Conforme já mencionamos na seção 1.4.2.2, a relação da motivação entre o denominador e o objeto denominado é de grande relevância para os estudos toponímicos. Essa relação está diretamente associada à formalização de modelos taxionômicos, que concebidos com o intuito de sistematizar melhor as pesquisas onomásticas, permitem, pelo processo onomasiológico, que sejam conhecidas as influências externas ou subjetivas que se traduzem em topônimos de variadas origens. Desse modo, a partir de princípios distintos, alguns estudiosos propuseram modelos e/ou mecanismos de classificação dos nomes de lugares. Dentre esses pesquisadores, citam-se Dauzat (1926), Leite de Vasconcelos (1931), Stewart (1954), Dick (1990) e Salazar-Quijada (1985). Apresentamos, a seguir, breves considerações a respeito dessas propostas de classificação toponímica, focalizando a de Dick (1980/1990b), em que tem se fundamentado a maioria das pesquisas onomásticas contemporâneas, como é o caso desta pesquisa.
Na França, Albert Dauzat (1926) classificou os topônimos em dois campos: o da geografia física e o da geografia humana. Concedendo atenção especial às investigações toponímicas, Dauzat classificou os nomes de lugar segundo a ordem histórica de suas formações.
Leite de Vasconcellos (1931), por sua vez, além da classificação por línguas e por estrutura morfológica, propôs três categorias temáticas para a toponímia portuguesa, de acordo com os motivos de origem:
Nomes de lugar, classificados por línguas, pelo mapeamento da procedência linguística dos nomes (nomes pré-romanos, romanos, arábicos, de procedência vária e portugueses propriamente ditos); Modos de formação toponímica ou a Gramática toponímica, pela análise da estrutura morfossintática dos designativos (por exemplo: fonética sintática em Suatorre = Só a torre); Categorias de nomes segundo as causas
que lhe deram origem, pela classificação dos nomes a partir dos motivos que levam à sua formação. A saber: nomes provenientes da hidrografia; construções hidráulicas; da agricultura; da meteorologia; da caça; dos caminhos; de campos; da natureza do solo; da configuração do terreno; de rochas; da fauna; da flora; de construções civis e religiosas; da história; da indústria; de instituições sociais; do lume; da milícia; de nomes próprios de pessoas e alcunhas; de povoações ou arredores; da religião e congêneres; de cemitérios. (VASCONCELLOS, 1931, p.139).
As propostas de classificação de Dauzat e Vasconcellos para toponímia europeia são de grande contribuição para os estudos etimológicos e para a elaboração de modelos taxionômicos posteriores, uma vez que permitem ao pesquisador recuperar, além de características naturais do meio ambiente em que os topônimos se encontram inscritos, aspectos sócio-culturais registrados na nomeação geográfica.
Nos Estados Unidos, merece destaque a contribuição de George Stewart (1954)24, que procurou sistematizar, de um modo geral, os nomes de lugares em categorias distributivas, baseadas nos mecanismos da própria nomeação, compreendendo nove especificações modulares: nomes descritivos, nomes possessivos, nomes comemorativos, nomes incidentais, nomes eufemísticos, nomes manufaturados, etimologias populares, nomes deslocados (shift names) e nomes resultantes de erro em sua formulação (mistake names). Posicionando-se a respeito da proposta de Stewart, Dick (1999) afirma que:
Destes mecanismos, os nomes descritivos e os comemorativos devem ser vistos com atenção especial, porque constituem, em nosso entender, protótipos de atividades denominativas gerais ou comuns a diferentes povos. Descrever uma paisagem em seus aspectos imanentes, essenciais, duradouros ou aspectuais, bem como homenagear, através dos nomes, indivíduos públicos, políticos, governadores, monarcas, artistas, religiosos, pessoas da própria família, enfim, são procedimentos que estimulam, de um lado, padrões objetivos de conduta e, de outro, transportam no plano anímico de interesses personalísticos. As demais categorias têm menor índice de uso, se aplicadas a uma macro-toponímia, mas deve-se considerar que o modelo foi pensado e proposto para o contexto americano, de base inglesa, muito embora seja válido o seu emprego também às camadas indígenas daquele território. (DICK, 1999, p.141)
Antes de tratar do modelo taxionômico de Dick formulado em 1980 e ampliado dez anos depois, convém mencionar aqui a contribuição do antropólogo venezuelano Adolfo Salazar-Quijada que, em sua tese de doutoramento La Toponímia en Venezuela (1985), propõe uma classificação, contemplando cinco aspectos, no âmbito dos topônimos, quais
sejam: 1 – seus elementos (simples e composto); 2 – sua extensão (microtopônimos, mesotopônimos e macrotopônimos); 3 – sua localização (terrestres e extraterrestres); 4 – sua
aplicação (actinônimos, astinônimos, corônimos, insunônimos, hidrônimos, odônimos,
orônimos, espeleônimos e selenônimos); 5 – seus motivos (fisiotopônimos, zootopônimos, fitotopônimos, mineratopônimos, epotopônimos, hagiotopônimos, somatopônimos, animotopônimos, cognotopônimos, animotopônimos, cognotopônimos, pragmatopônimos e topotopônimos). (SALAZAR-QUIJADA, 1985, p.21-27)
Sobre a classificação toponímica de Salazar-Quijada, lê-se em Zamariano (2010, p.105):
A preocupação maior de Salazar-Quijada apresentada em sua definição é com os aspectos geo-históricos, socieconômicos, e antropolinguísticos que podem interferir na origem e na manutenção dos nomes de lugares. Frente ao exposto, compartilhamos do pensamento de Dick ao enfatizar que, no estudo da toponímia, o primeiro aspecto a ser considerado é o conteúdo semântico perceptível no topônimo e que, nessa perspectiva, a investigação do nome geográfico tem como ponto de partida o próprio nome que, segundo ela, pode ser motivado, ou seja, no ato da denominação, o nome pode ter sofrido influência de aspectos extralinguísticos de ordem física ou de natureza antropocultural.
No Brasil, o modelo taxionômico proposto por Dick, em 1980, foi concebido com base nas camadas do léxico toponímico brasileiro e tem servido de base metodológica para a maioria dos estudos toponímicos desenvolvidos no país. Trata-se de uma nova maneira de analisar a toponímia, até então limitada à reconstituição de etimologias ou a serviço do mapeamento das terras, isto porque a autora parte do conteúdo semântico do topônimo para depois investigar a intencionalidade do denominador no ato do batismo de um acidente qualquer. De acordo com autora:
O sistema classificatório que elaboramos, em 1980, difere do de Stewart na finalidade. Possui uma visível base terminológica e se organizou no plano sincrônico das significações sígnicas, para evitar, na medida do possível, a recorrência à diacronia, na primeira etapa do processo. A pesquisa do material ilustrativo foi realizada no Índice dos Topônimos do Brasil, 1:1.000.000 (IBGE, 1968) e teve como objetivo reconhecer as características da nomenclatura onomástica brasileira, determinando-lhe o padrão motivador e dando-lhe um tratamento semântico- distribuicional por áreas de ocorrência, segundo os parâmetros lexicais e terminológicos pertinentes. (DICK, 1999, p.141-142)
Na sua primeira versão, o modelo de classificação de Dick (1980) continha dezenove categorias. No entanto, foi reformulado em 1990, chegando a vinte e sete taxes divididas, de acordo com a natureza motivacional (semântica), em dois grupos, quais sejam: i) onze taxes
de natureza física que caracterizam o ambiente em todos os aspectos de sua formação – rios, córregos, dimensões, formações topográficas, árvores, animais, etc.) e ii) dezesseis de natureza antropocultural que caracterizam as manifestações psíquicas, sociais e culturais do homem, no meio em que se encontra, como estado de ânimo, sentimentos, nomes de natureza religiosa, títulos, nomes próprios, nomes de cidades, estados, países etc. (DICK, 1990b, 131- 134), conforme reproduzimos, a seguir:
a) Taxionomias de natureza física:
1- astrotopônimos: topônimos relativos aos corpos celestes em geral. Ex: Rio da Estrela (ES); 2- cardinotopônimos: topônimos relativos às posições geográficas em geral. Ex: Entre-Rios (AH AM);