Quais são os movimentos de humanos e não humanos, suas relações e como constituem coletivos sócio-técnicos que resultam na difusão dos reflorestamentos? Como se tornam aceitáveis, irresistíveis e imprescindíveis? Afinal, o impacto ambiental é causado pelo pinus, pela tecnologia florestal da silvicultura generalizada pelos reflorestamentos ou é culpa das empresas florestais e produtores rurais que os cultivam?
Os argumentos com os quais nos deparamos podem nos fazer aceitar fatos e acreditar em sua origem ou quem originou a informação. Os mesmos argumentos arranjados de outro modo podem nos colocar em dúvida e voltar ao ponto de origem para contestá-lo. Desta forma podem ser identificadas modalidades dos argumentos que reforçam ou enfraquecem um fato em construção (LATOUR, 2000). Os modos distintos de apresentar argumentos têm conseqüências diferentes e direções discrepantes. A figura ilustra o caminho de afastamento ou aproximação de modalidades positivas e negativas.
Enquanto não surgem consequências ambientais do reflorestamento, segundo uns, pelo aumento da área plantada, por outros, pela emergência ambientalista, a silvicultura mantém-se como um enunciado forte e sólido. Na medida que estas modalidades negativas ganham força, aproximam novamente o reflorestamento das áreas de desenvolvimento tecnológico e científico. No caso do uso do solo, atores sociais que estavam fora da rede da silvicultura, como o Centro de Ciências Agroveterinárias e seus laboratórios e pesquisadores de solos passam a incluir a rede para buscar solução para a controvérsia do impacto do reflorestamento.
Em alguns casos, os novos atores são convidados a participar da rede, em outras são impelidos, ou por exemplo, forçam sua entrada ao enunciar o impacto ambiental ou potencial produtivo a ser alcançado. Este processo resulta na redefinição da área de produção técnica- científica, no caso representada pela inclusão de pesquisadores de solos, seus laboratórios e todo o referencial representativo e cognitivo aplicado à ciência do solo.
A introdução de essências florestais edaficamente mais seletivas aguçam a percepção de atributos do solo e unidades da paisagem. E a percepção destes atributos torna-se mais evidente quando é necessário garantir a remuneração de terras mais caras. A introdução de novas essências florestais, principalmente de eucaliptos, mais exigentes em fertilidade,
reorienta o processo decisório sobre o uso do solo e impõe a percepção de atributos do solo essenciais para o bom desenvolvimento do reflorestamento.
Área de Produção Modalidades Positivas Afastam o enunciado da áreas de produção Novas providências Outras conseqüências Modalidades Negativas Aproximam o enunciado da área de produção
Figura 37 - Modalidades de construção dos fatos sociais.
A empresa Florestal Gateados, localizada em Campo Belo do Sul, região de solos com tradicional uso agrícola, os locais de solos melhores não receberam mais pinus e foram reservados para o eucalipto a partir de 2004210. Antes disso não se obervavam grandes diferenças de fertilidade. Os plantios de eucalipto iniciados provam que “é um mito que não se pode plantar Eucalipto na região”, e isto seria provado com o “E. dunnii, que produz madeira de boa qualidade, e se desenvolve bem mesmo sendo um pouco sensível à geadas”. Por isto os plantios receberam proteção química para mitigar o efeito da geada. O E.
benthamii é considerado a grande aposta para a região, e com esta espécie iniciou-se 2006 a
experimentação de plantios de eucalipto sobre o dossel de pinus com 24 anos de idade, onde 20 ou 40 árvores/ha protegem o eucalipto de geadas. Dos 50 ha iniciais, 100 ha foram convertidos desta forma em 2007 e a previsão é de 200 ha anuais a partir de 2008211.
Com exceção do eucalipto, enquanto o reflorestamento de pinus é viável economicamente com base em técnicas que não precisam atender uma expectativa de produção elevada, a pesquisa em solos pode ser totalmente desnecessária. Na medida em que
210 Entrevista com Eng Florestal Rodrigo Ramos, 2006. 211 Entrevista Eng. Florestal Mario Dohler, agosto de 2007.
a produtividade precisa ser ampliada, ou então em resposta a conflitos ambientais emergentes exigem a explicação do impacto ambiental do pinus, cria-se a condição para que novos investimentos técnico-científicos sejam necessários para ampliar a resposta das práticas de implantação e manejo florestal, para esclarecer o impacto do solo ou comprovar os benefícios das florestas.
A cultura florestal é conhecida por altos níveis de adoção tecnológica (LEÃO, 2000). Mas quando os gargalos deixaram de ser a oferta de madeira, e sim o processo industrial e comercial globalizados, os investimentos no fomento florestal deixaram de existir, e agricultores integrados com grandes plantas industriais passaram a terceirizar o ônus da atividade, os riscos de largo prazo e ausência de controle dos preços e limites legais de atuação no setor.
Outro exemplo, a manutenção da exploração do cerrado para a produção de carvão vegetal para uso no coque do ferro gusa no Brasil na década de 1980 e 1990 não incentivou maiores investimentos na produção florestal, nem em manejo florestal do Cerrado, pois a lenha era obtida com o desmatamento, bem como o carvão ilegal é mais barato que o produzido em florestas plantadas (BOURSCHEIT, 2007)212, ocasionalmente o desinteresse pelo cultivo do eucalipto e por conseqüência, pela pesquisa e tecnologia florestal. Em meados da década de 1990, a diminuição do valor agregado pelo Papel e Celulose, para onde vão 60% da madeira produzida no Brasil, diminui o consumo de madeira pelas empresas responsáveis por investimentos significativos em ciência e tecnologia no país.
212 Desde dos anos 80 o Brasil consumiu 660 milhões de metros cúbicos de carvão. Em 1985, 82% do carvão
vinha de florestas nativas, em 2005, 50%, contudo, o consumo anual passou de 32 para 37 milhões de metros cúbicos, mantendo alto o consumo de nativas.
CAPÍTULO IX – CONSIDERAÇÕES FINAIS: A SÓCIO-LÓGICA