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2. THEORY

2.8. Fouling Reduction Techniques

Nosso texto é caracterizado por uma denúncia e um castigo. Trata de um conflito entre o profeta e um grupo de poder que rouba as terras e toma as casas de camponeses. George W.Ramsey117, em seu estudo, sugere como lugar vivencial para o texto a situação de um processo legal secular em Israel. Para o autor, o material considerado procedimento legal no antigo Israel encontra-se nas narrativas que descrevem o julgamento no tribunal dos anciãos, no portão, ou na corte do rei. Ele descreve três estágios para o processo.

No pré-julgamento, o querelante falava diretamente ao acusado. Frequentemente a questão podia ser estabelecida fora do tribunal. Com uma apelação

114 Benjamim Morse, The Lamentations Project: Biblical Mourning Through Modern Montage, em

Journal for the Study of the Old Testament, London, Sage Publication, vol. 28, n. 1, 2003, p. 115, 121.

115 Xuan Huong Thi Pham, Mourning in the Ancient Near East and Hebrew Bible, em Journal for the

Study of the Old Testament: Supplement Series, 302, Sheffield, Sheffield Academic Press, 1999, p. 23.

116 Hans Walter Wolff, Bíblia Antigo Testamento: introdução aos escritos e aos métodos de estudo,

São Paulo, São Paulo, Edições Teológica, 2003, p. 95-98.

emitida por uma das partes, era feita uma transição da discussão não oficial para o procedimento oficial.

No discurso perante o tribunal, a acusação era realizada diretamente aos juízes no tribunal, e o acusado era apresentado na terceira pessoa. Em alguns casos a acusação era proclamada diretamente ao acusado, e a maioria dessas acusações envolvia a disputa entre o rei e seus súditos. Dois tipos de discursos de defesa eram possíveis perante o tribunal: a autodefesa e a defesa por terceiros.

Após a apresentação dos argumentos de ambas as partes, o processo era concluído com o anúncio da decisão do tribunal. O veredicto era declarado diretamente ao acusado por meio de uma sentença nominal sucinta, provavelmente influenciada pelas formulações tradicionais nos códigos legais – exceção feita se o acusado estivesse ausente no tribunal.

Ramsey admite que oráculos como o de Miqueias 2,1-5 expressam o julgamento de Javé contra os pecados de Israel, e exibe características que apontam persuasivamente para um modelo não cúltico, originado além do estágio da queixa e da acusação para um anúncio de castigo.

Tal oráculo apresenta uma repentina transição, que coincide com a mudança da denúncia (ou acusação), proferida na terceira pessoa, para o anúncio de castigo (sentença). Esse padrão foi costumeiramente usado nos tribunais hebraicos, onde o acusador fazia sua denúncia falando do acusado na terceira pessoa e a decisão do tribunal era anunciada diretamente ao acusado.

Além disso, em Miqueias 2,1-5 a declaração da sentença (anúncio de castigo), destinada diretamente ao acusado, encontra-se prefaciada por um oráculo hôy, consistindo do hôy + particípio(s) ativo (frequentemente no plural) + verbos finitos na terceira pessoa.

Embora o oráculo hôy tivesse uma origem separada das formas de ditos jurídicos, o estilo impessoal do oráculo hôy era bastante apropriado para o uso, no dito de julgamento profético, como uma analogia da acusação do processo legal secular. O anúncio do subsequente castigo era endereçado diretamente ao acusado.

Além da surpreendente mudança da declaração da terceira pessoa para a segunda, precisamente no ponto onde essa mudança ocorria no processo legal secular, existem outros fatores a indicar que o profeta modelou o dito de Miqueias 2,1-5 nos processos seculares.

O pecado relatado na denúncia era um crime social. Uma espécie de crime julgado nos tribunais seculares. Em seguida, instaurava-se o estágio da sentença ou anúncio de castigo. Quando a culpa era estabelecida, a sentença era passada. Essa espécie de processo constituiu o protótipo para nosso dito de julgamento profético.

Embora a acusação e a sentença, no processo secular, fossem pronunciadas por diferentes pessoas, os profetas do oitavo século adaptaram-nas para expressar o processo de Javé contra Israel.

Portanto, a imitação profética do estilo jurídico nos leva a deduzir que o Sitz

im Lebem do dito de Miqueias 2,1-5 encontra-se no próprio tribunal. Esse estilo era

bastante familiar e apreciado a ponto de transmitir seu sentido e sua intenção onde quer que tais palavras fossem proferidas.

O profeta estava aflito, porquanto pessoas que deviam supostamente ser o exemplo da justiça exploravam os concidadãos sem nenhum escrúpulo. Diante disso, seria razoável propor a hipótese de que o profeta dirigiu-se ao tribunal, como um homem vindo para discutir seu caso e, empregando o habitual estilo e forma de dito, entregou lá a acusação e o veredicto de Javé, frequentemente virando a mesa contra os próprios juízes, visto que aqueles que tinham vindo julgar agora seriam acusados e sentenciados.118

O pessimismo expresso pelo profeta acerca da capacidade moral dos denunciados leva-nos a deduzir, tal como Ramsey, que seria difícil para o profeta pensar que sua pregação de julgamento induziria ao arrependimento de modo a suspender a execução da sentença. O dito de julgamento não dá indicação que o profeta planejou o anúnc io de castigo em um sentido condicional. G. M. Turcker afirma:

O termo ameaça não é forte o bastante para as más notícias do profeta acerca do futuro. É demasiado fraco, porque implica um elemento condicional; por exemplo, que o desastre/julgamento não viria se o povo se arrependesse. Pelo menos no anúncio de julgamento em si, nenhuma condição assim é declarada ou subentendida. O futuro já foi decidido.119

Os crimes dos israelitas haviam sido expostos. A sentença havia sido passada. O julgamento é chegado.120

118 Como o notável paralelo com a aparição do profeta Natã no tribunal do rei Davi, em 2 Samuel 12. 119 G. M. Turcker, Form Criticism of the Old Testament, Philadelphia, Fortress, 1971, p. 62 (tradução

nossa).

120 Isso não quer dizer que, em toda a teologia profética, o julgamento seja a palavra final. Em Oseias

e Jeremias, para nomear apenas dois exemplos, o processo de julgamento foi visto de forma positiva – curar, disciplinar e educar (cf. Os 2,4-17; 3,1-5; Jr 31,2-6.16-20).