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In document En case-studie om PDS-økosystemer. (sider 76-82)

O bergsonismo implica sempre um retorno à nossa consciência imediata, um retorno às “coisas mesmas”. Mesmo o materialista mais empedernido tem de aceitar que nossa experiência imediata é o nosso meio de acesso ao mundo. Não importa que esta experiência seja por ele depois pensada como uma sombra, um reflexo da atividade de nosso cérebro – ele tem de aceitar que é por meio de sua experiência imediata que se dá a própria possibilidade que ele tem de desmascará-la em sua pretensa capacidade constituinte, de mostrar que ela repousa em última instância na atividade de nosso corpo, que ela não se trata senão de um epifenômeno do cérebro. Nisto reside todo paradoxo do materialismo: é somente a partir da experiência imediata que alguém pode aceder a uma realidade objetiva que seria a verdade de nossa experiência imediata.

Por outro lado, nós vimos que análise dessa experiência imediata nos revelava, logo à primeira vista, uma infinidade de durações diferentes, algumas das quais nós estudamos em nosso capítulo anterior. Mas agora é chegada a hora de mudar o foco e nos perguntarmos: o que esta análise da experiência imediata nos mostra a respeito, não da duração, mas da extensão perceptiva que nos é dada imediatamente? Basicamente, que toda sensação relacionada à extensão é necessariamente a de sensação de uma continuidade

indivisa: se nos atemos ao nosso campo visual ou ao nosso campo táctil, verificamos que

sólidos são necessariamente contíguos uns aos outros, nosso tato deve acompanhar a superfície ou as arestas dos objetos sem encontrar interrupção verdadeira”188. Toda sensação – táctil e visual – que relacionamos à apreensão imediata de uma extensão é necessariamente contínua. Embora Bergson não trate da questão, é fácil ver que é por meio desta continuidade indivisa de nossas sensações que surge a possibilidade de se falar de um campo perceptivo, seja visual ou táctil.

Mas neste campo que nos é dado pelas sensações extensivas, encontramos corpos (ou seja, objetos materiais independentes) que se destacam da sensação. Vemos assim, no meio de nosso campo visual, um carro se movendo. O que é este carro que se move em nosso campo perceptivo? Se nos atemos aos dados da experiência imediata, “um sistema de qualidades, em que a resistência e a cor – dados da visão e do tato – ocupam o centro”189. Ora, ao lado deste carro nos são dados outros objetos – pessoas, casas, etc, cada qual com sua individualidade. Pergunta-se Bergson: “de que modo fragmentamos a continuidade primitivamente percebida da extensão material em tantos corpos, cada um dos quais com sua substância e individualidade?”190

A resposta reside em nossas necessidades vitais. Pois como vimos, toda percepção de um objeto corresponde a uma ação virtual nossa, todo recorte de uma parte em relação ao todo da percepção corresponde a uma ação possível de nosso organismo, ação essa que se desenha em meio ao nosso campo perceptivo. A separação entre a continuidade movente da sensação e o objeto de uma percepção (entre a figura e o fundo de nossa percepção, diria a Gestalt) é algo que se desenvolveu ao longo da evolução, a partir das necessidades vitais dos organismos, não uma característica intrínseca do real:

“No mais humilde dos seres vivos, a nutrição exige uma busca, depois um contato e uma série de esforços convergindo para um centro: este centro irá tornar-se justamente o objeto independente que deve servir de alimento. Seja qual for a natureza da matéria, pode-se afirmar que a vida estabelecerá nela já uma primeira descontinuidade, exprimindo a dualidade da necessidade e do que deve servir para satisfazê-la. (...) Nossas necessidades são portanto feixes luminosos que, visando a continuidade das qualidades sensíveis, desenham aí corpos distintos”191.

188

BERGSON, Henri. Matéria e memória. São Paulo: Martins Fontes, 2006. p. 231. A audição, o olfato e o paladar nos dão, sem dúvida, uma experiência mais descontínua – ouvimos o intervalo entre silêncios e sons se sucedendo, sentimos o intervalo entre os odores, etc. Por isso eles não estão relacionados, para Bergson, a nossa apreensão imediata da extensão.

189 Id. ibid. 190 Id. ibid. 191 Id. p. 232-3.

O recorte perceptivo de uma figura em relação ao nosso campo perceptivo reside, portanto, nas necessidades do organismo: quando este busca alimento, já precisa operar uma divisão entre aquilo que é e o que não é alimento e esta divisão equivale necessariamente a uma primeira separação entre o objeto e a totalidade de seu campo perceptivo. Ao longo da evolução, esta distinção entre os objetos da percepção e a continuidade da sensação se tornará cada vez mais acentuada: se o campo perceptivo é uma extensão indivisa, será necessário recortar aí porções cada vez mais particularizadas pelas necessidades impostas por nossa atenção à vida. Ora, esta particularização de nossa percepção só é possível pela memória; disso decorre que a separação entre objeto da percepção e sensação esteja ancorada, no fundo, no aumento progressivo da tensão da duração ao longo da evolução. Teoria da vida e teoria da percepção (e, consequentemente, teoria do conhecimento) estão, assim, desde Matéria e memória, completamente vinculadas; como Bergson pontua, “estabelecer essas relações muito particulares entre porções assim recortadas da realidade sensível é justamente o que chamamos viver”192.

A posição de objetos em meio ao nosso fluxo sensível diz respeito, portanto, a nossas necessidades vitais, e nada mais. Mas o grande problema é que, ao tratarmos do universo, da matéria, temos a tendência de aplicar os mesmo recortes que efetuamos em nossa práxis cotidiana à realidade ao todo material – disso surge a visão de que a matéria é composta de elementos discretos tais como os que recortamos em nosso campo perceptivo, ou seja, pensamos que a matéria é composta de átomos, partículas, etc., que não são senão abstrações de nosso entendimento sobre o fluxo do real. Recortamos deste modo sistemas sempre artificiais no todo material e cremos que eles correspondem realmente a algo de real, mas na verdade, eles não nos afirmam nada sobre a própria realidade da matéria: esses recortes são da ordem propriamente imaginária de nossa percepção. O que é então propriamente real em nossa apreensão da matéria?

Uma primeira parte da resposta nós já sabemos: ela surge como algo interior à nossa própria sensibilidade, como uma presença irredutível que nossa análise revelou ser nosso primeiro grau de duração. Desse modo, enquanto movimento real que preside nossa sensibilidade, movimento com uma certa duração, a matéria é intrafenomênica. Mas há também outro aspecto da matéria que nos aparece em nossa experiência imediata e que diz respeito à sua extensão, um aspecto seu que nos aparece, por assim dizer, de uma forma

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extrafenomênica. Qual seria? Todo campo perceptivo nos parece, com razão ou sem razão,

cercado por um campo maior. Nosso campo perceptivo jamais esgota a totalidade do real que podemos apreender, mas ele sempre parece se abrir para uma totalidade maior que está além de nosso horizonte. Nós já vimos no capítulo anterior que este caráter “aberto” de nosso campo perceptivo repousa em parte na natureza futurizante de nossa consciência imediata: de acordo com a tensão de nossa memória, ela se situa em círculos de antecipação cada vez maiores que ultrapassam nosso horizonte perceptivo. Mas há também – e neste ponto não tínhamos tocado ainda – um fundamentum in re nesta distinção entre o que vemos e o que está além de nossa visão em nossa percepção. Sem dúvida, somente há algo além de um horizonte para uma consciência que está além de si, mas a mera natureza extática de nossa consciência jamais poderia fundar a realidade do que não vemos. É preciso portanto que esta parcela da realidade que não vemos tenha uma realidade positiva, que não se confunda com a mera atividade constituinte de uma consciência. Somente se dermos conta desta relação entre o visível e o invisível em nossa percepção, entre nosso campo fenomênico e uma realidade extrafenomênica, poderemos dar conta do “processo pelo qual apreendemos em nossa percepção, um estado de nossa consciência e uma realidade independente de nós”193. Ora, este mundo exterior que não coincide absolutamente com nossa percepção, que ultrapassa indefinidamente o nosso campo sensorial imediato, em suma, esta realidade independente de nós é exatamente o que sempre compreendemos como sendo a totalidade do universo

material.

Qual é a característica dessa totalidade? Ela, se nós bem olharmos, é completamente diferente da unidade dos objetos postos por nossa inteligência prática em nossa percepção – enquanto a individualidade destes objetos repousa em nossas necessidades individuais que criam sistemas fechados em nosso campo perceptivo, a totalidade do universo material é antes de tudo uma totalidade aberta194, que jamais pode ser posta por nós como um corpo independente (e nisto ele se aproxima do tipo de totalidade não posicional da consciência que vimos no primeiro capítulo). Se os corpos são divisões artificiais, imaginárias, a totalidade do universo que escapa ao nosso campo perceptivo não é, contudo,

193

Id. p. 239.

194

Sobre este ponto, cabe ressaltar a análise deleuziana em Cinema I: “Bergson dizia: o todo não é dado nem pode vir a sê-lo (e o erro da ciência moderna, como da ciência antiga, era de se atribuir o todo, de duas maneiras diferentes). Muitos filósofos já haviam dito que o todo não era dado nem passível de ser dado: a única conclusão que tiravam disto era que o todo era uma noção desprovida de sentido. A conclusão de Bergson é muito diferente: se o todo não é passível de ser dado, é porque ele é o Aberto e porque lhe cabe mudar incessantemente ou fazer surgir algo de novo; em suma, durar.” DELEUZE, Gilles. Cinema: a imagem-movimento. São Paulo, Brasiliense, 1985. p. 19.

nunca imaginária – ela é esta paradoxal realidade do que não vemos195, uma totalidade irredutível a toda representação, mas, contudo, não completamente estranha à nossa interioridade, em suma, algo que apreendemos de modo indeterminado como uma certa

presença. E é sempre sobre o fundo dessa presença originária que se podem desenhar os

horizontes de nosso campo perceptivo.

A operação que Bergson empreende em nossa compreensão da matéria consiste portanto em afirmar que esta não é (1) algo de puramente exterior a nós, já que ela se dá como o grau mínimo de duração de nossa consciência, como algo de intrafenomênico, mas ela igualmente não é (2) algo de puramente interior a nós, pois ela jamais se dá como redutível à nossa sensibilidade – ela está além de todo horizonte perceptivo, logo nos aparece como algo

de extrafenomênico. Com esta redefinição do estatuto da matéria, Bergson consegue escapar

às armadilhas do realismo e do idealismo: a relação entre a totalidade da matéria e nosso campo perceptivo não é, portanto, a relação pura e simples entre o objetivo e o subjetivo, mas antes a relação entre nosso campo perceptivo e uma totalidade aberta ao qual o campo perceptivo sempre reenvia – ou seja, ela é antes de tudo a relação entre o todo e a parte:

Dê-me ao contrário as imagens em geral: meu corpo acabará por se desenhar no meio delas como uma coisa distinta, já que elas não cessam de mudar e ele permanece invariável. A distinção do interior e do exterior se reduzirá assim à da parte e do todo.196

Por sua vez, esta visão da matéria como um contínuo indiviso é, para Bergson, corroborada pela pesquisa científica do seu tempo, pelos “dois físicos do século XIX que penetraram mais fundo na constituição da matéria: Thomson e Faraday”197. Pois, para o segundo, “o átomo é um centro de forças”, cruzamento de diversas linhas de força indefinidas que alcançam o “espaço inteiro no qual se estende a gravidade”198. Thomson, por seu lado, pensava a matéria “como fluído perfeito, contínuo e homogêneo”, onde as partículas surgiriam por “um anel de forma invariável turbilhonando nesta continuidade”199. Em um caso como no outro, a individualidade do átomo se dissolveria numa visão que pensaria a

195

Mas a matéria não é “um conjunto de imagens”? Sem dúvida, ela é a totalidade das imagens – e por ser totalidade, ela é diferente de nossa representação dela – ela é a presença que permite que nós tenhamos um campo perceptivo. Há tantos mal-entendidos sobre esta definição da matéria (o mais comum é simplesmente transformar Bergson num imaterialista no estilo berkeleyniano), que preferimos optar por usar o termo “imagem” somente mais adiante, quando a relação entre presença e representação estiver fundamentada.

196

BERGSON, Henri. Matéria e memória. São Paulo, Martins Fontes, 2006. p. 47.

197 Id. p. 235-6. 198 Id. p. 236. 199 Id. ibid.

totalidade e continuidade da matéria como o fato primitivo, e não sua divisão em corpos. Pois, como vimos, para Bergson, a visão corpuscular da matéria deriva antes de mais nada de nossas necessidades vitais, dos recortes prático que recortamos em nossa sensibilidade, e a Física, ela mesma, não tem necessidade de seguir a vida ao pensar sobre a matéria: ela poderia, de direito, dispensar as divisões artificiais que efetua sobre a totalidade extensa que se apresenta a nós e assim chegar a uma compreensão da matéria como uma totalidade que implica a “ação recíproca de todas as partes da matéria umas sobre as outras”200. Ela mesma já o faz, na medida em que reconhece que os sistemas fechados que ela isola artificialmente na totalidade da matéria sempre acabam sofrendo uma influência do restante do universo material, que não seja a influência “da gravidade que se estende através dos espaços interplanetários”201. Isso não implica em dizer que a ciência tenha de renunciar, em sua prática, a constituir sistemas em que ela isole uma porção determinada matéria do restante do universo material, mas somente que, ao especular sobre a natureza íntima da matéria, o cientista ou filósofo deve se lembrar do caráter eminentemente artificial dos recortes que operamos sobre o real; nesse sentido, toda especulação metafísica sobre a natureza da matéria deveria ser presidida por uma crítica do caráter operatório de nosso conhecimento. E quando expurgamos os obstáculos que impedem uma visão direta do real, quando buscamos partir da apreensão direta da matéria que nos é dada em nossa consciência imediata, percebemos que nosso campo perceptivo sempre reenvia para uma totalidade extensiva que se situa além dele, assim como percebemos que os sistemas artificiais que a Física constrói na totalidade da matéria sempre se interligam ao restante do universo material.

A matéria é então, para Bergson, um contínuo extenso com uma duração mínima. Mas se assim é, a própria ideia de movimento material precisa ser repensado, quando pensamos a totalidade da própria matéria. Pois um movimento material, como o entendemos habitualmente, não é senão o transporte de uma coisa de uma posição a outra: ora, esse é um movimento que diz respeito antes a um corpo recortado por nossa percepção em meio ao contínuo extensivo, corpo esse que seguimos ao longo de uma trajetória nesse contínuo. Mas e do próprio contínuo extensivo que é a matéria - podemos dizer que ele se move? Mas faz sentido falar de um movimento da totalidade da extensão? Evidentemente não, pois podemos falar de movimentos de corpos que recortamos nesta totalidade, mas não de um movimento

da própria totalidade. Da totalidade material, nós só podemos dizer que ela muda – e toda

200

Id. p. 234-5.

201

mudança é antes uma alteração qualitativa do que uma alteração de uma posição. Deleuze explica muito bem este ponto em Cinema I: “O movimento é uma translação no todo. Ora, cada vez que há translação no espaço há também mudança qualitativa num todo.” 202 O que equivale a dizer que há movimentos na matéria, mas não há movimentos da matéria: enquanto algo que dura, ela está antes em constante mudança, uma mudança única, que abrange a totalidade do universo a cada momento: é o que observamos no famoso exemplo do copo de água com açúcar, onde a lentidão dessa mudança de qualidade do todo nos indica que o universo segue um certo ritmo de duração o qual não podemos acelerar ou retardar. E essa mudança, por ser qualitativa (como toda mudança), é um tipo de modificação análoga aquela que experimentamos em nossas próprias sensações, mas numa ordem temporal muito menor. Entendemos então porque Bergson use o termo "campo de imagens" para designar a matéria: por meio dele, ele visa afirmar que a matéria é algo diferente de nossas sensações somente em

grau, não em natureza: suas modificações são qualitativas, tais como aquelas que se operam

em nossa própria sensibilidade. Não que não possamos falar ainda em movimentos materiais, mas, para Bergson, estes sempre pressupõem um fundo qualitativo a partir do qual eles são recortados, uma totalidade que segue um ritmo de duração específico.

A partir desse ponto, entendemos porque Bergson pode afirmar, à guisa de conclusão do IV capítulo de Matéria e Memória que existem movimentos reais e que “o movimento real é antes o transporte de um estado do que de uma coisa”203. Em princípio, a expressão “transporte de um estado” parece um absoluto non sense: podemos falar que um corpo vai de A até B, mas não posso dizer que o nosso estado de alegria ou tristeza vá de A até B, ou que o estado de juventude de Sócrates se mova até seu estado de velhice. Mas, se olharmos mais de perto, veremos que a estranheza da expressão se justifica pelo caráter misto de nossa experiência: ao mesmo tempo em que experimentamos uma mudança qualitativa do todo material, recortamos nele um corpo que permanece o mesmo em diversos momentos de nossa sucessão. Depois, por meio de nossa imaginação, unimos as posições deste objeto que é fruto de nossa inteligência prática em um único trajeto. Ora, o que temos aí é um híbrido de imaginação e realidade, metade derivado de uma expressão qualitativa do todo material, metade resultado do trabalho de nossa inteligência prática, que recorta neste todo o objeto que se move: é este híbrido que a expressão “transporte de um estado” simboliza. Mas é evidente

202

DELEUZE, Gilles. Cinema 1: a imagem-movimento. Brasiliense, São Paulo, 1985. P. 17-8.

203

que este movimento abstrato se funda antes de tudo na mudança qualitativa do todo e não o contrário. Novamente, vale a pena retomar Deleuze neste ponto:

“O movimento remete sempre a uma mudança, migração, a uma variação sazonal. É a mesma coisa para os corpos: a queda de um corpo supõe um outro que atrai e exprime uma mudança no todo que compreende a ambos. Se pensarmos em átomos puros, seus movimentos que testemunham uma ação recíproca de todas as partes da matéria exprimem necessariamente modificações, perturbações, mudanças de energia no todo. Nosso erro está em acreditar que o que se move são elementos quaisquer exteriores às qualidades”204.

A expressão “o movimento real é o transporte de um estado” pode ser lida então como: todo movimento que observamos no espaço deriva originariamente de uma mudança qualitativa do todo material. Esta mudança é a parte real dos movimentos dos corpos que observamos. Entendemos assim porque Bergson possa afirmar, contra a doutrina da “síntese mental” do Ensaio que também haja uma realidade no movimento que atribuímos aos corpos: esta realidade não reside no próprio movimento corporal, mas na qualidade que preside a todo transporte de corpos no espaço. Será exatamente esta mudança qualitativa que preside o movimento que será jogada fora quando abstrairmos os movimentos das qualidades: ficaremos então somente com o movimento de corpos recortados por nossa sensibilidade e por nosso intelecto, movimento que se desenvolve num espaço homogêneo que perdeu sua ligação com a extensão real de que eles provêm: a exatidão será então suprema, porque estaremos lidando somente com símbolos e esquemas do real, e as ciências naturais, ao mesmo tempo que aumentam sua eficácia sobre o real, perderão pouco a pouco o contato com a realidade da physis.

A matéria, vista a partir de nossa apreensão imediata dela, é, portanto, uma totalidade extensiva que muda qualitativamente sem cessar. E esta mudança é exatamente obra de sua duração imanente, que difere da duração de nossa sensibilidade somente em grau. Não há necessidade de concebermos por detrás daquilo que nos aparece um substrato sem qualidades onde corpos sem qualidades se moveriam. Como Bergson afirma na sua conferência sobre a Percepção da Mudança: “há mudanças, mas não há sob a mudança coisas que mudam.”205. Por que então temos a tendência a pensarmos sempre que haja um substrato

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