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FRAMSKRIVINGER AV NARINGSUTVIKLINGEN I FYLKENE

A história epistemológica inicialmente indica uma dificuldade no livre percorrer proporcionado pelo modelo historiográfico reconstitutivo. Entretanto, as rupturas apenas poderiam ser identificadas por cientistas, que saberiam definir a atualidade da sua ciência. Então, fazer história da ciência é como fazer ciência, pois haveria um interesse do historiador na verdade, que não seria distinto do interesse na verdade do cientista.

Canguilhem afirma que "[...] existiram e existem cientistas que, apoiando-se numa epistemologia e cujos conceitos aderiram, souberam escrever histórias críticas, capazes de intervir positivamente no futuro da própria ciência" (CANGUILHEM, 1977, p. 16). Este é o caso das obras de Ernst Mach, um historiador diferente, que re-inverte, assim como Pierre Duhem, a direção monolítica do papel da história, na ciência, pois são cientistas que "[...] incorporam os resultados históricos à exposição de seus trabalhos especiais" (CANGUILHEM, 1972, p. 8).

Para Duhem, assim como para Mach, para que serve a história da ciência? Parafraseando Dijksterhuis, não é a história da ciência o laboratório da epistemologia, mas sim a história é o laboratório "conceitual" da ciência, o laboratório no qual o cientista pode, vendo as diversas tentativas anteriores, num determinado assunto, num determinado problema, chegar à formulação de uma hipótese científica. A história da ciência, aqui, está profundamente vinculada à ciência. A epistemologia entrou aqui de uma maneira radicalmente fundamental; tem relação com o trabalho científico e não com uma disciplina filosófica autônoma.

Diante do exposto, Canguilhem levanta a questão: será normal que o objetivo da epistemologia só possa ser atingido pelo cientista? A relação da epistemologia com o trabalho científico gera o problema de a história da ciência não ser feita mais por historiadores ou filósofos, e sim por cientistas. A história da ciência epistemológica passa a ser uma disciplina científica para cientistas? Este é um problema que os historiadores, filósofos e sociólogos da ciência enfrentam.

Todos reconhecem que todas as disciplinas que discorrem sobre a ciência têm que ter algum conhecimento da ciência sobre a qual dissertam, porém, o problema se concentra em saber até onde se precisa saber da ciência sobre a qual o historiador ou filósofo da ciência desejam. Para entender o que é relevante, quais são as discussões, quais são os problemas, é preciso um conhecimento mínimo. Mas qual é o ponto limite que especificaria que a partir dali não se faz mais filosofia e sim ciência? E que, num passo a mais, não estaria mais se fazendo filosofia e sim ciência?

Nessa questão, precisamente, a epistemologia é importante para os cientistas por causa da análise e do desenvolvimento dos conceitos científicos, conceitos esses que vão ser submetidos à experiência etc. Para tematizar o papel da história, na elaboração de hipóteses científicas, Canguilhem cita Mach e Albert Einstein, cuja epistemologia está toda vinculada ao desenvolvimento da teoria da relatividade.

A obra de Mach, intitulada O desenvolvimento da mecânica (1883), é um exemplo célebre, diz Canguilhem (1977, p. 16). A preocupação central de Mach está vinculada em resolver problemas da física e, assim, a história da ciência que ele faz é toda montada sobre os conceitos que envolvem a problemática dos referenciais inerciais, de interesse estritamente científico. Essa história da ciência feita por Mach terá um impacto muito grande em Einstein no tocante à questão da relatividade:

Einstein tinha encontrado, na epistemologia de Ernst Mach a ideia do caráter relativo e provisório dos conceitos e das teorias; na filosofia de David Hume, a crítica da indução – liberando a relação entre os fenômenos e os conceitos; e, na de Immanuel Kant, a ideia de que a realidade do mundo exterior, posto [...] diante de nós como um enigma, nos é inteligível, havendo a necessidade, para pensar, de conceitos e categorias independentes da experiência. (PATY, 2001, p. 14)

Para Mach o que se precisa é ter uma correspondência conceitual. Ela tem que agarrar o problema conceitualmente, sendo esta é uma maneira de fazer história epistemológica. Podemos citar também Pierre Duhem, na história da mecânica, aa sua obra intitulada La théorie physique, son objet, sa structure (1905), existe um capítulo inteiro sobre o papel da história, na elaboração de hipóteses científicas, e isso mostra que Duhem também está interessado nessa questão.

Duhem vai estudar os medievais, porque seu interesse está voltado para uma física de "qualidade" – no sentido das qualidades aristotélicas. Ele não encontra essa física de qualidade nos seus antecessores imediatos, porque o século XVII eliminou a ideia das qualidades e pôs como prática científica central o avanço da categoria de quantidade sobre a categoria de qualidade. Não conseguindo encontrar a categoria de qualidade nem em Descartes, nem em Galileu, nem em Kepler, Duhem a buscará em Aristóteles, na obra Da geração e da corrupção, que é onde o estagirita tematiza a geração e a corrupção das qualidades sensíveis. E qual é a física de qualidades de Duhem? É a termodinâmica, pois ela estuda as mudanças de fases, e essas mudanças de fases do estado líquido para o estado gasoso são mudanças de qualidades físicas da matéria. A termodinâmica estuda as mudanças qualitativas que ocorrem na matéria. Toda a história da ciência é feita, então, para recuperar hipóteses, recuperar ideias esquecidas e abandonadas pela ciência.

De fato, Canguilhem reconhece "a existência e o valor de uma história epistemológica composta por cientistas", de uma história epistemológica que visa à ciência, que visa ao desenvolvimento da ciência, que visa aos problemas da ciência. Entretanto, Canguilhem pergunta se tal valor:

[...] deve implicar que o epistemólogo renuncie ao tipo específico das suas relações com a história das ciências, sob o pretexto de que uma relação análoga pode ser instaurada entre os cientistas e a história, para grande benefício desta história epistemológica. (CANGUILHEM, 1977, p. 16)

Em outras palavras, é possível uma história epistemológica da ciência que não seja científica, que seja fundamentalmente filosófica?

Canguilhem inicia a resposta para essa questão com base nas ideias de três filósofos: o primeiro, Jean-Toussaint Desanti, filósofo da matemática; o segundo, Gaston Bachelard; e o terceiro, René Descartes.

Desanti supõe que o filósofo fale da matemática de dentro, praticando-a, e não mais de fora, e que deve ser acompanhada, quaisquer que sejam os saberes ou as ciências examinadas. O objeto especificamente matemático caracteriza-se por sua idealidade. Ele deve ser pensado, no real, no sentido de que possui uma condição relacional com elementos físicos. Por um lado, Desanti era insatisfeito com as formas filosóficas que herdou e, por outro, era capaz de introduzir, na boa consciência do saber, a inquietação e a negação. Tem como principais obras As idealidades matemáticas (1968), A filosofia silenciosa (1975) e a Crítica filosófica da ciência (1975).

Canguilhem, comentando sobre o aspecto da idealidade matemática presente em Desanti, pondera que essa é uma parte, e não a menor, dos ensinamentos de G. Bachelard. Se a ciência é olhada somente de dentro, então, a história epistemológica da ciência adotará uma postura internalista como ponto de partida para investigar a história da ciência pretendida. Essa é, por sua vez, a postura de Mach, igualmente a de Desanti e de Bachelard, de uma visão internalista da história epistemológica da ciência.

A presença de Descartes é para dizer que o epistemólogo não pratica a ciência cartesianamente como prática do método cartesiano de dificuldades da matemática, no sentido de dividir cada uma das dificuldades examinadas em tantas parcelas para se obter uma ideia clara e distinta. Cabe ao epistemólogo, nas palavras de Desanti, citadas por Canguilhem, "[...] imitar a prática dos cientistas, tentando reconstituir os gestos produtores de conhecimento, por meio de uma familiarização estudiosa com os textos originais nos quais o produtor se explicou sobre a sua conduta" (1977, p. 17). Por isso, Canguilhem afirma "[...] que esse tipo de prática produtiva não estaria ao alcance do filósofo, sem que ele fosse um pioneiro no exército dos científicos" (ibidem), visto que essa prática está somente ao alcance do cientista.

Pode-se reconhecer que o cientista, em algum momento da sua prática, se interesse por antecedentes conceituais, seja para solucionar um problema atual, seja pela heurística do conhecimento. Para Canguilhem, temos que "[...] reconhecer que é natural o interesse dos cientistas pela ciência na sua história" (ibidem). Entretanto, essa historicidade se dá mais na ordem conceitual do que na ordem cronológica propriamente dita.

Quando o cientista se dirige ao passado, ele não só se afasta temporalmente, mas também se afasta conceitualmente. Então, o afastamento de ordem epistemológica, ou conceitual, não coincide necessariamente com os afastamentos cronológicos. O exemplo dado por Canguilhem para ilustrar tal tese é: qualquer "[...] matemático do século 19 poderia sentir-se mais interessado por Arquimedes do que por Descartes" (ibidem). Canguilhem observa que Desanti, sendo matemático, estaria mais próximo conceitualmente de Arquimedes, mesmo estando quase dois mil anos de antecedência cronológica dele que de Descartes, cujo distanciamento cronológico é de aproximadamente duzentos anos, mas que apresenta, todavia, um distanciamento conceitual bem maior. Essa é uma observação bastante relevante.

Basicamente, Canguilhem expôs três posições e esboçou uma quarta, começando com um problema. Quando a epistemologia é fundamental para a história, ou seja, quando a história da ciência é feita totalmente em vista da epistemologia, ela é feita somente por cientistas, uma história feita para a ciência, para as suas teorias. Essa história não tem mais ligação nenhuma com a memória, tampouco com a cronologia, tampouco com o fazer história do desenvolvimento real das concepções.

Com efeito, os filósofos também querem fazer história epistemológica da ciência e essa história não é semelhante à realizada pelos cientistas. Existem diferenças entre o interesse histórico dos cientistas e o interesse histórico dos epistemólogos. Ao contrário do interesse histórico do cientista, afirma Canguilhem, o interesse do epistemólogo é de vocação. "É um interesse de vocação e não de complemento, uma vez que o seu problema é o de conseguir abstrair da história da ciência, o processamento ordenado latente que se pretende verídico, e cujo termo provisório é a verdade científica presente" (CANGUILHEM, 1977, p. 18).

O epistemólogo não tem um interesse na história para complementar a sua ciência, o interesse é por vocação epistemológica. O epistemólogo não faz história da ciência em uma parte do seu trabalho de reflexão, faz história da ciência sempre. Não é complementar, é essencial, é vocacional. No sentido da vocação epistemológica, é impossível fazer uma epistemologia filosófica sem história da ciência, pois seu problema é chegar a abstrair da história da ciência a verdade, vista enquanto uma sucessão manifesta de enunciados que têm pretensão à verdade.

Até esse momento do texto, não se manifestou o interesse, na verdade, nem mesmo para o historiador cientista, pois, como vimos, ele não está preocupado com a

correspondência histórica. Assim, ele não está preocupado com a verdade histórica. Ele não faz história da ciência preocupado com a verdade, mas sim com o desenvolvimento de suas próprias ideias, em obter hipóteses. Existe uma heurística, na preocupação do historiador cientista, que pertence a uma metodologia, como Duhem bem observou; é uma história heurística que ajuda o cientista a ter ideias, melhorar as suas hipóteses a partir do estudo de como foram feitas.

Agora podemos dizer que o epistemólogo tem interesse na racionalidade, pois ele tem que chegar a abstrair a história da ciência, enquanto ela é uma sucessão de enunciados, corpos de conhecimento mais ou menos sistematizados, com pretensão à verdade histórica. Dessa forma, agora se tem um olhar epistemológico filosófico sobre isso, e Canguilhem afirma que, devido à vocação do epistemólogo, o interesse epistemológico é mais livre que o interesse do cientista.

Os cientistas estão com as restrições da sua teoria, do seu campo de estudo. Portanto, eles estão preocupados em fazer ciência atendo-se às restrições do seu campo. O epistemólogo tem interesse na verdade, mas o interesse na verdade do epistemólogo é diferente do interesse na verdade do cientista. Ele é mais livre, porque não está sujeito às restrições do campo científico.

Para ilustrar tal afirmação, Canguilhem cita um cientista e um epistemólogo a fim de caracterizar a liberdade do epistemólogo diante do cientista. O primeiro exemplo é o embriologista britânico, Sir Gavin de Beer, do final do século XIX e início do século XX, que, na função de cientista, está voltado para história quando a sua motivação está fundamentada para rever as concepções pré-darwinianas e darwinianas da relação embrião-antepassado. Beer vai para a história, porque ele está interessado em fazer modificações na ciência e, para isso, a história serve para entender como foi tematizada, antes da evolução, em Darwin, a questão da relação embrião-antepassado.

No segundo exemplo, Canguilhem afirma que se trata de uma ótica totalmente diferente da de Beer, pois o epistemólogo, Camille Limoges, que não está mais sob as restrições da teoria evolucionista, está sob uma óptica mais livre e crítica. Mesmo sendo leitor dos inéditos de Darwin, publicados e comentados por Beer, Limoges não deixou de contestar a ideia de que Darwin devia à leitura de Malthus a condição da elaboração do conceito de influência. A contestação que Limoges faz diante de um conceito vulgar de historiografia usual "[...] serve para ilustrar certo modo de interpretar os textos, sem

privilegiar aqueles em que um autor procura voluntariamente explicar-se" (CANGUILHEM, 1977, p. 18).

Em suma, o objetivo de Beer é desenvolver uma nova relação embrião-antepassado que esteja de acordo com a teoria evolucionista. Entretanto, na epistemologia de Camille Limoges, encontramos outra óptica que concerne à possibilidade da influência, ou seja, uma oposição, uma crítica da ideia de influência, e é por isso que Limoges irá criticar uma reconhecida influência de Malthus em Darwin. Limoges vai se preocupar em opor o conceito de seleção natural ao conceito anterior de economia natural, mostrando que há uma "[...] ruptura entre a antiga e a nova história natural ao nível da revisão do conceito de adaptação" (ibidem).

O próprio Darwin afirma o impacto que a obra de Malthus teve sobre a sua obra, mas o problema aqui, para Canguilhem, é mostrar a diferença de óptica entre um cientista e um epistemólogo. O epistemólogo, no caso de Limoges, não aceita sobre o conceito de influência, só porque Darwin disse que era importante a influência de Malthus para o desenvolvimento da ideia de seleção natural. A verdade, para o epistemólogo, impõe-se de outra maneira. Ele pode trabalhar sob concepções que não são reconhecidas no meio científico, ou na principal corrente científica, dado que a vinculação entre Malthus e Darwin é reconhecida por todos os cientistas. Limoges constata justamente uma ruptura entre o conceito de "seleção natural" de Darwin e o conceito de "economia natural" de Malthus. O problema, aqui, é a diferença de óptica, que torna mais livre o epistemólogo. Aprofundando o tema, o que Canguilhem realmente quer dizer com o exemplo de Malthus e Darwin? Na referência textual, Darwin claramente expõe a importância de Malthus para a elaboração do conceito de seleção natural. Assim, qual é a função do exemplo, uma vez que não haveria dúvidas quanto à influência de Malthus em Darwin? Qual é o problema? O problema é atacar o conceito de influência, como um conceito vulgar de historiografia. Segundo Canguilhem, o objetivo de Limoges foi ilustrar, com o exemplo de Darwin, certo modo de interpretar os textos, sem dar privilégio aos próprios textos, sem ficar preso puramente ao texto: "O que se procura ilustrar com o exemplo de Darwin é um modo de interpretar os textos, sem privilegiar aqueles em que um autor procura voluntariamente explicar-se" (CANGUILHEM, 1977, p. 18).

Se ficarmos presos ao texto, afirmando que Darwin falou que há realmente uma influência de Malthus, então há. O problema é o questionamento dos textos, sem lhes dar privilégio, mesmo àqueles em que o autor acreditou que estivesse explicando a si

mesmo. Esse exemplo de Malthus e Darwin serviu justamente para mostrar a liberdade que o epistemólogo tem de ultrapassar o texto. Por isso mesmo foi que Canguilhem pegou o exemplo de Limoges, falando sobre a influência de Malthus em Darwin, pois ele contesta a utilização do conceito de influência, mesmo quando a afirmativa está textualmente elaborada. O problema é que, em Darwin, há o conceito de seleção natural, enquanto, em Malthus, o foco é o velho conceito de economia natural.

O historiador "puro", num certo sentido, ficaria, na superfície e trabalharia essa questão da continuidade; desse modo, para o historiador, sim, Darwin sofreu a influência de Malthus. Já a leitura epistemológica pode questionar até o próprio texto. Na leitura epistemológica, deve ser visto o vínculo entre esses dois conceitos: o de economia natural e o de seleção natural. O epistemólogo constata que tal vínculo não existe, pois eles pertencem a contextos epistemológicos diferentes. Não significa que da economia natural não se possa deduzir a seleção natural, mas existe tensão entre elas, uma tensão que, do ponto de vista histórico, desapareceria em função de uma linha contínua de sucessões no tempo, que os historiadores delineariam. Entretanto, do ponto de vista da epistemologia, encontra-se uma ruptura entre esses dois conceitos; consequentemente, isso nos leva ao questionamento do conceito de influência.

Do ponto de vista epistemológico, Limoges está questionando o conceito de influência, que haja uma passagem de conceitos de um contexto para outro, sem ruptura. No entanto, se há ruptura, como pode existir influência? O conceito de ruptura epistemológica questiona tacitamente o conceito de influência, pois podemos deduzir que, onde há ruptura, não há influência. A ruptura epistemológica é praticamente uma recusa ao conceito de influência.

O exemplo de Malthus e Darwin serviu para mostrar fundamentalmente a diferença entre o olhar epistemológico e o olhar científico. Temos, neste exemplo, a história epistemológica do filósofo – óptica de Limoges, e a história epistemológica do cientista – óptica de Beer.

Assim, Canguilhem elabora sua quarta posição, concluindo que "[...] a epistemologia sempre foi histórica" (ibid, p. 19). Na verdade, para Canguilhem, nunca houve uma epistemologia que não fosse histórica. De certa forma, todo epistemólogo trabalha recolhendo seu objeto, na história da ciência, tematizando sempre a questão do progresso, do desenvolvimento e da transformação da ciência. Agora, resta-nos

perguntar: quais implicações existirão ao se considerar que a epistemologia nunca deixou de ser histórica?

No momento em que a teoria do conhecimento deixou de ser fundamentada numa ontologia, incapaz de dar conta das novas referências adotadas por novos sistemas cosmológicos, é nos próprios atos do saber que foi necessário procurar, não mais suas razões de ser, mas seus meios de alcançá-los (CANGUILHEM, 1977, p. 19).

Pode-se inferir que a epistemologia não está interessada nos próprios atos, mas nos procedimentos pelos quais se chega aos atos, ou seja, o modo de operação. Dessa forma, quem é que está interessado no ato mesmo do conhecimento? O cientista, pois ele está interessado em estabelecer uma teoria científica como ato de conhecimento verdadeiro, enquanto o epistemólogo está interessado em como o cientista chegou a esse conhecimento.

Então, que perspectiva se coloca, quando se faz uma história epistemológica da ciência feita por filósofos ou epistemólogos? Qual a diferença entre o tratamento epistemológico e o tratamento científico, visto que os dois tratam da verdade? No caso dos cientistas, interessam os atos próprios de chegada à verdade, as teorias verdadeiras, as hipóteses verdadeiras. No caso do epistemólogo, o que interessa saber é o procedimento de chegada à verdade.

Após esclarecer a diferença de interesse entre o epistemólogo e o cientista, na história da ciência, o problema passa a ser, então, o da construção dos objetos. Qual é o objeto da história da ciência, na visão do cientista e na visão do epistemólogo? Considerando a própria ciência como objeto da história da ciência, então encontramos o problema da relação entre sujeito do conhecimento e objeto do conhecimento.

"No segundo Prefácio (1787), à Crítica da razão pura, Kant valeu-se de uma história