7. FRAMOVER, KVA ER PLANEN FOR KULTIVERING I FYLKET?
7.3 Framtidsplan sett i samanheng med retningslinjene
2.1 NA CIDADE DAS FLORES E DAS CHAMINÉS: A
INDÚSTRIA E O TRABALHO COMO “VOCAÇÃO ORIGINAL”
(1970-1980)
A disciplina é um princípio de controle da produção do discurso. Ela lhe fixa os limites pelo jogo de uma identidade que tem a forma de uma reatualização permanente das regras. (FOUCAULT, 2011, p. 36)
As construções de um sistema de ideias difundidas pelo discurso e pelas imagens coletivas representam e concedem a si mesmas uma identidade de valores “legítimos”. Esses buscam reger comportamentos e estabelecer certo grau de coesão social. Joinville é um bom exemplo de tal representação, haja vista boa parte de sua história ser originada de dados, utopias e desejos que pertencem a construções culturais e coletivas. Destarte, a formação de uma cidade “fenomenal” é parte do imaginário daqueles que detêm e controlam as relações de poder sobre a população joinvilense, inserida e envolvida nas teias da bela e atraente cidade, mesmo que sua história esteja distante da realidade concreta.
A proposta para esse capítulo é analisar e entender alguns aspectos históricos sobre a cidade de Joinville no que tange à sua ocupação, às primeiras atividades econômicas e às imagens sobre a cidade presentes nos discursos historiográficos e divulgados pelos jornais locais ou outras fontes documentais. O objetivo é compreender como as produções dessas narrativas contribuíram para um ideário de cidade com “vocação original” para a indústria e para o trabalho.
Sobre as origens das construções mitológicas, Foucault (2003) diz que é parte de um ideário de representação positiva dentro das práticas sociais dos grupos. Para ele, é a partir do jogo das ideias que pode nascer o mito relacionado aos desejos de seus fundadores. Salienta ainda que essas construções são resultado das relações de poder relacionadas diretamente ao Estado que as controla e as usa conforme seus ideais. Para tal, faz uso de seus mecanismos e sua aparelhagem, contra a população, que pouco pode fazer contra essas forças vindas do alto, de cima para baixo. Então, o povo fica à mercê destas, ou, ainda, preso nas teias da maravilha do mito materializado como a “verdade” ou
o “certo” (FOUCAULT, 2003). É nessa esteira que Joinville projetou a imagem da “cidade com vocação original” para o trabalho e para a indústria. Outros títulos, difundidos na historiografia tradicional do município, estão no imaginário de boa parte da população joinvilense. Entre eles estão: Cidade dos Príncipes, Cidades das Flores, Cidade das Bicicletas e, por último, Cidade da Dança. Assim, o cidadão e a cidadã dessa cidade, de certa forma, são influenciados a acreditar que vivem num lugar oxigenado pelo espírito do trabalho e pelo despertar do empreendedorismo local, a “cidade das maravilhas ou ideal”. Logo, passam a compartilhar desses princípios, pois a ideia é fazê-los crer que assim como seus patrões, também eles terão êxito em seus projetos de vida. Nesse caso, a “felicidade” e as realizações pessoais do joinvilense estão relacionadas ao sucesso que o trabalho pode proporcionar.
Para entender as origens desse mito, com fundamento em Foucault (2003), é necessário que se considerem as relações de poder emanadas dos discursos difundidos na sociedade e os autores dessas vozes, ou seja, como expõe o próprio Foucault, é mister perceber o poder onde ele é exercido e ramificado, nem no início, muito menos no fim, mas no meio (2003). Acredito que, no caso de Joinville, a construção dos ideais mitológicos ou ainda utópicos tem por objetivo espelhar a cidade dentro de um ideário de trabalho, nascido a partir dos discursos de uma pequena parcela da população germânica-empresarial do município. Empresários de origem germânica ou descendentes, com fortes influências, principalmente nos meios de comunicação, fazem uso desse instrumento e massificam ideias e princípios que ajudam a levar o trabalhador para dentro das fábricas tomados pela consciência da “cidade ideal” e do trabalho que edifica o homem.
Enfim, o mito é recorrente nos discurso narrados, conforme circunstâncias definidas por aqueles que detêm o controle e o uso das narrativas. A imagem que conserva na memória algo de sucesso, de progresso, de belo ou de riqueza. Nesse terreno busca-se, por intermédio do mito, forjar uma identidade, ainda que esta não contemple a própria história (FOUCAULT, 2011). É por esse pensamento de Foucault que pode ser interpretada boa parte da história mitológica de Joinville, com suas produções discursivas provenientes da historiografia local.
A composição desse quadro, em que Joinville aparece como “cidade do trabalho” ou, ainda, com “vocação para a indústria”, remonta aos anos de 1960, quando muitos dos escritos históricos sobre a cidade eram tarefas encomendadas e patrocinadas, na maioria das vezes, por empresas locais. Os trabalhos do jornalista e historiador Apolinário
Ternes são os melhores exemplos a serem citados, além dos discursos jornalísticos que reforçam os mesmos ideais da “cidade-maravilha” projetada para o progresso e sucesso, não só do empresariado, mas também do operariado.
Para compreender como foi instituída essa imagem da cidade, foram selecionados autores e autoras que discorrem sobre a ocupação e o processo de desenvolvimento econômico de Joinville. Parte da pesquisa foi realizada no Arquivo Histórico de Joinville (AHJ), no seu acervo documental. Entre os documentos examinados destacam-se os jornais, como A Notícia, Diário Catarinense, Jornal de Joinville e Jornal Extra13, que circulavam no período, e que contribuem para a visualização de como se forjou o desenvolvimento industrial da metalurgia nesse município. Além disso, esses registros possibilitam a percepção de alguns dos ideais que balizaram a construção socioeconômica e sociocultural dessa cidade. Outras fontes bibliográficas sobre a temática em questão serão devidamente referenciadas no decorrer desse capítulo.
Em linhas gerais pode-se afirmar que o objetivo desse estudo é perceber a construção dos sentidos/valores presentes nas narrativas historiográficas que defendem o ideário de uma cidade voltada à indústria e ao trabalho Nessa perspectiva pode ser incorporado o pensamento de Foucault, quando ele afirma que o discurso é parte da projeção dos ideais, da construção de uma identidade planejada ou ainda o jogo das regras que são tomadas como verdade dentro da sociedade (FOUCAULT, 2011). Assim, a maioria dos contos “líricos” históricos sobre Joinville, ao longo de sua trajetória, foi gradativamente incorporada no imaginário social da população.
A imagem da cidade de Joinville retratada em seus principais aspectos, com base na historiografia local, está traçada dentro dos moldes europeus e dos preceitos prussianos da ordem (TERNES, 1986). O município manteve latente a ideia de uma cidade voltada para o trabalho e o progresso, conforme já referenciado. A historiadora Sandra Paschoal Leite de Camargo Guedes defende que esses ideais (mito) foram tonificados, principalmente, entre as décadas de 1960 e 1970. Para a autora, essa autoafirmação pode estar relacionada ao grande contingente de migrantes do período que para esse território acorreram
13O Jornal A Notícia e o Diário Catarinense ainda circulam na cidade de Joinville.
em busca de melhores condições de vida (GUEDES, 1998). Logo, todos, nascidos ou não em Joinville, precisam enxergar esse lugar conforme os modelos e os projetos definidos desde os remotos tempos da fundação da Colônia Dona Francisca, em 1851. Nesse sentido, como se fosse um quebra-cabeça, a história desse município foi sendo gradativamente construída em seus primeiros tempos, a partir das vozes daqueles que comandavam as relações políticas, econômicas e de poder.
2.2 OCUPAÇÃO TERRITORIAL: COLÔNIA DONA