Nesta seção, os resultados quantitativos serão divididos em tópicos para uma melhor compreensão do leitor no decorrer do texto. Serão discutidos os resultados mais relevantes da investigação. Os resultados encontrados a partir da construção e validação do IATP apontam para pontos positivos, pontos negativos e pontos a serem aperfeiçoados. Não se pode desconsiderar o número grande de itens excluídos. O instrumento contou, antes de qualquer análise, com 247 itens e obteve uma versão final com 87 itens. Isso poderia ser aperfeiçoado com o recrutamento de mais sujeitos tanto na fase de validação semântica quanto na análise dos juízes, talvez contando com mais especialistas na área de saúde mental, a fim de minimizar o erro influenciado pelo cansaço ou outras variáveis interferentes no conjunto de respostas dos participantes. Uma alternativa é realizar análises fatoriais por construto para observar se outras estruturas emergem do conjunto de dados. Um ponto a ser considerado é a elaboração dos itens a partir não só da teoria, mas de grupos focais de profissionais da área específica de saúde mental. Foi solicitado aos juízes que inserissem sugestões de itens, porém, apenas um juiz sugeriu a modificação de um item.
6.1 ANÁLISE FATORIAL EXPLORATÓRIA
A estrutura de alguns fatores apresentou α de Cronbach (Apêndice B) considerados baixos (por volta de 0,60), porém aceitáveis em nível de pesquisa (MAROCO, GARCIA- MARQUES, 2006) (Objetivo específico 7). Esse resultado também foi encontrado em estudo anterior sobre o mesmo tema, com índices iguais a 0,65 (CARVALHO, 2008). Esse valor provavelmente foi influenciado pelo número de itens, observando que os fatores com menor número de itens foram os que obtiveram índices α menores, como é o caso do Fator 6 (“TP Antissocial”), Fator 7 (“TP Obssessivo-compulsiva”) e Fator 8 (“TP Borderline”), com 5, 4 e 3 itens, respectivamente. Sugere-se que sejam elaborados novos itens para compor esse fator, a fim de melhor representá-lo e melhorar a fidedignidade dos fatores. Um número grande de itens pode influenciar no aumento do referente índice (MAROCO, GARCIA-MARQUES, 2006), inclusive interferindo na diminuição do erro-padrão. Destaca-se também a falta de itens para cobrir o “TP Histriônica”, pois o conjunto de itens elaborados para esse transtorno não alcançou qualidades psicométricas satisfatórias para mantê-los na solução.
Outro ponto é a variância total explicada, que resultou na solução com nove fatores, igual a 43,32%, considerado um valor abaixo do que se espera (espera-se acima de 50%),
todavia, isso pode dever-se a natureza do construto, pois nos estudos encontrados na revisão de literatura dos testes sobre TP, foram encontradas variâncias totais iguais a 29,17% (NOGUEIRA et al., 2012). As cargas fatoriais variaram de 0,30 a 0,80, indicando uma boa relação dos itens com seus respectivos fatores. As comunalidades acima de 0,42 também indicam uma boa adequação da solução, pois apontam a relação dos fatores com os itens que o compõem.
Uma limitação do estudo foi a lacuna deixada quanto ao fator ou “TP histriônica”, pois
nenhum dos itens elaborados para esse transtorno foi considerado suficiente para representá- lo, por não haver justificativa teórica e metodológica para isso. Logo, um aperfeiçoamento para pesquisas futuras seria uma nova tentativa mais acurada para aperfeiçoar o instrumento, incluindo, assim, novos itens que possam abranger esse transtorno.
Essa análise, de modo geral, trouxe bons resultados, apontando para uma estrutura de 13 fatores, posteriormente reduzido a 9, corroborando com os resultados encontrados por Sanavio (1988). Essa estrutura também forneceu resultados bastante coerentes e próximos ao que se propõe do DSM-V, pois traz uma estrutura de 9 fatores, enquanto a literatura indica 10 transtornos.
6.2 ANÁLISE FATORIAL DOS ITENS DICOTÔMICOS
Essa análise apresentou resultados que podem ser considerados inadequados, apesar de ter fornecido um índice de fidedignidade acima de 0,90, considerado alto, a variância explicada para o conjunto de itens foi de 20%, considerada baixa, pois a estrutura abarcou 153 itens do questionário. Quanto à ineficácia dessa versão dicotômica do instrumento em diferenciar os vários tipos de TP, pode-se sugerir que, como esse formato foi artificialmente dicotomizado, esse fato pode ter refletido nos resultados, tendo em vista que os sujeitos responderam de forma gradual e não polarizada (sim/não). É recomendável que em pesquisas futuras seja feita a aplicação dupla desses instrumentos, em ambos os formatos, a fim de verificar se é possível obter melhores resultados. Uma alternativa é a utilização de informações clínicas da amostra que permitam a constatação da ausência ou presença de determinados sintomas (itens), possibilitando a predição desses dados.
Apesar dos resultados encontrados, vale ressaltar que essa proposta dicotômica é um diferencial na literatura sobre os instrumentos que avaliam os TP, por permitir a avaliação dos mesmos a partir não só da forma mais comum, em escala Likert, de gradação, mas partindo também de ausência e presença dos sintomas.
6.3 ESTIMAÇÃO DOS PARÂMETROS DE DIFICULDADE E DISCRIMINAÇÃO DOS ITENS A PARTIR DA TRI
De modo geral, é coerente afirmar que os itens do instrumento, a partir da observação de seus parâmetros de dificuldade e discriminação, mostraram-se adequados. Não obstante, alguns itens precisaram ser excluídos da análise por apresentarem correlações polisseriais baixas, isso pode ter influenciado na capacidade de alguns fatores de cobrir toda a extensão do traço latente, como pôde ser observado em algumas das curvas de informação do teste. Ressalta-se que, apesar disso, foram poucos os itens que obtiveram parâmetros abaixo da classificação média. De forma geral, em cada fator cerca de 2 a 3 itens apenas apresentaram índices abaixo da média. Os fatores que apresentaram melhores parâmetros psicométricos foram os fatores 1 e 2 (“Narcisista” e “Dependente”). Tais achados confirmam a afirmação de que o instrumento é adequado psicometricamente na sua forma politômica.
Quanto à informação fornecida pelo fator ao traço latente, os fatores que tiveram maior quantidade de informação legítima foram os “TP Narcisista”, “TP Dependente” e “TP Evitativa”, sendo esses dois primeiros mais informativos para sujeitos com tetas (habilidades) maiores, pois indicaram pouco ou nenhum erro de informação nessa faixa.
Dos histogramas apresentados, a maioria deles traz uma distribuição de escores de teta (habilidade) com baixa frequência nas regiões extremas do gráfico. Isso indica que houve poucos indivíduos com baixo nível de transtornos, bem como poucos sujeitos com altos níveis de transtorno, o que era de se esperar, tendo em vista que não há uma representatividade de pessoas em atendimento clínico, sendo a maioria de estudantes universitários não clínicos.
Uma contribuição da TRI para estudos voltados a saúde mental é que ele permite avaliar quais sintomas têm maior influência na verificação da intensidade do sintoma e fornece um valor do traço latente para cada sujeito. Os estimadores da TRI também permitem verificar quais categorias de resposta dos itens estão equilibradas. Os resultados mostraram que a categoria com gravidades mais baixas dos sintomas estiveram no limiar de categoria 1, especialmente nos fatores 2 (TP “Dependente”), 4 (“TP Paranoide”), 5 (“Esquizoide”), 6 (“TP Antissocial”) e 8 (“Borderline”).
Quanto ao modelo de decisão, foi exemplificado que o valor do teta (habilidade) quando comparado às respostas do sujeito pode ser um indicador de presença/ausência de um determinado transtorno. Sujeitos com tetas (habilidades) semelhantes em fatores diferentes, ao contrário do que indica a TCT, podem apresentar endosso em categorias de resposta diferentes, pois o teta (habilidade) se baseia nos parâmetros de dificuldade e discriminação
dos itens, partindo de uma probabilidade condicional, enquanto a TCT utiliza apenas os escores brutos do sujeito.