4.3 F OLKET
4.3.3 Fra borger til kunde og medias rolle
Santaella (2004, p. 20-24) descreve que os leitores, no decorrer da história, foram mudando cognitiva e corporalmente na forma de ler. A autora relaciona os três tipos de leitores (contemplativo, movente e imersivo) aos momentos da história.
Segundo Santaella, o leitor contemplativo, que aparece por volta do século XII, século este em que algumas transformações na leitura decorreram do fato de que deveria ser feita em silêncio nas bibliotecas, é um tipo de leitor cuja leitura acontece de maneira interiorizada, um “leitor imóvel”, mas que, na verdade, apesar de parecer passivo, está num trabalho mental extremamente ativo. É o tipo de leitor que desenvolve calmamente o raciocínio sobre aquilo que lê, medita, tem tempo para isso.
A leitura do livro é, por fim, essencialmente contemplação e ruminação, leitura que pode voltar às páginas, repetidas vezes, que pode ser suspensa imaginativamente para a meditação de um leitor solitário e concentrado. (ibidem).
Com a Revolução industrial, expansão do capitalismo, o crescimento dos centros urbanos, o consumo e a moda começam a ditar e orientar as transformações que se dariam no modo de vida desta sociedade fugaz. Uma sociedade que presenciou o aparecimento da publicidade e que recebeu uma enxurrada de “mensagens visuais” e que prezava a velocidade. É nesse contexto que, na definição de Santaella, surge o
leitor movente, um tipo de leitor que necessitava de “aparelhos externos para fortalecer a sua memória”, um leitor cuja percepção, adequando-se ao tipo de sociedade em que está inserido, deve ser instável, móvel:
[...] aquele que nasce com o advento do jornal e das multidões nos centros urbanos habitados de signos. É o leitor que foi se ajustando a novos ritmos de atenção, ritmos que passam com igual velocidade de um estado fixo para um móvel. É o leitor treinado nas distrações fugazes e sensações evanescentes cuja percepção se tornou uma atividade instável, de intensidades desiguais. É, enfim, o leitor apressado, de linguagens efêmeras, híbridas misturadas. (SANTAELLA, 2004 p. 29).
Para Santaella, esses dois tipos de leitores já foram bastante pesquisados, mas um terceiro, o leitor imersivo, cujo aparecimento despertou um estudo mais intenso sobre os dois primeiros, talvez por nostalgia e medo do desaparecimento do livro, como sugere a autora, é o mais recente tipo de leitor, bem pouco explorado em pesquisas. Ele surge na era digital e em relação à época em que se encontra esse leitor, há que se destacar que é um período em que temos uma sociedade em busca de novidades, uma sociedade de imagens, (principalmente no meio de jovens como foi dito anteriormente), pois, segundo a autora, “o ser humano passou a se preocupar muito mais com a vivência do que com a memória” (idem, p. 27). É um indivíduo acostumado à rapidez e à enxurrada de informações e que a maneira de vivenciá-las acabou por torná-lo menos sensível, por isso tem a necessidade de algo que seja muito mais estimulante que em outros tempos:
Nessa nova realidade, as coisas fragmentam-se sob efeito transitório, do excessivo e da instabilidade que marcam o psiquismo humano com a tensão nervosa, a velocidade, o superficialismo, a efemeridade, a hiperestesia, tudo isso convergindo para a experiência imediata e solitária do homem moderno. (SANTAELLA, 2004, p. 29) (grifo nosso).
Essa busca se dá tanto na escolha de textos que satisfaçam esse novo momento vivido, como na escolha de suportes que atendam a essa nova realidade. É um tipo de leitor que não tem mais o tempo para contemplar, meditar sobre a leitura conforme o primeiro tipo de leitor descrito acima, mas deriva das transformações anunciadas no leitor movente e que culminaram no imersivo.
O leitor do século XX, já buscava (e busca) textos mais rápidos como é o caso dos contos e das crônicas para atender a essa nova modalidade de leitura em que “a
vivência é mais importante que a memória” e, como é sabido, esses textos, além de rápidos, detêm um caráter do cotidiano, do momento, mas isso não bastaria ao leitor do século XXI, cuja procura vai além de textos (entenda-se aqui o texto escrito), precisa de imagens, sons; e o ciberespaço abre essa possibilidade. É nele que o leitor tem a possibilidade (e a responsabilidade) de selecionar aquilo que quer ler e o caminho que vai seguir (como no caso dos hipertextos).
Santaella, em sua pesquisa ainda chama a atenção para o que acontece com a percepção e a cognição desse novo leitor. Ela delineia que, dependendo do tipo de navegador, o que ela classifica como errante, detetive e previdente, utilizará mais ou menos as operações de abdução, indução e dedução. No caso dos errantes, navegam pela abdução, o detetive pela indução e o previdente pela dedução. Ou seja, em cada navegador (ou leitor) uma das operações é mais recorrente, o que não quer dizer que não se utilizem de outras. O leitor imersivo, mesmo aquele mais experiente, chamado por Santaella de previdente, sempre se deparará com situações novas e neste momento deverá passar pela errância e pelo detetive para encontrar o seu rumo e as possibilidades (SANTAELLA, 2004, p.121).
Santaella (ibidem, p. 146-148) destaca que, apesar de parecer imóvel, o leitor, ao usar o computador, está totalmente ativo, através de inúmeras atividades motoras e cognitivas. Ela chama a atenção para a habilidade que ele deve ter para mover o mouse com as mãos e fazer as escolhas na tela, e assinala algumas das capacidades que ele tem que desenvolver para esta leitura:
a) utilização de forças musculares que provém de propriedades elásticas intrínsecas a eles;
b) atenção ou estado de alerta ligados a sistemas físicos e mentais; c) coordenação viso-motora;
d) construção de automatismos sensórios-motores;
e) sistema de equilíbrio do corpo em relação ao chão e em relação à tela; f) sistema investigativo (cabeça, olhos e mãos);
g) sistema de locomoção (na busca das posições mais favoráveis à percepção) h) sistema nervoso interno e externo.
Não bastam então aquelas várias habilidades citadas no primeiro capítulo, a saber a decodificação e a compreensão por meio das vivências em relação ao texto lido. Além dessas, o novo leitor dever ser capaz de, ao mesmo tempo, gerenciar novas capacidades mentais e físicas para ler nos meios digitais (computador, palmtop, celular...).