A história da antimodernidade católica [ultramontanismo] é [...] uma dimensão que ainda não encontrou seu lugar em nenhuma das eruditas histórias da religião de que dispomos.105
A Igreja, desde sua inicial formação, adaptou-se e modelou-se aos mais diversos contextos. Recebendo influências diversas, ora rejeitava-as como heresias, ora produzia releituras, muitas vezes geniais, como a elaborada por Santo Agostinho em sua teologia patrística e por São Tomás de Aquino com a filosofia escolástica. A cristandade tridentina buscava reapropriar-se de valores herdados da cristandade medieval, onde Estado e Igreja faziam parte de um mesmo sistema. Segundo Francisco José da Silva Gomes, há uma distinção entre cristianismo e cristandade. Enquanto o primeiro se refere à religião, a um sistema religioso, a cristandade refere-se a um sistema único de poder e de legitimação da Igreja e do Estado na sociedade.106
Com o despontar da Idade Moderna,107 a Igreja se percebeu ameaçada frente a novas questões colocadas por variados movimentos. Inicialmente, com a sola fidei e a sola scriptura de Lutero;108 depois, com o Iluminismo e sua lógica racional-empiricista; por fim, consolidando os novos tempos, com a Revolução Francesa109 e sua forte mentalidade anticlerical.
105 POULAT, Emile. Catolicidade e modernidade: um processo de exclusão mútua. Concilium, Petrópolis, Vol. 224, 1992, p. 21.
106 GOMES, Francisco José da Silva, A Igreja e o poder: Representações e discursos. In: RIBEIRO, Maria Eurydice de Barros (org.). A vida na Idade Média. Brasília: Editora da UNB, 1997.
107De acordo com Granfiel, o galicanismo, o febronianismo, o josefismo, a Revolução Francesa e o
Kulturkampf foram movimentos que surgiram a partir do século XVII e motivaram-se por nacionalismo que procurava restringir o poder de Roma sobre as Igrejas locais e aumentar o poder dos governantes civis nos assuntos eclesiásticos. Na medida em que esses movimentos buscavam limitar a sociedade da Igreja, ela própria reagia. Desse modo, do confronto contínuo entre Estado e Igreja nasceu o conceito de
societas perfecta. Para maiores informações: GRANFIELD, Patrick. Surgimento e queda da societas perfecta. Concilium, Petrópolis, v. 7, n. 177, p. 7-14, 1982. O século XVIII apresentou, através do Iluminismo e da Revolução Francesa, uma nova concepção de mundo e considerou a Idade Média como: “trevas”, “caduca”, “incoerente” e “opressiva”; acabou por produzir um distanciamento entre o mundo moderno e o medieval.
108 Percebe-se, portanto, que a Reforma Protestante difundiu uma nova e revolucionária compreensão de Igreja. Com suas diferentes reflexões teológicas apontando para uma nova eticidade, ela lançou um profundo e desagregador impacto nas estruturas de plausibilidade dominantes.
109 Até 1789, a Igreja era dona da terceira ou quarta parte do solo francês, direito este quebrado pela Revolução; a terra foi passando para as mãos da crescente burguesia; os conventos passaram a ser escolas, quartéis, prisões, armazéns ou até mesmo fábricas. A Concordata entre o Estado francês e a Igreja, assinada pelo imperador Napoleão Bonaparte e o Papa Pio VII (1800-1823), previa mudanças radicais como: a perda do território; a perda da décima parte das colheitas; e o fim das dioceses, existentes desde os séculos V e VI. Pela Concordata, o clero deixava de ser o primeiro estamento, tornando-se parte do aparelho burocrático estatal; perdia o controle dos casamentos, pois passava a prevalecer era o ato civil,
O Iluminismo compreendeu um movimento de idéias que surgiu na Europa Ocidental nos séculos XVII e XVIII. O centro unificador dos variegados aspectos que constituiu o Iluminismo foi uma concepção do homem e da história humana diferente em pontos fundamentais da concepção dos séculos cristãos. Baseada na experiência e na análise, a idéia de Razão dos iluministas ambicionava
conquistar todos os domínios do saber humano e de tornar-se a norma de uma pedagogia que deve[ria] estender-se a toda a humanidade, universalizando a libido sciendi [...] desse modo, a linha de evolução segundo a qual a Ilustração [ou Iluminismo] lê a história humana é traçada segundo os progressos da Razão.110
De acordo com Michel Vovelle:
o fato que [o Iluminismo] mais ressalta [...] é provavelmente o repúdio da visão teocêntrica que até então regera a ordem do universo. O Homem deixa de ser considerado no interior do pensamento de Deus, desaparece o além [e configura-se] uma nova visão de mundo através de uma visão do Homem.111
Obviamente que, caracterizado dessa maneira, o Iluminismo se chocou diretamente com as concepções católico-romanas, idéias que representavam um mundo do qual os representantes da razão não queriam mais fazer parte, ou melhor, queriam pôr fim sumariamente.
Conhecido também como o século das revoluções,112 esse período – a modernidade – viu florescerem inúmeros movimentos que apresentavam como pontos comuns o fato de quase todos serem dirigidos contra a ordem estabelecida, quase todos feitos em favor da liberdade, da democracia política ou social, da independência ou unidade nacionais. Além desses movimentos, a Europa Ocidental do século XIX presenciou a consolidação do sistema capitalista com a Revolução Industrial, a transformação do socialismo em força política via marxismo e profundas transformações sociais, testemunhando “a culminância de uma evolução que tornou o
com o acréscimo do divórcio. O Catolicismo passava a ser, apenas, uma religião entre outras; era a fase da implantação da liberdade religiosa.
110 VAZ, Henrique C. L. Antropologia filosófica I. São Paulo: Loyola, 1991, p. 91.
111 VOVELLE, Michel. A Revolução Francesa contra a Igreja: da Razão ao Ser Supremo. Rio de Janeiro: Zahar, 1989, p. 11.
112 Termo eternizado principalmente por Hobsbawm. Para maiores informações: HOBSBAWM, Eric J. A
Estado servo obediente do capitalismo, e reduziu a Igreja [...] a uma relíquia apenas tolerada do passado”.113
Esta situação geral resultava dos diversos movimentos que ascenderam a partir do século XVI. Assinalava-se por pluralidade religiosa, autonomia racional do homem sobreposta à autoridade, ou seja, liberdade de consciência e laicização114 do Estado. Como reação a essa disposição, a Igreja hierárquica e oficial passou a fechar-se progressivamente, buscando defender com todos os meios disponíveis a tradição que se interpretava ameaçada. Como abaliza Rémond,
é por reação ao perigo revolucionário que se avivam as tendências autoritárias; assim, a evolução interna do catolicismo, caracterizada pelo progresso do ultramontanismo, ao mesmo tempo como doutrina e organização, o reforço da centralização romana, a afirmação da soberania absoluta do papa, acentua ainda mais a oposição entre o espírito do século e a fé tradicional.115
Nesse sentido, falar de modernidade já pressupõe falar de ruptura com aquilo que se considera como sendo “atrasado”, já que sua bandeira é o progresso. Mas não podemos também perder de vista que “a modernidade pode camuflar-se ou exprimir-se sob as cores do passado”,116 como afirma Le Goff. Apresentar o ‘novo’ nos direciona ao esquecimento, ou à idéia de pureza, como se a partir de agora a humanidade tivesse encontrado o seu caminho e tudo o que existira antes fosse visto e apresentado como uma turva ilusão.
Ao olharmos uma época, uma sociedade, devemos levar em conta a relação entre passado e presente. No que diz respeito à religiosidade, apresentam-se também essas relações. Para se posicionar diante da modernidade, o catolicismo experimenta a luta pela tradição, ao passo que incorpora determinadas renovações; é o que consideramos uma revolução dentro da tradição, aprende-se a usar novas estratégias, mas equilibra-se sobre bases antigas e sólidas. Modernidade e tradição – pensamos – necessitam ser vistas neste estudo como uma via de mão dupla: se rechaçam e se interrelacionam a um só tempo.
113 CORRIGAN, Raymond. A Igreja e o século XIX. Rio de Janeiro: Agir, 1946, p. 38.
114 O conceito de Laicismo aplicado à modernidade se refere à distinção entre Igreja e Estado, legando à Igreja apenas um caráter de associação voluntária; tal concepção aparece nos ideais puritanos no século XVII, nos ideais de liberdade religiosa de John Milton e os ideais de tolerância de John Locke.
115 RÉMOND, René. O século XIX: 1815-1914. São Paulo: Cultrix, 1974, p. 170. 116 LE GOFF, Jacques. História e Memória. Campinas: Unicamp. 2003, p. 174.
No século XIX, a Diocese de Mariana, sob a política ultramontana de D. Viçoso, procurou lançar uma crítica e uma compreensão ao poder secular e às questões de seu tempo. Isto é o que podemos ver nos seguintes dizeres
Nações ha que não tem cidades, nem leis, nem magistrados, mas nenhuma se acha que não tenha Deos. Este consentimento tão universal entre os homens de todos os paízes, de todos os séculos, aliás tão diversos no gênio e nos costumes, separados por intervallos immensos de lugares, não pode ser efeito da convenção arbitraria, e só pode ser de huma luz de illustra a todos os homens, e que Deos tem posto em nossas almas.
Desgraçado daquelle que não conhece Deos! Não se pode passar sem o conhecimento de Deos: elle he de absoluta necessidade. Que sabe aquelle que ignora o primeiro principio? Fica na noite mais sombria, nas trevas mais profundas.
[...] Para conhecer estas verdades não são necessárias luzes sublimes, nem estudo profundo: bastão as primeiras impressões da razão e da graça.117
E o bispo de Mariana continua a crítica à ausência de religião no mundo
Deos me creou. Foi o mesmo Deos, este grande Deos, que não necessitava de mim, e que tinha em si toda a felicidade e glória. Eu sou creado por Deos: para servir nesta vida, e ser participante de sua gloria e felicidade na outra. Ha senhores neste mundo. Outros os servem, outros os servem e se julgam por isso felizes, e as vezes se consomem em seo serviço. Mas estes senhores também tem outro que os governão, ou se os não tem neste mundo, os tem no ceo.118
Procurando preservar-se, a Igreja tomou a precaução de anatematizar e proscrever idéias que poderiam, por ventura, ameaçar tanto o seu poder simbólico como o temporal. Entretanto, foi no século XIX que se esboçaram as facetas de um pensamento católico profundamente oposicionista119 à modernidade que se apresentava.