O ladino é o idioma das mentes e dos corações dos sefaraditas; o veículo de sua civilização e seu modo de vida. Sua língua os distinguiu dos demais e os vinculou entre si. (ANGEL, 2006, p. 119-20). Durante séculos, foi mantida uma rica tradição musical, dentre as
41 Os exemplos apresentados nesta sub-seção possuem diversas versões. A opção pelas variantes apresentadas se
quais as traduções dos hinos religiosos, os piyutim, para o judeu-espanhol que ainda hoje são cantados nas refeições de Shabat, assim como na cerimônia da havdalá, celebrada no sábado à noite para diferenciar o dia santo dos dias comuns. A música faz parte das festividades do Ano Novo, de Purim42 onde são tradicionalmente representadas as coplas e da Páscoa judaica quando nos lares sefaraditas recita-se a Hagadá de Pessach—o livro que narra a saída dos judeus do Egito conforme descrito no livro de Êxodo— em geral em hebraico e ladino, finalizando-se a cerimônia com canções tradicionais como Had Gadiá—Um cabritinho:
“Un cavritico”43
Un cavritico que lo merko mi padre por dos levanim por dos levanim. I vino el gato y se comio al cavritico
que lo merko mi padre por dos levanim por dos levanim. I vino el perro y mordio al gato que se comio el cavritico que lo merko mi padre por dos levanim por dos levanim.
I vino el palo y pego al perro que mordio al gato que se comio el cavritico que lo merko mi padre por dos levanim por dos levanim.
I vino el fuego y quemo el palo qua pego al perro que mordio al gato
que se comio al cavritico que lo merko mi padre por dos levanim por dos levanim. I vino el agua y apago el fuego que quemo al palo que pego al perro
que mordio al gato que se comio el cavritico
que lo merko mi padre por dos levanim por dos levanim.
I vino el buey y bevio el agua que apago el fuego que quemo al palo que pego al perro que mordio al gato que se comio el cavritico que lo merko mi padre por dos levanim por dos levanim.
I vino el shuhet y degollo al buey que bevio el agua que apago el fuego
que quemo al palo que pego al perro que mordio al gato que se comio al cavritico que lo merko mi padre por dos levanim por dos levanim.
I vino la muerte i mato al shuhet que degollo al buey que bevio el agua que apago el fuego que quemo al palo que pego al perro que mordio al gato que se comio al cavritico que lo merko mi padre por dos levanim por dos levanim. I vino El Santo Bindicho El, y afasto a la muerte que mato al shuhet
que degollo al buey que bevio el agua que apago el fuego que quemo al palo que pego al perro que mordio al gato que se comio al cavritico
que lo merko mi padre por dos levanim por dos levanim.44 (SEFARADINFO, s/d).
42 Celebração da salvação dos judeus conforme descrito no livro de Ester, caracterizada por sua recitação
pública, pela distribuição de comida e dinheiro aos pobres, troca de presentes e consumo de vinho durante a refeição festiva (Ester 9:22); outros costumes incluem o uso de máscaras e fantasias e bailes públicos.
43 Canção tradicional lúdica cumulativa, originalmente escrita em aramaico e cantada no final do jantar festivo
da Páscoa judaica.
44 “Um cabritinho”
Um cabritinho que meu pai comprou por duas moedas, por duas moedas. E veio o gato e comeu o cabritinho
que meu pai comprou por dois levanim, por dua moedas. E veio o cão e mordeu o gato que comeu o cabritinho que meu pai comprou por dua moedas, por duas moedas.
E veio vara e bateu no cão que mordeu o gato que comeu o cabritinho que meu pai comprou por dua moedas, por duas moedas.
E veio o fogo e queimou a vara que bateu no cão que mordeu o gato
que comeu o cabritinho que meu pai comprou por dua moedas, por duas moedas. E veio a água e apagou o fogo queimou a vara que bateu no cão
As canções religiosas em ladino permitiram que aqueles que não conheciam o hebraico fossem incluídos na prática religiosa, sendo cantadas com um senso de compreensão e reverência.
Weich-Shahak propõe a categorização das formas poético-musicais distinguindo três gêneros no repertório sefaradita—os romances, as coplas e as cantigas. O primeiro tipo inclui baladas e canções de amor que têm estrutura fixa e geralmente são cantadas em grupo, o que o diferencia dos romances espanhóis usualmente recitados por um intérprete. (WEICH- SHAHAK, 2009, p. 194-5). “O romance é uma canção narrativa. Ele se origina em fontes populares e tradicionais e gira em torno de uma cena, situação dramática ou lenda, em geral derivada de épicos medievais, histórias de cavaleiros e batalhas e esposas fiéis e infiéis.” (SPITALNIK, 2009, p. 382). Este modelo permite a inclusão dos participantes, promovendo verdadeiros eventos em encontros de familiares, amigos e vizinhos, sendo as mulheres as maiores propagadoras desta tradição, que usavam muitas vezes os romances como canções de ninar. “As mulheres cantavam juntas enquanto cozinhavam, enquanto organizavam as celebrações familiares, ou quando necessitavam de um respiro de suas vidas diárias.” (ANGEL, 2006, p.125). Uma variação deste gênero são as endechas, cantadas em momentos de luto. (SPITALNIK, 2009, p. 384). “La rosa enflorece” é um dos romances sefaraditas mais famosos, sendo executada mundialmente até a atualidade:
“La rosa enflorece”
La rosa enflorece, en el mes de mayo Mi alma se espulece, pensando en tu amor Las noches son fortunas, los dias son males El amor y mi ventura esta en tu poder Mas presto ven palomba, mas presto salvame El amor y mi ventura esta en tu poder El bilbilico canta, en arvoles de flor
que meu pai comprou por dua moedas, por duas moedas.
E veio o boi e bebeu a água que apagou o fogo que queimou a vara que bateu no cão que mordeu o gato que comeu o cabritinho que meu pai comprou por dua moedas, por duas moedas.
E veio o açougueiro e decapitou o boi que bebeu a água que apagou o fogo que queimou a vara que atingiu o cão que mordeu o gato que comeu o cabritinho que meu pai comprou por dua moedas, por duas moedas.
E veio a morte e matou o açougueiro que decapitou o boi que bebeu a água que apagou o fogo que queimou a vara que bateu no cão que mordeu o gato que comeu o cabritinho que meu pai comprou por dua moedas, por duas moedas. E veio o Santo Abençoado seja e afastou a morte que matou o açougueiro que decapitou o boi que bebeu a água que apagou o fogo que queimou a vara que bateu no cão que mordeu o gato que comeu o cabritinho
Alli debaxo se assentam los que sufren del amor45 (ROMEY, 1950 apud ANGEL, 2006, p. 126).
O segundo gênero descrito por Weich-Shahak é representado pelas coplas, que ao contrário dos romances que tiveram origem na Espanha medieval não-judaica, são uma criação sefaradita. Seu auge se deu na diáspora nos séculos XVII a XIX e possuem uma estrutura estrófica muitas vezes com ordem ou conteúdo acróstico, não raro cantadas em coro. Esta forma poética é caracterizada por uma intenção didática e que acompanha o ciclo anual, sendo cantadas nas festas judaicas e interpretadas em geral por homens acompanhando a leitura em livros litúrgicos. (WEICH-SHAHAK, 2009, p. 203). Um exemplo de copla de
Purim:
“Manjares y dádivas de Purim” Con ayuda del Dio Alto, no nos haga nada falto, le alabo y le canto, que le tenemos que deber. Todos juntos alabemos, porque mucho le debemos, despues de esto beberemos, que así se debe hacer. Mordejai46 manda y dice: todo judío que se avise, en Adar47 catorce y quince miren mucho de beber. Como os digo lo hareis y a el mucho loareis, sus maravillas contareis porque son cosas de saber. La meguilá48 debe ser meldada, sin saltada ni yerrada,
la maldición volteada, que sea de mucho beber.
45 “A rosa floresce”
A rosa floresce no mês de maio
Minha alma enflora, pensando em teu amor As noites são afortunadas, os dias são ruins O amor e meu futuro estão em tuas mãos
Venha depressa, pomba, venha depressa me salvar O amor e meu futuro estão em tuas mãos
O rouxinol canta nas árvores floridas
Debaixo da qual se sentam os que sofrem de amor
46 Personagem do livro de Ester. 47 Nome do sexto mês judaico. 48 Livro de Ester.
Ruega a Dio que en estos días tengamos muchas alegrías, hasta ver las maravillas
que hará Dio del saber.49 (WEICH-SHAHAK, 2009, p. 206).
O último gênero descrito por Weich-Shahak é composto pelas cantigas, também conhecidas como cantares ou canticas. De estrutura estrófica, comumente usam refrões e diferem das outras duas formas por não possuírem um texto narrativo ou uma ordem fixa, cujos versos podem ser trocados dentro da mesma canção ou até migrar de uma cantiga para outra. Utilizando linguagem coloquial falam de temas variados que vão do amoroso ao humorístico e cantadas em grupo, são uma forma de entretenimento ou recreação. (WEICH- SHAHAK, 2009, p. 207). Um exemplo de cantiga é “Ya salio de la mar la galana” de Tessalônica e cantada por mulheres para acompanhar a noiva ao banho ritual antes do casamento:
“Ya salio de la mar la galana” Muchachica esta en el baño Vestida de colorado Echate a la mar y alcanza A la mar yo bien m’echava, Si la suegra licencia me dava Echate a la mar y alcanza
49 “Manjares e dádivas de Purim”
Com a ajuda do Santo Deus, não nos deixe faltar nada, cantarei louvores, porque temos o dever. Todos juntos cantaremos, porque muito devemos, depois disto beberemos, porque assim se deve fazer. Mordechai manda e diz: que se avise todo judeu
que em catorze e quinze de Adar cuidem muito de beber.
Como lhes digo o fareis e a ele muito louvareis, suas maravilhas contareis porque são coisas para se saber. A meguilá deve ser ensinada, nem pulada nem errada, a maldição desfeita, que seja de muito beber. Rogue a Deus que nestes dias tenhamos muitas alegrias, até ver as maravilhas que Deus fará saber.
Ya salio de la mar la galana Con un vestido rosal y blanco Ya salio de la mar
Entre la mar y el río
Mos crecio un arbol de bembríllo Ya salio de la mar
La novia ya salio del baño El novio ya la esta esperando Ya salio de la mar
Entre la mar y la arena
Mos crecio un arbol de almendra
Ya salio de la mar.50 (SEFARAD RECORDS s/d).
A tradição musical sefaradita manteve a imaginação e o sentido do belo vivos e ativos. Independentemente da condição social, cantava-se o amor, a natureza, o destino de reis, rainhas e cavaleiros.
[Através da música,] sapateiros e mascates, mercadores e barbeiros, donas-de-casa e avós eram capazes de superar o tédio de sua labuta diária. Suas canções não lamentavam a pobreza ou os fazia sentir pena de sua insuficiência econômica e política. Ao invés disto, [...] os levava para fora, ampliando sua perspectiva e estimulando sentimentos profundos. (ANGEL, 2006, p. 119-20).