• No results found

3.3 Tostegs duopol med Cournot – konkurranse (AJ – modellen)

3.3.2 FoU - samarbeid

A partir da analogia do jogo, Bourdieu (1983, p. 90) define a existência das propriedades fundamentais para o funcionamento do campo. Uma das propriedades mais importantes para o jogo é a que se refere à “cumplicidade objetiva subjacente a todos os antagonismos”. Essa propriedade diz respeito ao fato de que os membros de um campo, ainda que tenham interesses opostos, tornam-se engajados em função da continuidade do jogo, que é a garantia de existência do campo.

Essa dinâmica do campo, vista como um jogo, revela que esse espaço social opera a partir de polos e grupos, distribuindo os jogadores de acordo com as posições, definindo os objetos de disputa bem como as estratégias que serão mobilizadas para proteção ou subversão das regras, dependendo do polo ocupado.

No contexto desta pesquisa, associou-se o processo de reestruturação das Licenciaturas ao jogo, identificando os objetos de disputa presentes nesse jogo, por meio do qual já se sabe que os agentes encontraram o primeiro desafio: a necessidade de estarem de acordo com a propriedade do campo, que requer engajamento entre os

79

adversários. Ademais, foram definidos os grupos e seus interesses bem como a principal disputa em jogo e seus conflitos subjacentes.

O funcionamento do jogo depende do reconhecimento do seu valor como um direito de entrada que, segundo Bourdieu (1983b), é cobrado principalmente dos recém- chegados, que no caso do campo universitário, são os professores novatos. Nesta pesquisa, observou-se a existência dessa relação que envolve o reconhecimento dos recém-chegados. Comparando alguns relatos, essa questão perpassou o subcampo da

formação docente da UFOP no processo de reestruturação das Licenciaturas, em alguns

momentos, desde a definição dos agentes que representariam seus grupos na Subcâmara das Licenciaturas até a participação efetiva desses agentes nas reuniões.

No contexto desta pesquisa, houve, entre outros, um relato especial em que uma professora67 reflete o sentido do que Bourdieu considera como “conhecimento prático dos princípios do jogo”, pois sua estratégia foi a “escuta”, como quem sabe que é preciso primeiro conhecer as regras, para depois se manifestar. Sobre essa situação, Bourdieu (1983) explica que:

Pelo conhecimento prático dos princípios do jogo que é tacitamente exigido dos recém-chegados, toda a história do jogo, todo o passado do jogo estão presentes em cada ato do jogo. Todas essas pessoas compactuam com a conservação do que é produzido no campo, tendo interesse em conservar e a se conservar conservando (BOURDIEU, 1983, p. 92).

Sobre essa relação dos agentes pertencentes a um campo específico, como uma questão de aceitação tácita do funcionamento do jogo e de sua condição sócio-histórica que agrega novos atos ao jogo, é preciso contar com lutas que influenciaram o passado do campo. Nogueira e Nogueira (2004) assinalam que a história que precede o campo já reproduz uma hierarquia social68 e de lutas que é corporificada pelos indivíduos e pelas instituições que as importam de fora do campo sob a forma de habitus.

Para se conhecer melhor a dinâmica do campo como um jogo, é preciso compreender as antinomias que o constituem. O primeiro ponto consiste em entender a relação entre “dominantes versus dominados” que Bourdieu afirma existir em um

campo. Ortiz (1983, p. 23) explica que Bourdieu recupera essa dicotomia da clássica

divisão weberiana que antepõe ortodoxia e heterodoxia e assinala seu aspecto mais

67 Representante do Colegiado do Curso de Música. 68

As hierarquias sociais poderiam ser expressas como a divisão entre grupos, classes e frações de classe dominante e dominada (conforme Nogueira e Nogueira, 2004, p. 40).

80

concordante com a analogia do jogo: o fato de “dominantes e dominados serem necessariamente coniventes, adversários cúmplices que, através do antagonismo, delimitam o campo legítimo da discussão”. Para Lahire (2002, p. 48), “a oposição pode tomar a forma de um conflito entre ‘antigos’ e ‘modernos’, ‘ortodoxos’ e ‘heterodoxos’”.

Segundo Lahire (2002, p. 48), o fato de o capital ser desigualmente distribuído dentro do campo leva à crença de que existam no campo dominantes e dominados, ou seja, essa é uma condição intrínseca ao campo da qual depende todo o arcabouço teórico de Bourdieu sobre a aquisição dos capitais.

Entretanto, cumpre analisar mais detalhadamente como Bourdieu considera o papel dessas polarizações no campo social. O que demanda conhecer melhor as práticas e estratégias que constituem os mecanismos de enfrentamento das lutas entre os agentes e instituições.

De acordo com Ortiz (1983, p. 22), “ao pólo dominante correspondem as práticas de uma ortodoxia que pretende conservar intacto o capital social acumulado; ao polo dominado, as práticas heterodoxas que tendem a desacreditar os detentores reais de um capital legítimo”. O mesmo autor afirma que as lutas dentro do campo consistiriam em uma disputa entre esses dois polos, em que aqueles que ocupam a posição dominante “se situam junto à ortodoxia” e para se conservarem nessa posição o fazem por meio da segregação de instituições e da disposição de mecanismos que “assegurem seu estatuto de dominação” (p.22).

A principal forma de manifestação do polo dominante consiste na instituição de um processo de legitimação dos bens simbólicos69 que representa o estabelecimento de “um sistema de filtragem que determina aqueles que devem ou não ascender na hierarquia cultural” (ORTIZ, 1983, p. 23).

Os dominantes tenderiam a adotar, mesmo de forma inconsciente, estratégias conservadoras, mantendo a estrutura do campo e os critérios vigentes, os quais convergem para os interesses dominantes. Segundo Nogueira e Nogueira (2004, p. 37), dentro de um mesmo campo “outros indivíduos e instituições ocupariam, por sua vez, posições inferiores no interior do campo”.

69 As hierarquias entre bens simbólicos seriam, portanto, uma base importante para a hierarquização dos indivíduos e grupos sociais. Os indivíduos capazes de produzir, reconhecer, apreciar e consumir bens culturais tidos como superiores teriam maior facilidade para alcançar ou se manter nas posições mais altas da estrutura social (Nogueira e Nogueira, 2004, p. 42).

81

Por outro lado, Ortiz (1983, p. 23) afirma que o polo dominado é representado pelos agentes que manifestam “seu inconformismo através de estratégias de ‘subversão’, implicando em um confronto permanente com a ortodoxia.” Os agentes que pertencem ao polo dominado são descritos por Bourdieu (1983b) como aqueles que

são levados às estratégias de subversão que, no entanto, sob pena de exclusão70, permanecem dentro de certos limites. E de fato, as revoluções parciais que ocorrem continuamente nos campos não colocam em questão os próprios fundamentos do jogo, sua axiomática fundamental, o pedestal das crenças últimas sobre as quais repousa o jogo inteiro (BOURDIEU, 1983 c, p. 91).

O polo dominado, por ser aquele em que os agentes ocupam posições inferiores no interior do campo, adota uma entre duas estratégias de atuação nesse espaço social. De acordo com Nogueira e Nogueira (2004),

A primeira estratégia consistiria na aceitação da estrutura hierárquica presente no campo e, conseqüentemente, no reconhecimento da inferioridade ou mesmo indignidade de suas próprias produções [...] Essa estratégia pode vir acompanhada ou não de um esforço de aproximação ou mesmo de conversão aos padrões de excelência dominantes. A segunda estratégia se refere às tentativas de contestação e subversão das estruturas hierárquicas vigentes do campo. É o que Bourdieu chama de movimentos heréticos (p. 37).

A despeito dessa polarização do campo entre dominantes e dominados é necessário recorrer ao que o próprio Bourdieu (1983b) cita como reforço do campo em questão71, considerando que “na verdade, a ortodoxia e heterodoxia, embora antagônicas, participam dos mesmos pressupostos que ordenam o funcionamento do campo” (Ortiz, 1983: p. 23). Bourdieu (1983b) afirma que

é a heresia, a heterodoxia, enquanto ruptura crítica, freqüentemente ligada à crise, juntamente com a doxa, que faz com que os dominantes saiam de seu silêncio, impondo-lhes a produção do discurso defensivo da ortodoxia, pensamento “direito” e de direita, visando a restaurar o equivalente da adesão silenciosa da doxa (BOURDIEU, 1983b, p. 90).

70 Por intermédio do uso do conceito de violência simbólica, Bourdieu tenta desvendar o mecanismo que faz com que os indivíduos vejam como “natural” as representações ou as ideias sociais dominantes. “A violência simbólica é desenvolvida pelas instituições e pelos agentes que as animam e sobre a qual se apóia o exercício da autoridade” (Vasconcellos, 2002: p. 80).

71 Bourdieu (apud Ortiz, 1983) considera que “a ortodoxia tem necessidade da heresia porque sua oposição implica o reconhecimento dos interesses que estão em jogo” (Bourdieu, P. Le couturier et sa

82

Isso seria o mesmo que afirmar, conforme Ortiz (1983, p. 23), que “a contestação é, no entanto, puramente simbólica, uma vez que se situa ao nível do ritual, não colocando em causa os princípios de poder que estruturam o campo.” O simbolismo implicado nessas oposições entre os polos tem o objetivo de demarcar as posições dentro do campo e, nesse sentido, evitar que o jogo seja destruído.

Considerando que a estrutura do campo é definida como o estado da relação de força entre os dois lados, os dominantes são considerados como aqueles que monopolizam o capital específico72. De acordo com Bourdieu (1983, p. 90), isso significa que “o capital vale em relação a um certo campo, portanto dentro dos limites deste campo e que ele só é convertível em outra espécie de capital sob certas condições”.

Nesse contexto, cabe especificar que a disputa pelo monopólio do capital específico torna-se a principal luta no interior do campo. A relação de força estabelecida no campo se dá de maneira que quem detém maior capital específico possui um poder fundamentado e uma autoridade específica que, de acordo com Bourdieu (1983, p. 91), se fortalece por meio do estabelecimento de estratégias. Para o autor, as estratégias são “ações objetivamente orientadas em relação a fins que podem não ser os fins subjetivamente almejados” (p.93).

Um exemplo esclarecedor acerca do significado do capital específico diz respeito ao que Bourdieu (1983b) alude como efeito de campo:

Há um efeito de campo quando se torna impossível compreender uma obra (e seu valor, isto é, a crença que lhe é dada) sem conhecer a história do campo de produção da obra – o que faz os exegetas, comentadores, intérpretes, historiadores, semiólogos e outros filólogos, sentirem sua existência justificada como os únicos capazes de explicitar a razão da obra e do reconhecimento que ela tem.(p. 92).

Para explicar o sentido do capital específico, Bourdieu (1983b, p. 92) aponta a relação entre a construção do problema científico e o campo específico, mostrando que a relação entre essas dimensões pode ser garantida a partir do reconhecimento de legitimidade do problema a partir de seus agentes legítimos. Isso quer dizer que um problema filosófico é um problema que depende da legitimidade daqueles que

72 Segundo Nogueira e Nogueira (2004), os capitais específicos de cada campo seriam, na verdade, variações dos quatro tipos principais de capital caracterizados por Bourdieu: cultural, econômico, social e simbólico.

83

pertencem ao campo da Filosofia. Tal problema estaria “inscrito na lógica da história do

campo e em suas disposições historicamente constituídas para e pelo fato de pertencer

ao campo e, assim, estaria condicionado também ao reconhecimento de sua autoridade específica” (p. 92).

No contexto desta pesquisa, aplicou-se a análise das dicotomias definidas por Bourdieu como expressão das dinâmicas do campo ou do subcampo. No que tange ao

subcampo da formação docente na UFOP, pode-se afirmar que nas disputas do processo

de reestruturação das Licenciaturas há dominados e dominantes, na medida em que há disputa de interesses entre os grupos de agentes e objetos em disputa.

O principal objeto de disputa é a própria formação docente, reconhecida como o capital específico do referido subcampo, pois, enquanto há um lado que disputa uma concepção afim aos parâmetros definidos pelas Diretrizes Curriculares Nacionais, de 2002, há o outro lado que defende a manutenção da formação sem as modificações sugeridas, ou a simples adequação, sem levar em conta as necessidades de mudança da formação que tem sido ofertada. Tal disputa será melhor explorada na discussão dos resultados, apresentada no próximo capítulo.