Esta pesquisa foi desenvolvida com base na abordagem interpretativista, segundo Moita Lopes (1994), Erickson (1986), Triviños (1987), dentre outros.
A referida abordagem pressupõe que a realidade é uma construção mútua entre mundo social e indivíduo, ou seja, o mundo social não existe independente do homem e à medida que o homem o constrói, é também por ele construído.
Para Erickson (1986) a pesquisa interpretativista percebe a realidade a partir da interpretação do ponto de vista de quem dela participa, ou seja, esta modalidade de pesquisa preocupa-se com as escolhas e significados que atores sociais atribuem, conforme Hughes, (1990: 96) citado por Moita Lopes (1994: 331) “a si mesmos, aos outros e aos contextos sociais em que vivem”. Isso possibilita a construção de diferentes perspectivas dos fenômenos da realidade social. Dessa forma, entende-se que o significado é construído socialmente por várias vozes em ação e que nelas estão envolvidos aspectos relacionados ao poder, ideologia, história e subjetividade (Moita Lopes, 1994).
Moita Lopes (1994:331), afirma que a interpretação de tais significados não conduz a uma única verdade, uma vez que “o homem interpreta e re-interpreta o mundo a sua volta”. No mesmo sentido, Erickson (1986:130) entende que cada verdade é única para um professor específico, com um determinado grupo de alunos “naquele momento”, “naquele ano”, “naquele dia”.
Em tal abordagem os dados são tratados sob uma perspectiva qualitativa, pois conforme Minayo (1994:21-22), a pesquisa de base qualitativa busca entender as relações, os processos ou fenômenos específicos, abrangendo o campo dos “significados, aspirações, crenças, valores e atitudes”, sendo considerando um enfoque diferenciado para compreensão da realidade que não pode ser quantificada.
Assim, nesta linha de pesquisa de base interpretativista, na qual a análise de dados tem um enfoque qualitativo, vemos relação com o que Freitas (2003) postula sobre a construção
47 do conhecimento numa perspectiva sócio-histórica, em que o foco está na compreensão do fenômeno no seu acontecer, no seu processo de desenvolvimento.
No contexto sócio-historico, a linguagem possui um papel central, já que é nas interações sociais mediadas pela linguagem que homens constroem, destroem e reconstroem sentidos-e-significados, o que caracteriza a natureza intersubjetiva dessa forma pesquisa, pois como coloca Moita Lopes (1994:332), “é a intersubjetividade que possibilita chegarmos mais próximos da realidade dos atores sociais”.
A intersubjetividade contempla as vozes dos envolvidos na pesquisa e mesmo a parcialidade do pesquisador, já que este integra o processo de conhecimento e interpreta os fenômenos atribuindo-lhes um significado. Dessa forma, entende-se que os fatos sociais estão relacionados à figura do pesquisador, o que o afasta da pretensão de neutralidade.
A presente pesquisa está em consonância com tais pressupostos, pois investiga os sentidos-e-significados dos participantes que são construídos numa relação dialética. Assim, o que os professores de diferentes disciplinas expressam sobre a Proposta Curricular e os Cadernos do Professor e do Aluno prescritos pela SEE/SP e seu uso no contexto específico desta pesquisa é que dará elementos para a análise dos sentidos-e-significados destes professores sobre o referido material e seu uso em sala de aula.
Creio que essa perspectiva metodológica atende mais adequadamente aos propósitos deste estudo, pelo fato de estar centrado em uma análise dos indícios para a compreensão do fenômeno investigado, e não apenas na sua descrição.
Isto posto, apresento o contexto de pesquisa. 3.2. - Contexto da Pesquisa
Nesta seção, descrevo o contexto no qual esta investigação se insere. Inicio com a apresentação da escola em que a pesquisa foi realizada e em seguida, faço algumas considerações sobre o processo de implementação da Proposta Curricular e os materiais didáticos na escola.
• A Escola
A pesquisa foi realizada na escola em que trabalho na região de Diadema. A escola hoje atende em média 600 alunos por período, sendo, a maioria, moradores da região ou bairros vizinhos. A escola possui 17 salas de aula, em uso nos três períodos. Em média, as salas comportam 40 alunos e este número pode variar – para mais - em decorrência da demanda e exigência da Diretoria de Ensino. Há ainda uma biblioteca que também é utilizada
48 como sala de vídeo e a sala de computação com pouca disponibilidade de utilização por frequentes problemas técnicos nos computadores.
Seu quadro de funcionários se divide em: 1 diretor, 2 vice-diretores; dois coordenadores; 5 serventes e 4 inspetores. O corpo docente é composto 35 professores efetivos e 45 em regimes de contratos diversos, não efetivos (OFA - Ocupante de Função Atividade).
Normalmente, o contato entre os professores acontece entre as trocas de salas, nos inícios e términos dos períodos e nos Horários de Trabalho Pedagógico Coletivo (HTPC), nos quais, em sua maioria, discutem-se questões relacionadas às ocorrências administrativas ou problemas disciplinares dos alunos. Algumas vezes são colocadas e/ou discutidas nas HTPC, questões políticas ligadas às reformas educacionais e administrativas, manifestações, e reivindicações pelos professores representantes da APEOESP (Associação dos Professores do Estado de São Paulo).
O contexto socioeconômico da comunidade que frequenta a escola, em sua maioria é classe de baixa renda. O entorno da escola dispõe de serviços de policiamento, saúde, biblioteca pública, centro cultural, e escola de educação infantil. Possui também todos os recursos de infraestrutura como saneamento básico, energia elétrica e pavimentação.
No que se refere à representação familiar na escola, a figura da mãe é mais presente já que o pai, na maioria dos casos, não convive ou não acompanha o desempenho escolar dos filhos. Há alunos não têm acompanhamento algum da família devido à necessidade da mãe ter que trabalhar e não poder participar da vida escolar do filho. Em muitos casos, os alunos estão sob a responsabilidade de tios ou avós.
Dessa forma, a comunidade escolar se caracteriza como pouco participativa nos projetos, eventos, conselho escolar ou até mesmo, nas reuniões de pais e mestres com exceção das séries iniciais – 5ª e 6ª séries, por exemplo. Esse fato, de certa maneira, parece contribuir para que os alunos pouco representados pelas famílias se sintam desobrigados do cumprimento dos deveres escolares.
• O processo de implementação dos materiais na escola
Como já colocado anteriormente, o material didático em questão é o material unificado de âmbito estadual que acompanha a Proposta Curricular e traz orientações metodológicas para o desenvolvimento dos conteúdos.
49 Os professores receberam esse material em maio de 2008 – sem curso de capacitação para seu uso - com considerável atraso em relação ao prazo previsto para o início de sua utilização, que seria em março. A SEE/SP informou que os materiais também seriam entregues aos alunos, fato este que não aconteceu até o momento da primeira entrevista com os professores de Português/Inglês e História. Mesmo assim o material foi implementado e trabalhado pelos professores ao longo do ano.
No final do mesmo ano, 2008, alguns professores realizaram um curso denominado A Rede Aprende com a Rede14 que abordava questões relacionadas a aspectos teóricos e metodológicos da proposta curricular e dos materiais didáticos. No entanto, a participação no curso era restrita a alguns professores da Unidade Escolar, escolhidos pelo dirigente da escola, em função do número de aulas e por serem professores com cargo efetivo.
No ano seguinte, 2009, tanto os professores quanto os alunos receberam o material. Tendo apresentado o contexto no qual esta pesquisa se insere e as considerações sobre o processo de implementação dos materiais, passo a descrever seus participantes.
3.3. Participantes
Os participantes da pesquisa são três professores que ministram aula no Ensino Fundamental II e Médio, em diferentes disciplinas, a saber: História, Português/Inglês e Matemática, além da professora-pesquisadora. Os professores foram convidados para participar da pesquisa, por serem de diferentes áreas de conhecimento e de fazerem parte de um coletivo de trabalho com o qual eu, pesquisadora, mantinha um maior contato. A escolha justifica-se também porque em conversas fora de contexto de pesquisa tais professores sempre falavam a respeito da Proposta Curricular e dos Cadernos prescritos. Assim, passo a descrevê- los.
• Professora de História
A participante é formada em História desde 1967. Atua no magistério, especificamente na rede estadual de ensino, há 27 anos.
14 O curso A Rede prende com a Rede é uma proposta da CENP (Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas) para a formação continuada de professores da rede pública de ensino do Estado de São Paulo que tem por objetivo possibilitar aos educadores aprofundar os conceitos e teorias que norteiam as Propostas Curriculares de cada disciplina, bem como as metodologias indicadas nos materiais de apoio. Disponível em http://www.rededosaber.sp.gov.br/portais/Apresentação/tabid/826/language/pt-BR/Default.aspx. Acesso em 10/10/2010)
50 Ao longo de sua atuação na rede estadual participou de diversos cursos na área da educação promovidos pela Secretaria do Estado; no entanto, até momento da primeira coleta de dados, a participante dizia não ter participado do curso A Rede Aprende com a Rede15.
A professora normalmente escolhe turmas do Ensino Fundamental II, tantos nos períodos da manhã quanto da tarde.
Devido a sua longa vivência na mesma escola, a professora tem grande conhecimento sobre a vida e origem dos alunos, já que muitos deles são filhos de seus ex-alunos.
• Professora de Línguas
Formada em Letras em 2000 e em Pedagogia em 2004, a participante atua nas áreas de Português e Inglês. Trabalha na rede estadual há dez anos, em sete dos quais ministrou concomitantemente aulas na rede privada.
Na escola, contexto da pesquisa, a professora-participante ministra aulas de Português para o Ensino Fundamental II, nos períodos matutino e vespertino. No período noturno, no ano de coleta de dados, ministrava aulas de Inglês em outra unidade escolar.
Ainda em relação à sua formação, a participante frequentemente participa dos cursos oferecidos pela Secretaria da Educação, tendo inclusive participado do curso denominado Rede Aprende com a Rede, que se referia ao material didático em questão. Fez uma viagem para fazer aperfeiçoamento em língua estrangeira, além de participar de outros cursos não relacionados à área de educação.
Nesta pesquisa, por ministrar aulas para Português e Inglês por vezes, refere-se a especificidades de uma ou outra disciplina, no que concerne ao uso do material.
• Professora de Matemática
A professora-participante é graduada em Matemática desde 1990 e pós-graduada em História da Matemática desde 2007. Por falta de tempo, a participante informou não ter participado do curso Rede Aprende com a Rede, anteriormente mencionado.
Atua no magistério há 16 anos, sendo que destes, 15 foram na rede particular de ensino e os últimos 10 também na rede estadual. Atua no Ensino Fundamental II, dividindo sua carga de aulas entre os períodos da manhã e tarde.
51 Embora a professora resida em local distante da escola em questão, tem um grande apreço por ela e pela comunidade escolar, o que faz com que continue escolhendo aulas na escola da coleta. O fato de a professora residir distante da escola contribui para o adiamento, por diversas vezes, das entrevistas agendadas para coleta de dados desta pesquisa. Várias vezes a professora disse que devido aos seus compromissos particulares não tinha tempo disponível para permanecer na escola e conversar comigo.
• Professora-pesquisadora
Sou professora da rede pública estadual de ensino desde 2001 e atuo na escola na qual esta pesquisa foi desenvolvida há aproximadamente 7 anos, sendo os últimos 4 anos como professora efetiva na disciplina de Língua Portuguesa.
Sou graduada em Letras pela Faculdade de Filosofia e Letras - Fundação Santo André, desde 1998. Por ter a possibilidade de atuar tanto nas disciplinas de Português como Inglês e buscando aperfeiçoamento profissional, ingressei no curso de inglês oferecido pela Cultura Inglesa destinado aos professores da rede pública o qual, em parceria com a PUC-SP, se estendia para outro curso de formação de professor - “Reflexão Sobre a Ação: o professor de inglês aprendendo e ensinando”, conforme dito na Introdução deste trabalho.
Durante a minha participação no curso, passei a refletir sobre minha prática, buscando e questionando as possibilidades de desenvolver um trabalho que fosse realmente significativo e que tivesse efeitos práticos na minha vida e na vida dos meus alunos.
Embora o curso fosse destinado especificamente aos professores de Língua Inglesa, a possibilidade de aplicação dos conceitos ali discutidos às outras áreas motivou a mim, como professora da rede estadual, a aprofundar-me nos estudos no que se referia às práticas pedagógicas no contexto educacional, o que poderia ser viabilizado por meio da pesquisa.
Assim, ao término daquele curso, matriculei-me no curso de elaboração de Projetos de Pesquisa, oferecido também pela PUC/SP na COGEAE, indicado por uma amiga e por uma professora que ministrou um dos módulos do curso Reflexão sobre Ação. Em seguida, em 2008, ingressei no programa do LAEL, onde poderia realizar a pesquisa de meu interesse.
Este foi o ponto de partida para o desenvolvimento do presente trabalho.
A seguir, apresento os instrumentos e procedimentos para geração de dados desta investigação.
52 3.4. Geração de Dados
Nesta seção, apresento os instrumentos e a situação de coleta dos dados que compõem o corpus desse trabalho.
A coleta de dados ocorreua partir o 2º. Semestre de 2008, ano da implementação da Proposta Curricular, e durante o ano de 2009. Gravadas em áudio, inicialmente desenvolvida por meio de um roteiro de entrevista semi-estruturada ou semi-drigida (RIZZINI et al, 1992:63), o qual pode ser conferido no anexo 1, a coleta de dados teve como objetivo levantar os sentidos-e-significados dos professores a respeito da Proposta Curricular e do material didático em questão.
Segundo Rizzini, Castro e Sarto (1999) a coleta de dados se caracteriza como instrumento de conhecimento, que possibilita ao pesquisador ajustá-lo à medida em se percebe as particularidades dos participantes e a compreensão destes sobre o que se está perguntando.
Dessa forma, num segundo momento, a entrevista se configurou mais como uma conversa em que foram retomadas algumas questões e falas dos participantes, com objetivo de ampliar a compreensão dos sentidos-e-significados dos professores, considerando que neste momento os alunos também passaram a ter acesso ao material didático.
Para uma melhor condução da entrevista, na segunda situação de coleta, foi disponibilizado a cada professor o material didático ao qual ele havia feito mais referências no primeiro momento de coleta.
Assim, o corpus desta pesquisa se compõe de seis entrevistas gravadas em áudio, sendo duas de cada participante. Ressalto que, por problemas técnicos no aparelho gravador, parte de uma das entrevistas (Entrevista 2 – Professora de História) foi perdida. Por este motivo, a entrevista com a referida professora foi refeita com o objetivo de retomar as questões discutidas na gravação perdida. , o que propiciou a discussão de questões que não haviam sido abordadas antes.
Dessa forma, na análise de dados, os excertos que se referem à entrevista da professora de História, serão indicadas como Entrevista 2 – Professora de História – que se refere _à entrevista da qual parte foi perdida e Entrevista 2a – Professora de História, que se refere à entrevista refeita.
Outra questão importante a ser observada neste trabalho é fato de a Professora de Línguas, ministrar na unidade escolar, contexto da pesquisa, apenas a disciplina de Língua Portuguesa. Apesar disso, por diversos momentos da entrevista ela faz referencia ao material
53 de Língua Inglesa, em função de ministrar aula dessa disciplina em outra unidade escolar. Por esse motivo, na análise, algumas colocações a respeito do referido material foram consideradas relevantes para este estudo. Ressalto que as observações da professora sobre o referido material, refletem sua opinião e independem do contexto de aplicação deste.
A seguir, apresento um quadro resumo das coletas de dados, especificando datas das entrevistas com os diferentes professores das diferentes disciplinas e os objetivos das entrevistas.
Quadro 2 - Resumo da geração de dados Participante Data 1ª. Entrevista Semi- estruturada Objetivo Data 2ª.entrevista Objetivo Professor História 25/11/2008 Situar os participantes a respeito da pesquisa; levantar os sentidos- e-significados dos professores em relação a Proposta Curricular e o material didático unificado e a realização das prescrições 06/06/2009 07/06/2009 Retomar as falas iniciais dos participantes e confrontá-las com o que haviam dito na 1ª. entrevista. Professor Português/ Inglês 26/11/2008 08/06/2009 Professor Matemática 05/01/2009 18/10/2009
Fonte: dados da professora-pesquisadora
Para realização desta pesquisa foi acordado com a direção da escola e com os participantes, que a coleta de dados se daria em momentos oportunos ou fora dos horários de trabalho dos professores.
As entrevistas foram gravadas e, posteriormente, transcritas de acordo com o proposto por Mascurschi (2008) a respeito do nível de detalhamento das transcrições estar vinculado ao objetivo do trabalho. As transcrições foram identificadas de acordo com a ordem cronológica dos encontros, ou seja, Entrevista 1 e Entrevista 2. No caso da professora de História, conforme já explicado anteriormente, em função da perda de parte da segunda entrevista,
54 outra entrevista foi realizada e será aqui indicada como Entrevista 2a . Os participantes da pesquisa têm nomes fictícios, a fim de preservar sua identidade. Para melhor organização dos dados e facilitar o acompanhamento da análise de dados, os nomes fictícios têm como inicial a letra que corresponde à disciplina por ele ministrada. Assim temos:
Quadro 3 – Participantes da Pesquisa
Professora Pesquisadora PP Professora de História Helena Professora de Línguas Lídia Professora de Matemática Marta
Os turnos foram numerados em ordem sequencial e, quando parte dos dados afastava- se do tópico em discussão, optamos por utilizar o recurso de reticências nos excertos analisados.
Foram utilizados também, nos excertos, o recurso do negrito para destacar os trechos ou palavras que remetem aos sentidos-e-significados dos professores e os elementos extralinguísticos foram colocados entre parênteses duplos, como por exemplo, ((inaudível)), ((apontou para o livro)).