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No seu pleno ápice em termos de recepção intelectual, vendagem de livros e acolhimento institucional, o estruturalismo é o principal alvo dos primeiros textos de Derrida345, em especial Da Gramatologia, na sua primeira parte enquanto crítica da linguística saussureana que, como é sabido, é a base sobre a qual se ergue o estruturalismo, além de uma desconstrução de um trecho de Tristes Trópicos, de Lévi-Strauss, "Força e Significação", contraponto à "Forma e Significação", de Jean Rousset, e finalmente "A estrutura, o jogo e o signo no discurso das ciências humanas", mais uma vez diretamente dirigido a Lévi- Strauss346. Isso revela mais uma vez a pulsação que o próprio filósofo confessa muitos anos mais tarde - reconsiderando as polêmicas em que esteve envolvido - de "não poder não dizer" ("je ne peux pas ne pas le dire"), isto é, de sempre expressar os incômodos que sente nas leituras mesmo daqueles de quem se sente extremamente próximo347.

A crítica de Derrida ao estruturalismo como um todo baseia-se em dois pontos fundamentais: de um lado, a posição privilegiada da linguagem e em especial da fonologia348 (phone e logos - fonologocentrismo); de outro, a repressão da escritura, o que significa dizer a marca gráfica que, entendida no sentido lato que o autor busca, é a materialidade, a inscrição do virtual/ideal no mundo concreto. Nesse caso específico, expresso pelo acolhimento do

345

Sobre a posição híbrida entre estruturalismo (ciência, técnica) e a questão do fundamento, de viés mais próximo de Heidegger e Husserl, ver DERRIDA, Jacques, Entretien. In: Heidegger en France, pp. 124-126. 346 DOSSE, François. História do Estruturalismo, I - O Campo do Signo, pp. 67-69 e 83-85.

347 PEETERS, Benoît. Derrida, p. 484. Pierre Macherey apresenta na mesma época em seminário de Althusser a mesma temática, relacionando Lévi-Strauss a Rousseau e Condillac (BARING, Edward. The Young Derrida and French Philosophy, pp. 278-279). Althusser faz uma crítica similar a Lévi-Strauss, acusando-o de "colonialismo invertido" (idem, p. 279), sendo por isso que Baring afirma: "Derrida's treatment of the father of French structuralism was perhaps his text that was most immersed in Normalien culture" (idem, p. 280; ver ainda BARING, Edward. Derrida, Lévi-Strauss, and the Cahiers pour l'analyse; Or, how to be a good structuralist, pp. 53-59). Mas, paradoxalmente, Althusser, nas notas pessoais ao ensaio de Derrida, pontua que este confunde violência de classe com violência em geral no trabalho de Lévi-Strauss (idem, The Young Derrida and French Philosophy, p. 282), crítica que a antropologia posterior mostra ser perfeitamente correta (ver, por exemplo, os trabalhos de Pierre Clastres, a demonstrar que não se trata de não-violência, mas de uma economia da violência diferenciada daquela centralizada no poder soberano estatal). Comparar LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes Trópicos, p. 291 ("Não existe estrutura social mais frágil e efêmera do que a do bando Nambiquara. Se o chefe parece muito exigente, se reivindica para si próprio demasiadas mulheres ou se é incapaz de uma solução satisfatória ao problema do abastecimento em período de fome, o descontentamento surge. Indivíduos ou famílias inteiras separar-se-ão do grupo e irão para outro bando que goze de melhor reputação (...) Intrigas políticas no interior do mesmo bando e conflitos entre bandos vizinhos impõe o seu ritmo a essas variações, e a grandeza, a decadência dos indivíduos e dos grupos sucedem-se freqüentemente de maneira surpreendente") e CLASTRES, Pierre. Copérnico e os selvagens. In: A Sociedade contra o Estado, pp. 25-45, entre outros ensaios no mesmo volume.

dualismo entre significado e significante, o estruturalismo herdaria o mito do significado transcendental enquanto legado do eidos e da arkhe platônicos. Voltarei a esse ponto adiante.

Para Derrida, a "ambição estruturalista" de alcançar a partir de um estudo sincrônico as estruturas inconscientes que funcionam como categorias bastante próximas do kantismo revelaria ainda a sobrevivência do platonismo enquanto repressão da temporalidade349. É claro que Lévi-Strauss, ao enunciar seus desafios à historicidade estava na realidade muito mais preocupado em atacar a concepção teleológica de história que ainda vivia a plenos pulmões à época (terá morrido realmente?), em especial a partir do hegelianismo, do marxismo, de todas as ideologias do progresso e sobretudo de Jean-Paul Sartre350. Ao salientar a descontinuidade e a contingência da história, Lévi-Strauss, portanto, fazia um gesto desconstrutivo. No entanto, ao mesmo tempo, a pura sincronia351 e a visão "nomotética" da ciência ainda pareciam bastante clássicas a Derrida352, consubstanciando o estruturalismo como mais um suspiro da metafísica e fazendo que o filósofo enxergasse em Heidegger (e na

Destruktion) uma possibilidade de romper com a teleologia da filosofia da história sem ao

mesmo tempo perder a dimensão fundamental da temporalidade.

No entanto e por outro lado, Derrida, ao contrário do que havia feito na Gramatologia, parece acompanhar o estruturalismo até o ponto em que sua estrutura se faz jogo, em um nietzschianismo afirmativista que não encara a "morte de Deus" como um evento negativo,

349 DOSSE, François. A História do Estruturalismo, I - O Campo do Signo, pp. 51-52; ALTHUSSER, Louis. Lenin and Philosophy, p. 195; BENNINGTON, Geoffrey. Jacques Derrida, pp. 187-188. A posição é, contudo, um pouco mais sutil que essa análise de Paul Ricouer. Diz o próprio Lévi-Strauss: "O conhecimento não se baseia numa renúncia ou numa troca, mas sim numa seleção dos aspectos verdadeiros, isto é, aqueles que coincidem com as propriedades do meu pensamento. Não do modo sugerido pelos neokantianos, que implicava um constrangimento inevitável exercido sobre as coisas, mas sim porque o meu próprio pensamento é igualmente um objeto. Pertencendo a 'este mundo', participa da mesma natureza" (LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes Trópicos, p. 50). Tudo isso é muito nuançado e problemático, pois Lévi-Strauss era, ao mesmo tempo, um materialista extremado, acreditando, por exemplo, que esse horizonte teórico "deve permitir as estruturas internas do cérebro" (DOSSE, François. A História do Estruturalismo, I - O Campo do Signo, p. 208); idem, p. 294; idem, História do Estruturalismo, II - O Canto de Cisne, pp. 491-492; LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes Trópicos, p. 165. Assim, torna-se incompreensível que Descombes afirme "la noción de un 'espíritu humano' que 'inconscientemente' elabora estructuras es tan vaga que, sin duda, más vale renunciar a buscar su sentido" (Lo mismo y lo otro, p. 137), quando Lévi-Strauss é tão claro em torno do tema.

350 LÉVI-STRAUSS, Claude. O Pensamento Selvagem, pp. 273-298.

351 DOSSE, François. História do Estruturalismo, I - O Campo do Signo, p. 268, 295.

352 DERRIDA, Jacques. Force et signification (ED), p. 40 e 47; Donner le temps, pp. 97-98 e 101-103. Sobre a tendência ao formalismo do estruturalismo: DOSSE, François. História do Estruturalismo, I - O Campo do Signo, pp. 107-108; SCHRIFT, Alan. Le nietzschéisme comme épistémologie : la réception française de Nietzsche dans le moment philosophique des années 1960, p. 102. Entre os estruturalistas, foi Barthes o primeiro a reconhecer a importância de Derrida e as consequências para o estruturalismo, fazendo de S/Z a primeira obra a expressá-lo. Essa adesão foi reprovada por Lévi-Strauss, situando-se este em um campo mais tradicional em termos de discurso científico e filosófico nesse ponto - DOSSE, François. História do Estruturalismo, II - O Canto de Cisne, p. 140; PEETERS, Benoît. Derrida, p. 293.

mas "em passo de dança"353, como mais tarde reafirmará em A dyferença. Nos próximos tópicos e capítulos as semelhanças cada vez mais aparecerão.

...

Não é difícil perceber que Lévi-Strauss era o principal alvo na crítica ao

fonocentrismo, dada sua proximidade com Jakobson. Derrida inicia "Da Gramatologia"

mencionando o paleontólogo Leroi-Gourhan como condição de possibilidade do trabalho. Se seguirmos o historiador do estruturalismo François Dosse na observação de que Lévi-Strauss e Leroi-Gourhan, conquanto muito próximos em diversos aspectos, representam duas "soluções de ruptura" diferentes na constituição do humano (o primeiro pela linguagem e o segundo pela práxis), a observação de Derrida mostra uma posição mais próxima do materialismo da práxis que da filosofia da linguagem. Esse precisamente é o ponto de divergência fundamental com o estruturalismo. Vale a pena mencionar essa passagem da

História do Estruturalismo que, usando Marx como referência, clareia o lugar do diferendo

entre Leroi-Gourhan e Lévi-Strauss, permitindo ao mesmo tempo visualizarmos, já com uma perspectiva historicamente privilegiada, o porquê da opção de Derrida:

Entretanto, essas duas orientações na pesquisa antropológica permanecerão, em seus aspectos essenciais, estranhas uma à outra. Opõem-se no modo de relação estabelecido entre trabalho e fala. André Leroi-Gourham explica-o pela posição vertical que permitiu libertar as mãos e especializá-las nas tarefas de trabalho e na preensão, ao passo que a boca era, por seu lado, libertada para a fala. Ora, não existe trabalho sem linguagem, como mostra o texto célebre de Marx, no início de O Capital, sobre a abelha e o arquiteto. O que caracteriza e distingue a atividade do arquiteto, é que ele construiu sua casa em sua cabeça, antes de realizá-la. Mas onde situar o corte? É o trabalho ou a linguagem? A resposta é, a esse respeito, algo diferente segundo se adote o ponto de vista de Lévi-Strauss, que enfatizará a linguagem, ou o de Leroi-Gourham, que valorizará a práxis354.

353 DERRIDA, Jacques. La structure, le signe et le jeu dans le discours des sciences humaines (ED), pp. 427- 428; DERRIDA, Jacques. Force et signification (ED), p. 48.

354

DOSSE, François. História do Estruturalismo, I - O Campo do Signo, pp. 167-168. Na Gramatologia, Derrida assume explicitamente o ponto de vista de Leroi-Gourhan, mostrando como o humano faz parte da história - ou da aventura - do rastro, e não o contrário (De la grammatologie, pp. 124-125). Por outro lado, hoje especula-se em nível neurocientífico, por exemplo, que o cérebro humano tenha constituído sua forma a partir da reserva energética advinda de uma dieta específica com cozimento, o que ligaria com as temáticas culinárias que Lévi- Strauss apresentou. Por isso, talvez a relação aqui não seja de oposição, mas composição.

Outro ponto central da crítica é a separação entre natureza e cultura que ainda percorria boa parte dos escritos estruturalistas. Mais uma vez Derrida opõe Leroi-Gourhan e Lévi-Strauss, fazendo o sentido metafórico de escritura deslizar para seu sentido metonímico. Assim como fará com Platão e Saussure, inicialmente Derrida toma o rebaixamento da escritura como metáfora do logocentrismo, primazia da fala plena sobre a escritura enquanto privilégio da presença. Mais tarde, no entanto, o sentido desliza entre as escrituras, a restrita (logocêntrica) e a geral (dyferencial), tomando a escritura já no sentido metonímico de arquiescritura. Dessa forma, Leroi-Gourhan, apesar de não-citado nesse ponto específico, confirmaria pelo fenômeno da técnica que o período neolítico, ao contrário do que afirma Lévi-Strauss, já envolveria o fenômeno da escrita355. O próprio Derrida descreve esse movimento:

1. a certa digressão sobre a violência que não sobrevém do fora, para surpreendê-la, a uma linguagem inocente, que sofre a agressão da escritura como o acidente de seu mal, de sua derrota e de sua queda; mas violência originária de uma linguagem que é desde sempre uma escritura. Em momento algum, portanto, não se contestará Rousseau e Lévi-Strauss quando estes ligam o poder da escritura ao exercício da violência. Mas, radicalizando este tema, deixando de considerar esta violência como derivada com respeito a uma fala naturalmente inocente, faz-se virar todo o sentido de uma proposição - a unidade da violência e da escritura - que se deve, portanto, evitar abstrair e isolar356.

O objetivo é, então, demonstrar como o antropólogo oporia uma "Idade de Ouro" pura e sem contaminação, identificada com a natureza em Rousseau, e sua versão "corrompida" ou "decaída", identificando-a com a violência e a opressão. A crítica é bastante injusta, à medida que já naquele momento o autor vinha publicando as Mitológicas, que deslocam e tornam plásticas as oposições. Aliás, o próprio Derrida o reconhece, mesmo na cesura do incesto (que é, a rigor, cultura na natureza, e não natureza na cultura, como faz, por exemplo, o

355 Comparar LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes Trópicos, pp. 283-284 e DERRIDA, Jacques. De la grammatologie, p. 159.

356 DERRIDA, Jacques. Gramatologia, p. 131. No original: "1. à telle digression sur la violence qui ne survient pas du dehors, pour le surprendre, à un langage innocent, subissant l'agression de l'écriture comme l'accident de son mal, de sa défaite et de sa déchéance ; mais violence originaire d'un langage qui est toujours déjà une écriture. A aucun moment, on ne contestera donc Rousseau et Lévi-Strauss lorsqu'ils lient le pouvoir de l'écriture à l'exercice de la violence. Mais en radicalisant ce thème, en cessant de considérer cette violence comme dérivée au regard d'une parole naturellement innocente, on fait virer tout le sens d'une proposition —- l'unité de la violence et de l'écriture — qu'il faut donc se garder d'abstraire et d'isoler" (DERRIDA, Jacques. De la grammatologie, p. 156).

"naturalismo" dos nossos dias)357.

...

Há ainda várias questões que poderiam ser reequacionadas nesse trecho da Gramatologia onde Derrida parece mais querer tomar distância que se aproximar, mas para isso realiza uma série argumentativa bastante questionável, inclusive politicamente questionável358, especialmente no que toca ao ameríndio como espécie de "bom selvagem" na narrativa de Lévi-Strauss359. A fim de sustentar seu argumento da "época de Rousseau", Derrida parece exagerar na relação entre Lévi-Strauss e seu "afeto teórico"360. A acusação de roussenianismo e "etnocentrismo invertido" é totalmente inadequada já do ponto de vista de "Tristes Trópicos"361, mas ganha ainda maior descabimento quando confrontada com a antropologia contemporânea naquilo que as culturas ameríndias, objeto de descrição no trabalho de Lévi-Strauss, podem hoje significar em termos de entre-choque com a cultura ocidental (o indigenismo é um projeto do futuro, não do passado). A melancolia que perpassa "Tristes Trópicos" não é um afeto nostálgico, mas a denúncia da violência permanente que

357

DERRIDA, Jacques. De la grammatologie, pp. 152-154. Mais tarde, quando investigará a questão da animalidade, Derrida centrará suas críticas em na divisão lacaniana entre simbólico, imaginário e real sob o mesmo fundamento. Uma compreensão renovadora da questão a partir do interior da obra de Lévi-Strauss e do estruturalismo em VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. O Conceito de Sociedade em Antropologia. In: A

inconstância da Alma Selvagem, pp. 305-306 e 312-316; idem, Métaphysiques cannibales, pp. 115-120 e 174-

183, entre outros textos.

358 Especialmente em DERRIDA, Jacques. De la grammatologie, pp. 190-197 e 200-202.

359 DERRIDA, Jacques. Le structure, le signe e le jeu dans le discours des sciences humaines, p. 427. Ver DERRIDA, Jacques & MALABOU, Catherine. La contre-allée, pp. 68-77. Para a resposta de Lévi-Strauss, que afirma que "o sr. Derrida maneja o terceiro excluído com a delicadeza de um urso", ver PEETERS, Benoît. Derrida, p. 226. O antropólogo tem razão: diante, por exemplo, da amplitude da narrativa da cosmologia Bororo e seus "perspectivismos" e metamorfoses, por exemplo, Derrida encontra apenas a nostalgia do "bom selvagem", faltando à crítica, como era raríssimo acontecer, "espírito de finesse". O episódio abordado por Derrida está em LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes Trópicos, pp. 278-288, especialmente pp. 280-284. Segundo Balibar, Lévi- Strauss recebeu de forma "enfurecida" a crítica de Derrida, que por sua vez parecia ter escolhido o antropólogo como "principal inimigo" (A philosophical conjuncture: an interview with Étienne Balibar and Yves Duroux, p. 176).

360 DERRIDA, Jacques. De la grammatologie, p. 130.

361 DERRIDA, Jacques. De la grammatologie, pp. 161, 167-168, 172-173, 191-194. Veja-se, em contraste, a seguinte passagem: "Trata-se, realmente, de superstições? Vejo mais, em predileções desse tipo, a marca de uma sabedoria que os povos selvagens praticaram de forma espontânea e contra a qual a revolta moderna é verdadeira loucura. Muitas vezes esses povos souberam alcançar a sua harmonia mental pelo processo mais econômico" (grifei) (LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes Trópicos, p. 112). O antropólogo, portanto, refere uma economia diversa, e não a nostalgia de um paraíso perdido no sentido bíblico. A noção de economia simbólica, nesse sentido, corrobora o movimento de "expansão" da ideia econômica empreendido por Mauss e Bataille (ver, p.ex., idem, p. 210).

devasta até hoje as culturas indígenas e o meio ambiente na sua riqueza multinatural. Aliás, a incompreensão dos problemas suscitados por Lévi-Strauss pode também advir de uma certa ausência de um pensamento propriamente ecológico em Derrida (por razões complexas), com a exceção notável da questão animal362. No entanto, analisá-lo implicaria grande desvio do objetivo da tese, deixando-se por ora essa análise para futuros trabalhos.

...

Mas não é só de diferendos que vive a relação de Derrida com Lévi-Strauss, e poderia destacar ao menos dois pontos em comum: de um lado, o anti-etnocentrismo que o antropólogo abre a partir do relativismo cultural e da crítica da visão teleológico-evolucionista ocidental do progresso, deslocando o eurocentrismo típico da filosofia naquilo que será nomear logocentrismo como a forma mais pujante de etnocentrismo. De outro, o anti- humanismo como posição teórica que desloca, divide ou até cancela a figura do sujeito, situando-se lado-a-lado não apenas com a crítica do deslocamento posicional para o interior do sujeito das categorias transcendentais, fazendo-o novo ponto de apoio (como criticam já Heidegger, Althusser e Foucault, e Derrida repete o gesto), mas com o próprio legado de Nietzsche e depois Bataille, Artaud, Klossowski e outros naquilo que nomeamos experiência trágica como contraponto ao utilitarismo burguês363. Mais tarde, mas já implícito ou razoavelmente explícito desde as primeiras obras, o "anti-humanismo" de Derrida se aliará ao seu repensar da questão animal, tornando porosas as fronteiras entre humano e animal e não hesitando em criticar inclusive alguns estruturalistas - Lacan, em especial - quanto à manutenção do humanismo desde a divisão sem questionamento do "propriamente humano"

362 No que a não-aproximação com a cultura ameríndia, pretendendo ao contrário atacar a tradição metafísica (Heidegger, Lacan, Levinas etc.), parece ter sido um desperdício. No próprio Tristes Trópicos encontramos a seguinte passagem: "Quanto aos animais, pertencem em parte ao mundo dos homens, sobretudo no que diz respeito aos peixes e aos pássaros, ao passo que certos animais terrestres pertencem ao mundo físico. Assim, os Bororos consideram que a sua forma humana é transitória: entre a de um peixe (pelo nome do qual se designam) e a de uma arara (sob a aparência da qual terminará o seu ciclo de transmigrações)" (LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes Trópicos, p. 218). Não é esse um pensamento dos animot sob outra clave, como Derrida demanda em "O animal que logo sou"? Ver ainda, DERRIDA, Jacques & STIEGLER, Bernard. Echographies of Television, pp. 133-134.

363

O próprio Lévi-Strauss, embora de forma mais organizada e contida que Bataille ou Artaud, por exemplo, traz elementos para se pensar essa experiência de limite a partir do entrechoque cultural com os "selvagens" (por exemplo, LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes Trópicos, pp. 167-168).

no simbólico, algo que será decididamente problematizado364.