Vygotski e Luria (1931/2007) mostram um esquema geral da teoria histórico- cultural em que se tem uma explicação do que se determina como função psíquica superior, e como essa questão perpassa discussões centrais da teoria, até chegar no signo e seu papel nesse esquema.
137 [...] las etapas fundamentales de formación de la memoria, la voluntad, de los conocimientos
aritméticos, del lenguaje, son las mismas etapas de las que hemos hablado y por las cuales pasan todas las funciones psíquicas superiores del niño en su desarrollo” (VYGOTSKI, 1930/1995d, p. 168).
O fator básico e distintivo do sistema que permite determinar se um processo psíquico é ou não superior, é o tipo de funcionamento e a comunidade de origem das estruturas. O principal traço genético no plano filogenético é que estas funções não se têm formado como produto da evolução biológica, mas do desenvolvimento histórico do comportamento com uma história social concreta. No plano ontogenético se distinguem dos processos psíquicos elementares, que mostram uma estrutura de reação imediata aos estímulos, porque recorrem a estímulos mediatos (signos) que conferem à ação um caráter igualmente mediato. No plano funcional, finalmente, se distinguem porque desempenham um papel novo e relevante que as funções elementares não cumpriam138. (VYGOTSKI e LURIA, 1931/2007, p. 47).
São planos que, basicamente, vem combinados e integrados nas discussões da teoria histórico-cultural. Vamos adentrar na explicação acima, pelo plano ontogenético, destacando a questão dos signos, que aparece tendo um papel central na estruturação das funções psíquicas superiores.
Para Vygotski (1930/1995c), a forma psicológica superior de conduta:
Não é uma estrutura puramente psíquica, como supõem a psicologia descritiva, nem uma simples soma de processos elementares, como afirmava a psicologia associacionista, mas uma forma qualitativamente peculiar, e nova na verdade, que aparece no processo de desenvolvimento139. (VYGOTSKI, 1930/1995c, p.
106)
Vygotski (1930/1995b) coloca que os diferentes aspectos, problemas e momentos do desenvolvimento das funções psíquicas superiores da criança, são: “a linguagem e o desenho infantil, o domínio da leitura e da escrita, a lógica da criança e sua concepção de mundo, o desenvolvimento da representação e das operações
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“El factor básico y distintivo del sistema que permite determinar si un proceso psíquico es o no superior es el tipo de funcionamento y la comunidad de origen de las esctructuras. El principal rasgo genético en el plano filogenético es que estas funciones no se han formado como producto de la evolución biológica, sino del desarrollo histórico del comportamiento con una historica social concreta. En el plano ontogenético se distinguen de los procesos psíquicos elementales, que muestran una estructura de reacción inmediata a los estímulos, porque recurrren a estímulos mediatos (signos) que confieren a la acción un carácter igualmente mediato. En el plano funcional, finalmente, se distinguen porque desempeñan un papel nuevoy relevante que no cumplían las funciones naturales” (VYGOTSKI; LURIA, 1931/2007, p. 47, grifo dos autores).
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“[...] no es una estructura puramente psíquica, como supone la psicología descritiva, ni uma simple suma de procesos elementales, como afirmaba la psicología asociacionista, sino uma fuerma cualitativamente peculiar, nueva en realidad, que aparece em el proceso de desarrollo” (VYGOTSKI, 1930/1995d, p. 106).
numéricas, inclusive a psicologia da álgebra e da formação de conceitos”140 (VYGOTSKI, 1930/1995b, p. 12).
Segundo Vygotski (1930/1995a), o processo de formação da forma superior de conduta consiste em que:
uma forma de conduta – a inferior – passa a outra que chamamos convencionalmente de superior como mais complexa no sentido genético e funcional. A linha que separa ambas as formas é a relação entre o E e a R. Para uma das formas o traço essencial seria a completa – em princípio – determinação da conduta pela estimulação. Para a outra, o traço igualmente essencial, seria a autoestimulação, a criação e o emprego de estímulos-meios artificiais e a determinação da própria conduta com sua ajuda141. (VYGOTSKI,
1930/1995a, p. 82, grifo no original)
Enquanto que nas formas inferiores de conduta, impera a relação direta E-R, nas superiores o traço essencial é a autoestimulação, que se refere à criação e emprego de estímulos-meios, e a determinação da própria conduta com a ajuda desses estímulos-meios. Vygotski (1930/1995f) define essas questões como um processo de formação de novas conexões cerebrais, na base da autoestimulação.
Para Vygotski (1929/1995g, p. 294-296), enquanto que o estímulo é uma excitação que atua diretamente sobre o arco-reflexo, o motivo se refere a uma complexa reação formativa que se cristaliza entorno dos estímulos. Desse modo, “na escolha volitiva não lutam os estímulos, mas as formações reativas, sistemas inteiros de disposições. O motivo é, em certo sentido, a reação ao estímulo”142 (VYGOTSKI, 1929/1995g, p. 295). Assim sendo, estão em luta não os estímulos, mas os motivos.
Vygotski (1929/1995g) coloca que a luta dos motivos se produz no momento de se tomar uma decisão, e essa luta não é a via motriz propriamente, não é obter um mecanismo executivo nervoso, mas, a escolha do caminho de conexão a se estabelecer
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“El lenguaje y el dibujo infantiles, el dominio de la lectura y de le escritura, la lógica del niño y su concepción del mundo, el desarrollo de la representación y de las operaciones numéricas, incluso la psicología del álgebra y de formación de concetos [...]” (VYGOTSKI, 1930/1995b, p. 12).
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“[...] una forma de conducta – la inferior – pasa a otra que llamos convencionalmente superior como más compleja en el sentido genético y funcional. La línea que separa ambas formas es la relación entre el E y la R. Para una de las formas el rasgo esencial, sería la completa – en principio – determinación de la conducta por la estimulación. Para la outra el rasgo, igualmente esencial, sería la autoestimulación, la creación y el empleo de estímulos-medios artificiales y la determinación de la propia conducta con su ayuda” (VYGOTSKI, 1930/1995a, p. 82).
142“[...] en la elección volitiva no luchan los estímulos, sino las formaciones reactivas, sistemas enteros
de disposiciones. El motivo es, en cierto sentido, la reacción al estímulo” (VYGOTSKI, 1929/1995f, p. 295).
no córtex cerebral. No caso, Vigotski coloca que estímulos débeis podem se converter em motivos fortes, e vice-versa, mostrando que não se trata de saber se um estímulo é mais forte que outro biologicamente, mas, como um estímulo se converte em motivo, cujo domínio tem caráter mais psicológico.
No caso da reação eletiva, o homem cria os próprios mecanismos pelos quais vai exercer sua vontade; e que por vontade deve-se considerar os meios que ajudam o homem a dominar a ação. Assim sendo, vontade “significa o domínio sobre a ação que se realiza por si mesma; nós criamos unicamente condições artificiais para que a ação se cumpra; por isso, a vontade nunca é um processo direto, imediato”143 (VYGOTSKI, 1929/1995g, p. 298-299).
O uso do estímulo-meio entra nessa discussão da reação eletiva como luta dos motivos, e como criação de meios artificiais para se dominar a ação. Para decidir que conduta adotar num impasse entre dois motivos de força semelhante, o homem primitivo recorre a meios artificiais, não relacionados com a situação existente, como lançar sortes, por exemplo. Assim sendo, Vigotski afirma:
Entre o estímulo para o qual vai dirigido a conduta e a reação do sujeito, aparece um novo membro intermediário, e toda a operação se constitui em um ato mediado. Em relação a isso, a análise promove um novo ponto de vista sobre as relações existentes entre o ato de comportamento e os fenômenos externos144. (VYGOTSKI, 1930/1995f, p. 122, grifo nosso)
Como se pode ver na definição acima, o ato mediado revisa completamente a conduta humana como exclusivamente dependente da relação direta entre um estímulo e uma resposta, passando do mecanicismo fisiológico para a autoestimulação (ou domínio da própria ação), o que confere uma perspectiva humana ativa sobre o estímulo e sua natureza influenciadora.
Portanto, um traço essencial das formas superiores de conduta é a autoestimulação com o qual o homem consegue autodomínio, produzindo uma operação
143“[...] significa el dominio sobre la acción que se realiza por sí misma; nosotros creamos únicamente
condiciones artificiales para que la acción se cumpla; por eso la voluntad nunca es un proceso directo, inmediato” (VYGOTSKI, 1929/1995g, p. 298-299).
144
“Entre el estímulo al que va dirigido la conducta y la reacción del sujeto aparece un nuevo miembro intermédio y toda la operación se constituye en un acto mediado. En relación con ello, el análisis promueve un nuevo punto de vista sobre las relaciones existentes entre el acto del comportamiento y los fenómenos externos” (VYGOTSKI, 1930/1995f, p. 122-123).
indireta no cerne das relações existentes entre o ato do comportamento e os fenômenos externos – o ato assume caráter mediado.
Modifica-se, assim, a organização de todo o processo de comportamento – das condições unilaterais dos estímulos dados, para uma combinação entre estímulos dados e estímulos criados, que constitui uma operação indireta, mediada. Essa operação estabelece novas relações entre fenômenos externos e processos psíquicos, internos.
Para Vigotski, a introdução de estímulos auxiliares, artificiais, organiza o processo psíquico numa estrutura superior. Portanto, é mais do que uma cadeia de estímulos e respostas, e sim, um processo de alteração mesma da estrutura da relação E- R, graças ao estímulo-meio. No caso, a autoestimulação é uma peça-chave nessa discussão, porque nela consta o autodomínio, ou domínio da própria conduta.
Vigotski afirma: “assim, pois, o domínio da conduta é um processo mediado que se realiza sempre por meio de certos estímulos auxiliares. Precisamente, o papel dos estímulos-signos é o que intentamos desvelar em nossos experimentos com a reação eletiva”145 (VYGOTSKI, 1930/1995f, p. 127, grifo no original).
Vygotski e Luria (1931/2007) afirmam que é graças à inclusão do símbolo que se explica o modo de mudanças das funções psíquicas e suas relações estruturais. Esses autores comentam que as inclusões das operações simbólicas formam uma composição totalmente nova no campo psíquico; e que essas operações fazem a relação entre ação involuntária e voluntária. No caso, colocam que, enquanto a ação involuntária é tradicionalmente qualificada como própria do instinto ou do hábito, a “ação ‘voluntária’ se manifesta ali onde encontramos o domínio da própria conduta mediante o recurso a
estímulos simbólicos”146 (VYGOTSKI e LURIA, 1931/2007, p. 47, grifo no original).
Para esses autores, isso demonstraria a ação inteligente e livre do ser humano.
Para Vigotski o ato volitivo difere da mera formação de hábitos. Esse processo está principalmente ligado à própria história da humanidade, e se inscreve no plano do domíno da própria conduta.
145“Así pues, el dominio de la conducta es un proceso mediado que se realiza siempre a través de ciertos
estímulos auxiliares. Precisamente el papel de los estímulos-singos es lo que intentamos desvelar en nuestros experimentos con la reacción electiva” (VYGOTSKI, 1930/1995f, p. 127, grifo do autor).
146“[...] la acción ‘voluntária’ se manifiesta allí donde encontremos del dominiode la propia conducta