5 Drøftelser
5.4 Regulering
O nexo entre cultura popular e cultura de massa dá-se pelo caráter peculiar da primeira de se colocar na fronteira do social, da ambigüidade, do duplo sentido, da relatividade das forças sociais e até mesmo pela própria condição de baixo material e corporal. Características percebidas por Bakhtin desde a idade Média. No entanto, a própria dinâmica de interação da sociedade contemporânea também favorece os meios entre cultura popular e cultura de massa. É nesta última que se observa o maior fluxo de intercâmbio entre mensagens, o que normalmente leva a conclusão sobre o desaparecimento das manifestações da cultura popular e a crença de que estas sucumbirão ao confronto com os modernos meios de comunicação.
Mas existem outras ligações entre a cultura de massa e a cultura popular. Por um lado à reorganização massiva do popular abandona o caráter ontológico da tradição e do folclore. Por outro, a mídia conseguiu incorporar à cultura popular meios de interação com a cultura hegemônica de modo até hoje inatingíveis. A cultura de massa é hábil em possibilitar a comunicação entre os diferentes estratos da sociedade, favorecendo a circulação da produção cultural. Isto porque, ela atesta a importância da técnica como elemento que pretende democratizar o uso da tecnologia. De acordo com Canclini82, a comunicação de massa pode ser veículo da descentralização da cidadania cultural.
Além disso, a dinâmica da massificação cultural tem mostrado seu alcance cada vez mais crescente. Os meios de atingir o novo público não mais se restringem ao jornal, ao folhetim. Estes têm sido assimilados pelo cinema, pelo rádio e pela televisão. Porém, longe do que imaginavam os puristas do século XIX, o desenvolvimento da tecnologia não fez sucumbir a narrativa popular. No Brasil, ela sobrevive aos novos recursos gráficos e tecnológicos e incrementa a cada dia elementos fictícios às narrativas popularescas, ilustrando com riqueza de detalhes imaginativos o cinema e as séries de tv do gênero. Ao contrário do que foi previsto, o desenvolvimento das tecnologias vão fazer da produção massiva um espaço de decolagem da narrativa popular83.
O popular tradicional é facilmente identificado pela constância das experiências de comunidade. Contudo, para perseguir o enfoque do popular urbano-massivo,é necessário enfrentar a dificuldade de delimitar um novo recorte epistemológico. Por isso, queremos propor uma síntese da cultura tradicional e da sensibilidade do mundo urbano que descreva a forma como se transforma a experiência popular e como ela passa a ser retratada pelas
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CANCLINI, Consumidores e Cidadãos – conflitos multiculturais da globalização. 5 ed. Rio de Janeiro: UFRJ, 2005.
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Martín-Barbero já analisara a literatura folhetinesca como mescla de histórias de mistério, de bandidos, fábulas e terror. Esse teor emocional irá demarcar o gênero chamado de melodrama. O melodrama é ponte de mediação efetiva entre o folclore das feiras e o espetáculo popular-urbano. Este gênero foi o primeiro a colocar o popular ao lado do massivo: lugar de chegada de uma memória gestual e lugar de emergência de uma cena de massa.
diversas modalidades da cultura. Nesse sentido, Martin-Barbero decreta nova era para a cultura popular, claramente não-folclórica:
Continuar pensando o massivo como algo puramente exterior ao popular – como algo que só faz parasitar, fagocitar, vampirizar - só é possível hoje a partir de duas posições. Ou partir da posição dos folcloristas, cuja missão é preservar o autêntico, cujo paradigma continua a ser rural e para os quais toda mudança é desagregação, isto é, deformação de uma forma voltada para sua pureza original. Ou a partir de uma concepção da dominação social que não pode pensar o que produzem as classes populares senão em termos de reações às induções da classe dominante84.
Ao visualizamos a cultura popular não como algo limitado ao seu passado rural, mas principalmente o popular ligado à modernidade, à hibridação e a complexidade do urbano. Ao acompanharmos um movimento de deslocamento espacial da tradição por força do percurso migratório, tendo na cidade a porta de entrada de um movimento de fermentação cultural e política para uma nova condição do popular na massa. Tudo isso nos ajuda a compreender o percurso literário e as escolhas de enfoque, temas e estilos dos mediadores simbólicos que norteiam este trabalho.
As coincidências entre a cultura popular e a cultura de massa, não estão apenas na convergência dos gêneros literários. Ambas têm em comum o fato de serem dramatizações imaginárias do social. É pelo viéis da dramatização que a cultura de massa renova seu contrato com a recepção de determinados setores da cultura popular “reorganizam as relações de dramatização e credibilidade com o real.” 85 Assim, um vai se realimentando na lógica do outro e enquanto a cultura de massa ganha credibilidade, o folclore ganha notoriedade.
A cultura de massa está muito interessada em sua popularidade. Para alcançar níveis numéricos de alcance popular diversifica suas temáticas e desenvolve muitos recursos atrativos. Nesse sentido, ela se torna a concorrente e a estimuladora do folclore e da tradição, pois os setores populares começam a assumir transformações, necessárias até
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MARTIN-BARBERO, op. cit. p. 321.
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mesmo para que o popular permaneça como o lugar perene das tradições. Primeiro, vem os migrantes das classes populares que nas cidades formam as massas urbanas. Depois, a cultura de massa atinge a zona rural, sobretudo através das tecnologias de comunicação, tal como a antena parabólica. Daí por diante, não mais é necessário sair do lugar para entrar em contato com os gostos e modos da cidade. Os programas jornalísticos que se baseiam nos fatos da tragédia social, da violência, de assassinatos, encontram-se com o gosto da matriz popular que se alimenta no banditismo, nas lendas de terror e no gosto pela morte. Assim como as novelas alimentam-se da narrativa folclórica dos contos de fadas. A cultura de massa herdou ainda da tradição popular as técnicas visuais da narrativa escrita, o humor satírico e a construção de heróis. Pelo reconhecimento implícito da experiência em comum é que é possível renovar o pacto cultural com antigas experiências, suas formas de saber e sensibilidade.
Porém, o que de fato vem acontecendo, é uma adequação do popular ao que agrada multidões86. Do mesmo modo que os índices de audiência são espetacularizados, a grandiloqüência dos shows musicais e dos comícios políticos são teatralizadas. Assim também, a linguagem “sintática e visual” do espetáculo é uma estrutura inerente à cultura de massa que preenche as telas de cinema e subverte pela televisão a intimidade e o
recolhimento da vida doméstica. A magnitude da popularidade é uma capacidade que
impressiona. As manifestações políticas e culturais espetacularizam a presença do povo, seja através de multidões que lotam estruturas gigantescas para ver os artistas, seja através da popularidade que eles alcançam, ou até da irrupção do povo nas ruas para formação de comícios. Canclini87 enfatiza que a popularidade é uma forma extrema de reapresentação da força do povo e o populismo político a encenação dos valores tradicionais do povo assumidos pelo Estado.
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Elizabeth Lima faz uma análise minuciosa da relação entre a mídia local (mais especificamente o jornal escrito) e a consolidação política e cultural do Maior São João do Mundo em Campina Grande, enquanto evento que combina tradição e modernidade.
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Ao levar em conta que nas sociedades modernas o povo existe enquanto massa, percebemos então uma outra forma de fazer falar o povo. Todavia, o popular massivo é diferente do popular tradicional, ele não acumula experiências e está fadado à fugacidade. Os significados do que lhe é atribuído são muitas vezes vazios como o tipo de arte que lhe é dirigido. Logo, percebemos entre o popular tradicional e o popular massivo, dois processos contraditórios que disputam entre si a legitimidade de designação do popular.
Não se trata de uma visão nostálgica já apresentada entre os precursores folcloristas, que viam no aparecimento de livros e jornais a depreciação da comunicação oral. Entre cultura popular e cultura de massa existem antagonismos, mas eles não superam a rede intrincada de relações que se estabelecem ambas. As percepções dualistas omitem os compromissos mútuos, as relações de conflito e negociações. Canclini é elucidativo ao afirmar que a indústria cultural, ao lado folclore, foi responsável por trazer o popular à cena. Do mesmo modo que a ampliação do mercado contribuiu para expandir o folclore;
Por discutíveis que pareçam certos usos comerciais de bens folclóricos, é inegável que parte do crescimento e da difusão das culturas tradicionais se deve à promoção das indústrias fonográficas, aos festivais de dança, às feiras que incluem artesanato e, é claro, a sua divulgação pelos meios massivos88.
A expansão do mercado precisa incorporar setores que se diferenciam de uma lógica uniforme ou que encontram dificuldades para participar do mercado de consumo. É aí que o folclore entra em cena. Por outro lado, a linguagem cênica e teatral para se falar deste povo precisa também ser adaptada. Com esse fim, diversifica-se a produção e são utilizados traçados tradicionais para criar novas modalidades de teatralização do popular. Martin- Barbero diz que a teatralização do social é maior nos setores que carecem de escrita e de fala. É por isso que o rádio e a televisão dão seguimento aos estilos de narrar da literatura oral. Em outras palavras, a matriz cultural popular favorece a construção da teatralidade e a exploração da tradição oral garante a proliferação de suas imagens. Tal qual o percurso que
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propomos na tese, que começa com o teatro popular de Lourdes Ramalho, desemboca nas formas narrativas da cultura de massa com Jessier Qurino e Astier Basílio e assume nuances de escrita e dramatização com Bráulio Tavares.
As comunicações massivas põem também em cena, de modo diferente, a tradição. As identidades baseadas em tradições locais são reformuladas a partir da lógica da migração, mas também em muitas práticas cotidianas, tais como a audiência de tv e o uso da Internet. As tradições precisam estabelecer interrelações criativas com novos receptores urbanos.
O relacionamento entre massa e público indica a nova situação do popular na cultura. Enquanto a cultura popular é admitida como original/marginal, a cultura de massa é pensada como alienante. Nesse sentido, a arte da massa é pensada a partir do rebaixamento dos elementos caracterizadores do popular, ou pela espetacularização das modalidades dramáticas ou narrativas da literatura oral. Mas a idéia que divulgamos é a da continuidade, ou seja, a cultura de massa não aparece de modo independente, como uma ruptura que permita o confronto com a cultura popular. O massivo foi gerado de dentro do popular; o paradigma da cultura de massa só se erigiu na medida em que essa cultura foi acionando sinais da tradição oral e integrando às novas demandas do mercado. A negação dessa relação advém de uma negação anterior, aquela que sempre negou a cultura ao que vem do povo. Por isso, ouvimos comumente o julgamento da cultura popular e de massa como processo de vulgarização/deturpação da cultura culta.
A inserção do popular na massa mais do que uma condição de existência é uma nova estratégia de aliança. A nosso ver, a cultura de massa reordena elementos retirados da cultura popular e da cultura erudita. Os espectadores da cultura popular são aqueles que transitam dentro das universidades e nos circuitos de arte, mas também os que estão fora da universidade e participam de um contexto multimídia, ou simplesmente aqueles que consomem a arte-espetáculo. Compreender o campo de atuação dos artistas campinenses
neste vasto cenário de difusão da arte é um dos nossos objetivos, não apenas investigando o gênero popular específico a cada um, mas os níveis de correlação com a cultura de massa, com as novas formas de socialização geradas a partir da recepção massiva e com os procedimentos eletrônicos e tecnológicos como possibilidades de integração de conhecimentos e valores.
Importa aqui trazer a luz os mecanismos que nos permite enxergar o popular na massa e estudar o modo como estão sendo produzidas as relações de continuidade, ruptura e hibridização no contexto poético-literário de expressão da cultura popular nordestina através do cordel teatro de Lourdes Ramalho, do cordel fantástico de Bráulio Tavares, do matuto declamador de Jessier Quirino e da poesia metrificada de Astier Basílio. Todos entrelaçados, de um modo ou de outro, com os modernos meios de comunicação, pela profissão que exercem ou pela repercussão que provocam na mídia regional e nacional.
Para julgarmos os vínculos da cultura popular e seus modos de significar acreditamos ser necessário sair do campo do domínio unilateral e decifrar os modos de compartilhar as mensagens, isto é, os múltiplos modos de existência do popular na massa. Pois, ao levarmos em conta o que há por trás da matriz simbólica do popular, percebemos que as mudanças estratégicas não são apenas ditadas pelas tecnologias ou pelos meios de comunicação. Para entendermos os novos cruzamentos, é preciso que haja uma mudança de enfoque que conduza às formas de produção e circulação simbólicas Portanto, é preciso conhecer o trabalho dos mediadores.