A colonização dos terrenos da concessão Federal começou em Rio das Antas, nome este dado, devido à grande quantidade de antas, por volta de 1910, onde se estabeleceu a direção da Colônia. A história desta cidade está diretamente ligada à Guerra do Contestado (1912 – 1916). Com a construção da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande, muitos imigrantes ali se estabeleceram, sendo eles: alemães e italianos.
As terras eram vendidas a preços acessíveis e em suaves prestações semestrais, o que logo atraiu colonos do Vale do Rio Itajaí e do Rio Grande do Sul em busca das férteis e ricas terras do Vale do Rio do Peixe. Eram colonos estrangeiros ou descendentes de italianos e alemães.
Heinsfeld (1196, p. 131, 132), citando as crônicas Pastorais, da Igreja Evangélica de Rio do Peixe, nos mostra este novo momento dos imigrantes:
Seguindo os trilhos em busca das terras que estavam sendo vendidas, em maio de 1913 se instalava nos arredores da estação Rio do Peixe, Pedro Geib, primeiro colono alemão a chegar no Vale do Rio do Peixe. No mesmo ano, chegavam na estação de Rio do Peixe, as famílias Deiss, Rogge, Ko Freitag, Zimmermann, Muller, Arndt, Kopp, Klein, dentre outras. Estes colonos ‘em sua maioria, eram Hundsrücker28 das colônias velhas do Rio Grande, que arriscaram ir para a mata virgem, até então praticamente não pisadas por europeus’. Iniciava-se desta maneira o primeiro núcleo de colonização de origem alemã no Vale do Rio do Peixe.
Todavia, a Campanha do Contestado, muito prejudicou o desenvolvimento da região. A vila foi atacada pelos militantes do Contestado, causando a morte de muitos colonos em defesa de seus bens e interesses, conforme Heinsfeld (1996, p. 132).
Esses inícios modestos, mas satisfatórios foram atrapalhados pelas ‘Revolta dos Fanáticos’ em 1914. Apesar de os colonos alemães de Rio do Peixe não terem sido atacados pelos fanáticos (frequentemente passaram tropas por ali), viviam em constante medo e preocupação.
Este fato é observado nos relatos históricos que dão conta de como eram as estratégias dos revoltosos, quanto a sua subsistência. Buscavam nas fazendas e povoados entre outras coisas, alimentos para suas trincheiras. Fato este, que gerou tremenda insatisfação e medo aos colonos e aos pequenos povoados que se formavam.
Terminada a Campanha do Contestado, por muito tempo foram paralisados os serviços de colonização. Somente após o fim dos conflitos e o acordo da divisão das fronteiras entre Santa Catarina e Paraná, é que novamente reinicia-se a campanha de povoamento daquela região. A direção da Colônia recomeçou seus trabalhos pelas estações do Sul, e só em 1918, houve o repovoamento da região.
Como as terras eram povoadas por uma densa e extensa floresta de pinhais, o que dificultava o trabalho agrícola, os colonos fixaram-se ao Sul, nas proximidades da foz do Rio do Peixe. Porém, o pinheiro que era um incômodo para os colonos, de repente tornou-se uma fonte de riqueza, atraindo para a região grande migração de gaúchos que desejavam explorar esses recursos florestais. Ver foto que ilustra esta época (anexo 10).
A colonização do Vale do Rio do Peixe ocorreu tendo por base a pequena propriedade agrícola. Esta forma de colonização conseguia atender à demanda de todos os colonos que já não tinham terra no Rio Grande do Sul.
Heinsfeld, citando informativo da Companhia construtora da Estrada de Ferro São Paulo - Rio Grande, publicado em agosto de 1908, assinado pelo senhor Francisco Bacellar, encarregado do serviço de colonização, que traz nota referente ao loteamento das terras que havia recebido como forma de pagamento pela construção nas seguintes palavras:
Peço-lhe levar ao conhecimento dos colonos e a quem mais interessar que, a companhia da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande está mandando dividir em lotes coloniais, terras de 1ª qualidade [...] isto ao longo da Estrada de Ferro, a 20 kilômetros desta Cidade e perto de uma estação. Cada um lote de 10 alqueires custa ao colono 250$000 tendo o colono de pagar à vista 80$000 ficando o restante 170$000 para pagar ao prazo de 8 anos com dinheiro ou em serviço. (1996, p. 139, 140)
Mais adiante na mesma publicação, a empresa colonizadora especifica a forma e as vantagens alcançadas pelos colonos para a compra destes lotes, como se vê:
A Companhia daria arame para fechar a frente dos lotes, ao longo da ferrovia e que também dá transporte ao colono na Estrada de Ferro, para famílias e suas bagagens. Quem desejar obter terra nestas condições pode vir receber pagando a primeira prestação de 80$000 (1996, p. 141).
O transporte gratuito era uma norma determinada pelo Decreto nº 10.432, de 9 de novembro de 1889, que havia autorizado a construção da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande29.
29 HEINSFELD, Adelar, A questão de Palmas entre Brasil e Argentina e o início da Colonização Alemã no
Heinsfeld (1996, p. 141), referindo-se ao modelo agrário adotado nas áreas de colonização alemã ou de origem alemã, afirma: “A colonização baseada na pequena
propriedade e no trabalho livre do proprietário e sua família tornou-se de relevância não inferior para a Província de Santa Catarina”. Destaca-se que o objetivo desta colonização
não era apenas agrário, pois, os colonos com suas origens e a preservação destas, irá gerar vilas e cidades e a composição de todas as instituições sociais necessárias para uma sociedade diversificada e desenvolvida. O que contribuirá muitíssimo na formação, no surgimento e no desenvolvimento de novas idéias.
A região deste novo campo é formada em sua maioria por terras de excelente qualidade. O colono trabalhará em sua própria terra, utilizando-se apenas de mão-de-obra familiar, irá produzir produtos para abastecer o mercado interno dos grandes centros urbanos, especialmente São Paulo, sendo estes produtos exportados pela Estrada de Ferro São Paulo- Rio Grande. Heinsfeld registra exemplos do que era produzido naquela região:
Rio do Peixe chega em 1940 produzindo: alfafa 1.964.455 Kg; açúcar: 21.307 Kg; banha: 626.494 Kg; feijão: 1.696.980 Kg; lentilha: 205.840 Kg; farinha de mandioca: 62.650 Kg; cachaça: 32.259 Lt; madeira: 8.513m3; ovos: 400.000 dúzias. Isto faz com que a estação de Rio do Peixe seja, nas décadas de 30 e 40, uma das mais movimentadas em toda a extensão da via - férrea em território catarinense. (1996, p. 143)
Preocupado em ocupar fisicamente todo o Meio-Oeste e principalmente o Oeste de Santa Catarina, salvaguardando a fronteira com a Argentina, o governo brasileiro, através da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande vai oportunizar a vinda de colonos para o Vale do Rio do Peixe, povoando assim, o Meio-Oeste Catarinense e posteriormente o Oeste Catarinense30.
Segundo Thomé31, a Cia EFSPRG constituiu uma subsidiária, a Brazil
Development & Colonization Company. De acordo com os termos da concessão da
construção da estrada de ferro, a empresa ganhou do governo um total de 15.894 Km2 de terras. A EFSPRG recebeu 6.696 Km2 de terras, o equivalente a 276.694 alqueires. A companhia promoveu o loteamento e concedeu oportunidade para que a colonização das terras marginais à estrada de ferro fosse efetuada por imigrantes europeus, a partir das estações do Rio do Peixe (Piratuba) e de Rio das Antas. Esta colonização foi interrompida, devido à “Guerra do Contestado” e também, a 1ª. Grande Guerra Mundial.
30 HEINSFELD, Adelar, A questão de Palmas entre Brasil e Argentina e o início da Colonização Alemã no
Baixo Vale do rio do Peixe-SC, Universidade do Oeste de Santa Catarina – UNOESC, 1996, p.145 31
Nilson Thomé, Histórico da Ferrovia do Contestado, disponível em: http://www.cdr.unc.br/ - acessado em 09/05/2008
Com o fim da guerra do “Contestado” e consequentemente a assinatura do acordo de limites entre Santa Catarina e Paraná, desta vez pela administração das empresas colonizadoras gaúchas particulares, que compraram da Cia. EFSPRG grandes áreas, que foram divididas em colônias.
Nas sedes destas colônias, a partir das estações ferroviárias, nasceram as vilas de São João (Matos da Costa), Calmon, Rio Caçador e Santelmo (Caçador), Rio das Antas, Perdizes e Vitória (Videira), Pinheiro Preto, Rio Bonito (Tangará), Bom Retiro (Luzerna), Herval d’Oeste, Barra Fria (Lacerdópolis), Rio Capinzal (Capinzal) e Ouro, Rio do Peixe (Piratua) e Ipira, hoje, importantes cidades do Meio-Oeste Catarinense.
No início, o município foi criado com a denominação de Rio Caçador, subordinado ao Município de Campos Novos, mas que em 1933, por divisão administrativa, figurava ligado ao município de Curitibanos. Em 22 de fevereiro de 1934, foi desmembrado o município de Caçador pelo decreto estadual no. 508. Este município é constituído de 6 distritos: Caçador, Rio das Antas, Rio Preto, São Luis (que será denominado Iomerê), Taquara Verde e Vitória. Pelo decreto estadual no. 238 de 01 de dezembro de 1938, o distrito de Rio Preto passou a denominar-se Princesa Isabel. Em 31 de dezembro de 1943, pelo decreto estadual no. 941 o distrito de Princesa Isabel passou a denominar-se Ipoméia. Pela lei estadual no. 247, de 30 de dezembro de 1948, o distrito de Ipoméia ex-Princesa Isabel (antigo Rio Preto) é transferido do município de Caçador para o município de Videira, que em divisão territorial de 01 de julho de 1950, o município é constituído de 3 distritos: Caçador, Rio das Antas e Taquara Verde. Por decisão do Supremo Tribunal Federal acórdão de 26 de novembro de 1955, representação no. 229, o distrito de Ipoméia volta a pertencer ao município de Caçador. Em divisão territorial de 01 de julho de 1955, o município é constituído de 5 distritos: Caçador, Macieira, Ipoméia, Rio das Antas e Taquara Verde. Em 21 de junho de 1958, a lei estadual no 348, desmembra do município de Caçador, os distritos de Rio das Antas e Ipoméia, formando o novo município de Rio das Antas32.
Assim, nasceu e se estabeleceu a colônia de Rio das Antas e seus distritos, entre eles o de Ipoméia, local onde a família Lippelt, se estabeleceu, sendo ela a precursora da “A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias”.
Uma visão de como se deu a colonização daquela região, é vista abaixo (figura 8). Houve por parte do imigrante e de sua família a necessidade de muita disposição para o
assentamento. As dificuldades e os desafios foram inúmeros, mas que, com a disposição e os anseios do coração foram todos eles vencidos.
Figura 8 – Aproximadamente Um ano após a chegada da família Lippelt, formou-se um vilarejo no vale de Ipoméia semelhante ao vale acima.