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samfunnsøkonomisk lønnsomhet

7. Ordningens samfunnsøkonomiske virkninger

7.4 Forutsetninger for

Retomando a teoria bakhtiniana, o corpo grotesco ainda pode ser definido em termos de sua dinâmica e de sua interpenetração em outros corpos e no mundo como um elemento em movimento, eternamente inconcluso, pois protagoniza um processo de elaboração no qual ele mesmo constrói outro corpo, assimilando o mundo e sendo absorvido por ele.

[...] Coloca-se ênfase nas partes do corpo em que ele se abre ao mundo exterior, isto é, onde o mundo penetra nele ou dele sai ou ele mesmo sai para o mundo, através de orifícios, protuberâncias, ramificações e excrescências, tais como a boca aberta, os órgãos genitais, seios, falo, barriga e nariz. É em atos tais como o coito, a gravidez, o parto, a agonia, o comer, o beber, e a satisfação das necessidades naturais, que o corpo revela sua essência como princípio que ultrapassa seus próprios limites.115

Estas são as razões por que detalhes da anatomia, a exemplo do ventre e do falo, desempenham um papel primordial, pois extrapassam os próprios extremos. Essas e outras partes (como a boca, o nariz e o traseiro) possibilitam a manifestação do exagero positivo, da hiperbolização. As partes podem, elas mesmas, se apresentar separadas da totalidade corporal, levando uma vida independente, e se sobrepor ao restante deste corpo. Ou seja, as trocas e orientações recíprocas se dão a partir das

113RUSSO, loc. cit.

114RUSSO. O grotesco feminino: risco, excesso e modernidade, p. 27.

115BAKHTIN. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, p.

excrescências e dos orifícios de corpos que excedem os limites entre si e com o mundo.116

As funções fisiológicas propriamente ditas, com as secreções, os fluxos, os odores, o hálito, as lágrimas, entre outros humores aquosos e viscosos, atuam como elementos essenciais para a compreensão da imagem grotesca do corpo, explicitando uma perspectiva para além da visão clássica, que é a do corpo apolíneo, perfeito e acabado. E são justamente os órgãos e a sua funcionalidade que executam um múltiplo acontecimento: os chamados “atos do drama corporal”,117 que acontecem nas fronteiras do corpo e do mundo, ou do corpo antigo e do novo, e revelam a imbricação indissolúvel entre o início e o fim da vida.

A descrição do funcionamento desse corpo que historicamente emergiu da grota, com todas as suas proeminências e excessos, não se constitui em algo negativo; o sentido principal é a sua configuração enquanto espaço de fertilidade e de renovação.

Na continuidade desse raciocínio, reafirmo que o corpo grotesco tem um potencial positivo, pois permite que a ordem natural da existência seja apreendida em sua plenitude, uma vez que abarca polos aparentemente excludentes, mas que na verdade se inter-relacionam compondo mais que uma frágil união de opostos em equilíbrio tenso. O que se estabelece é um espaço propício para a constante reconstrução, para o enriquecimento de uma realidade que antes assomava como rígida, encerrada e estática.

É possível enxergar uma fresta para o infinito na imagem das velhas bruxas grávidas dos ornamentos de Kertch, uma vez que nelas o grotesco se firma como um espaço em que as fronteiras são móveis e mutantes. As extremidades do corpo, no rico diálogo grotesco, como que brincam de se anular e se recriar, numa entretecedura bastante distinta e volátil. Em sua biografia sobre Bakhtin, Michael Holquist e Katerina Clark assinalam que “as velhas bruxas grávidas dos ornamentos de Kertch captam este esforço para irromper através das fronteiras típicas do corpo grotesco. Planta, animal e

116Ibidem, p. 277.

117Estes seriam “O comer, o beber, as necessidades naturais (e outras excreções: transpiração, humor

nasal etc.), a cópula, a gravidez e o parto, o crescimento, a velhice, as doenças, a morte, a mutilação, o desmembramento, a absorção por um outro corpo” (BAKHTIN. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, p. 277).

formas humanas entretecem-se fantasiosamente nelas”118, resultando numa infração audaciosa das divisas que separam os reinos da natureza.

É preciso insistir na ideia de que o corpo grotesco resgatado por Bakhtin é, sobretudo, um espaço de trocas. É um território onde os extremos se aproximam em um ambíguo e contínuo movimento de nascimento-morte-renascimento ad infinitum.

Após demarcar a essência do corpo grotesco, é necessário destacar a perspectiva de Bakhtin sobre a agonia, o encolhimento empobrecedor que esse corpo (ou a imagem que se tem dele) sofreu historicamente, seja por amputação, por deslocamento ou por aprisionamento em si mesmo.

O teórico russo acredita que esse corpo foi perdendo a sua força criadora com o passar dos séculos. Ao examinar a obra de autores posteriores a Rabelais, ele afirma que, a partir do século XVII, algumas formas do grotesco foram relegadas a “caracterização estática e estreita pintura de costumes”,119 o que constituiria uma degenerescência resultante de uma limitação específica da concepção burguesa do mundo, restando apenas um grotesco mutilado, num realismo adulterado e corrompido.

De acordo com o pensamento bakhtiniano, Norma Discini afirma que a degeneração do grotesco corresponde a um “enfraquecimento da cosmovisão carnavalesca” e é “fato verificável na estética filosófica e nas manifestações literárias, tais como obras românticas e realistas”. E acrescenta:

Na crítica literária, é apontada por Bakhtin a distorção no exame do grotesco, considerado fora do âmbito da cultura popular da Idade Média e da literatura do Renascimento, o que teria viabilizado a interpretação do fenômeno como mero riso destrutivo.120

Desta maneira, a nova concepção de realismo estabelece outras fronteiras entre os corpos e os objetos. No que diz respeito especificamente ao realismo grotesco e folclórico, esse novo entendimento, segundo explica Bakhtin, separa os corpos duplos e extirpa as coisas que brotam junto com o corpo, procura aprimorar cada individualidade, apartando-a da totalidade final, que já perdeu a antiga imagem, sem, no entanto, ter encontrado outra que a substitua.

118CLARK; HOLQUIST. Mikhail Bakhtin, p. 319.

119BAKHTIN. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, p.

45.

Não obstante eu subscreva o estudo que Bakhtin empreendeu sobre o grotesco, reitero minha divergência num ponto crucial, que é a suposta restrição desse fenômeno na história. Defendo que as manifestações grotescas não se limitam ao contexto da cultura popular da Idade Média e do Renascimento; elas podem ter tido sua pujança lá, mas não foram enclaustradas ou soterradas nesse período. Assim como o grotesco revelou ter origens muito distantes no tempo, pois é detectável já nas culturas arcaicas, e assim como resistiu às mais conformativas e padronizadoras formas de cultura ao longo dos séculos para chegar aos tempos medievais e viver seu auge, é possível crer que ele continuou, desde então persistindo ora num inacreditável estado de latência, ora saltando da terra com toda sua envergadura. E é por acreditar no potencial do grotesco em obras da contemporaneidade – em especial na obra de Mia Couto – que analiso o fenômeno à luz das pertinentes explicações bakhtinianas, sem deixar de considerar a reflexão de outros importantes teóricos, como Wolfgang Kayser.