Essaouira é uma cidade de 69 005 habitantes (dados de último censo de 2004) na costa atlântica marroquina, que pertence à região de Marraquexe – Tensift – Al Haouz. Situa- se na costa entre as cidades de Safim e Agadir, à mesma latitude que Marraquexe. As temperaturas amenas de Essaouira, especialmente no Verão, tornam a cidade muito atractiva para os marraquexis, que fogem do calor abrasador e poluente da Cidade Vermelha. Essaouira é conhecida como a cidade dos ventos Alísios (recorrentes ao longo do ano), o que a torna atractiva para a prática desportiva do windsurf, que é uma das suas principais atracções. Mas é também o seu dinamismo cultural e artístico, resultado do investimento turístico e patrimonial de que foi alvo (e muito ampliado pela elevação da cidade a património mundial da UNESCO em 2001), que faz dela um destino turístico procurado.
Algum ajuntamento populacional parece ter existido antes da criação da cidade enquanto tal pelo sultão Sidi Mohammed ben Abdellah em 1764, para se tornar o principal porto comercial de comércio com a Europa. Antes disso os portugueses tinham tentado fixar-se nesta zona, construindo uma fortaleza (Castello Real) em 1506, mas encontraram na região uma forte resistência à sua presença, abandonando-a em 1512 (Ottmani 1997, Lakhdar 2006). De acordo com o geógrafo Romeu Carabelli (1999), não existem quaisquer vestígios materiais da presença portuguesa dessa época, muito embora algumas ruínas perto do porto de Essaouira sejam frequentemente atribuídas aos portugueses. Não deixa de ser curioso que em Essaouira muitas pessoas atribuam tudo o que é antigo e pré-colonial à presença portuguesa (as muralhas, os canhões, muitos comerciantes davam-me grandes lições de história sobre as muralhas portuguesas), resultado talvez de uma política colonial francesa que, de acordo com Ana Neno (2012), foi responsável pelo primeiro levantamento patrimonial de dita presença e atribuía tudo o que era anterior ao protectorado aos portugueses. Essaouira é ainda conhecida pelo
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nome Mogador (o seu nome à época do protectorado), uma possível derivação portuguesa de um nome de um santo local Sidi Mogdoul (Ottmani, 1997).
Essaouira é por definição uma cidade do Makhzin10, uma vez que o sultão a
construiu com o objectivo de garantir um porto alternativo ao de Agadir, que era então uma cidade instável devido às rebeliões das tribos dissidentes do Souss ao poder central (Schoeter 1988). Entre 1770 e 1870, Essaouira foi o porto marítimo mais activo em Marrocos, onde atracaram navios europeus que nela vinham abastecer-se de mercadorias trazidas da África Subsaariana (Ibidem), merecendo por isso, o nome de «Porto de Tombuctu».
O século XVIII foi, portanto, de crescimento económico para Essaouira, o que trouxe uma grande circulação de pessoas e de mercadorias. Muitos países europeus estabeleceram consulados na cidade e a sua composição populacional inicial incluía escravos trazidos da África negra e judeus marroquinos, mas também europeus, elites militares de Fez, populações das montanhas do Alto-Atlas e das regiões envolventes, Haha e Chiadma (Schroeter 1988:12-20). As actividades comerciais foram sobretudo asseguradas por comerciantes judeus que mantinham relações privilegiadas com os principais centros de importação e exportação na Europa. Consciente deste facto, o sultão procurou as mais ricas famílias judias em Marrocos e ordenou que enviassem membros para o novo porto, tornando-se mercadores oficiais do sultão (tujjār as-Sultān) (Schroeter 1988). Desta feita, a presença judia na cidade fez-se notar até à independência de Marrocos em 1956, o que hoje merece um novo entendimento por parte do poder político e das instituições turísticas.
Foi também a sua criação como um entreposto comercial que determinou o urbanismo da cidade, cuja concepção militar é atribuída ao famoso arquitecto francês Théodore Cornut. Muito embora Schroeter (1988) não considere a construção da cidade excepcional no contexto marroquino, é assim que ela é apresentada (pelo menos turisticamente): uma geografia que mistura influências locais e europeias. A cidade antiga (entre-muralhas) é dividida por duas estradas e a zona da kasbah (onde se situam os antigos consolados e principais edifícios governamentais) não apresenta as características de uma medina labiríntica (cf. Bertai 2006).
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No séc. XVI, o termo Makhzin designa o governo encarregado de gerir os bens da comunidade muçulmana, alimentados pelos impostos e, em Marrocos, designa o Estado que foi estabelecido pela Dinastia Saadiana (cf. Sourdel&Sourdel 1996). Veio a ser adaptado à realidade contemporânea para descrever as elites políticas e económicas do Palácio Real. Este termo é utilizado recorrentemente para se referir ao espaço central do poder Real em Marrocos, o Palácio em Rabat, mas também à corte e aos conselheiros que nele habitam e que influenciam as decisões do Rei.
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O porto de Essaouira é bastante rudimentar quando comparado com os portos industriais de Agadir e Casablanca, desenvolvidos durante o protectorado francês, e por isso a cidade nunca se conseguiu impor economicamente através da actividade piscatória, muito embora muitos souiris afirmem que o peixe da zona é preferido e procurado por habitantes de outras regiões de Marrocos.
Apesar de Essaouira ter sido elevada a Património Mundial da Humanidade pela UNESCO, muitas casas na medina encontram-se em avançado estado de degradação. A cidade teve o seu apogeu económico durante uma parte do séc. XVIII e ainda do séc. XIX, mas entrou em declínio à medida que o comércio transaariano perdeu força e foi substituído por outras rotas. Schroeter afirma mesmo que Essaouira já era um anacronismo quando foi fundada, na medida em que foi criada como uma cidade imperial na última fase da independência e vigor do Império (Schroeter 1988). O facto de a cidade se encontrar numa região relativamente infértil também não permitiu que outras actividades se desenvolvessem durante o seu período de esplendor. Essa foi uma das razões do desinvestimento na cidade, por comparação a outras situadas na costa atlântica, como Tanger, Casablanca ou Agadir, que vieram a constituir importantes cidades e portos comerciais.
Este progressivo empobrecimento fez com que Essaouira perdesse lentamente a sua elite para outras cidades marroquinas ou para o estrangeiro, sobretudo uma elite de comerciantes judeus (Park 1988), e que fossem sobretudo as populações da região, fugindo frequentemente da seca, que se tivessem fixado na cidade. Esta decadência foi documentada pelo etnógrafo francês George Lapassade nos anos sessenta e setenta do séc. XX que, no seu registo sobre as tradições locais, não deixou de expressar a sua tristeza relativamente à forma como Essaouira era deixada ao abandono:
« Hoje em dia (1969), Essaouira não passa de um pequeno porto de pesca, uma cidade que morre lentamente. Entre todas as grandes cidades da costa atlântica marroquina, Tanger, Rabat, Mohamedia, Casablanca, Al Jadida, Safi, Agadir, Essaouira é actualmente a mais pobre e a mais abandonada. […]. Em tais condições, o declínio económico da cidade tornou-se inevitável. Daí surgiu a miséria e o êxodo: a partida em massa de jovens funcionários para outras cidades de Marrocos; de trabalhadores manuais que vão para onde existe uma demanda de mão-de-obra, principalmente em direcção aos países do Magrebe. A população de Essaouira envelhece. A iniciativa perde-se. A vida social e cultural esgota-se. Os estabelecimentos de ensino e de formação são menos desenvolvidos do que noutros locais de Marrocos.» (Lapassade 2000:9,13/14)
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O tom de preocupação e de tristeza de George Lapassade também marcou o discurso de algumas figuras reconhecidas na cidade, mesmo nos dias de hoje. A cidade, apesar do seu posicionamento na costa, não se desenvolveu como as cidades vizinhas. No entanto, Essaouira com as suas muralhas e casas brancas em frente ao mar, ganhou a fama de ser uma cidade charmosa, e na ausência de investimento, o turismo afigurou-se como uma proposta economicamente viável, não só para grandes grupos económicos mas também para a população local.
A cidade usufrui de alguma projecção internacional quando Orson Welles aí filmou Othello em 1952 e mais tarde, na década de sessenta, passaram pela cidade personagens como Jimi Hendrix (passagem que várias pessoas em Essaouira me referiram não estar provada) ou Cat Stevens e que em muito contribuíram para a consagração da cidade como um destino hippie. Essa presença contribuiu para que se tornasse um destino turístico «cultural» e «artístico», o que impulsionou a arte local, (naïf ou «tribal» inspirada na história árabe-berbere e nas origens africanas da cultura popular marroquina), sobretudo através da figura de Frederik Damgaard, que aí abriu a primeira galeria de arte local e iniciou um rentável mercado de arte.
A cidade sofreu um forte investimento no turismo e na cultura sobretudo a partir da década de noventa do séc. XX, principalmente de famílias proeminentes que a haviam deixado e se fixado em Rabat ou Casablanca (cf. Ross et. al 2002). Personalidades locais, como André Azoulay, conselheiro financeiro do Rei, e Miloud Chaabi, homem de negócios e reputado milionário, contribuíram também para o investimento turístico na cidade, possuindo algumas infra-estruturas turísticas, como hotéis de luxo. A figura de André Azoulay está particularmente ligada à patrimonialização de Essaouira, tendo criado em 1992 a associação Essaouira-Mogador (inicialmente com o nome de Association Pour la Sauvegarde et la Promotion d’Essaouira), uma das instituições responsáveis pela organização do Festival d’Essaouira Gnaoua et Musiques du Monde, mas também de outros festivais, sobretudo o Festival des Andalouises Atlantiques d’Essaouira, de música de origem andaluza, e o Printemps Musical des Alizés, de música clássica. Esta é uma das instituições não estatais mais importante de Essaouira, o que advém da importância simbólica, política e económica de André Azoulay, reconhecida por todos os souiri-s, embora seja avaliada diferentemente. Azoulay é de origem judia e, como já referido, conselheiro do antigo Rei Hassan II e do actual Rei Mohamed VI, o que lhe confere o poder simbólico de se reclamar representante da possibilidade de diálogo entre tradições culturais diferentes.
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Foi também o grande impulsionador da elevação de Essaouira a património mundial da humanidade.
À semelhança do que acontece em outros terrenos turísticos, a construção de um património e de uma memória é reavivada em torno de novas demandas económicas, mobilizadas por elites locais e nacionais e por residentes estrangeiros, que instrumentalizam uma história de diversidade cultural (fundamentada no cruzamento de influências culturais: berberes, africanas, árabes, judias e europeias). Esta história, associada à construção de uma narrativa sobre a cidade, oferece uma imagem de tolerância, de abertura, de cosmopolitismo cultural, que é aclamada pelos habitantes locais e pelos estrangeiros residentes. O contacto que mantive com alguns dos estrangeiros residentes permitiu perceber como a escolha de viver em Essaouira se justifica por uma maior abertura que esta cidade reserva ao que vem de fora, contrariamente a outras cidades da mesma dimensão em Marrocos.
O Festival d’Essaouira Gnaoua e de Musiques du Monde é actualmente um dos produtos culturais artísticos mais importantes. Como o nome indica, o festival representa uma fusão entre a música gnaoua e outras músicas do mundo. Os Gnaoua são uma confraria religiosa cuja especificidade no contexto marroquino se deve à origem subsaariana dos seus membros. Esta confraria utiliza a música e a dança para alcançar estados de transe (Chlyeh 1998). Os contingentes de escravos africanos trazidos para o povoamento da cidade vieram a torná-la num dos principais locais dos Gnaoua, conhecida por ser uma das cidades marroquinas onde existe uma zāwiya gnaoua «Dar Sidna Bilal».
Por outro lado, o artesanato local (como o óleo de argão e as peças em madeira Thuya, dois recursos exclusivos da região de Essaouira) são peças fundamentais para a integração da cidade nas rotas turísticas mais recentes. Esta é uma das razões pelas quais o turismo, apesar de sofrer grandes oscilações em número de visitantes ao longo do ano, é uma das principais actividades económicas na cidade, visto que dele dependem outras actividades, como a pesca, o artesanato e outros serviços. De acordo com os dados do Recensement général de la population et de l’habitat de 2004, 46,1% da população activa ou desempregada que já trabalhou, é artesã e trabalha em pequenos ofícios11.
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Dados disponíveis no site Haut Comissariat du Plan, http://www.hcp.ma/Recensement-general-de-la- population-et-de-l-habitat-2004_a633.html. Consultado a 26 de Setembro de 2013.
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A região Marraquech-Tensift Al Haouz compreende uma prefeitura (Marraquexe) e cinco províncias administrativas (Al Haouz, Chichaoua, El Kelaa Sraghna, Essaouira e Rehamna). A província de Essaouira é delimitada a norte pela província de Safi, ao Sul pela Prefeitura de Agadir Ida-Outanane e pela província de Taroudante, a Este pela província de Chichaoua e a Oeste pelo Oceano Atlântico. Dados de 1997 indicam que a região tem dois tipos de vegetação, árida e semiárida, indicativa do baixo volume de precipitação, sobretudo na zona Este, já que a franja litoral usufrui de uma corrente fria das ilhas Canárias (Royaume du Maroc 1997). A cobertura florestal é importante na província, constituindo 43,4% do território, predominando duas espécies específicas, a argânia (Argania spinosa) e a árvore Thuya (Tetraclinis
articulata) constituindo ambas recursos económicos fundamentais. Da argânia retira-se
o fruto através do qual se produz o óleo de argão, com usos cosméticos, medicinais e culinários e procurados hoje em dia por grandes empresas multinacionais de cosmética. A raiz da árvore Thuya é usada na marchetaria de peças de decoração e mobiliário, um dos principais atractivos do artesanato da província.
Na região, predomina a agricultura de auto-subsistência e de tipo extensivo, com culturas de cereais e a arboricultura, assim como a pastorícia, sobretudo constituída de gado caprino e ovino. O tipo de exploração agrícola é predominantemente de pequena propriedade (76% das explorações agrícolas são inferiores a 5ha) e pouco mecanizada. Os anos de seca durante a década de oitenta trouxeram muitas populações das zonas rurais para Essaouira, na esperança de encontrar trabalho. Esta migração para a cidade e a fixação de habitantes estrangeiros em Essaouira mapeou a própria ocupação da
medina e o desenvolvimento de outros bairros para fora dela.
O investimento turístico de que Essaouira foi alvo, a proximidade ao mar e clima ameno, a imagem de tolerância e abertura face ao exterior foram alguns, senão os principais factores, para que muitos estrangeiros se tivessem fixado na cidade. Como noutros locais em Marrocos, à medida que a cidade crescia para lá das muralhas, muitos residentes (marroquinos) deixavam a medina procurando casas maiores e mais recentes passando as antigas casas a servir de refúgio a populações que chegavam das zonas rurais (Kurzac-Souali 2013). A pobreza e a marginalidade das populações residentes na
medina contribuíram para a desvalorização dos bens imobiliários, o que levou muitos
estrangeiros a comprarem imóveis a valores exorbitantemente baixos. Muitos recuperaram as casas e transformaram-nas em hotéis ou casas de hóspedes, coexistindo com edifícios degradados, sem água potável ou esgotos. De acordo com Escher &
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Petermann (2013), o aumento do preço das casas a partir do final da década de noventa não diminuiu a procura por parte de investidores estrangeiros no mercado imobiliário de Essaouira, principalmente procurado por franceses, britânicos e alemães. O fenómeno da gentrificação, que Ross (2002) denomina, para o caso de Essaouira, de euro-
gentrificação, é recorrente em muitas cidades marroquinas, especialmente naquelas
onde se assiste a uma valorização patrimonial da medina. No entanto, esta não é necessariamente acompanhada por um investimento do Estado na melhoria das infra- estruturas de base.
Em Essaouira, por exemplo, o mau funcionamento dos esgotos fazia com que, em alturas de maré alta, as águas sujas e dejectos voltassem a subir à superfície, tornando as ruas sujas e a circulação praticamente impossível. Para os donos dos restaurantes e hotéis, muitos deles estrangeiros, esta situação era a demonstração da ineficácia e ineficiência do Estado marroquino e da secundarização da cidade de Essaouira no contexto das políticas nacionais e mesmo locais, apesar da sua valorização em termos patrimoniais e turísticos. Para as populações locais, este desinteresse é mais uma das confirmações da ausência de um Estado que se preocupe com o bem-estar dos seus habitantes. Apesar disso, quando saí de Essaouira, grandes obras estavam a ser feitas no sistema de esgotos da parte antiga da cidade, muito embora os souiris duvidassem do resultado positivo deste tipo de empreendimentos, tal era a forma caótica como este era levado a cabo.
O Mellah, antigo bairro judeu, é actualmente um bairro degradado. Abandonado pela população judia ao longo dos anos sessenta e setenta do séc. XX, é actualmente conhecido pela venda de droga, prostituição e pelas condições de habitação deploráveis (Messous 2013). Esta degradação coexiste com a patrimonialização da sinagoga Chaim Pinto, um importante tsadik (santo) e rabino, que atrai anualmente centenas de populações judias de vários locais do mundo para a realização da hiloula (peregrinação à sua tumba no dia da celebração da sua morte).
A coexistência entre populações diminuídas economicamente e residentes estrangeiros com recursos francamente superiores nem sempre é pacífica. As pessoas em Essaouira referiam, por exemplo, que a Festa de Achoura tinha desaparecido da
medina porque muitos dos residentes estrangeiros se queixavam do barulho à polícia
(devido ao ruído produzido por pequenos tambores). Além disso, os residentes estrangeiros (e donos de alguns restaurantes) criticavam frequentemente os hábitos dos seus vizinhos marroquinos, sobretudo no que se refere a questões de higiene. No
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entanto, é o discurso de aceitação e de tolerância que os estrangeiros apontam como uma das razões pelas quais decidiram viver na cidade. Mas este é também o discurso de outros residentes estrangeiros noutras cidades marroquinas. Durante o mês do Ramadão, recebi uma visita de uns amigos que viviam em Rabat e que me disseram que na capital era impossível encontrar pessoas a comer na rua, ao passo que em Essaouira isso era comum12. A grande diferença entre as duas cidades está na dependência que Essaouira tem do turismo (Rabat por oposição, não é uma cidade particularmente turística) e portanto, na adaptação necessária aos hábitos dos turistas. Por outro lado, a população originária de Essaouira é vista por marroquinos de outras cidades como sendo reservada e pouco aberta a quem venha de fora. Recorrentemente se fala do isolamento da cidade, muito embora transformando-se com a criação de uma via rápida entre Marraquexe e Essaouira e da auto-estrada que estabelece a ligação entre Casablanca e Agadir (e que passa por Marraquexe). Este isolamento, aliado à ausência de actividades, é também apontado como uma das razões pelas quais a cidade é propícia à «bisbilhotice» e à intriga. Esta é frequentemente a visão que muitos souiris têm da sua cidade e das características das suas gentes.
Para lá das muralhas, a cidade estendeu-se, sobretudo depois dos anos noventa, ao longo de um dos eixos centrais de circulação automóvel, conhecida como «auto- route»13 e tem a floresta como limite a Norte e a Este. A entrada na cidade dá-se pela estrada que a liga a Marraquexe, que é, simultaneamente, a entrada nos bairros mais «chiques» da cidade: Erraounak (que significa «chique»), o Borj, os edifícios Chaabi (construídos pelo magnata dos supermercados Asswak Salam). A norte, no fim da estrada, encontram-se os bairros mais pobres, o bairro Industrial e a Skala. Alguns destes bairros não têm estradas alcatroadas, mantendo um sistema de esgotos muito deficitário.
RITMOS
Ao longo do período em que estive em Essaouira pude acompanhar alguns dos momentos mais marcantes da vida na cidade. A minha primeira estadia antecedeu o
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Durante o mês do Ramadão é proibido para os marroquinos comer num espaço público e muitos cafés fecham para abrir apenas à noite. As lojas de venda de álcool também se encontram fechadas e alguns hipermercados fecham a zona de produtos alcoólicos durante esse mês.
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Em tom de troça, muitos residentes em Essaouira vêm a denominação «auto-route», que significa auto- estrada, como um sinal de provincianismo da cidade, já que é a «prova» de que as gentes locais não estavam habituadas a ver estradas tão grandes, apesar da sua pequena dimensão.
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Festival d’Essaouira Gnaoua e de Musiques du Monde, o que permitiu avaliar como as pessoas apreciavam o evento. Muitas criticavam os espectadores do festival, que sendo gratuito para a maior parte dos seus concertos, traz muitos jovens de Casablanca, alvo de desconfiança por parte dos locais. Aos jovens é ainda associado o consumo de drogas e álcool, potenciando os comportamentos violentos, sobretudo com raparigas. Ouvi rumores sobre uma rapariga que tinha sido agredida à facada por um grupo de jovens durante uma noite de concertos. Por isso, muitas com quem conversei, afirmavam serem particularmente cumpridoras dos horários de regresso a casa durante o festival, tal era o medo que tinham das ruas escuras da medina. Esta é talvez uma das razões pelas quais