Acceptor Shell Thickness (mm)
3.4 Fragmentation - MCX-6100 CH 6027/14 with sedimentation
Neste capítulo serão apresentadas as perspectivas metodológicas desta pesquisa, bem como o contexto em que foi realizada e os procedimentos metodológicos adotados. Para tanto, serão descritos os participantes investigados, os procedimentos de coleta e seleção do corpus e o tratamento analítico dado a cada etapa de análise.
1. Perspectivas Metodológicas
Esta pesquisa pode ser caracterizada como qualitativa interpretativa de tipo etnográfico. As pesquisas qualitativas são constituídas por um conjunto de técnicas interpretativas que têm por meta retraçar, decodificar ou traduzir fenômenos sociais naturais, a fim de obter elementos relevantes para descrever ou explicar estes fenômenos (Van Maanen, 1983).
Há uma crença disseminada no fazer científico de que as pesquisas qualitativas seriam ciências soft, enquanto as quantitativas seriam ciências hard. Essa oposição, fundada sobre um antagonismo inexistente, ainda perdura nos meios científicos mesmo já havendo muitas pesquisas que se valem dos dois métodos simultaneamente. Sobre isso, Silverman (1998) comenta que:
(...) Há quem considere que a pesquisa quantitativa reporte objetivamente a realidade, enquanto a qualitativa é influenciada pelos valores políticos do pesquisador. Ao mesmo tempo, outros podem argumentar que a liberdade de valores nas ciências sociais é também indesejável ou impossível. (1998:25)
Segundo Maturana, os cientistas afirmam que as emoções não participam da validação das explicações científicas e que ao aprendermos a fazer ciência, aprendemos a não deixar que nossos desejos interfiram nos critérios de validação
e caso percebamos que isso acontece, consideramos como um erro grave. Mas esclarece que, embora neguemos, nossas emoções interferem em nossas pesquisas desde a constituição do domínio das ações em que operamos ao gerarmos nossas perguntas. Afirma, em outras palavras que:
A poesia da ciência é baseada em nossos desejos e interesses, e o curso seguido pela ciência nos mundos em que vivemos é guiado por nossas emoções, não por nossa razão, na medida em que nossos desejos e emoções constituem as perguntas que fazemos quando fazemos ciência. (...) Portanto, nós não encontramos problemas ou questões a serem estudados e explicados cientificamente fora de nós mesmos num mundo independente. Nós constituímos nossos problemas e questões ao fluirmos na nossa práxis de viver e fazemos as perguntas que nós, em nosso emocionar, desejamos fazer. Nossas emoções não entram na validação de nossas explicações científicas, mas o que explicamos surge através do nosso emocionar como um interesse que não queremos ignorar, explicando o que queremos explicar, e o explicamos cientificamente, porque gostamos de explicar dessa maneira. Então, a ciência, como um domínio cognitivo, existe e se desenvolve como tal sempre expressando os interesses, desejos, ambições, aspirações e fantasias dos cientistas, apesar de suas alegações de objetividade e independência emocional. (2001:147)
Para Maturana (2001), os cientistas são seres humanos que buscam explicações válidas para os fenômenos observáveis apenas no contexto de coexistência humana em que surgem. Considera o cientista como um observador- padrão, que aceita uma explicação científica como válida, se esta apresentar quatro operações para que seja validada e, portanto, tida como uma explicação científica, seja numa pesquisa quantitativa ou qualitativa. São elas:
• Apresentação da experiência ou do fenômeno a ser explicado e do que o cientista precisa fazer para experienciá-la.
• Reformulação do fenômeno a ser explicado por um mecanismo gerativo, que permite ao cientista explicá-lo a partir de seu domínio de experiência.
• Dedução, a partir da operação do mecanismo gerativo e de todas as coerências operacionais do domínio de experiência, além das que o cientista já possui em seu repertório.
• Experiência, por um cientista, das deduções realizadas a partir da explicação da experiência inicial.
Quando essas quatro operações são satisfeitas durante o processo de explicar um fenômeno do domínio de experiência do cientista, é que um cientista ou obsevador-padrão como o chama Maturana, pode afirmar que o mecanismo gerativo proposto em sua reformulação é uma explicação científica do fenômeno apresentado, a ser explicado por ele. Essa explicação só será válida, portanto científica, quando essas condições se aplicarem e forem validadas na comunidade científica, que também deve considerar que o critério de validação foi satisfeito.
Hoppen (2002) ressalta que a análise dos dados consiste na etapa mais difícil da pesquisa qualitativa, "porque as estratégias e técnicas de análise apresentam uma diversidade muito grande e jamais foram definidas de maneira clara". O autor propõe duas estratégias gerais e três procedimentos de análise para a pesquisa qualitativa, expostos a seguir:
• Estratégias gerais:
o uso de bases teóricas: permite fundamentar a análise na questão de pesquisa e nas demais dimensões importantes;
o descrição do caso: quando o objeto de estudo é pouco ou mal conhecido.
• Procedimentos de análise:
o Adequação a um modelo de pesquisa (pattern-matching): o pesquisador compara os dados obtidos a um modelo de pesquisa estabelecido e, quando for o caso, explica porquê e como o caso em estudo, a pesquisa-ação ou a observação participante podem ser consideradas como uma boa ilustração do modelo adotado.
o Construção de uma explicação (explanation building): mais utilizada em pesquisas de natureza exploratória, visa derivar novas questões de pesquisa ou hipóteses a partir dos dados analisados.
o Análise de séries temporais e outros dados quantitativos: efetuada do mesmo modo que os das pesquisas do tipo experimental.
Hoppen conclui ressaltando que a validade interna do estudo é garantida pelo rigor do controle exercido pelo pesquisador e depende tanto da validade do construto e do desenho da pesquisa adotados quanto do controle do terreno de observação (Hoppen, 2002).
Dentre os vários tipos de pesquisa qualitativa, esta se enquadra na pesquisa do tipo etnográfico, que se caracteriza por estabelecer um contato direto do pesquisador com a situação pesquisada.
A etnografia busca descrever um sistema de significados culturais de um grupo determinado. Para isso, pressupõe um ambiente natural para coleta de dados e o pesquisador como principal instrumento. Trabalha com dados descritivos e por um processo indutivo em que as categorias afluem dos dados observados (LÜDKE e ANDRÉ, 1986). Tem como critérios:
1) flexibilidade; 2) contato pessoal; 3) imersão no campo;
4) contato com outras culturas; 5) variação na coleta de dados;
6) grande utilização dos materiais coletados. (LÜDKE e ANDRÉ, 1986:14)
Segundo Genzuk (2003: 1):
“A pesquisa etnográfica típica emprega três tipos de coleta de dados: entrevistas, observações e documentos. Isto em troca produz três tipos de dados: citações, descrições, e trechos de documentos, resultando num produto: descrição narrativa.”
Nesta pesquisa será feita a descrição narrativa do contexto em que o fenômeno observado acontece, a partir do arcabouço teórico exposto anteriormente. Serão usados procedimentos exploratórios e qualitativos para a análise dos dados, como veremos a seguir.