Kapittel 9: Avsluttende gjennomgang
9.1 Oppsummering og konklusjon
9.1.6 Framtidsutsikter
A relação com os demais países da América é usada para caracterizar o movimento republicano como inevitável, já que o Brasil, naquele momento, é o único Trono do continente. Além disso, embasa os sentimentos anti-lusitanos que apareceram repetidamente no jornal, evidenciando uma separação entre o Brasileiro-Português-Europeu, que não consegue deixar de ser colonizador, e os Brasileiros-Americanos, os únicos dignos de administrar o país e atingir a verdadeira felicidade da nação. Em texto intitulado “Legalismo no Pará, Bahia e Rio-Grande”, O Povo sustenta:
E quem hoje procura o Brasil exterminar com mais afinco do que o mesmo Rio Grande?! E substituí-lo por quem...? Oh, horror! Oh, perversidade inaudita! O sangue nos gela nas veias! Por Portugueses que fizeram vermelhar em 1822 todo o Brasil de sangue Brasileiro...! [...] Somos Americanos. Nossa causa é Americana (O Povo, n. 13, p. 51-52).
Joaquim Teixeira Nunes, comandante da Vanguarda que lutou em Laguna, também numa Proclamação, afirma: “sacudamos o jugo da Europa, sejamos Americanos” (O Povo, n. 94, p, 396). Em circular aos cidadãos catarinenses, afirma que os Brasileiros “sacudiram o jugo Europeu, mas não quiseram ser Americanos”, são vítimas de um governo que “tornou as Províncias em verdadeiras colônias da Capital do Império” (O Povo, n. 97, p. 405). Flores (2002) identifica e explica o significado atribuído aos portugueses: “o termo português era empregado como sinônimo de autocracia, pelos desmandos da metrópole e dos funcionários reinóis no período colonial. Ser nacionalista era ser anti-português” (FLORES, 2002, p. 386).
A rixa entre Americanos e Europeus serve como modelo para outra diferenciação, desta vez entre Rio-Grandenses e Brasileiros:
Desconhece [o governo do Rio de Janeiro] que a guerra sacrílega que nos faz servirá apenas para extinguir totalmente no ânimo dos Rio-Grandenses algumas relíquias do Brasileirismo de que outrora fomos tão possuídos. [...] Ninguém duvida hoje entre nós que a República Rio- Grandense tanto difere da Província de S. Pedro quanto o homem
espirituoso é dessemelhante do corpo pútrido que serve de pasto aos insetos, aos quadrúpedes e às aves de rapina (O Povo, n. 72, p. 307-308).
Nesse sentido, O Povo procurou destacar traços marcantes dos rio- grandenses que os diferenciassem dos Brasileiros, argumentando, por exemplo, que o peso das guerras moldou o espírito dos Rio-Grandenses de forma diferente do resto do Brasil: “A população Rio-Grandense, convém dizê- lo, não é como sucede a respeito de quase todo o Brasil, o simples resultado do espírito agrícola e comercial dos antigos Portugueses” (O Povo, n. 74, p. 314) ou “O coração do Rio-Grandense acostumou-se assim a palpitar violento pela causa pública” (O Povo, n. 74, p. 314) e ainda “O patriotismo não é para ele, como talvez o seja para os camponeses do Brasil, uma teoria vã e incompreensível” (O Povo, n. 74, p. 314).
O “espírito americano” serve de sustentação a outras argumentações. A apatia, a falta de compromisso e a inércia eram características execradas pelos republicanos rio-grandenses. O levante de outras nações americanas é exemplo de ação, de atitude:
Cada uma das Províncias Brasileiras tem direitos iguais àqueles pelos quais pugnamos; se não fazem o mesmo que fazemos, se nos alargam à iniciativa no abandono de um estado de coisas tão aproximado da infâmia, é porque se dão bem sob o manto da realeza ou de outra forma porque se hão deixado dominar por uma frouxidão repreensível, indigna de Americanos (O Povo, n. 74, p. 314).
A comparação com os americanos é elogiosa, como ocorre na “Proclamação aos Rio-Grandenses” que exalta a tomada de Laguna. Domingos José de Almeida, que assina o texto, homenageia a Divisão Libertadora, a mando do “digno Coronel Canabarro, desse Americano, distinta vergôntea dos Washingtons do Sul” (O Povo, n. 94, p. 393).
O movimento norte-americano serve de modelo e “prepara o terreno” para medidas duras e amargas, mas necessárias em tempos de guerra. Um extrato do “Resumo Estatístico-histórico dos Estados Unidos da América
Setentrional” narra dois expedientes utilizados na Guerra de Independência Americana: a declaração de indigno de servir ao país aos soldados que cometessem faltas graves e a declaração de traidor a qualquer cidadão que não aceitasse papel moeda (O Povo, n. 24, p. 95). Sabemos que os exemplos americanos citados no jornal encontram eco nos acontecimentos da República Rio-Grandense, onde o recrutamento e a indisciplina eram dificuldades cotidianas e o procedimento do troco da moeda de cobre também exigiu grandes esforços na tentativa de eliminar esse meio de troca.
Na comparação com os Americanos, muitas vezes os Portugueses eram retratados no papel dos Ingleses, mas, em um caso específico, a comparação foi feita no sentido de criticar a inércia do governo brasileiro na questão da ocupação francesa do território do Oiapoque, no Pará, em oposição à matreira atuação dos ingleses no caso das Ilhas Falkland. Nessa ocasião, O Povo reproduziu um artigo do jornal francês Le Siècle (em segunda mão, publicado originalmente n’O Cronista), para que “nossos leitores conheçam à justa quais são as idéias da França a respeito do Pará” (O Povo, n. 76, p. 323). O artigo afirma que os ingleses se aproveitaram da discussão entre espanhóis e norte-americanos sobre o território das Maldivas para ocupar o local, e comparam esse comportamento ao do personagem do Juiz, da fábula “Os Pescadores e a Ostra”28.
28 A fábula de La Fontaine, foi traduzida como por Franciso Manoel do Nascimento sob o título “A Ostra e
os Pleiteantes”: “Dois Peregrinos, Um dia encontram Na praia, uma Ostra, Que o mar lançara,
Já c'os olhos a sorvem, já c'o dedo A apontam um ao outro
Pôr-lhe dente? – isso é ponto contestado.
Um se debruça A colher prêa E o outro o arreda
E diz: "Saibamos a quem compete Ter d'ella o gozo.
O que a avistou primeiro, a trinque; e outro Veja-a com o olho
Coma-a co'a testa?"
Se o negócio (diz o outro) assim se julga, Tenho (graças a Deus) esperto luzio.
Nem os meus são tãos ruins (disse o Primeiro); Que antes que tu, a vi; por vida o juro.
Se a viste, a mim cheirou-me. N'este comenos,
Usando a metáfora para o caso brasileiro, os farroupilhas criticam o Império por permitir uma invasão estrangeira em seu território enquanto concentra sua força militar contra os próprios patrícios brasileiros. A França, aproveitando-se da distração, ia ocupando espaço, supostamente autorizada por um artigo do Tratado de Vestfália, de 1648. O episódio serve para ilustrar a conexão e o posicionamento do jornal frente a acontecimentos do mundo, mesmo com todas as dificuldades tecnológicas e logísticas da época. Através da leitura dos periódicos contemporâneos, foi possível acompanhar os fatos que diziam respeito à causa Republicana, fazendo cruzar diferentes províncias de significados pelo longínquo território sul-rio-grandense.
Mesmo com tantas referências, e apesar de algumas tentativas entre os governantes de desenvolver o comércio e a agricultura, os farroupilhas não conseguiram mudar a realidade econômica, política e social da República ao ponto de aproximá-la do modelo norte-americano de desenvolvimento. As máximas de pensamento transcritas nos jornais da época, “numa sociedade pastoril escravocrata teriam o mesmo sentido que malhar em ferro frio”, afirma Flores (1978).