5. Resultat og analyse
5.3. Forventninger til skolen
Seringueiro do Acre, a historização do conceito.
“O que se tinha, na verdade, era de tudo um pouco...” Domingos Almeida
Nas tentativas iniciais de redação deste capítulo evidenciou-se a necessidade de uma melhor identificação do passado histórico das famílias de seringueiros, posseiros e agricultores que migraram para a cidade de Rio Branco a partir do início da década de 1970, como tentativa de compreendê-las nas suas formas de inserir-se na cidade. Isso porque no decorrer da pesquisa e da explicitação dos conceitos teórico-metodológicos, fomos percebendo que a utilização do termo seringueiro usado no sentido clássico, tornou-se inadequado para designar variadas experiências constituídas ao longo de décadas, pelos que migraram da floresta para a capital do Acre. Fomos percebendo que as experiências vividas por aqueles sujeitos sociais antes e na cidade, eram plurais, não cabendo em um único termo, a não ser por conveniência.
Por isso, iniciamos este capítulo, historicizando o conceito de seringueiro, problematizando as indagações colocadas na apresentação; traçando um perfil identitário dos chamados seringueiros que chegaram à cidade de Rio Branco e fizeram- se moradores urbanos; percorrendo aspectos de suas trajetórias antes da migração, problematizando a existência de seus antepassados, retornando até a formação dos primeiros seringais do Acre, quando milhares de nordestinos fizeram-se seringueiros.
Pontuar ou historicizar aspectos das mudanças ocorridas nos seringais, ao longo de suas experiências históricas, é o objetivo deste sub-texto que inicia o primeiro capítulo. Na Academia Acreana, nas três últimas décadas, o termo seringueiro tem sido utilizado em diversos contextos como tendo o mesmo sentido, implicando na omissão de sua historicidade e criando muitas implicações metodológicas em seu uso. O seringueiro que migrou para a cidade de Rio Branco, foi imediatamente assimilado como ex-seringueiro, por vários estudos,42 produzindo um corte radical e arbitrário na vida dos migrados, desvinculando-os de suas trajetórias passadas.
42 Algumas dissertações de mestrado produzidas no final da década de 1970 e inícios dos anos 80, já citadas, são exemplos do que estamos afirmando.
Ao fazermos uma leitura crítica da literatura e de textos acadêmicos produzidos sobre a constituição e funcionamentos dos seringais do Acre, bem como sobre a formação da periferia da cidade de Rio Branco, percebemos que os seringueiros, ao longo do tempo viveram variadas relações sociais.
Nota-se que a dificuldade começou a se estabelecer, quando alguns estudos começaram a utilizar o termo seringueiro para designar, as famílias que migraram para a cidade de Rio Branco na década de 70; sem diferenciá-las dos nordestinos que se fizeram seringueiros na passagem do século XIX para o XX e dos que migraram para referida região no chamado “Segundo Ciclo da Borracha”. É importante salientar que os que migraram para Rio Branco após 70, fizeram parte da terceira geração dos que chegaram do nordeste no período acima citado.
Na consulta que fizemos a algumas fontes, percebemos que as duas primeiras gerações viveram vários perfis de identidades, fazendo-se e refazendo-se historicamente em vários contextos históricos.
O pesquisador Luiz Antônio Pinto de Oliveira, quando esteve na cidade de Rio Branco, em 1978 e 1979, realizando a pesquisa que resultou em sua dissertação de mestrado, percebeu que:
“As origens nordestinas constituem o elemento mais marcante da formação da população acreana, mas o sincretismo étnico e cultural que fora se desenvolvendo em respostas às condições suscitadas pelas várias etapas da organização econômica e social, estabeleceu afinal a verdadeira afeição histórica do povo acreano”.43
Embora o termo “povo acreano” seja amplo demais, para designar identidades culturais complexas, constituídas ao longo de mais de cem anos, como a contribuição indígena e nordestina, tanto na formação social, como econômica, Oliveira percebeu um “acreano” que diferiu em muito dos nordestinos que migraram para os seringais do Acre nas duas últimas décadas do século XIX, embora tenha percebido que conservaram alguns traços físicos e culturais dos sertanejos. O autor evidencia identidades, culturas e cidades forjadas pelos sujeitos sociais que constituíram os seringais do Acre; evidenciando também a dinâmica em que viveram as duas gerações anteriores aos migrantes que chegaram a Rio Branco, a partir da década de 1970.
43 Oliveira, Op. cit., p. 5.
A utilização do conceito de identidade atribuído por Hall, torna-se importante porque ajuda a perceber os sinais e os traços vividos pelos diversos sujeitos sociais, evidenciando as mudanças sociais que foram efetivadas num tempo e num espaço, cada vez mais difícil de apreendê-los. Pela análise da constituição das identidades, as relações sociais tornam-se mais visíveis, contribuindo para uma percepção dos contrastes sociais.
Quando Hall considera que o sujeito social assume identidades que não são unificadas ao redor do seu ‘eu’, explicita que está inserido em um contexto social mais amplo, influenciando e sendo influenciado, determinando mas também sendo determinado. 44 Os seringueiros da região acreana viveram experiências diferentes secularmente, constituindo-se a partir de suas vivências, mas também sendo constituídos por conjunturas internas e externas diversificadas, onde suas identidades foram feitas e refeitas ao longo do tempo. Isso significa que o migrante da floresta, que chegou a Rio Branco na década de 1970, difere em muito dos primeiros nordestinos que fizeram-se seringueiros no Acre.
Alguns autores descrevem o contexto em que foi constituído o termo seringueiro, no sentido clássico como ficou conhecido no chamado “primeiro ciclo da borracha”. Para uma melhor definição das características que deram origem ao conceito, selecionamos quatro registros que enfocam olhares diferentes sobre a constituição dos seringais e o fazer-se do produtor do látex. Privilegiamos olhares de fora do contexto amazônico, como os de Euclides da Cunha e Mário Guedes e visões regionais, como as de um grande proprietário de seringal do Acre, chamado Avelino Chaves e da Amazônia central, Arthur Cezar Ferreira Reis. Este, depois que escreveu a obra “O seringal e o seringueiro”, publicada em 1953, passou a ser considerado um especialista sobre o tema dos seringais amazônicos.
Euclides da Cunha, na sua passagem em 1905 pelos seringais margeados pelos rios Solimões e Purus, registrou seu olhar sobre a constituição e funcionamento dos seringais acreanos, constituindo-se como fonte importante, considerando seu não comprometimento político ou econômico com as elites vinculadas ao seringalismo.45
44 A identidade cultural se altera de acordo com as vivencias dos sujeitos sociais, nos diz, Stuart Hall: “O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um ‘eu’ coerente”. Hall, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2001, p. 13.
45 Esse termo seringalismo foi cunhado pelo professor Mário José de Lima, como forma de designar a organização social do seringal.
Cunha encontrou um seringueiro totalmente dependente do proprietário do seringal, com uma dívida financeira impagável, levando-o ao diagnóstico de que o seringueiro foi o homem que trabalhava para “escravizar-se”, pois estava preso a “mais criminosa organização do trabalho”.46 Foi informado de que os seringueiros estavam sendo regidos por regulamentos impostos pelos proprietários, onde estava expresso que o nordestino que se fazia seringueiro não podia dedicar-se à agricultura de subsistência; sua produção de borracha só deveria ser vendida ao seringalista, que estava vinculado e tinha que comprar os bens para sua sobrevivência apenas no barracão de seu senhor.
Outro olhar externo sobre o funcionamento de seringais foi registrado por Mário Guedes, quando em 1914 esteve, em nome da Fazenda Nacional, nos seringais do Município de Sena Madureira, como encarregado do Posto Fiscal local. Esse autor percorreu seringais nos rios Iaco e Caeté onde ouviu seringueiros e registrou seus testemunhos. Na região encontrou o seringueiro dependente do proprietário do seringal, pois toda a produção de borracha tinha que ser entregue ao patrão; só podia comprar mercadorias do barracão, ao qual estava vinculado e pagando “renda” pelas estradas de seringas utilizadas e pelo transporte de suprimentos do barracão para a colocação de seringa, bem como da borracha para a sede do seringal.47
Guedes não fez nenhuma referência se o seringueiro da região estava ou não praticando a agricultura de subsistência, mas como evidenciou que o seringueiro estava totalmente dependente da estrutura do barracão, supõe-se que o mesmo estava proibido de produzir agricultura, o que perdurou até a deflagração da chamada crise da borracha amazônica, em 1914.
O escritor Arthur Cezar Ferreira Reis, na obra citada, fez uma descrição ampla da constituição e do funcionamento dos seringais da Amazônia como um todo, explicitando também as relações sociais e econômicas empreendidas entre proprietários de seringais e seringueiros. Descreve o seringueiro no período clássico da produção de borracha na Amazônia, como sendo obrigado a entregar toda a borracha produzida somente ao proprietário do seringal, bem como, era forçado a adquirir os produtos necessários a sua sobrevivência na floresta, somente do barracão ao qual estava vinculado.48
46 Cunha, Euclides. À margem da história. São Paulo, Martins Fontes, 1999. p 13. 47 Guedes, Mário. Os seringaes. Rio de Janeiro, 1920, p. 124/126.
Na leitura que fizemos de um relatório produzido por Avelino Chaves, proprietário do seringal “Guanabara”, no Alto Purus e lido na Conferência Nacional da Borracha, no Rio de Janeiro em 1913, percebe-se as regras em vigor, ditadas pelos donos dos seringais e pelas chamadas “Casas Aviadoras”. O documento, além de deixar clara a visão que um seringalista tinha do seringueiro do Acre, na transição do século XIX para o XX, evidencia de forma indireta a situação do nordestino/seringueiro como totalmente endividado e dependente. Endividamento prévio iniciado no Nordeste, no momento do recrutamento e aprofundado no seringal, quando o proprietário do barracão lhe fornecia o suporte para a produção de borracha, recebia em pagamento, toda produção do seringueiro.49
Explicitamos as descrições realizadas pelos autores citados, caracterizando o seringueiro que experimentou a constituição dos seringais do Acre, no último quartel do século XIX e nas duas primeiras décadas do XX, para evidenciar as especificidades em que viveram naquele contexto histórico. Os seringueiros eram obrigados à dedicação exclusiva à produção de borracha, não lhes sendo permitido produzir a agricultura de subsistência ou dispor de tempo para dedicar-se à coleta de castanha e à pesca. No período citado, o seringueiro foi ostensivamente controlado pelo proprietário do seringal, com objetivo de que ele produzisse o máximo possível de borracha, por isso a vigilância permanente, e daí a implantação dos mecanismos para atingir tais fins.
Dedicação exclusiva à produção de borracha. Essa foi a característica principal do seringueiro no chamado “Primeiro Ciclo da Borracha”, período que poderia também ser denominado de processo de constituição dos seringais do Acre, entre outros. Esses termos primeiro e segundo “ciclos” da borracha também são inadequados e reproduzidos ao longo do tempo sem uma análise crítica.
Pelo exposto, podemos dizer que o seringueiro que migrou para a cidade de Rio Branco, a partir da década de 1970, apresenta uma historicidade diferente do especificado pelos autores citados. Caracterizou-se mais como o seringueiro autônomo (também chamado de posseiro), do que com o seringueiro do chamado “Primeiro Surto da
Borracha”. Com essa versão não estamos afirmando que o migrante que chegou a Rio
Branco não era seringueiro, mas explicitar que ele chegou ao espaço urbano carregado de outras experiências, como as de seringueiro autônomo, de agricultor, castanheiro, etc. Mas que processos históricos contribuíram para a materialização das experiências
49 Chaves, Avelino de Medeiros. A exploração da hevea no Território Federal do Acre. Rio de Janeiro, 1913, p. 66/69.
citadas? Em que contexto histórico foi constituída a figura do posseiro ou seringueiro autônomo?
Existem indicações de que com a crise na produção e comercialização da borracha amazônica, a partir de meados da segunda década do século XX, em decorrência da produção em grande escala da borracha racional da Ásia, foram criadas as condições materiais para a gestação do “seringueiro autônomo”.50 O que significa dizer que o seringueiro, no sentido clássico do termo, perdurou aproximadamente de 1880 (início da formação dos seringais do Acre), até o período acima mensionado. A partir de então, o seringueiro não mais foi forçado pelo proprietário do seringal a trabalhar exclusivamente na fabricação de borracha; mas passou a produzir simultaneamente a agricultura de subsistência, iniciando a transição para o seringueiro autônomo, plenamente configurado como tal na década de 60. Nessa perspectiva concordamos com Hall quando diz: “As forças emergentes ressurgem sob velhos disfarces históricos”.51
A chamada “primeira crise da borracha”, surgida com a produção da Malásia, parece ter criado as condições necessárias para que o nordestino, que se fazia seringueiro, se fixasse à terra e introduzisse novas experiências de trabalho e de vida nos seringais do período, articulando a produção de borracha com a da agricultura, da coleta de castanha, etc. Podemos dizer que os seringueiros aproveitaram as contradições de uma economia estruturada para atender o mercado internacional, que utilizou à borracha como matéria prima para o desenvolvimento da indústria pneumática, para praticar novas experiências sociais na floresta acreana. As novas experiências, introduzidas nesse período, tornam-se mais visíveis na década de 60 e principalmente na década de 70.
Com a produção sintética da borracha na Ásia, os seringais do Acre também foram atingidos e os seringueiros constituíram e foram constituídos em um novo processo histórico. As relações sociais, antes muito rígidas, deram lugar a outras relativamente mais suavizadas; oportunidade para que muitos seringueiros e seringueiras pudessem, pela primeira vez, dedicarem-se à produção da agricultura de subsistência, concomitantemente com o trabalho do extrativismo da borracha. Quando afirmamos que não apenas seringueiros do sexo masculino se dedicaram à produção da
50 O professor Mário José de Lima, na sua tese de doutorado aponta mudanças no exercício da propriedade da terra e o afrouxamento do controle sobre os seringueiros a partir de 1914, pondo em marcha “um novo agente humano a se postar como protagonista histórico nessa fase de realinhamento da economia do extrativismo: o seringueiro autônomo”. Tese de doutorado apresentada à UNICAMP em 1994, p. 279-280.
agricultura de subsistência paralelamente à produção de borracha, temos como referencia Cristina Scheibe Wolff, ao considerar que mulheres migrantes do Nordeste, acompanhando os chamados “Soldados da Borracha”, também trabalharam na seringa e na agricultura. Portanto, não apenas homens, mas também mulheres, participaram desse processo histórico.52
Na década de 10/20, com a crise nos seringais do Acre, muitos seringueiros que quiseram e dispunham de alguns recursos financeiros puderam retornar ao Nordeste53 e os que ficaram constituíram famílias e se dedicaram às terras. As novas relações sociais e de produção em marcha, no Acre, alteraram significativamente o perfil dos seringueiros, como bem caracterizou Mário Lima.
Outro processo histórico que ajudou a alterar o perfil do seringueiro que migrou para a cidade de Rio Branco a partir da década de 70, começou a se articular no início de 1940, com o acordo assinado na capital americana entre o governo brasileiro e o dos EUA. Nesse período, houve uma rápida retomada da produção de borracha na Amazônia, e por extensão do Acre, o que provocou a migração e reimigração de milhares de nordestinos para a Amazônia, em situação que durou pouco tempo. Nesse período ocorreu uma resignificação das relações sociais nos seringais do Acre, conforme assinalou o professor Pedro Martinello,54 na medida em que aproximadamente 56 mil nordestinos foram para o Acre no esforço de guerra, transformando-se nos chamados “Soldados da Borracha”. O que estamos querendo explicitar é que os nordestinos que se tornaram seringueiros a partir da década de 40, não podem ser confundidos com os seringueiros do chamado “Primeiro Ciclo da Borracha”.
Com a expulsão dos japoneses, da Malásia, e a retomada do controle da produção de borracha na Ásia pelos aliados, muitos seringais acreanos foram novamente abandonados e muitos dos migrantes passaram a morar nas colônias agrícolas instituídas pelo governo Guiomard Santos, no final da década de 40. Daí, surgiram em Rio Branco as colônias Alberto Torres, Jarbas Passarinho, Aquiles Peret, Dias Martins, entre outras. Muitas famílias ficaram nesses locais até o início da década de 70, quando, sem o apoio governamental para adquirirem sementes e sem estradas para o escoamento da
52 Wolff, Cristina Scheibe. Marias, Franciscas e Raimundas: uma história das mulheres da floresta: Alto Juruá, Acre 1870-1945. Tese de doutorado, USP, 1998, p. 142/143.
53 Pedro Martinello caracterizou que com a crise desencadeada nos seringais ocorreu “correntes migratórias em sentido inverso”, ou seja, de retorno ao Nordeste. A “batalha da borracha” na segunda guerra mundial e suas conseqüências para o vale amazônico. UFAC, 1988. p. 57.
produção, venderam suas pequenas propriedades, transformadas em fazendas para pecuária de leite.
Isso significa dizer que muitas famílias que chegaram à cidade de Rio Branco, no período citado, não migraram dos seringais, mas de áreas próximas à cidade. No entanto, podemos dizer que muitas das famílias de seringueiros que chegaram à cidade de Rio Branco, no período em estudo, tinham uma relação direta, ou próxima, com os seringueiros que se tornaram Soldados da Borracha na década de 40. O número de aposentados como Soldados da Borracha que moram na periferia de Rio Branco é um exemplo disso. Que experiências as famílias viveram antes de migrar?
Se acompanharmos o itinerário de parte significativa dos seringueiros que migraram para a cidade de Rio Branco, no período em estudo, veremos que nem todos migraram diretamente dos seringais para a cidade, inclusive muitos já tinham uma relação de proximidade e identidade com a cidade.
Os estudos realizados pelo CEDEPLAR e por Renato Nunes da Silva, caracterizados anteriormente, são exemplares. O levantamento realizado pela equipe do CEDEPLAR enfatiza que na década de 70 houve uma grande concentração de terras nas áreas rurais próximas à cidade de Rio Branco, quando empresários adquiriram pequenas colônias e as transformaram em fazendas de gado, concentrando a terra que já tinha o pasto pronto e ampliando o êxodo dos agricultores para a cidade. 55
Silva faz uma relação direta da falta de alimentos básicos nos mercados da cidade de Rio Branco e da elevação de preços dos gêneros de primeira necessidade, com o deslocamento da população que produzia agricultura de subsistência nas cercanias de Rio Branco. Denuncia que a pecuária aniquilou os trabalhadores da agricultura de subsistência, com base no trabalho familiar.56
A leitura de várias fontes fornece indícios de que muitas das famílias que migraram, na década de 70, para Rio Branco, podem ser consideradas mais como posseiros ou seringueiros autônomos do que como seringueiros no sentido antigo do termo. Vamos tentar explicar isso melhor. O relatório do CEDEPLAR indica algumas questões nesse sentido.
A equipe apresentou, em 1978, a cidade de Rio Branco como “o destino dos movimentos populacionais intraestaduais”, e na tabulação da pesquisa com 420 pessoas vivendo na periferia da cidade, consideravam que “Os Municípios de Rio Branco, Sena
55 UFMG/CEDEPLAR. Migrações interna na Região Norte: O Caso do Acre, p. 126-130. 56 Silva, Op. Cit., p. 65/ 66,164.
Madureira, Xapurí e Brasiléia são os principais locais de residência anterior dos entrevistados acreanos”.57 Mas por quê essencialmente desses municípios?
Segundo a mesma fonte, porque existia “trafego permanente” por estradas que davam acesso a Rio Branco, principalmente no período do “verão”, ou seja, de maio a outubro. Por outro lado, os primeiros seringais comprados pelos grandes grupos econômicos, ficaram ao longo da BR 364, que liga Rio Branco a Brasiléia, passando antes pelo Município de Xapurí e a BR 364 ligando Rio Branco a Cruzeiro do Sul, onde Sena Madureira é o primeiro Município, distando 143 Km de Rio Branco. O documento apresenta os municípios de Xapurí, Brasiléia e Sena Madureira como a região do Alto Acre, onde estavam as maiores concentrações de seringueiras e castanheiras do Acre.
Citamos o documento do CEDEPLAR para evidenciar algumas questões. Uma diz respeito à constatação de que as primeiras famílias expropriadas da terra foram