• No results found

Os agentes, no decorrer do estudo, na tentativa de configurarem um campo para enfermagem, deparam-se com a necessidade de ter uma estrutura que fosse capaz de estabelecer políticas de ensino para enfermagem. Nessa tentativa, dispõem os agentes de uma estrutura para formação de profissionais voltados à enfermagem, sendo contempladas desde aulas de parto a cursos para enfermeiras especializadas. A estrutura para se solidificar no processo institucional precisa que os agentes compartilhem valores. Esses valores, por sua vez, são necessários para as alianças e estratégias que se formam e constrói-se no campo. Embora a estrutura do campo organizacional da enfermagem esteja tomando forma com a diversidade de escolas oferecidas no período de 1922 a 1930, conforme a Figura 2, que corresponde ao Esquema 2, na p. 56, vê-se que há tendência de aproximação entre elas. Em 1938, observa-se, também, que as escolas criadas até então tendem a convergir no campo, não só quanto à denominação, como em característica, configurando um campo emergente para a enfermagem.

Pensar os valores como incentivos da ação, como diz Beattie (1971, p. 88), significa que os agentes procuraram, através dos seus sentimentos, ora em ações ou mesmo em atitudes, expressá-los. Pedro Roeser, representante do clero católico, foi o mais veemente. Ele acreditava

253

Fonte: Ver Pernambuco, Relatório do Instituto de Assistência Hospitalar (IAH) do Estado de Pernambuco. Apresentado pelo Dr. Barros Lima-Presidente-. Ano 1939, p.15. Localização: APEJE, Fundo: Secretaria do Interior. Série: Saúde. Est. 39 P01.

que estando ao leito do doente uma enfermeira, um profissional preparado, estaria o doente melhor assistido. Neste sentido, Pedro Roeser estava coerente com sua visão de mundo e os seus valores, enquanto diretor de um curso superior na época. Mas os valores precisam ser compartilhados junto a um sistema normativo, devendo ser também legitimado.

Em busca dessa legitimação, a AMHC, por sua vez, estabelece uma mudança no seu Estatuto, sendo aprovado em 19 de julho de 1931 e, nessa mesma data, a Mesa Administrativa aprova o Regimento Interno do Hospital do Centenário. Ambos se referem à criação da Escola de Enfermeiras. Para organizar uma escola, necessitavam os agentes que as normas fossem instituídas. O sistema normativo inclui ambos, normas e valores, de acordo com Scott (1995, p. 37). Com efeito, agentes como Fernando Simões Barbosa e Adolpho Simões Barbosa não estavam dispostos a compartilhar outros valores atrelados ao sistema normativo como a legislação de enfermagem existente254, por exemplo, que permitiria impulsionar a configuração do campo, e tudo leva a crer que não foi levado em conta, mesmo a posteriori. A princípio, até se compreende em face de proximidade da data que o decreto foi assinado, em 15 de junho de 1931.

Amaury de Medeiros, embora não tenha criado uma Escola de Enfermeiras nos moldes do DNSP, ao criar a Escola de Visitadoras de Saúde Pública, é conhecedor da legislação até então existente. As suas bases normativas apóiam-se no decreto do DNSP255 e até se justifica por sua experiência como Chefe da Comissão Sanitária Federal256, bem como na CVB. Sendo assim, pouco compartilha inicialmente os seus valores, a despeito disso as bases normativas e seu ideal são mais fortes. Com o interesse do governo de Lima Cavalcanti em criar uma escola junto ao

254

Existia na época: 1) Decreto n. 20.109 de 15 de junho de 1931, que regula o Exercício da Enfermagem no Brasil e Fixa as Condições para a Equiparação das Escolas de Enfermagem e Instruções Relativas ao Processo de Exame para Revalidação de Diplomas; 2) Decreto 20.931 de 11 de janeiro de 1932, que regula e fiscaliza o exercício da medicina, da odontologia, da medicina veterinária e das profissões de farmacêutico, parteira, enfermeira, no Brasil, e estabelece penas. Ver Santos et al. (1997, p. 14 e 18).

255

O Decreto 16.300 de 31 de dezembro de 1923 aprova o regulamento do Departamento Nacional de Saúde Pública. Ver Santos et al. (1997, p. 5).

256

DSA, vê-se assim que o cenário no campo da saúde já apresentava mudança, no sentido de que os valores que até então eram compartilhados entre os dirigentes do HC terão suas fronteiras ultrapassadas, ao receberem o apoio do Estado. E, mesmo com um membro do Conselho Deliberativo da AMHC, como é o caso de Lima Cavalcanti, no aparelho do Estado, não consegue a escola ser criada.

Enquanto isso, no meio acadêmico, o interesse em criar a escola junto ao Hospital Pedro II, desde 1909, parece tomar forma não só no próprio HPII, com a Escola de Enfermeiros e Enfermeiras, Parteira e Enfermeiros e posteriormente também com a Escola de Enfermeira Especializada. A Faculdade de Medicina, por sua vez, surge independente com o Curso de Enfermeiras Especializadas e posteriormente com o de Enfermagem Obstétrica. Os valores dos agentes, que eram compartilhados no meio acadêmico, estavam relacionados à formação de profissionais, enfermeiras no sentido de que era necessário profissional preparado para cuidar das mães e crianças.

Com a criação do Sindicato dos Enfermeiros do Recife, em 1936 surge, então, um grupo que, por não fazer parte do meio acadêmico, nem do patronato, e emergir do lado dominado, luta para expressar seus valores, em busca de uma identidade e com isso utiliza o seu veículo de comunicação para ter voz e aceitação da sociedade, como se vê abaixo.

Despertando. Nós que somos levados ao sabor dos interesses alheios, precisavavamos dentro dos direitos que nos facultam as leis da enfermagem de nosso paíz, sahirmos deste marasmo. E o caminho acertado é saber nossa profissão praticamente e com theoria necessária dos cursos profissionais [...]. Com a fundação deste órgão, o nosso intuito é tão somente propagar entre os nossos companheiros a syndicalização para que tenhamos assegurados o futuro de nossa família e a educação de nossos filhos257.

Esses enfermeiros, por não serem diplomados na época, sentiam-se despreparados e isolados, mas com o espírito de sindicalistas, defensores de uma causa, precisavam conhecer as leis que eram vigentes. É sabido que as escolas de enfermagem na época conferiam diploma e

257

não grau, e que mesmo assim a enfermagem era considerada uma “profissão”258. Assim, a legislação da Enfermagem, já faz parte de seu discurso, e tudo leva a crer que os valores nas instituições se fortalecem e essas passam a ver como necessária a formação das enfermeiras, em nível mais elevado.