3. Extended Risk Based Inspection
3.3 Framework
Figura 8
Ainda estou em estado de choque, o que aconteceu no meu domingo de dias das mães demorará para ser esquecido de minha ungida vida: eu ganhei um pênis de borracha de minha filha Layla Camile, UM PÊNIS DE BORRACHA!! Em pensar que eu batalhei tanto para encontrar essa minha filha, que eu havia vendido para comprar um poste de pole dance quando eu era mundana, até cai uma lágrima de meu olho esquerdo.
"Mãe, eu sei que o meu presente te fará uma pessoa melhor, pois falta piroca em sua vida", foi o que Layla me disse ao dar o meu "presente". E agora, o que eu faço com essa menina? Dou para alguma instituição de caridade? Expulso de casa? Enquanto não sei o que faço, deixei Layla algemada dentro do tanque algemada na torneira e a cada três horas levo uma folha de alface e leio um trecho da Bíblia, pois ela está imensa de obesa.
E alias, a nossa contenda começou quando achei que Layla estava muito obesa para a idade dela. Foi então que comecei a proibir de comer besteiras e comecei algumas ações corretivas, como por exemplo, leva-la até o Mcdonalds e comer um lanche inteiro na frente dela, só deixando ela sentir o cheirinho de vez em quando e nos churrascões da Igreja eu deixava ela apenas lamber as carnes. Outra coisa que eu fiz para curar Layla do encosto da obesidade foi reunir várias irmãs da Igreja para rirem
da cara dela enquanto a chamavam de obesa. Fiz apenas o que qualquer mãe faria para salvar uma filha, apenas exercitei o meu amor de mãe e a fiz perder 12 kg em apenas um mês!!
Agora eu pergunto, como posso ser tão penalizada por apenas querer ser a melhor mãe do mundo? Sério, eu não entendo!! Estou muito triste, acho que a melhor solução é levar a minha filha para ser exorcizada em alguma Igreja dos EUA, pois aqui no Brasil nada ainda se resolveu. Torçam por mim!! AMÉM!
ANÁLISE
Conquanto a imagem de um pênis de borracha tenha sido escolhida pelo autor do blog para nortear o percurso (e o efeito) inicial da leitura dessa postagem, convém eliminarmos a priori a possibilidade de se tratar de uma postagem pornográfica, muito embora concordemos com Leite (2011) ao afirmar que:
Não que toda obra audiovisual pornográfica possua influência desta categoria estética específica (o grotesco), mas argumento que muitas obras pornôs - e cada vez mais a pornografia produzida e consumida para e pela internet - possuem elementos que podem ser associados a algumas características que definem o grotesco (LEITE, 2011, p. 11).
Consideramos pertinente nessa análise, portanto, o conceito de pornografia proposto por Bertrand & Baron-Carvais, conceito que se pretende consensual:
A pornografia representa, ou evoca claramente, um aspecto da natureza, ou da atividade sexual de um ou de vários seres humanos. E seu efeito principal (talvez único) é estimular a libido do usuário, seja qual for a intenção do criador (Bertrand & Baron-Carvais apud MANGUENEAU, 2010b, p. 15).
Mangueneau (2010b) propõe duas condições mínimas, embora não obrigatórias, para caracterizar o domínio pornográfico. São elas:
a) O texto deve restituir a dimensão configuracional da cena. O objetivo é a total visibilidade do ato sexual (Marzano apud MANGUENEAU, 2010b, p. 69).
b) A enunciação deve ser carregada de afetos eufóricos atribuídos a uma ou várias consciências, que podem ser atores ou testemunhas (ibidem).
A postagem sob análise não se inscreve, como podemos perceber, em nenhum momento na categoria pornográfica, pois lhe faltam os dois elementos mínimos a que
Mangueneau se refere para caracterizá-lo como tal; nem na imagem nem no texto se encontra a dimensão configuracional ou visibilidade total de um ato sexual, nem a enunciação vem carregada de afetos eufóricos eróticos. Por outro lado, mostraremos a abundância de elementos grotescos nessa postagem.
De modo a podermos nos deter no efeito humorístico que a imagem do pênis de borracha nos enseja nessa postagem, convém analisar, inicialmente que: a) trata-se de um pênis de borracha de grande proporção, o que se depreende do fato dele ocupar a maior parte da figura e pela relação desproporcional entre o objeto e a mão feminina que o segura, o que o faz parecer maior; b) considerado o tamanho do objeto, percebemos aí uma referência à libido de Cleycianne, que pode ser inferida no texto verbal como grande e reprimida, uma vez que ela já foi dançarina erótica (stripper) de Pole Dance, durante o que ela chama de vida mundana (referência a uma vida de sexualidade ativa e exercitada promiscuamente) e c) o uso da expressão ungida vida, sendo o adjetivo ungido comum entre os protestantes brasileiros, como sinônimo de abençoado, livre de pecado, puro, tocado por Deus, implicando, portanto, no contexto da postagem que Cleycianne era mundana, isto é, praticava sexo fora da instituição do casamento, que tradicionalmente o legitima, e atualmente não tem mais relação sexual pois possivelmente reprime a própria sexualidade por causa da religião protestante que professa.
Em pensar que eu batalhei tanto para encontrar essa minha filha, que eu havia vendido para comprar um poste de pole dance quando eu era mundana, até cai uma lágrima de meu olho esquerdo.
Nesse enunciado, a vida de Cleycianne é caracterizada como marcada por uma sexualidade que se põe como vetor de sua existência, a partir da confissão que ela faz de que vendeu a própria filha para comprar um pole dance (poste de dança erótica) quando era mundana. Nesse enunciado, os adjetivos mundana e ungida são polarizadores, isto é, estabelecem uma referência ao bem e ao mal, ao certo e ao errado, ao virtuoso e ao vicioso, ao sagrado e ao profano, e quando essa polarização é desestabilizada, nós temos o humor grotesco. O traço grotesco nesse enunciado se evidencia também pela supressão e banalização do instinto materno, tradicionalmente um valor social e espiritual caro em quase todas as sociedades e culturas, e aqui é preterido em prol de uma vida sexual promíscua (o pole dance é comumente associado às strippers americanas graças ao cinema), tradicionalmente um valor associado ao pecado nas sociedades de orientação cristã. Temos, assim, uma carnavalização circunstancial nesse enunciado, consistindo na despolarização de valores tradicionais, que são
permutados na postagem sem questionamentos moralizantes, numa perspectiva de sociedade onde não há problema em se vender uma criança para comprar um instrumento de erotização/prostituição. E uma sociedade assim desliza para o grotesco na razão direta em que:
O que aí se procura é identificar “realidade” com um cotidiano desprovido de maior sentido, com uma espécie de grau zero do valor ético, em que só há lugar para o miúdo, o mesquinho, a emoção barata e o banal (SODRÉ & PAIVA, 2002, p. 136).
A alusão ao olho esquerdo por onde cai uma lágrima também oferece material para análise: o lado esquerdo associa-se ao polo oposto do bem. Na política, enquanto a direita representa as forças conservadoras, a esquerda tradicionalmente encabeça as forças de oposição. Temos nas religiões de matriz africana (e, muitas vezes, as postagens de Cleycianne enveredarão por essa seara) a designação de Linha de Esquerda para os Exus e as Pombo- Giras, entidades associadas às forças materiais, ao mal, aos vícios (tabagismo, alcoolismo etc.), à execução de tarefas que representam vingança, desgraça, doença e infelicidade para alguns e, também, à sexualidade (no caso, as Pombo-Giras), e são vistos pelos cristãos como demônios.
Em Cleycianne, numa postagem de 15 de fevereiro de 2011 intitulada: Cavalos nunca Mais 2 – O Retorno da Pombagira, lemos o seguinte: “Quando minha mãe estava grávida de mim ela estava completamente perdida, pois não sabia quem era o meu pai e na ânsia de ter um homem ao seu lado para que a sustentasse ela se entregou à macumbaria e prometeu a minha alma para Padilhinha, a Pombagira dos homossexuais, em troca de um homem rico.18” O tratamento discursivo dado aqui ao universo das religiões de matriz africana reflete o que Sodré e Paiva constatam a esse respeito: O rechaço elitista às manifestações da religiosidade afro sempre foi, na verdade, um aspecto da resistência ao que tivesse “cara” de povo ou ao que soasse como diversidade cultural (ibidem, p. 124). Como no blog a imagem de Cleycianne busca aglutinar preconceitos burgueses e cristãos os mais diversos para gerar efeito humorístico, evidentemente que elementos das tradições religiosas de base africana não poderiam estar ausentes, principalmente porque no protestantismo brasileiro eles são associados às forças opositivas das tradições cristãs, ou seja, aos demônios.
18 Fonte: http://www.cleycianne.com/2011/02/cavalos-nunca-mas-2-o-retorno-da.html. Acessado em 22 de outubro de 2013.
Há aqui, certamente, no exagero com que a sexualidade de Cleycianne é humoristicamente colocada, como estando acima do valor da maternidade, a configuração da técnica do exagero cômico a que se refere Propp, quando nos informa que:
O exagero é cômico apenas quando desnuda um defeito. Se este não existe, o exagero já não se enquadra no domínio da comicidade. É possível demonstrá-lo através do exame de três formas fundamentais de exagero: a caricatura, a hipérbole e o grotesco (PROPP, 1992, p. 88).
O defeito desnudado de Cleycianne, no contexto do humor que permeia este blog é a sexualidade mundana que se opõe aos valores cristãos da castidade e da pureza e a forma como esse embate é construído, seja por meio de exageros, seja por meio de caricaturização, contribuindo para o efeito do riso. É, inclusive, nessa perspectiva de se fazer rir desses valores que, muitas vezes, encontraremos a expressão sexo reprodutivo em algumas postagens, como uma alusão a que, para Cleycianne e para os protestantes a quem esse blog é destinado como paródia, o sexo deve unicamente ser realizado para fins reprodutivos. No tocante à caricatura, Propp prossegue:
A essência da caricatura foi reiteradamente definida de modo correto. Toma- se um pormenor, um detalhe; esse detalhe é exagerado de modo a atrair para si uma atenção exclusiva, enquanto todas as demais características de quem ou daquilo que é submetido à caricaturização a partir desse momento são canceladas e deixam de existir. A caricatura de fenômenos de ordem física (um nariz grande, uma barriga avantajada, a calvície) não se diferencia em nada da caricatura de fenômenos de ordem espiritual, da caricatura dos caracteres. A representação cômica, caricatural, de um caráter está em tomar uma particularidade qualquer da pessoa e em representá-la como única, ou seja, exagerá-la (PROPP, 1992, p. 88-89).
Essa deformação caricatural no caráter de Cleycianne, apresentada nesta postagem como uma mulher capaz de tudo, inclusive de vender a própria filha para satisfazer sua sexualidade promíscua, tanto atende ao que se propõe a caricatura, nesse caso pelo exagero de algo que é considerado contrário ao que se espera de uma crente virtuosa (imagem que “ela” adota ao escrever as postagens e rememorar seu passado pecaminoso), como também atende à própria estética grotesca, conforme o entendimento de Sodré e Paiva:
Grotesco é aí, propriamente, a sensibilidade espontânea de uma forma de vida. É algo que ameaça continuamente qualquer representação (escrita, visual) ou comportamento marcado pela excessiva idealização. Pelo ridículo ou pela estranheza, pode fazer descer ao chão tudo aquilo que a ideia eleva alto demais (SODRÉ & PAIVA, 2002, p. 39, grifos nossos).
A idealização da vida de uma mulher protestante é ridicularizada nessa postagem, gerando o grotesco. Do ponto de vista da forma discursiva, temos um grotesco do gênero representado (suporte escrito e imagístico), da espécie crítico, pois o efeito humorístico está no desmascaramento das convenções e ideais subjacentes à vida protestante, expondo de modo risível os mecanismos do poder (ibidem, p. 69).