B.5.1. O Presidente do G.A.O.
Na história do “Grupo dos Amigos de Olivença” houve dois momentos de crise que quase levaram à sua extinção; referimos os momentos após a revolução do vinte e cinco de Abril de 1974 e quando esteve à frente dos destinos da Associação, o Almirante Pinheiro de Azevedo. Na primeira situação houve grandes alterações na Sociedade o que levou à adaptação aos novos tempos e a novos desafios e optar pelo que era novidade, esquecendo-se assim a razão de ser, do existir da Associação. O Almirante Pinheiro de Azevedo, como seu Presidente procurou dar ao G.A.O. uma nova dinâmica, uma actividade mais efectiva, indo contra a corrente pacifica que provoca alterações de fundo e cria iniciativas consideradas românticas, mesmo líricas, que acabam por tirar toda a credibilidade que o G.A.O. vinha desfrutando, o que leva, grande parte dos seus membros a abandonar a Associação.
Após a morte do Almirante em 1981, alguns associados preocupados com a causa que levou à criação do G.A.O. recriam-na, levantando de novo ”A Questão de Olivença”.
Sendo o Almirante Pinheiro de Azevedo um homem culto, que chegou a desempenhar as funções de Primeiro Ministro num dos Governos Transitórios de Portugal, como pode ser acusado pelos seus pares da G.A.O., de ser uma pessoa perturbada, transtornada e truculenta, provavelmente por pretender “conquistar Olivença; para o efeito redigiu um comunicado ou manifesto no qual se podia ler; “… Cuando la integridad de una parcela del territorio nacional está en peligro de ser usurpado como sucede en Olivenza, es obligado movilizar a las Fuerzas Armadas portuguesas, que por juramento solemne están obligadas a defender por todos os medios incluyendo el sacrificio de la propia vida. Solo los órganos de soberanía pueden tomar decisión extreme. Nada se resiste a las Fuerzas Armadas. Quien está contra Olivenza es uno cobarde …”.94
Quais seriam as ideias e os princípios que levaram o Almirante a realizar profundas transformações na forma de actuar da G.A.O. e a pretender organizar uma forte
94 Luis Alfonso Limpo, - Olivenza: Cuidad Abierta a dos Culturas, - Editora Regional de Extremadura. Cuadernos
Populares nº. 4 de Maio 1985: pp. 4 – Fragmentos del manifesto al pais, publicado em Junho 1981, pelo Almirante Pinheiro de Azevedo.
concentração de 300.000 portugueses, previamente juramentados para tomarem pacificamente posse de Olivença ?95
Para dar a conhecer as razões das suas ideias, o Almirante Pinheiro de Azevedo escreveu um livro e nele procura desenhar o caminho que ele crê ser necessário seguir para obter o regresso de Olivença e o seu termo; justifica a sua actuação e refere também as razões da publicação de um Manifesto.
No prefácio do livro, o Almirante refere as razões da publicação, fazendo a sua apresentação pessoal dizendo que contribuiu para o 25 de Abril, mas que se fez homem, durante o regime Salazarista e que como tal, sofreu as consequências da ignorância sobre Olivença, como terra portuguesa, porque os mapas antipatrioticamente haviam deixado de trazer, como terra irredenta.96 Mesmo tendo-se formado na Faculdade de Letras, em
História, recorda que os seus livros não referenciavam a Questão de Olivença, e só depois do 25 de Abril de 1974, sendo então primeiro ministro do VI Governo Provisório, é que encontrou nos arquivos de S. Bento literatura que referenciava este assunto.
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Na altura, vários jornais da região da Estremadura dão notícias das intenções do Almirante Pinheiro de Azevedo. O Diário Regional “hoj” de dezasseis de Julho de 1981, por exemplo, em grandes letras anuncia “Um almirante português quere reconquistar Olivenza”, “Olivenza reta a Pinheiro de Azevedo”, “El pueblo, dispuesto a defenderse”, “Antes de perder Olivenza preferiria no haber nascido (José Caudino, 79)”; “ Que vengan cá los portugueses, que les erperamos”(jovens em torno a los dezoito anos de idad – duna escuela de Olivença).
Figura 9
Ao pretender saber algo mais sobre Olivença, sentiu que os seus poderes estavam limitados, de facto : - “… sucedeu para mal dos oliventinos e da dignidade de Portugal que o VI Governo Provisório, por decisão do Conselho da Revolução, não tinha competência sobre o departamento do Ministério dos Negócios Estrangeiros, a quem competia a Questão de Olivença e não ao Governo. O ministro, Major Melo Antunes, dependia directamente do Presidente da Republica, na altura, General Costa Gomes. Eram eles e só eles que tinham competência sobre o diferendo, sobre a situação de Olivença (...) A circunstancia de ter sido primeiro ministro, sem competência legal, para fazer as necessárias reivindicações sobre Olivença, muito mais me interessou tudo quanto se referisse a Olivença, no desejo de conhecer a fundo a questão e ia, pouco a pouco enriquecendo os meus conhecimentos acerca do problema oliventino, ao mesmo tempo que ia verificando que a ignorância em que sobre ele, durante tanto tempo vivi; era comum à maioria dos portugueses. Havia de trazer, ao conhecimento da Questão, em grande numero de portugueses que dela andavam alheados …”97.
Na realidade não se compreende a ignorância nacional, sobre um assunto que a todos interessa. Parece haver empenho que Olivença caia no esquecimento, não se percebendo as razões para que tal aconteça. De facto, ao longo das leituras e dos estudos que se têm feito, nota-se que aqui e ali, o assunto não continua a ser discutido, por falta de informação fidedigna.
Analisemos o caso da reconquista de Olivença, em 1811. Tudo o que se apurou, segundo o Almirante Pinheiros de Azevedo, foi que o Marechal Beresford, comandante em chefe dos exércitos portugueses no Sul do País, atacou os franceses que na altura ocupavam Olivença e a sua Praça; a luta foi dura e renhida, mas a 15 de Abril de 1811, as forças Luso-britânicas venceram e expulsaram os franceses, tendo o referido Marechal mandado guarnecer a Praça por soldados portugueses e que ali se instalaram - um regimento de infantaria e um destacamento de artilharia. Assim aconteceu, mas passado pouco tempo, o mesmo Marechal deu ordens ás tropas portuguesas para retirarem e mandou entregar a Praça de Olivença, a um destacamento espanhol. Tudo o que os oficiais portugueses conseguiram saber foi que o Marechal Beresford tinha recebido ordens, diretamente de Lorde Wellington, o que parece estranho, e mesmo agora, passados que são, mais de 210 anos, não tenha havido um estudo acessível, que nos esclareça o que na realidade aconteceu, para aquela saída repentina dos soldados portugueses de Olivença. O que estará então por detrás de tudo isto? Recordamos que o poder da Inglaterra era naquela
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altura poderosíssimo, o que lhe dava a possibilidade de tomar decisões unilaterais, quer elas prejudicassem ou não países terceiros. Mas que ganharia a Inglaterra com tal decisão de Lorde Wellington?
Se há sobre o Almirante Pinheiro de Azevedo algo de negativo a apontar, não é certamente a sua vontade em publicitar a situação de Olivença. Escreveu que : - “… As minhas actividades públicas a favor de Olivença, conduziram á minha eleição para a Presidência da Direcção do “Grupo dos Amigos de Olivença”, o que aumentou a minha responsabilidade sobre a ignorância dos portugueses sobre o diferendo de Olivença, entre os Governos de Portugal e da Espanha. Tentei a comunicação social, mas pouco me foi dado a conhecer e de colaboração. Ficou de fora apenas a publicação de um livro para comunicar com os portugueses, mas a minha informação está incompleta, porque apesar de terem já passado 210 anos, continua a haver tratados, convenções e reuniões que tem artigos secretos e que continuam, apesar de terem passado, tanto tempo a serem a base do atual contencioso …” 98.
O Almirante Pinheiro de Azevedo coloca algumas questões verdadeiramente pertinentes, que para quem pretende conhecer “ A Questão de Olivença”, com algum pormenor, fazem sentido. Vejamos alguns exemplos. É sabido que qualquer país para entrar na NATO, não o pode fazer se tiver problemas de fronteira com os países vizinhos, muito principalmente, se esses países vizinhos já pertencem à NATO. Quando a Espanha procurou entrar, Portugal já fazia parte dessa Organização, no entanto não colocou, nem criou qualquer dificuldade. A Península Ibérica viveu durante largos anos em ditaduras e o entendimento entre Salazar e Franco foi perfeito. Porque não resolveram eles esta questão? Será que a continuação da situação de Olivença fazia (faz) parte de Pactos de não agressão ou um comprometimento de auxilio militar secreto a Portugal em caso de necessidade ?
São de facto questões para as quais não se obtêm facilmente uma resposta que esclareça a verdade dos reais acontecimentos.
Vivemos numa democracia, palavra que está ligada ao sentido de verdade; não se entende porque não foi devolvida a Praça e o seu termo, quando se tem a razão e as provas da verdade.
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