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Posicionando-nos sob a perspectiva da organização da experiência como envoltório de um espaço psíquico continente, a tese de Anzieu é que a sensorialidade é primeiro organizada pelo modelo tátil e da pele e em torno desse modelo (Roussillon, 2007/2008).
Sabemos que o lugar da pele, considerada em sua realidade física como elemento determinante da constituição do Eu, já havia sido revelado por Freud. Anzieu se debruça, certamente em sua clínica, sobre essa intuição freudiana, e a amplia.
Em suas considerações, Anzieu destaca a função social da pele como objeto de cuidados, instrumento e palco das trocas afetivas e comunicação com o ambiente cuidador. A sensibilidade epidérmica é múltipla: sensações térmicas, táteis, dolorosas (Anzieu, 1985/2000), percebidas nos estados primários ainda que de modo difuso e indiferenciado, imergem o pequeno ser em um ambiente de sensações que circunda seu corpo inteiro. Os estudos etológicos e a formulação de uma pulsão de apego (Bowlby) primária e relativamente independente da pulsão oral em sentido estrito, também atribuem à pele um lugar significativo a serviço da proteção da vida: a busca de contato (no duplo sentido do termo, corporal e social) (Anzieu, 1996/1997), como de homeostase entre dependência e proteção/segurança.
Todos esses aspectos, e mais tantos outros que Anzieu apresenta no livro O Eu-pele (1985/2000), não nos parecem ter sido os mais relevantes para que ele viesse a propor a noção de Eu-pele como primeira representação do Eu como continente do psíquico. Queremos crer que a estrutura da pele e suas funções é que fizeram dela apoio para o desenvolvimento teórico de Anzieu, do mesmo modo que apoio para a estrutura e as funções do Eu.
Nesse sentido, acrescenta Anzieu, a pele é o órgão que liga entre si as sensações de diversas naturezas: os olhos, a boca, o nariz, os ouvidos, as extremidades do corpo e os buracos, têm, na continuidade da pele, a possibilidade de integração fisicamente experimentada. A pele é ainda um órgão de dupla face, constituído de várias camadas, que comunica e separa o interior do exterior. A sensibilidade tátil é reflexiva, e Freud (1923) já havia
destacado que ela antecipa e prepara a reflexividade visual e depois, a reflexividade do Eu. A pele envolve todo o corpo e o delimita; mas também é flexível e plástica, podendo guardar as marcas de suas cicatrizes. A pele é sensual, isto é, sexual e sensorialmente estimulada. As sensações cutâneas, muito mais ricas e complexas que as outras provindas dos outros órgãos sensoriais, introduzem o infante em um universo igualmente rico e complexo que, propõe o autor, antecipa “no plano do organismo a complexidade do Eu no plano psíquico” (Anzieu, 1985/2000: 29). A pele, como superfície de contato, é o órgão do sentido que “ensina”, “informa” e permite experimentar “na pele” – como se diz popularmente a respeito da experiência de ser intensamente afetado – a proximidade e a intimidade do contato. Essa experiência que pode ser redobrada e vivida, tanto por sua qualidade emocional como sensorial, por diversas maneiras.
A pele, como fundamento biológico, com suas características estruturais e funcionais, oferece ao Eu uma estrutura potencial, que, no entanto, será construída, inserida na espiral interativa, momento a momento, nas vicissitudes das relações de cuidado.
Tendo considerado o modelo tátil e a pele como primeiro organizador da sensorialidade, Anzieu, “considerando o Eu como lugar de elaboração das sensações” (Anzieu, 1987/2009:), tece um “paralelo sistemático” (Anzieu, 1985/2000) entre a estrutura da pele e suas funções e a estrutura do Eu e suas funções; a “grade” (Anzieu), (referência que reproduzimos na primeira parte deste tópico), que elaborará estabelecendo as origens corporais do pensar, encontra no Eu-pele seu primeiro movimento de elaboração. Ele vai distinguir oito funções do Eu-pele por apoio nas funções da pele, e uma antifunção: continência, para-excitação, superfície de inscrição, são, por exemplo, funções sustentadas pela estrutura do Eu-pele.
Quando cria a noção de Eu-pele, Anzieu a situa em lugar intermediário, entre metáfora e conceito. Como conceito, o Eu-pele postula um momento narcísico em que o espaço psíquico adquire certa estabilidade e uma estrutura suficiente que lhe permite conter seus conteúdos psíquicos e ser representado como um Eu. Um Eu ainda em processo de diferenciação, pré-simbólico, logo, sem recursos suficientes para se representar como um Eu-psíquico. Isto é,
ainda sem ter adquirido um aparelho para pensar que o capacite a um pensar simbólico. As experiências de pele, onde o sentimento de unidade é primeiro construído, é que oferecem os termos que, metaforicamente, sustentam a representação. O Eu-pele possui a natureza de fantasia e metaforiza o sentimento de unidade construído ao nível do Eu-corporal. Nas palavras de Anzieu:
Por Eu-pele designo uma representação de que se serve o Eu da criança durante as fases precoces de seu desenvolvimento para se representar a si mesma como um Eu que contém os conteúdos psíquicos, a partir de sua experiência da superfície do corpo. Isto corresponde ao momento que o Eu psíquico se diferencia do Eu corporal no plano operativo e permanece confundido com ele no plano figurativo. (Anzieu, 1985/2000: 61)
Ou seja, o Eu-pele é uma representação do Eu como continente psíquico, uma representação mediadora entre os estados de Eu-corporal e de Eu-psíquico. A nosso ver, equivale ao momento narcísico freudiano de integração do Eu, e implica uma “nova ação psíquica” (Freud, 1914a/1980). No entanto, enquanto para Freud a “nova ação psíquica” representa a própria integração, para Anzieu a integração e construção do espaço psíquico é vivida no nível do Eu-corporal, e a “nova ação psíquica” implica a possibilidade de representação, ainda que primária e figurativa, e um funcionamento ao nível do Eu psíquico: um pé no Eu-corporal e outro no Eu-psíquico em um processo de complexificação do Eu. Nesse sentido, o Eu-pele é um envoltório psíquico e, metaforicamente, uma primeira representação de envoltório psíquico. Como envoltório, constituindo um campo de estabilidade narcísica, o Eu-pele também representa o sentimento de ser e de integração. Certamente na herança de Federn, entendemos que Anzieu entrelaça sob o conceito de Eu-pele, a estrutura continente do Eu, sua capacidade de síntese e suas disfunções, e o sentimento de Eu.
Como representação do Eu ainda em estado primário, uma representação figurativa muito próxima de sua base corporal, o Eu-pele revela em suas formas, em sua configuração estrutural, as marcas de seus processos de origem. É essa característica representativa e figurativa que entendemos conferir ao Eu-pele uma potencialidade clínica, além, claro, da função de mediador, operando as passagens entre os estado analógicos do Eu e de suporte narcísico.
Ainda que paradoxal, acreditamos que Anzieu confere ao Eu-pele um “peso de realidade” (Carvalho, 1996); ele é uma representação que tem peso de realidade, muito próximo ao “peso de realidade” que Freud confere ao Eu em sua funcionalidade. Quando se refere, por exemplo, a um Eu-pele escorredor, a imagem de uma bolsa com furos por onde alguns conteúdos escapam, representa a disfunção da memória de uma menina que esquecia o que havia aprendido na escola no dia anterior e seu sentimento narcísico, confesso (Anzieu) de ser um escorredor e se escorrer pelos buracos. Isto é, as deformações estruturais podendo implicar distorções funcionais. A figuração do Eu-pele revela as deformações estruturais e oferece suporte para as fantasias que acompanham as angústias narcísicas.
Na correspondência que faz entre o orgânico e o psíquico, Anzieu busca precisar as angústias ligadas a cada função e as representações de distúrbio do Eu-pele que a clínica lhe apresenta, enriquecendo, por consequência, a gama de intervenções clínicas. Seu quadro – ele faz a ressalva – fica em aberto, sua proposta sendo apenas a de oferecer instrumentos que instiguem uma maior liberdade de pensamento clínico. Apenas desta maneira podemos entender a concepção estruturante da analogia, e que Anzieu se dedique, com tanto afinco, à análise da estrutura do Eu e suas deformações: “O Eu-pele ‘normal’ não envolve a totalidade do aparelho psíquico e apresenta uma dupla face, externa e interna, com uma separação entre essas duas faces que deixa lugar livre para certo jogo” (Anzieu, 1985/2000: 160).
Em princípio, uma descrição estritamente freudiana que, no entanto, Anzieu analisa com competência: vimos que para ele a representação diagramática do aparelho psíquico que Freud apresenta na Conferência XXXI são pictogramas, como se fosse a representação da estrutura continente do aparelho psíquico freudiano. O que vem agora em acréscimo é que ele também se refere à estrutura da fronteira que Freud também descreve no texto Nota sobre o “Bloco Mágico” (Freud, 1925 [1924]/2011). Nesse sentido, Anzieu, em entrevista a Kaës, é bastante modesto:
Acredito que minha teoria do Eu-pele não traz muita coisa de novo do ponto de vista do pensamento, mas a palavra faz tilt, ela impulsiona a ter pensamentos novos, ou a repensar de um modo vívido os pensamentos que estavam apagados. (Anzieu, citado por Kaës, 2000: 45)
A noção de Eu-pele nos ajuda a discriminar os dois aspectos da estrutura continente do Eu já presentes em Freud, aos quais Anzieu confere potencialidade clínica: o de estrutura envolvente e o de região de fronteira. Embora sejam aspectos de uma mesma estrutura, suas deformações implicam consequências diferentes.
As deformações que atingem o aspecto estrutura envolvente infligem danos às funções de contenção, de síntese, e até mesmo à configuração tridimensional do espaço psíquico. Podem acarretar, como proteção contra as angústias de esvaziamento, de se perder em um espaço infinito – como imaginamos pertinentes às angústias agorafóbicas (Mano, 2004) – deformações estruturais ou recursos comportamentais que possuem função de contenção psíquica. Como recursos comportamentais com função de contenção psíquica, queremos nos referir, por exemplo, à observação clínica da formação de uma segunda pele (Bick, 1968/2007), seja pele muscular, pele de dor, como dirá Anzieu a respeito dos envoltórios masoquistas.
No outro aspecto, são consideradas a característica de fronteira e a estrutura de interface. Este outro aspecto marca o status de união, mas também de separação do ambiente circundante em um movimento homeostático entre dependência e segurança/proteção: quanto mais bem estruturado o Eu-pele, maior a segurança narcísica de base e maior a possibilidade de independência, de vir a ser dono da própria pele. Deformações estruturais do Eu-pele que comprometam sua segurança narcísica podem impedir o desenvolvimento do estado de independência, mantendo o indivíduo preso à pele do outro. Não dá é para viver sem pele. Nesse aspecto, a função do Eu-pele é propor uma primeira delimitação entre o Eu e o ambiente. Suas transformações e deformações revelam aspectos do processo de diferenciação Eu/não-Eu.