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1. Innledende tanker og problemstilling

7.3 Fremoverblikk

Voltando, agora, para a história de vida de Lucas, percebemos em seu depoimento, a necessidade de construir algo mais colado com a necessidade que se ia tendo, no fazer do trabalho social; algo que pudesse ir evoluindo, a partir das vulnerabilidades encontradas:

LUCAS: [...] Eu achava que os espíritos trabalhavam e trabalhavam ao longo da semana também, e a gente trabalhava e podia trabalhar mais. Podia estar fazendo ações que os espíritos não faziam. Que não poderiam fazer e que a gente poderia estar fazendo. No meu entender, isso nascia de um certo comodismo dos espíritas. E aí eu avaliava que os espíritas viviam de visitas a instituições formadas. Instituições como (eu fazia parte) o Lar Torres de Melo. Aí os espíritas se reuniam para visitar o Torres de Melo, visitas ao leprosário Antônio Diogo e Maracanaú... Os espíritas se reuniam para visitar. Eu disse: “Meu Deus, esses espíritas não constroem instituições?” Eles visitam só as instituições dos outros (risos). Isso me incomodava, porque eu via que no passado, os espíritas, aqui, tiveram a coragem de levantar instituições que também se inserissem no contexto social, como: Lar Antônio de Pádua; tivemos a experiência com hospitais psiquiátricos... O “Nosso Lar” era um hospital espírita. Apesar de, em algumas dessas instituições, a prática espírita não estar inserida, ter nome de espírita, mas usar a mesma metodologia, formal, comum... Algumas instituições não conseguiram avançar... Mas eram instituições criadas por espíritas. E de um tempo para cá a gente deu uma pausa. Nós ficamos visitando instituições dos outros: da Igreja Católica, coordenada pela Igreja Católica, núcleos de tratamento, e etc. E os espíritas não criavam instituições. Criaram uma metodologia de estimular a fraternidade, através da visita: visita a presídios, visita a isso, visita àquilo, que tem o seu grau de importância, mas não arregaçavam a manga para criar instituições, para dar respostas a alguns conflitos sociais. Algumas vulnerabilidades em que o pensamento espírita poderia se inserir.

A singularidade da constituição da Casa mostrava que a solidariedade poderia unir a diversidade e a crítica em contextos de construção mais propositivos:

LUCAS: Então, quando a Casa da Sopa também vai se constituir, quase que a força, porque existia... Nós estávamos numa casa, mas nós não fazíamos parte daquela casa. A gente se reunia na União Espírita Cearense. Mas nós não fazíamos parte, digamos assim, da União Espírita Cearense. A União Espírita tinha um conflito com a Comunhão, a antiga Comunhão Espírita Cearense. Então, hoje, é interessante falar disso, porque a Casa da Sopa surge dentro desse contexto. [...] A Casa da Sopa surge dentro de um contexto de uma cisão entre duas grandes instituições aonde ela conseguia agregar membros das duas instituições. Ela agregava pessoas da União Espírita e agregava pessoas da Comunhão Espírita ao mesmo tempo. E do João Evangelista, do Paulo Estevão, não sei de onde. Então, todo mundo se reunia em torno da Casa da Sopa. E aí a Casa da Sopa surge dentro desse contexto. A meu ver, demonstrando que a preocupação com a fraternidade, com a caridade, ela rompia várias outras barreiras que foram criadas. Em torno

desse foco do amparo ao outro, as pessoas eram capazes de vencer os seus preconceitos, os seus medos. E isso para nós foi interessante... Elas se agregavam em torno de um ideal solidário. E ela nasce assim.

A ideia de institucionalização é discutida nos marcos de um trabalho espírita com contornos nitidamente sociais, de transformação da exclusão e da invisibilidade do sofrimento pessoal e social do que hoje chamamos sujeito em situação de rua. Via-se que havia o trabalho da noite, intenso, aglutinador, onde o contato relacional com o sujeito das ruas se dava à noite, em seus lugares nômades, em sua cama de plástico ou de papelão, em sua solidão noturna ou acompanhada de uns tantos em torno de uma lâmpada de praça ou esquina do centro da cidade. O desafio permanecia sempre: institucionalizar para atender à complexidade das necessidades das tarefas junto ao sujeito em situação de rua, mas não perder a produção de saber que era já presente e o trabalho na rua. Vejamos como as histórias de vida de Lucas e Abigail encontram-se, neste ponto, dialogando entre si:

ABIGAIL: A gente passava a noite toda nas ruas com as pessoas e conversando, que a conversa era fundamental. Dava a sopa e sentava, tocava, cantava. E em praças. Saneando as praças no sentido que realmente a gente criava um clima novo, de alegria; tava todo mundo triste, um que queria morrer, a gente levava o cara que estava em coma, acudia, a gente cantava... Então, as pessoas que vinham de outras Casas, elas queriam aquele trabalho. Não queriam fazer uma instituição.

LUCAS: Como ainda hoje. Tem pessoas que só querem viver a experiência da rua e eles não querem se engajar nos trabalhos que temos ao longo do dia. Ele quer viver a experiência da rua. Então, isso também foi um obstáculo, é bom lembrar. E a gente discutia isso. Ou a gente dava mais tempo ou a gente só dava... Ou a instituição não cresceria. A gente só tava dando migalha, eu brincava assim, que a gente só dava o tempo que sobrava... Então nós estávamos engajados em várias instituições. O tempo que nos sobrava, a gente dava para a Casa da Sopa.

Então, houve uma evolução, em parte, que ia acompanhando as necessidades das ruas. Como diz Abigail:

Havia o trabalho da rua, que se complexificava e havia a necessidade de um lugar para sediar o grupo e atender às novas demandas das tarefas. Em especial, sentia-se a necessidade de se atuar com grupos, e nas ruas isso ficava difícil. O trabalho das ruas era acentuadamente uma primeira intervenção amorosa, fraterna, onde o amparo espiritual parecia-nos um primeiro chamado. Tanto é que se remetia o grupo que se tentava fazer com os moradores de rua, para centros espíritas e, mesmo, para um local do Teatro José de Alencar, onde, por um certo tempo, a gente funcionou fazendo um grupo dessa natureza, capaz de lidar com a grupalização do sujeito em situação de rua.

A Casa foi se concretizando. O trabalho da rua precisou formar grupos – criaram-se grupos de autoconhecimento, espécie de sócio-drama, onde as pessoas se grupalizavam, falavam de si mesmas e construíam vínculos. A ideia, como diz Abigail, era “reconstruir a amorosidade grupal que a violência das ruas desconstrói”. Vejamos como a Casa é falada, nesse tempo:

LUCAS: Mas aí foi também uma trajetória. A gente alugou a casa. Criamos o Grupo Espírita Casa da Sopa, mas ainda não trabalhávamos com a população de rua em nossa casa. Era um espaço nosso para reunião, para fazer a sopa e fazer as nossas ações ainda na rua. Então nós passamos muito tempo com a casa alugada e sem nenhuma atividade com a população de rua na casa que nós estávamos alugando. Porque algumas pessoas temiam juntar pessoas de núcleos, na rua, diferentes, que vinham dos seus territórios e temia-se que eles pudessem, dentro da Casa da Sopa, gerar algum tipo de conflito. Brigar na Casa da Sopa, e tal e tal, por conta da ideia dos territórios constituídos na rua. Então, alguém que era da parada da José de Alencar, que na época a gente fazia... Como era que essa pessoa ia juntar com alguém que estava na Praça do Ferreira? Com alguém que estava na Praça da Bandeira? Essas pessoas têm inimigos e por isso estão separados na rua. Então, dentro da casa elas estariam juntas e isso poderia não dar certo.

A ideia de territórios é partilhada por muitos autores e estudiosos. Rodrigues (2005; p. 111-12), ao escrever sua tese sobre os chamados, àquele tempo, de moradores de rua, mostra-nos as especificidades dessa compreensão de território entre os que ficam nas margens, nos lugares de invisibilidade ou nos espaços de ocupações que nesses ambientes se travam.

O tipo de ocupação dos moradores de rua revela uma forma de criar territórios diferenciados da maioria dos citadinos. A dinâmica dos moradores de rua é caracterizada pelo nomadismo.

Compreendo por nomadismo a experiência de não permanecer ou habitar em um único lugar. A principal característica dos atores sociais nômades é a capacidade de transformar os espaços da cidade durante a sua ocupação, criando uma estética um modus operandi num ambiente urbano. Os nômades têm maneiras de marcar seus territórios, anunciando de alguma forma sua ocupação. Ao andar de um ponto a outro os atores sociais nômades praticam a cidade e desse modo são responsáveis pelas várias mudanças em seu interior, fazendo aparecer duas cidades, uma projetada e outra praticada.

O chamado nomadismo é associado à ideia de errância, onde há “iguais” entre os excluídos, que se procuram nos notáveis ajuntamentos que criam nas ambiências das cidades. Como observa a pesquisadora (2005; p.113):

A formação de territórios entre os moradores de rua se dá a partir da errância pela cidade, entre a desistência de um lugar e a procura por outro. Nesse processo, eles formam pontos notáveis de ajuntamento, como diz Augé, isto é, lugares onde se aglomeram uma gama de atores que compartilham de uma sociabilidade típica da rua, como meninos de rua, catadores de papelão, ambulantes, prostitutas, etc.; dos mesmos códigos territórios.

Rodrigues (2005; p.113), então, traz a ideia de fronteira e nos auxilia a compreender o território, que também se corporifica como ato denominativo, conscientemente utilizado pelos que os ocupam, em um jogo de operações linguísticas e imaginárias.

Assim, as fronteiras são demarcadas enquanto diferença entre um tipo de sociabilidade e outra, materializando-se numa imagem, num jogo de operações

simbólicas. Desse modo, “... dominar o território é assumi-lo numa dimensão linguística e imaginária; ao passo que percorrê-lo, pisando-o e marcando-o de uma ou de outra forma, é dar-lhe entidade física, que, evidentemente, se conjuga com um ato denominativo.

No ato denominativo de que nos fala Santos, o usuário do espaço estabelece uma evocação do território. Isso quer dizer que o morador de rua nomeia os espaços ocupados. Como já foi mencionado, a marquise transforma-se em abrigo, os papelões e bancos da praça em cama, o jardim da praça em varal de roupa, a calçada em lugar de dormir.

Ao estudar a população de rua e alguns de seus valores, observa Munõz (1994; p. 5-6) que a rua, mesmo com ambiguidades, é desestruturadora e desumanizante. “O morador de rua sempre está indo, sem ter um ponto chegada, uma referência, alguém que lhe aguarde, um ‘para quê’. E isto, comentava uma educadora, desestrutura mais rápido que a fome”. E continua o autor, mais adiante, sublinhando o esforço de tornar inteligível a esperança:

Se de uma parte a rua é o último espaço que restou no percurso dessas pessoas, no qual quebraram-se valores como a família e a privacidade, de outra forma esse espaço permite a derradeira possibilidade de continuar a existir e ainda de acalentar algum sonho, alguma esperança (MUÑOZ: 1994; p. 09).

Quanto a essa característica ambígua do espaço público como o espaço de moradia, consideramos valioso trazer alguns depoimentos dos quatro sujeitos em situação de rua com quem aplicamos o método autobiográfico para colher suas histórias de vida. Vejamos como se expressaram narrando sobre a experiência de viver nas ruas:

JOÃO: Eu acho que não tem lógica a pessoa falar que mora na rua porque quer. É estranho, cara! A rua num é brincadeira não, num é pra qualquer um!

JOSÉ: Na rua, de dia tudo bem, mas quando chega a noite! [...] Na rua é assim: se vacilar o couro come, é o fim! Segunda-feira, à noite, bem na esquina tinha um morador de rua que tomou uma punhalada bem no umbigo! Quer dizer, ele vinha pra cá, de noite, 6hs da noite!

PEDRO: A hora mais difícil é de noite pra dormir. É frio; é tudo frio. Mas o tempo mais ruim é o da chuva. A gente fica molhado faz mais frio. [...] A vida na rua é atribulada. A gente não tem sossego, não. Mas eu tenho profissão; trabalho com escultura de madeira. Com toldo... Às vezes eu me lembro: amanhã eu vou trabalhar mas vem o pensamento e passa. Eu esqueço. Eu esqueço de mim. Vem e passa o pensamento. A gente não tem tempo de pensar. É todo tempo andando na rua. Eu passo o dia andando. Moro na rua porque não tenho onde morar. A gente perde a família, daí é obrigado a morar na rua. Acho que a maior parte é assim. Se eu tentei construir outra família? Tentei. Mas não deu certo.

PAULO: Eu cheguei na rua em 86, com 8 anos de idade. [...] Cheguei com 8 anos! Essa minha deficiência18 num tá dizendo nada! É porque foi assim: meus pais faleceram, eu era criado por pais adotivos. Se quando eu era criado por pais adotivos, e a minha mãe era viva, já me maltratavam muito. E ela faleceu, eles passaram a me maltratar mais ainda. E eu me senti revoltado porque eu não consegui ver a doença da minha mãe, não consegui ver a morte dela, nem o enterro

dela, aí me deu aquela agonia, e eu me desesperei. Vim lá da Paraíba, dos Cafundós do Judas, vim bater aqui!

Percebemos nestas falas os aspectos desumanizantes de que nos fala Munõz (1994) quando os sujeitos em situação de rua narram os problemas que encontram na rua, e, particularmente na fala de Pedro, encontramos o “estar sempre indo sem ter um ‘para quê’”. Vemos também como a rua aparece como última possibilidade de viver em seus percursos, a partir das rupturas que vivenciam nos contextos familiares ou privados. Contudo, em outro momento, Paulo traz também elementos que nos permitem ver a rua sob o outro aspecto proposto por Munõz (1994):

PAULO: Eu consegui uma família na rua; consegui essa cadeira de rodas na rua; tudo que eu tenho de bom e de ruim eu consegui na rua. [...] Se Deus me der oportunidade de eu sair da rua, que ele já me deu bastante... Mas por enquanto eu num tô querendo, num sei por quê... Porque na rua você tem sua liberdade. E a gente perde o gosto pelas coisas materiais. Na rua a gente quer mais é viver. Depois dessa cadeira de rodas, eu perdi meus filhos, perdi quatro casas... Aí fica assim: eu num tenho mais interesse pelas coisas materiais. [...] Desde oito anos que eu moro e vivo na rua. Eu convivi sempre com morador de rua. Quando eu vejo um mal relacionamento entre nós eu fico chateado se eu não posso fazer nada. A minha família, os meus irmãos é o pessoal da rua.

A rua como última possibilidade de continuar a existir e de acalentar sonhos e esperanças. Percebemos discursos que mostram pontos de vista diferentes entre os quatro entrevistados. Porém, Paulo, que falou por último, conseguiu prender bastante a atenção dos demais que já haviam ressaltado os aspectos desestruturantes da rua. Perguntamo-nos se, ao ouvirem-no, eles não pararam também pra refletir no que a rua representa pra eles neste aspecto, sobre algo que têm a esperança de encontrar nas ruas, mesmo vivendo na errância, sobre a possibilidade de simplesmente “viver”, desprendidos dos valores materiais que, muitas vezes, perdem todo o sentido quando se rompe com aquilo que é mais valioso - a família e os vínculos? O método autobiográfico possibilita também isto: a história de vida de um vai resgatando no outro as semelhanças, permitindo reflexões, e as pessoas vão se encontrando nos percursos narrados pelas outras.

Desse modo, parece-nos que a fase em que o GECS realizava seu trabalho apenas na rua, sem ter uma instituição, fora importante para lhe permitir estar mais próximo dessa realidade singular. Os educadores, aproximando-se do ir e vir desses sujeitos, de seus territórios, do nomadismo característico de seus percursos, de sua forma de amar e formar novos vínculos, puderam amealhar aprendizados necessários para a constituição da Casa da Sopa enquanto espaço de acolhida, que pudesse dar conta de atender à complexidade de demandas que iam surgindo na prática concreta do trabalho. Pensar em grupalizar os sujeitos

em situação de rua dentro de um espaço fechado, num contexto onde a violência e os conflitos territoriais entre eles pareciam sempre ressaltados, exigia uma aproximação inicial que possibilitasse um início de reflexão sobre suas problemáticas para só então trazê-los para “povoar uma casa”, como se alcançou depois.