• No results found

2.3 Hva kan dette gjøre

3.1.2 Fra plass til plass

1) Relacionar a mais recente acumulação capitalista controlada pelo capital portador de juros com toda sorte de reengenharias da produção industrial e de estratégias de reestruturação produtiva;

2) Observar o papel dos territórios na produção mundializada e compreender os deslocamentos empresariais produtivos no contexto das novas estratégias de acumulação;

3) Fazer a leitura dos novos arranjos de redes e fluxos produtivos do capitalismo contemporâneo com base no processo de organização territorial.

A discussão sobre os efeitos dessa nova realidade no Brasil e na região Nordeste, tende a lançar o desafio da articulação multidimensional e interescalar, crucial para a interpretação dos fatos no Ceará industrial moderno.

2.1. ABORDAGEM PRELIMINAR ACERCA DOS MECANISMOS DE ACUMULAÇÃO CAPITALISTA

Os acontecimentos manifestados em 2007/2008 pela aguda crise financeira no setor dos empréstimos hipotecários nos Estados Unidos fizeram crescer uma ansiedade dos responsáveis econômicos pelo setor privado face à sua incapacidade de prever o conteúdo, a abrangência e a amplitude das dificuldades de acumulação a partir das práticas

64 “Diacronia e sincronia, vistas através do espaço geográfico são, exclusivamente, duas faces de um mesmo

especulativas. A potencialidade da crise em propagar seus efeitos sobre o sistema financeiro mundial surpreendeu a comunidade de investidores e operadores, responsáveis pelo “humor dos mercados”, e o resultado foi uma grande divulgação dos acontecimentos na mídia internacional, perplexa diante das falências de importantes bancos de investimentos e das maiores seguradoras do mundo.

As concordatas fraudulentas, a manipulação dos balanços das empresas e as revelações sobre as remunerações de dirigentes cujas competências se mostraram duvidosas aumentaram a desconfiança dos grandes operadores e investidores do mercado financeiro. De repente, parecia que o pensamento dominante, repetido inúmeras vezes por consultores, dirigentes institucionais, professores e imprensa havia se tornado irracional. À luz dos acontecimentos, o que ficou patente no discurso dos agentes da financeirização, de um modo geral, foi que o “impensável aconteceu”. O mercado não seria mais, por si, racional e eficiente.

Mais surpreendente foi a onda de nacionalização desencadeada pelos acontecimentos supracitados (LORDON, 2008b). Esta não é necessariamente uma medida inédita, uma vez que a intervenção estatal é historicamente recorrente sempre que uma configuração

hegemônica de acumulação se apresenta deficiente65. Entretanto, a magnitude da

intervenção governamental (não só em instituições financeiras, mas em conglomerados produtivos multinacionais) e a inversão total dos valores (de Estado/problema para Estado/solução) ocorreram a exatos trinta anos de proeminência neoliberal, conduzida com obstinação pelos Estados Unidos e as instituições internacionais por eles controladas, a exemplo do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial.

A compreensão do fenômeno passa pelo entendimento da dinâmica geográfica e econômica do capitalismo contemporâneo. Por trás das instabilidades financeiras se encontram as bases segundo as quais repousam os princípios universais com respeito ao papel da produção dos espaços e a velocidade dos deslocamentos no mundo atual, isto é, a crise não representa mais do que uma erupção superficial gerada por “derivas tectônicas profundas no dispositivo espaço-temporal do desenvolvimento capitalista” (HARVEY, 2009, p. 3).

Como aponta Arrighi (1996), derivas como essa já se deram em outros momentos da história socioespacial. Ao citar o segundo e o terceiro volumes da trilogia de Fernand Braudel, “Civilisation Matérielle, Économie e Capitalisme”, Arrighi informa que a proeminência financeira em determinados momentos da acumulação capitalista não corresponde à etapa inédita nem ao estágio último e mais avançado da geração de valor sob a égide do capital. Na sua concepção, o fenômeno é recorrente e marca a era

65 O caso da intervenção estatal norte-americana na economia nos anos de 1907, 1929 e 1985 é ilustrativo no

capitalista desde os primórdios, sempre assinalando “a transição de um regime de acumulação em escala mundial para outro. Eles são aspectos integrantes da destruição

recorrente de antigos regimes e da criação simultânea de novos" (ARRIGHI, 1996, p. 10)66.

Trata-se de alternâncias no âmbito da acumulação capitalista, ora marcada por fases de expansão material, ora delineada por épocas de renascimento e expansão financeiras. Segundo Arrighi (1996, p. 6), nas fases de expansão material, “o capital monetário ‘coloca em movimento’ uma massa crescente de produtos”. Enquanto isso, em fases de expansão financeira, “uma massa crescente de acumulação prossegue através de acordos financeiros. Juntas as duas épocas, ou fases, constituem um completo ‘ciclo sistêmico de

acumulação’”67.

Interessante notar como tais mudanças sempre vêm associadas a uma redefinição dos eixos de poder do capitalismo, ao fazer migrar para novos centros de comando o controle sobre a “economia-mundo” por meio de novos elementos de hegemonia econômica e política. Além de discutir o tema no livro já citado, que trata, entre outros assuntos, do deslocamento dos centros de poder ao longo dos últimos séculos (Itália, Holanda, Inglaterra e EUA); em livro mais recente, Arrighi (2008) fortalece sua tese ao tratar especialmente das razões pelas quais a China se apresenta como candidata à nova potência econômica do

século XXI68.

Também a escala de abrangência dos centros de poder se altera. Ao corroborar uma vez mais com Braudel, Arrighi (1996 e 2008) informa que cada redefinição das estratégias e estruturas preponderantes em determinada fase de expansão capitalista está associada a uma capacidade de promover, organizar e regular a fase seguinte, sempre numa escala e num alcance maiores que as anteriores. Para Harvey (2008b e 2009), se cada deriva traz consigo uma mudança radical de escala, desde as pequenas Cidades-Estado iniciais até a economia de proporções continentais dos EUA na segunda metade do século XX, a mesma se justifica em função da regra diretriz capitalista de atingir acumulação com crescimento perpétuo e ampliado. Desde “Los Límites del Capitalismo y la Teoría Marxista” (1990

[1982]), até seus textos mais recentes, Harvey (2004; 2005; 2008a;2008b e 2009) insiste na

66 “[...] no esquema interpretativo que deduzi de Braudel, o longo século XX configurou-se como o último de

quatro séculos longos, estruturados de forma semelhante, cada qual constituindo uma etapa específica do desenvolvimento do moderno sistema capitalista mundial” (ARRIGHI, 1996, p. 10).

67 Para Arrighi (1996, p. 6), os ‘ciclos sistêmicos’ são determinados por “padrões de recorrência e evolução,

identificados por uma unidade fundamental do agente e estrutura primários dos processos de acumulação de capital em escala mundial”.

68 Sobre essa temática, inúmeros trabalhos, a partir de diferentes abordagens, vêm sendo publicados desde o

ano de 2001, ano da entrada da China na Organização Mundial do Comércio (OMC). Entre os mais recentes que tratam do papel da China na nova configuração da acumulação capitalista, merecem destaque: Harvey (2008a), Harvey (2008b), Aglietta e Berrebi (2007), Aglietta e Landry (2007), Lemoine (2006) e Paulet (2005). Na internet, também é possível encontrar extenso material, sobretudo em sítios como China Labor Watch, Global Policy

Forum, Centre d’Études Français sur la Chine Contemporaine, l’Institute de Recherches sur l’Economie de la Chine e o sítio da revista Perspectives Chinoise, dos quais foram extraídos textos como o de Huang e Khanna

tese de que o capitalismo se confronta com um antigo problema de absorção de excedente, manifestado numa cada vez maior dificuldade de encontrar uma saída lucrativa para a aplicação constante do capital.

Em função de um conjunto de forças competitivas que impelem o reinvestimento de parte do capital numa escala mais abrangente, tem havido uma taxa de crescimento cada vez maior no capitalismo e isso significa que é preciso encontrar saídas para novos e

ampliados investimentos69.

O que aconteceu nos últimos trinta anos está intimamente ligado ao problema de um excedente de dinheiro sem destinação. A necessidade de encontrar novas saídas para o capital estava “se tornando cada vez menos possível sem recorrer a toda sorte de ficções, como aquelas que caracterizaram os mercados de ações e negócios financeiros nas últimas três décadas” (Harvey, 2009, p. 02).

As instabilidades no mercado financeiro ocorridas em 2007/2008 apresentam estreita relação com o processo supracitado. Assim, reconstituir a trajetória das crises e expansões financeiras no âmbito proposto por Arrighi (1996 e 2008) e Harvey (2008a e 2009) parece ser um direcionamento interessante no sentido de iniciar o debate sobre os princípios universais que engendram o fim e o recomeço dos estágios de desenvolvimento do sistema capitalista mundial.

Naturalmente nosso objetivo neste texto não é discutir detalhadamente a crise supracitada nem as “derivas tectônicas” profundas que ela provavelmente vem representar. Para isso, os trabalhos de Harvey (2008a; 2008b e 2009) e Arrighi (2008) já dão boas pistas sobre possíveis desdobramentos espaço temporais na geografia econômica e política mundial. Estamos mais interessados em entender os acontecimentos manifestados nos últimos trinta anos e seus efeitos sobre a produção material, a indústria e o território.

Mas como delinear com mais clareza os elementos particulares desse mais recente

período de acumulação? Como compreender o conteúdo desses elementos profundamente marcados pela desigualdade geográfica das possibilidades econômicas e por um grau de centralidade cada vez mais forte? Representaria conjunto de características que aponta para uma configuração específica da acumulação capitalista? Tal configuração implicaria de fato em maior poder do capital portador de juros sobre o controle das decisões que recaem sobre a organização da política e do território? O capital produtivo e as relações de trabalho na indústria perderam seu papel proeminente no que tange à dinâmica da acumulação de capital? A nova geografia dos fluxos de produção e consumo, marcada por uma organização

69 “O capitalismo é orientado para o crescimento. Uma taxa equilibrada de crescimento é essencial para a saúde

de um sistema econômico capitalista, visto que só através do crescimento os lucros podem ser garantidos e a acumulação do capital, sustentada. (...) Na medida em que a virtude vem da necessidade, um dos pilares básicos da ideologia capitalista é que o crescimento é tanto inevitável como bom (HARVEY, 1998, p 166).

em rede da produção mundial e uma reestruturação das próprias formas de se produzir na indústria, guarda alguma relação com as atuais formas de acumulação?

Tais questões, inicialmente, precisam ser debatidas num plano de interpretação que considere a própria condição da acumulação capitalista de uma maneira geral. Ao observarmos a produção teórica acerca dessa temática, realizada por inúmeros autores desde o início do século XX, constatamos que o sentido da palavra acumulação, no capitalismo, recobre pelo menos três mecanismos diferentes, não mutuamente excludentes e que mantêm entre si ligação estrutural. Tratam-se:

1) Do aumento dos meios e da capacidade de produção, circulação e consumo a partir de investimentos em esferas diferenciadas da economia, assim como do funcionamento eficiente dessas esferas, apesar da desigualdade tecnológica e de poder econômico que se estabelece entre elas em diferentes momentos ou configurações do processo de acumulação;

2) Da capacidade de apropriação e captação de excedente de algumas esferas, centros econômicos ou empresas sobre outros sem a presença de novos investimentos, sobretudo mediante a extração de valor através do poder de monopólio combinado com inovações organizacionais e nova capacidade de gestão.

3) Da capacidade de extensão das relações de produção e de propriedade capitalistas no território, ao atingir regiões e/ou países que ainda não tinham sido submetidos a tais relações.

Para retomar apenas uma obra clássica que trata destes mecanismos no começo dos anos de 1970, ou seja, na ocasião da última grande crise de acumulação desencadeada no seio da configuração fordista, podemos observar algumas constatações do livro “O Capitalismo Tardio” de Ernest Mandel. Neste trabalho, publicado inicialmente em 1973, Mandel (1982) informa que o desenvolvimento geograficamente desigual e setorialmente diferenciado é uma parte essencial da vitalidade capitalista e constitui instrumento de fundamental importância para o crescimento de suas taxas de acumulação. Como o capitalismo se caracteriza por apresentar múltiplas sequências de expansão e estagnação

nas quais a força de superação das crises será sempre a procura por superlucros70, a

diferenciação espacial (subnacional e internacional) e o desenvolvimento desigual de ramos e setores são elementos de suma importância na leitura de cada configuração específica de acumulação.

Depois de propor uma periodização para o capitalismo, ao distinguir três fases na história do sistema, qual seja, o capitalismo de livre concorrência (até o final do século XIX),

o imperialismo clássico (até as depressões do entreguerras) e o capitalismo tardio (a partir do Pós-Guerra), Mandel (1982) centra-se nesta última fase para justificar as razões pelas quais as desigualdades territoriais e a apropriação de valor entre diferentes setores da economia coexistem lado a lado, ganhando especificidades mediante as demandas prementes do período. No capitalismo tardio, a combinação diferenciada de fontes de superlucros assume complexidade e o destaque dado às captações de valor entre os diferentes setores da economia e à diferenciação territorial (regional e internacional), é cada vez maior, sendo os setores e os territórios menos poderosos responsáveis pela transferência de excedente para os mais dinâmicos.

O autor também lembra que a disponibilidade e a manipulação de novas tecnologias se transformam em importante base de reestruturação econômica e espacial, na medida em que determinados grupos industriais ou instituições financeiras, bem como ramos e empresas específicos dos setores de comércio e serviços, diferenciam-se em termos de produtividade, lucratividade e controle da força de trabalho. Efetivamente, as grandes mudanças tecnológicas e midiáticas que tomaram forma no período, culminaram com a redefinição dos papéis desempenhados pela indústria, pelas finanças e pelas demais esferas da economia nas décadas seguintes.

A visão de Mandel (1982), na metade dos anos de 1970, era de um autor que deparava com alterações importantes na configuração capitalista, mesmo que o ritmo acelerado delas não permitisse observar com clareza os desdobramentos suscitados nos anos subsequentes. Em pleno turbilhão dos acontecimentos, elementos novos se mesclavam a fenômenos antigos, ao criar uma imagem indefinida da nova configuração que se produziria nas décadas seguintes. Importante perceber em Mandel como os mecanismos de acumulação capitalista estavam presentes na leitura das especificidades e na sua relação com os princípios universais de reprodução ampliada do capital. Mesmo sem retomar a longue durée de Braudel (2009), configuram-se estruturas e conjunturas do capitalismo sem se perder de vista os diferentes acontecimentos manifestados nas diversas etapas de seu desenvolvimento.

Perspectivas diferenciadas, tornadas prodigiosas para a acumulação capitalista desde a década de 1970, pedem uma nova leitura dos mecanismos nestes últimos anos. Os principais traços sistêmicos de acumulação ganharam nova configuração e as condições que asseguraram altas taxas de crescimento econômico durante o regime fordista perderam eficiência. A nova leitura obviamente contempla o papel assumido pelas finanças no conjunto das relações econômicas e territoriais, mas deve levar em consideração duas premissas fundamentais (CHESNAIS, 2002):

1) as condições que asseguram uma nova configuração da acumulação capitalista não são dadas a priori, como se o próprio capital pudesse, per si, definir e implementar

eternamente estratégias de autorregulação. A nova configuração, assim como as configurações anteriores, se beneficia de relações sociais e políticas impostas à ordem de reprodução, construídas deliberadamente através de relações e/ou instituições

interessadas em conter conflitos e contradições inerentes ao próprio capitalismo71.

2) As mais recentes formas de acumulação ocorrem num contexto dinâmico marcado pela intensificação das relações internacionais de produção e consumo, o que implica numa configuração que se beneficia de diferentes condições histórico-territoriais, na qual a mundialização da economia representa um traço marcante. Assim, o arranjo mais recente do espaço mundializado, desenhado por relações cada vez mais assimétricas e hierarquizadas e capacitado a permitir uma “arquitetura” de interpenetração onde os agentes político-econômicos podem desfrutar de certa liberdade de localização, define o alcance e o conteúdo da nova configuração da acumulação capitalista.

Tratamos então de discorrer acerca da mais recente configuração num plano de organização que destaca os três mecanismos anteriormente citados. Numa primeira etapa, serão considerados os meios e a capacidade de investimento e apropriação das diferentes formas de capital; e as aplicações financeiras como instrumento de valorização e de subordinação dos capitais produtivos, principalmente através de reengenharias produtivas organizacionais e de gestões aplicadas aos grupos industriais objetivando alcançar maiores taxas de acumulação. Em seguida, serão consideradas as dimensões territoriais que absorvem e movimentam estes mesmos processos, com ênfase na organização articulada, hierarquizada e fragmentada do território e de seus fluxos materiais e imateriais.

2.2- NOVA CONFIGURAÇÃO DE ACUMULAÇÃO E CONSEQUÊNCIAS PARA O