Marcuschi (1993), embasado nos pressupostos teóricos de Koch & Oesterreicher (1991), estabelece um conjunto de princípios fundamentadores da relação fala/ escrita, não a partir de um quadro de dicotomias estritas ou por um viés preconceituoso que exalte uma das modalidades em detrimento à outra, mas de uma maneira que as mostre como partes de um processo contínuo da língua. Seguem-se, abaixo, quatro tópicos caracterizadores das relações entre língua falada e escrita sugeridos pelo teórico:
Primeiramente, é importante salientar que, de acordo com os ensinamentos de Marcuschi (1993), entende-se que sistema linguístico seja a estrutura básica da língua. A língua não possui duas estruturas que a regulamentam, dois sistemas de representação, mas, duas modalidades de uso: fala e escrita, que estão dentro de um mesmo constructo abstrato e teórico. Desse modo, conclui-se que fala e escrita são formas de uso de um mesmo sistema linguístico, no entanto, diversidades são apresentadas no que concerne à maneira de utilização do sistema: na fala, observa-se a redução dos elementos morfológicos, a diversidade na disposição dos constituintes frasais, presença de marcadores conversacionais, presença de hesitações, apagamentos e truncamentos oracionais, mesmo assim, não se torna necessário reconhecer a existência de um sistema linguístico unicamente voltado para as atividades de fala. (Marcuschi 1993, p. 58).
b- Fala e Escrita distinguem-se quanto ao médium utilizado:
Segundo explica Marcuschi (1993), a diferenciação entre o médium utilizado na realização da fala e da escrita constitui-se o único tópico em que há presença de verdadeira dicotomia entre as modalidades da língua: “a fala, na medida que é som, tem uma presença fugaz e a escrita, na medida que é grafia, tem uma presença fixa.” (Marcuschi 1993, p. 59). Notam-se diferenças, também, quanto ao uso do sentido pelo qual se tem acesso à modalidade de uso da língua, isto e, enquanto a fala é compreendida pela audição, a escrita, pela visão.
Em razão das diferenças em relação ao meio de representação da língua, outros aspectos divergentes podem ser identificados. Conforme explica Klein (1985, p. 16), na fala, a entoação é um elemento bastante significativo, de tal modo que, a escrita procura imitá-lo com o auxílio de recursos visuais, assim como pontuação expressiva, alongamento de letras ou sílabas, entre outros recursos. Marcuschi (1993, p. 59) lembra que outras propriedades da fala, contidas principalmente na prosódia, também não podem ser reproduzidas pela escrita, como são os exemplos do tom de voz, da velocidade e da produção de pausas. Na escrita, todas essas realizações são representadas pela utilização correta do sistema de pontuação que procura substituir algumas características prosódicas somente encontradas na fala.
c- A escrita tem normas válidas suprarregionalmente e a fala apresenta variações mais ou menos notáveis de região para região:
Estudiosos apontam que a fala apresenta maior variação sintática e léxica do que a escrita. Observa-se que a tradição procurou estabelecer normas de uso para a língua escrita,
sempre espelhadas no modelo literário, no entanto, para a fala, não seria viável o estabelecimento de uma gramática normativa, o que gerou certa liberdade no uso de variações e uma não-normatização por um conjunto de regras rígidas, tal como a escrita tem. (Marcuschi 1993, p. 60)
d- O tempo de produção e recepção na fala é concomitante e, na escrita, é defasado:
Observa-se que existe, na fala de um interactante, a presença de certo planejamento linguístico, no entanto, o planejar da fala ocorre quase que simultaneamente ao momento de produção do discurso, “essencialmente caracterizadora da produção oral é a concomitância com a recepção” (Neves, 2009, p. 22). Do mesmo modo, o tempo de produção do texto falado e recepção, por parte do ouvinte, é também muito pequeno; por esse motivo a fala apresenta várias incorreções, repetições e paráfrases como forma de sanar os desvios provocados por um processo de planejamento e execução tão rápidos; em geral, as correções são realizadas em presença do ouvinte. Ressalta-se que o tipo de atividade verbal mencionada é de espécie natural, ou, seminatural; falas planejadas como é o caso de discursos políticos, conferências acadêmicas ou até mesmo, algumas aulas, podem contar com planejamento prévio e, ou, roteiros de fala.
Já o processo de formulação do texto escrito, em geral, dispõe de maior tempo para preparação e edição. Na maior parte dos casos, antes de enviar ou publicar um texto, o escritor poderá relê-lo quantas vezes achar necessário e realizar as correções que achar convenientes, o que poderá torná-lo uma produção menos sujeita às incorreções e repetições encontradas na fala. No entanto, observa-se que, apesar de dispor de maior tempo para o planejamento e execução do texto escrito, o leitor, dificilmente, poderá desfrutá-lo no momento de sua preparação. Desse modo, entende-se que a escrita é marcada pela distância temporal entre execução e recepção. “As relações entre fala e escrita são marcadas como contraste, em primeiro lugar, entre presença e ausência do interlocutor, e isso implica contraste entre solidão e participação, no ato de produção” (Neves, 2009, p.22).
Apesar de se acreditar que a maior parte dos textos escritos são produzidos com alguma cautela em relação à adequação da norma culta e maior correção gramatical, verifica- se que alguns escritores de textos mais informais, como são o caso do bilhete e da carta pessoal, podem não atentar, tão fortemente, aos padrões que regem a escrita devido à informalidade e a proximidade, entre interlocutores, que envolvem esses gêneros textuais escritos.