confirmado, por meio do relato do pai de Érica, que mencionou ajudar nas atividades domésticas quando as mulheres da família não estão presentes no lar:

Assim... Na parte do almoço, é só minha mãe. Minha mãe é quem faz. A não ser no dia que ela não está, aí minha irmã ajuda. Hoje mesmo ela não está aqui, aí minha irmã faz. Se precisar que eu fazer também, eu faço, mas, mais mesmo, é minha mãe e minha irmã (Pai da estudante Érica).

Acreditamos que o fato da divisão das tarefas domésticas sempre recair sobre as mulheres, mesmo quando a responsabilidade legal pela criança é do pai, pode ser explicada pela persistência de um modelo tradicional de divisão das atividades do lar, aspecto que pode trazer algumas consequências objetivas e subjetivas para as crianças.

Tendo como base os estudos de Senkevics e Carvalho (2015), é importante considerarmos que essa “divisão” das tarefas do lar, realizada pelos adultos, pode interferir nas atribuições das meninas e meninos nas casas. Não podemos estabelecer uma relação linear entre a participação nas atividades do lar e o desempenho escolar, mas acreditamos que “há um conjunto de práticas a partir das quais masculinidades e feminilidades são construídas, fornecendo referenciais distintos para se aproximar ou se distanciar do processo de escolarização” (SENKEVICS; CARVALHO, 2015, p. 23).

No entanto, apesar de discutirmos essa hipótese de análise, nosso estudo não nos fornece dados suficientes para afirmar tais práticas, pois, apesar de termos notado uma participação mais voluntária das crianças, tanto do sexo feminino quanto do sexo masculino, nas atividades domésticas, não identificamos em profundidade como ela acontece.

No tocante ao número de filhos e com exceção de duas famílias pesquisadas, Família 1 (Anderson e Valentin) e Família 5 (Diogo), todas as outras possuem até dois filhos. Sobre isso, cabe destacar que, nas famílias pesquisadas por Pereira (2005)53, foi encontrada uma quantidade numerosa de filhos. Já nos estudos de Portes et al. (2012) foi constatada a média

104 de 2,24 filhos por família. É importante considerarmos que muitas famílias pesquisadas são relativamente jovens, o que indica uma possibilidade de aumentar o número de filhos no futuro.

3.2.1.2 A presença das mulheres no cuidado com as crianças

Assim como a presença das mulheres na realização das atividades domésticas pode ser destacada, a assistência delas no cuidado com as crianças também é uma questão que merece ser discutida de forma mais aprofundada. Dessa maneira, parece haver certa disposição, no sentido bourdieusiano, das mulheres das famílias pesquisadas para o acompanhamento educativo das crianças. As informantes mulheres, que são também quase totalidade na realização desse estudo, são as familiares que estão efetivamente envolvidas nas atividades educativas, de um modo geral e especial, nas atividades escolares das crianças. Elas participam das reuniões na escola, conversam com os funcionários e, muitas vezes, levam e buscam os filhos na escola. Mesmo quando o pai está presente, normalmente isso é feito com o acompanhamento também da mãe. Raramente o pai é o responsável pela vida escolar da criança. Até mesmo na Família 3, em que o pai é quem possui a guarda da filha, a presença de uma tia da criança nos parece equivalente à presença desse pai no cuidado com a Érica.

A constatação da mãe como protagonista no acompanhamento da vida escolar dos filhos foi apresentada nas pesquisas de Van-Zanten (1996), Charlot e Rochex (1996), Bounoure (1995) e Nogueira (2011b), assim como também nos estudos de Portes et al. (2012), que investigaram as famílias do meio rural. Este último estudo apresenta resultados e análises que nos ajudaram na compreensão dos nossos dados. Acreditamos que, assim como na pesquisa de Portes et al. (2012), a presença das mulheres rurais no cuidado com as crianças dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental acontece porque elas estão sempre mais próximas fisicamente da escola. Sobre isso, é importante destacar que a maioria das famílias pesquisadas reside em aglomerados de casas mais próximos da escola. Apenas as Famílias 1 (Anderson e Valentim) e 5 (Diogo) moram em lugares mais distantes da escola. A relação com o tempo e o espaço no meio rural também pode explicar a participação efetiva das mulheres na vida escolar das crianças. A sensação de que o tempo demora a passar pode levar as mulheres a participarem mais dos eventos da escola e da igreja e a construírem uma rede de relações com os demais moradores do povoado. O fato da maioria das mães da nossa pesquisa

105 exercer atividades dentro das casas e, por isso, ter mais contato com as crianças também pode explicar esse acompanhamento mais pontual na escolarização dos filhos.

3.2.1.3 As relações de autoridade e formas de controle

Conforme os estudos de Lahire (2007), é importante analisarmos as relações de autoridade nas famílias, principalmente quando a pesquisa investiga as crianças que frequentam os Anos Iniciais do Ensino Fundamental, pois, nesse segmento, as regras da escola podem ir na contramão do regime disciplinar das famílias. Como analisamos na seção 1.2.1.1, O mito da omissão parental, sobre o efeito Pigmaleão, acreditamos que os comportamentos das crianças podem produzir implicações para o processo de avaliação dos professores e, consequentemente, para o desempenho escolar.

Nessa perspectiva, ao que se refere às relações de autoridade nas três famílias monoparentais pesquisadas, ela é exercida pelas duas mães e também pelo pai, com apoio dos membros das famílias. Nas Famílias 3 (Érica) e 5 (Diogo), a autoridade é compartilhada com as pessoas que moram na casa, conforme afirmou o pai de Érica: “Qualquer um que... dos meus irmãos, minha irmã, minha mãe, que vê que ela tá fazendo algo que não pode. Qualquer um. Eles têm esse direito de corrigir, na hora certa”. Na Família 1 (Anderson e Valentim), as ordens são passadas, primeiro, pela mãe da criança, mas, na ausência dela, a autoridade passa para outro membro da família. No caso do Anderson e Valentim, conforme informado pela mãe, a autoridade é passada para a filha mais velha: “Eu e [a filha mais velha]. Se eu sair, aí eu posso deixar com ela que ela resolve. Se tiver que colocar pra escola, ela resolve. Ela também dá ordem”. Nas Famílias 2 (Elisa) e 6 (Joaquim), biparentais, a autoridade também é compartilhada e as crianças seguem as ordens tanto do pai quanto da mãe. Quando uma decisão deve ser tomada ou alguma permissão deve ser concedida, Joaquim e Elisa procuram tanto o pai quanto a mãe para isso.

Nas Famílias 7 (Natália) e 8 (Bianca e Rodrigo), as informantes declararam que chegam a dar as ordens, mas que a autoridade é do homem, ou seja, do pai de Natália e do avô de Bianca e Rodrigo. Segundo as entrevistas, quando há algum problema na relação com as crianças, as mulheres falam e insistem, mas os conflitos são resolvidos mediante a autoridade masculina. Por outro lado, na Família 4 (Daniel), a mãe admitiu que é ela quem dá as ordens e

106 é respeitada. Ela justifica tal fato pela ausência do marido na rotina da criança durante a semana. Assim, ao ser perguntada sobre quem exerce a autoridade e a quem a criança obedece, a mãe informou:

A mãe. Respeita o pai também, o que o pai fala, mas o pai é mais... Como ele fica o dia inteiro fora, o tempo que ele fica com as crianças, ele quer brincar, ele quer tá com os filhos dele. Tem momentos que já é... na hora de chamar atenção é chamar atenção. Mas aí o pai também chama. Agora eu sou... eu sou um pouco chata (Mãe do estudante Daniel).

Com relação às formas de controle no âmbito familiar, dividimos as crianças em dois grupos. No Grupo 1, estão as Famílias 2 (Elisa) e 8 (Bianca e Rodrigo), que possuem uma criação mais rígida e cujos familiares nitidamente declararam exercer algum tipo de controle, sendo ele mais explícito e sistemático sobre a criança. No Grupo 2, estão as Famílias 1 (Anderson e Valentin), 3 (Érica), 5 (Diogo) e 6 (Joaquim), que possuem uma rotina menos sistemática em que o controle sobre o tempo e as atividades diárias é menos sistemático. Mesmo assim, destacamos que em todas essas famílias percebemos a existência de algum tipo de controle, mesmo que menor e menos intenso que nas famílias do Grupo 1.

Tratando-se o Grupo 1, as famílias relataram que controlam os horários das crianças, sobretudo os de brincar, assistir televisão, tomar banho e jantar. A definição dos horários para os estudos aparece de forma menos sistemática, o que pode ser explicado pelo fato da maioria