Nesta subseção serão explorados alguns dados exclusivos de cada estudo de caso, o que impossibilita uma comparação direta. Para tanto, a exposição é feita por região, completando o quadro geral das regiões e deixando as conclusões para a subseção final deste capítulo.
Bahia
Mesmo sendo a seca parte fundamental da cultura e da memória coletiva da população do Semiárido, nota-se que uma parte importante dos entrevistados (82%) acredita em uma redução recente na quantidade de chuvas na região como um fenômeno extraordinário. As grandes secas são constantemente relatadas pelos entrevistados, que as testemunharam desde sua infância, além de conhecerem estórias das gerações anteriores que as vivenciaram. Existem teorias populares bem difundidas sobre o ciclo das grandes secas, que viriam a cada década, aproximadamente. Mesmo tendo em vista a naturalidade com que secas extremas são vistas no longo prazo, 61% dos entrevistados relataram um aumento da frequência nos últimos anos. Além disso, uma mudança na temperatura também é massivamente percebida (82% dos entrevistados), acompanhado de uma imprevisibilidade dos meses frios e quentes nos últimos anos (47%). Apesar dos relatos, foram encontradas poucas adaptações ou alterações na produção devido ao clima. O dado mais relevante diz respeito a mudanças na época do plantio, feito por apenas 18% dos
entrevistados. Adaptações ao regime de chuvas austero sempre existiram, que atualmente é descrito pelos próprios agricultores familiares como “convivência com o Semiárido”, em grande parte resultado do trabalho de conscientização de ONGs e movimentos sociais, unificados na Articulação do Semiárido – ASA. Entretanto, não existe uma percepção de uma nova condição climática que incentivaria essa população à adoção de novas práticas de adaptação. Ao contrário, devido à melhoria de infra-estrutura e suporte institucional, a última grande seca a que os entrevistados fazem referência é a dos anos 1992-1993, mesmo se depois deste período houveram outras secas tão severas quanto esta.
Apesar da baixa correspondência entre a percepção de risco e adaptações realizadas, os aspectos de suas vidas que os entrevistados mais se preocupam estão diretamente associados à sua atividade econômica. Ao questioná-los sobre o que aconteceria se as mudanças relatadas continuassem e se agravassem, as três principais respostas foram: a produção agrícola (36%), a criação de animais (35%) e alimentação (28%).
Acre
O regime irregular de chuvas tem se mostrado um grande problema para os agricultores familiares na região amazônica nos últimos anos. As entrevistas realizadas no Acre revelam um alto grau de consenso entre esse grupo social (91% dos entrevistados) sobre a transformação no regime de chuvas ao qual estavam acostumados. Foram relatados, principalmente, aumentos nas temperaturas, ventos mais fortes (57%) e aumento da frequência de tempestades (51%). Essa transformação do clima local, que é percebida pelos entrevistados é datada, e tem início há não mais que 20 anos. Associado a esses problemas, 67% dos entrevistados relataram que os rios e demais corpos d’água em seu território estão mais rasos, atingindo limites até então desconhecidos na história da região, com vários secando completamente. Entre os extrativistas, importante grupo da categoria na região, 52% relataram mudanças nas espécies coletadas, que vão além das variações anuais normais. Essa parcela considerável dos entrevistados identificou uma tendência de menor produtividade na última década, jamais experimentada.
Quando questionados sobre as causas da mudança climática, as duas principais respostas foram desmatamento e queimadas, mencionados por um terço do total dos entrevistados no estado. As mudanças relatadas são atribuídas a fatores locais, associados à recente exploração produtiva que, por sua vez, são associadas ao desmatamento da região. Também foram citadas as queimadas do outro lado da fronteira, em território boliviano, que teria menos controle em comparação ao caso brasileiro, onde estas sofreram uma considerável diminuição nos últimos dois ou três anos, em função da ação governamental.
4.3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A pesquisa de campo, nas diferentes localidades, leva a três conclusões relevantes: 1) as mudanças climáticas representam um risco para a população pesquisada. As pessoas estão minimamente informadas sobre o assunto, e estão preocupadas, principalmente por já percebem mudanças no clima da região – alterações no regime de chuvas ao longo dos últimos anos –, sendo este um tema recorrente das interações sociais;
2) as diferenças encontradas entre os dois estudos de caso são muito poucas, apesar dos contextos naturais bem diferenciados. Foram realizados testes com variáveis sociodemográficas como sexo, atividade produtiva, faixa etária, e escolaridade, e nenhuma tendência estruturante entre estas e as questões sobre percepção do clima foram encontradas. A categoria agricultor familiar exerce um papel mais importante na estruturação dos dados – aqui usados para avaliar a construção de risco – do que o ambiente e respectivo clima em que estes estão inseridos. Destaca-se aqui o forte papel da televisão como fonte de informação sobre o assunto. Por outro lado, grupos sociais e instituições públicas e privadas que trabalham no campo apresentaram fraca interferência neste tema, segundo os entrevistados;
3) apesar da identificação desta percepção de risco com a estrutura teórica da
sociedade de risco, é preciso relembrar a crítica de Dickens (1992) à teoria de Beck, no que
tange à distinção entre perceber o risco e sentir-se sob o mesmo risco. A preocupação encontrada tem estruturas diferentes em cada um dos estudos de caso. Enquanto no Acre ela é de caráter pontual, associado a causas e eventos locais relativamente recentes, como o desmatamento ou as queimadas, na Bahia ela é associada como uma intensificação de fenômenos já historicamente conhecidos e presentes na cultura local. As consequências destas construções, entretanto, se aproximam: não sendo vistas como um processo de maior abrangência, de causas não locais, e que poderiam ser encaradas como irreversíveis, não existem indícios de grandes adaptações motivadas por uma nova condição climática a qual se deva adaptar-se. Alterações na forma de produzir ainda são pontuais, mas exceções do que regra geral, provenientes de iniciativas individuais. Dito de outra forma, não foi observada uma função básica das representações coletivas de risco conforme Mary Douglas: manter a solidariedade social, agindo como força integradora, que poderiam ser manifestas em ações coletivas de adaptação.
CONCLUSÃO
A partir da teoria da sociedade de risco proposta por Ulrich Beck, este trabalho buscou entender a construção de risco associado às mudanças climáticas e ao aquecimento global, a partir de duas experiências de pesquisa por amostragem distintas: uma a nível nacional, e dois territórios rurais nos biomas Amazônia e Semiárido.
A percepção de risco, principal chave analítica do trabalho, está inserida na corrente construtivista da sociologia ambiental, que encara o meio ambiente como produto de construção social. O significado dado à natureza – ou neste caso, aos riscos ambientais – não lhe é intrínseco, mas simbolicamente constituído e legitimado pela cultura. Buscando maior compreensão da realidade cultural da percepção de risco, as contribuições das teorias das representações sociais de Moscovici, das representações coletivas de risco de Douglas, e da ação comunicativa de Habermas, auxiliaram nas análises aqui desenvolvidas.
Em nível nacional, existe uma relevante uniformidade na percepção de risco das mudanças climáticas, onde a grande maioria dos entrevistados acredita que os efeitos do aquecimento global já começaram a aparecer ou aparecerão nos próximos anos, e que suas vidas serão afetadas diretamente por eles. Esta uniformidade deve ser lida a partir da teoria de Beck quanto à natureza imperceptível dos riscos modernos, restando aos indivíduos confiar nas instituições especialistas, e também nos meios de comunicação que transmitem tal conhecimento. Apenas duas das variáveis analisadas se mostraram estruturantes: renda familiar e escolaridade. Ambas com o mesmo comportamento positivo (quanto maior a renda familiar ou escolaridade, maior a percepção de risco). Quanto à natureza deste risco, chega-se à conclusão que se trata de uma percepção de risco generalizada, ou um sentimento geral de vulnerabilidade da sociedade. Existe também um consenso quanto às áreas da vida em que os entrevistados mais temem impactos negativos das mudanças climáticas, notadamente “saúde” e “escassez de água e alimentos”.
Nas áreas estudadas na Amazônia e no Semiárido também constatou-se que as mudanças climáticas representam um risco. As pessoas estão minimamente informadas sobre o assunto, e estão preocupadas, principalmente por já percebem mudanças no clima da região – alterações no regime de chuvas ao longo dos últimos anos –, sendo este um tema recorrente das interações sociais. Também não foram encontradas diferenças relevantes na distribuição das principais questões referentes ao clima entre as duas regiões, assim como entre variáveis sociodemográficas ou produtivas. Entretanto, a preocupação encontrada tem estruturas diferentes em cada um dos estudos de caso. Enquanto no Acre
ela é de caráter pontual, associado a causas e eventos locais, como o desmatamento ou as queimadas, na Bahia ela é associada com a intensificação de fenômenos já conhecidos. As consequências destas construções sociais, entretanto, se aproximam: não sendo vistas como um processo de maior abrangência, de causas não locais, e que poderiam ser encaradas como irreversíveis, não existem indícios de novas adaptações difundidas pelas regiões, que seriam motivadas por uma nova condição climática. Alterações na forma de produzir ainda são pontuais, provenientes de iniciativas individuais.
Baseado nos resultados das duas pesquisas aqui apresentadas conduzem, a teoria de Beck e Giddens sobre o “sequestro da experiência” parece explicar em boa parte o fenômeno aqui observado. Apesar de não levantar dúvidas sobre a hipótese de que indivíduos inseridos em diferentes contextos sociais e com diferentes experiências de vida interpretam riscos de maneiras diferentes, é preciso relativizar tal contextualização ao se tratar de percepção de risco. A natureza “imperceptível” dos riscos modernos aqui tratados diminui a interferência de contextos individuais na construção da percepção dos mesmos. Por isso, falou-se no primeiro capítulo sobre construção social do risco, no qual as instituições especialistas e mídia têm um papel determinante. O significado que cada indivíduo dará para as informações que recebe divergem em níveis muito subjetivos, que parecem ter pouca influência na concepção geral que se tem dos riscos, e nas formas de reagirem a eles.
É preciso levar a discussão para além da construção dessa percepção, mas questionar-se qual o grau de coesão entre o discurso e o medo real experimentado pelos indivíduos no que tange o aquecimento global. Os resultados aqui apresentados indicam que, apesar da grande preocupação sobre o tema que cerca os entrevistados, esse risco ainda não faz parte do cotidiano dos mesmos, de forma a motivar mudanças de comportamentos, ou a adoção de medidas adaptativas às mudanças previstas. Essa falta de coesão pode ser resultado da falta de informação associada à impotência em relação ao tema: por não saberem o que fazer, só resta aos indivíduos aguardar e manter ao tema apenas na esfera do diálogo. Por outro lado, esse também parece ser resultado da adoção do discurso midiático sobre o tema, que homogeneíza as percepções e o discurso, mas não a ponto de transformar a vida dos indivíduos, já que existe uma incoerência entre esse discurso e real impacto de mudanças no clima em suas vidas.
Estas são algumas questões que não puderam ser respondidas neste trabalho, e que necessitam de respostas. Existem duas limitações claras neste trabalho, ambas radicadas na escolha de se trabalhar apenas com uma abordagem quantitativa. Essa escolha se mostrou, porém, precipitada, visto que os dados disponíveis não foram suficientes para uma análise aprofundada como se propunha. O primeiro problema diz respeito ao tratamento estatístico dos dados do segundo capítulo, que foi limitado pelos dados disponíveis,
impedindo o controle de certas variáveis e, assim, uma melhor compreensão da distribuição social da percepção de risco. Através de análises de regressão estatística ou análises fatoriais múltiplas, o papel de cada variável sociodemográfica poderia ser mensurado.
O segundo problema diz respeito às questões utilizadas no capítulo 4, para investigar a percepção de risco dos entrevistados na Amazônia e no Semiárido. Em primeiro lugar, um questionário focado nas questões aqui analisadas, com um maior número de questões, permitiria maior confiança nos resultados, possibilitando o gerenciamento de testes de validade do questionário. Apesar do intervalo de um ano entre os dois campos não apresentar problemas de maturação do objeto estudado, a evolução do trabalho do grupo de pesquisa levou a alterações no questionário, o que impediu a comparação de um maior número de questões. Reconhece-se que a percepção desta população a respeito das mudanças no clima de sua região vai além dos aspectos estudados, focados no regime de chuvas.
Tendo em vista os limites apresentados, destaca-se aqui que para trabalhos futuros no tema, metodologias qualitativas são essenciais para uma melhor compreensão deste objeto de pesquisa. É na combinação da abordagem quantitativa e qualitativa, em especial etnografias, que reside a melhor compreensão de diferenças de percepção de risco e sua distribuição social.
Enfim, buscou-se neste trabalho contribuir para a compreensão do risco socialmente construído a respeito das mudanças climáticas, em especial na população rural. Esta percepção tem como característica principal a homogeneidade. Entretanto, esta construção é no mínimo contraditória: amplamente difundida e consentida em sua natureza ameaçadora, seus impactos sobre a vida cotidiana da população estudada ainda é pontual, mesmo em áreas marcadas por uma percepção real dos indivíduos sobre alterações no clima local.
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