A criação dos recitais cênicos em conjunto com os alunos partiu naturalmente do trabalho de interpretação realizado com cantores e seus professores de canto em sala de aula e do contato com alunos da escola que eram também estudantes de teatro ou dança ou já profissionais nessas áreas.
No trabalho de preparação de uma canção erudita pode se pesquisar, além do compositor, o poeta, autor do poema sobre o qual foi composta a obra musical, outros poetas do mesmo período e o contexto artístico geral da época.
Não raro quando faço essa pesquisa sou tomada por uma paixão avassaladora por alguns poemas, textos literários ou imagens e torna-se quase um imperativo a comunicação desses textos, imagens ou de uma atmosfera imaginada, por mim, para o público. Stanislavski (2014b) em “A criação de um papel” vai dizer que esse encantamento que sentimos em um primeiro contato com uma peça é um indício de uma intimidade entre o ator e seu papel. Essa intimidade é preciosa porque se formou de forma natural e intuitiva. “O entusiasmo artístico é uma força motora da criatividade” (STANISLAVSKI, 2014 b, p.157).
Eu diria também, que o encantamento inicial que um intérprete sente com uma partitura, uma obra literária ou visual será fator significativo para o desenvolvimento de sua interpretação musical e também cênica. Esse
18 As apresentações dos projetos artísticos dos professores são eventos separados das audições e formaturas.
encantamento vem de uma certeza que aquela obra “explica” o que eu estou sentindo, ou quem eu sou, e de que aquele artista escreveu, compôs, pintou algo que eu não conhecia, e agora posso dizer: É isso! Gadamer (2015) fala desse reconhecimento que fazemos quando decidimos entrar no jogo da arte:
[...] o que propriamente experimentamos em uma obra de arte e para onde dirigimos nosso interesse é, antes, como ela é verdadeira, isto é, em que medida conhecemos e reconhecemos algo e a nós próprios nela. [...] A alegria do reconhecimento reside, no fato de identificarmos mais do que somente o que é conhecido. No reconhecimento, o que conhecemos desvincula-se de toda casualidade e variabilidade das circunstâncias que o condicionam, surgindo de imediato como que através de uma iluminação, sendo apreendido em sua essência. Ele é reconhecido como algo. (GADAMER, 2015, p.169-170).
Toda pesquisa feita para um recital poderia servir somente como inspiração e linha de trabalho interior na preparação e interpretação da música segundo os princípios de Stanislavski. Mas, à medida que a pesquisa era feita, alguns dos poemas, textos, imagens ganhavam potência e força dentro de mim, como intérprete. Eles passavam a exigir um espaço de apresentação próprio em um recital. Então decidi que poemas e textos seriam declamados ou encenados entre duas músicas e seriam pontos de partida ou de chegada para elas.
Comecei a criar cenas relacionadas a alguns temas já sugeridos pelos textos das canções ou pelos climas sugeridos pelas peças instrumentais (triste, alegre, tempestuoso, etc.). Combinava o repertório musical aos textos literários (geralmente poesias). Introduzia pequenas encenações de atores, declamadores e também os cantores e instrumentistas realizavam ações cênicas durante meus recitais de piano e recitais de música de câmara.
Cabe ressaltar a definição de Stanislavski, em “A Criação de um papel”, para ação cênica como uma ação que parte de uma criação movida por um impulso interior.
Ação cênica não quer dizer andar, mover-se para todos os lados, gesticular em cena. A questão não está no movimento dos braços, das pernas ou do corpo, mas nos movimentos e impulsos interiores. [...] É antes, uma coisa interna, não física, uma atividade espiritual. Decorre de uma sucessão ininterrupta de processos independentes. E cada um desses processos se compõe, por sua vez, de desejos ou impulsos que visam à realização de algum objetivo. [...] A ação cênica é o movimento da alma para o corpo, do centro para a periferia, do interno para o externo, da coisa que o ator sente para a sua forma física. (STANISLAVSKI, 2014b, p. 69-70).
A primeira experiência de fazer música com cena, com ações cênicas foi feita no Recital Didático "Béla Bartók e Ernst Mahle" em 2001, com a participação dos alunos do CEP/EMB: Raíssa Bisinoto, aluna de flauta e Mateus Ferrari, aluno de violoncelo e ator. Raíssa e Mateus tocaram e também atuaram juntos. Mateus criou e dirigiu a encenação a partir do repertório musical e cenário escolhidos por mim.
A segunda experiência foi a apresentação de “O Concerto do Pequeno Príncipe” com alunos de música de câmara do CEP/EMB tocando, encenando em conjunto com atores profissionais convidados, e participando como colaboradores na parte técnica do espetáculo19. Em ambas apresentações eu era a professora responsável pelo projeto artístico, por sua concepção, direção musical e pianista acompanhadora dos alunos participantes. Neste segundo espetáculo músico-teatral os atores ficaram responsáveis pela criação e direção cênica a partir do repertório musical e dos trechos do livro "O Pequeno Príncipe", ambos selecionados por mim.
Ações cênicas de cantores, declamadores e atores aconteceram em outros recitais criados por mim em projetos artísticos, com a participação de alunos e professores do CEP/EMB20, cantores e atores convidados: “Uma noite romântica no
século XIX” (2004); “In Memoriam” (2006); “Villa Lobos Apaixonado” (2009). Passei a denominar essas experiências interartísticas de música e teatro de Recitais Cênicos somente em 2010 com a apresentação do Recital Cênico "Nesse Bach...".
Nos Recitais Cênicos “Soirée de Madame Claudine” (2011) e “Au Jardin de Madame Pauline” (2012), selecionados para a reconstrução e análise nesta pesquisa, os roteiros, de duas histórias criadas por mim, foram escritos a partir dos textos das canções e das criações cênicas de atores e cantores durante os ensaios.
Em 2014 foi apresentado o Recital Cênico “No Mar com Neruda” (2014) com concepção e roteiro elaborados a partir de músicas e poesias selecionadas por mim, com a participação também de professores e alunos do CEP/EMB, de cantores e atores convidados e com direção cênica do ator Mateus Ferrari (ex-aluno do CEP/EMB).
19 Nesta apresentação Mateus Ferrari participou como iluminador e Raíssa Bisinoto como apoio técnico.
20
Além da professora e cantora Cláudia Sigilião, parceira em vários projetos (2004, 2009, 2011 e 2012), obtive a colaboração dos professores e cantores: Samuel Silva em 2004, Dani Baggio em 2004, 2009 e 2014; e dos professores e instrumentistas: Ataíde Mattos, César Borgatto, Elenice Maranesi, Paulo Dantas e Raíssa Bisinoto em 2010 e Alessandra Laluce em 2014; apoio técnico dos professores: Ana Paula Sampaio (fotos) e Wellington Fagundes (gravação) em 2010; Aldo Bellingrodt e seus alunos do Curso Elementos Técnicos do Palco (iluminação) em 2012 e 2014.
Em todos esses recitais havia o objetivo de afastar o formalismo, os estereótipos tão presentes nos recitais de música erudita. E o desejo de que a música, o espaço cênico, a luz estivessem interligados. Para cada recital que se criava eram experimentadas novas formas de posicionamento do piano, que estava sempre presente em razão do repertório, e dos instrumentistas e cantores no palco. Explorava - se os efeitos de luz dentro das possibilidades oferecidas pelo teatro do CEP/EMB onde eram realizados.
Sobre o trabalho de construção, de ligação entre as linguagens sonora, espacial e visual o professor Aldo Bellingrodt21, em entrevista, observou:
[...] Você tem de ter um tempo de estudo, de maturação, para que a gente possa fazer esta tradução, ou seja , traduzir da linguagem cênica para a linguagem luminosa, assim como, por exemplo, o cenário vai traduzir a linguagem cênica, a linguagem dramática vamos dizer assim, para uma linguagem espacial, mas é difícil haver uma compreensão que isto exige estudo, acompanhamento de ensaio, troca de informações, tal como o processo do ator, tal como o processo do músico, em termos de estruturar: como no caso do músico, estruturar o seu repertório (BELLINGRODT, 2016).
Segue abaixo a relação dos Recitais Cênicos, de minha autoria, apresentados no CEP/EMB:
Quadro 1 - Relação de Recitais Cênicos de criação da autora
Recital Cênico Data
“O Concerto do Pequeno Príncipe” 17 de novembro e 6 de dezembro de 2003
“Uma Noite Romântica no Século XIX” 18,19 e 20 de outubro de 2004
“In Memoriam” 27 de outubro de 2006.
“Villa Lobos Apaixonado” 1 de julho de 2009
“Nesse Bach...” 26 de maio de 2010.
“Soirée de Madame Claudine” 18 de maio de 2011.
“Au Jardin de Madame Pauline” 23 de maio e 1 de junho de 2012.22
“No Mar com Neruda” 18 de novembro de 2014 Fonte: Elaborado pela autora
21 Aldo Bellingrodt é iluminador e professor do CEP/EMB desde o segundo semestre de 2011. Em 2012 iniciamos uma parceria de trabalho com o Recital Cênico "Au Jardin de Madame Pauline". 22 A segunda apresentação aconteceu no Seminário Maior Arquidiocesano de Brasília.
A partir da conexão de linguagens artísticas foram sendo criados, espontaneamente, discursos23 que vão além dos discursos musical, literário,
imagético, da combinação ou sobreposição deles. Esses discursos esperados e inesperados têm como uma das justificativas o desejo de provocar impressões no público e a intenção da valorização das sensações mais do que o reconhecimento pelo público do artista, de sua técnica musical ou valorização do repertório que é apresentado24.