Desde a análise dos questionários, constatei que a questão dos espaços das instituições de educação infantil de Ilhéus aparecia como a dificuldade mais referida pelas professoras na realização de suas práticas. Nas narrativas, essa dificuldade também representa um fator de descaracterização dessas práticas.
O que estou querendo dizer, é que ao passo que as professoras e o professor descreviam as rotinas e o cotidiano nas instituições em que trabalham, intentando imprimir uma marca de seu trabalho, as inadequações dos espaços e a falta de materiais surgiam para desviar as descrições em relatos do tipo:
[...] a gente tem uma rotina a ser cumprida: todo dia tem brincadeira, pintura, jogos, alimentação, soninho, música e dança. Pelo menos era para fazer assim, mas nós não temos espaço para isso e às vezes faltam materiais (Adairton). Infelizmente essa questão do espaço é nosso calo. Até então não temos uma escola verdadeira, própria. Trabalhamos em
espaços improvisados, totalmente inadequados para as crianças, de difícil acesso, com escadas que provocam muitos acidentes. Os espaços são precários e não permitem a realização de muitas atividades. Ainda não conseguimos ver nossos sonhos realizados com relação às estruturas físicas de nossas escolas (Judite).
Lá na escola para mim não é tão ruim porque eu trabalho num terraço que é enorme. Mas para as outras colegas é uma casa que foi alugada para ser uma escola. Então é ridículo. A sala é um quarto pequeno para 18 crianças. Não cabe, não tem espaço para circular, correr. No meu caso o complicado são as escadas: são dois lances de escadas para as crianças subirem e os pais ficam muito preocupados. Então, espaço livre com terra, grama, não tem. Material também é pouco. Eu compro muito material para complementar o que eles trazem de casa, que eu acho errado. É assim: a gente tem que pensar antes o que vai fazer para ver se é possível. Não dá para elaborar um projeto e achar que vai dá conta dele, por causa do material
(Mara Mirna).
Nesses relatos fica evidente que a situação dos espaços, a falta de materiais, enfim, as condições de trabalho não respondem aos fazeres preconizados pela Proposta Pedagógica e projetos educativos das instituições, e isso parece repercutir nos modos de fazer e pensar as práticas com as crianças.
A partir das observações feitas nas instituições e das descrições dos espaços feitas pelos sujeitos, é possível afirmar que as condições estruturais também não respondem aos Parâmetros Básicos de Infra-estrutura para Instituições de Educação Infantil, apresentado pela Secretaria de Educação Básica do MEC em 2006. Estes parâmetros contêm concepções de planejamento, construção, reforma e adaptação dos espaços onde se realiza a Educação Infantil. Na apresentação do documento, lê-se:
Este trabalho, portanto, busca ampliar os diferentes olhares sobre o espaço, visando construir o ambiente físico destinado à Educação Infantil, promotor de aventuras, descobertas, criatividade, desafios, aprendizagem e que facilite a interação criança–criança, criança–adulto e deles com o meio ambiente. O espaço lúdico infantil deve ser dinâmico, vivo, ―brincável‖, explorável, transformável e acessível para todos (2006: 08)
As concepções acerca do ambiente físico de creches e pré-escolas que subjazem a proposição do Documento são pautadas em reflexão sobre as necessidades de desenvolvimento da criança (físico, psicológico, intelectual e social), e constitui-se em requisito essencial para a preparação dos espaços/lugares destinados à Educação Infantil (2006: 21). Assim, o projeto, a edificação e as reformas das unidades de Educação Infantil de acordo com os Parâmetros devem buscar, entre outras coisas:
A adequação dos ambientes internos e externos (arranjo espa- cial, volumetria, materiais, cores e texturas) com as práticas pedagógicas, a cultura, o desenvolvimento infantil e a acessibilidade universal, envolvendo o conceito de ambientes inclusivos (2006:21).
De alguma maneira, os documentos elaborados a partir do ano 2000 sobre a questão da qualidade do atendimento em creches e pré-escolas, parecem ter buscado incorporar os anseios da área. Os debates sobre o campo da psicologia do desenvolvimento, a crítica ao foco excessivo na separação mãe-criança e a valorização do papel da mulher na sociedade, a preocupação voltada principalmente para a escolaridade futura substituída pela valorização das experiências vividas no cotidiano das instituições de educação infantil, contribuíram para a construção de concepções de qualidade mais integradas e que procuraram incentivar melhorias no atendimento (MEC/SEB, 2006a).
Isso significa, que a questão da qualidade na educação infantil, embora englobe um conjunto de dimensões, está estreitamente ligada às experiências passadas no cotidiano das instituições, que por sua vez, reporta às condições dos espaços, mobiliário, materiais e organização das práticas e fazeres.
Os Indicadores de Qualidade na Educação Infantil (2009), por exemplo, na dimensão que trata dos espaços, materiais e mobiliários, abordam que os ambientes físicos das creches e pré-escolas devem refletir uma concepção de educação e cuidado respeitosa das necessidades de desenvolvimento das crianças, em todos os seus aspectos. Nesse sentido, espaços internos limpos, bem iluminados e arejados, seguros e aconchegantes, com visão ampla para o exterior, revelam a importância conferida às múltiplas necessidades das crianças e adultos que trabalham com elas (MEC/SEB, 2009:48).
Os espaços externos, do mesmo modo, precisam ser bem cuidados, com jardim e áreas para brincadeiras e jogos, indicando a atenção ao contato com a natureza e à necessidade das crianças de correr, pular, brincar, jogar bola, brincar com areia e água. Na mesma dimensão tratada, o mobiliário deve ser planejado de acordo com o tamanho das crianças e garantir a segurança e higiene sem prejuízo das explorações infantis (MEC/SEB 2009:48).
E com relação aos materiais, os Indicadores trazem para o centro da avaliação da qualidade nas IEI, o destaque de que os professores tenham à disposição materiais, brinquedos, livros infantis em quantidade suficiente e acessíveis às crianças, de maneira que o trabalho seja diversificado e propicie a expressão das crianças, as trocas entre elas e as novas iniciativas.
Entretanto, a distância entre o preconizado nos Documentos Oficiais e a condição real de trabalho das professoras nas Instituições de Educação Infantil de Ilheús/BA tem implicações nos modos de ver, pensar e desenvolver as práticas com as crianças. A concretude disso está na maneira como os sujeitos falam de como seria um espaço de educação infantil adequado e o sentimento de bem estar que relacionam ao convívio com as crianças e não ao trabalho nas instituições:
Penso que uma sala de educação infantil tem que ser mesmo aberta, sabe? Janelas grandes e baixas, portas de correr bem abertas. Porque criança dessa faixa etária não consegue ficar muito tempo sentada, ainda mais quatro horas seguidas. Ela precisa circular, ela tem necessidade disso, pois está com o seu corpo em desenvolvimento. Para isso é preciso ter espaço livre e grande. Quanto o trabalho em sala de aula, a gente que é professora tem que ir em todas mesas, sentar em cadeirinhas pequenas junto com o aluno, trazendo ele ali para o seu colo, trabalhando sempre pertinho dele. Então é um trabalho que quando você chega em casa está com o corpo todo doendo. Na educação infantil você senta e se abaixa, dança, corre, pula, brinca. Enfim, você tem que estar fazendo tudo o tempo todo com eles. Pelo cansaço, nós precisamos muito de melhores condições de trabalho, mais apoio e melhores espaços eu diria (Adnair).
A gente ainda precisa de muita coisa: uma escola de verdade, porque essa aqui é uma casa (risos). Eu brinco que a gente mora aqui, cuida dos filhos dos outros, limpa o chão às vezes. Acho que é por isso que a gente recebe tão pouco. Mas é verdade! Os espaços de educação infantil aqui em Ilhéus são todos improvisados. Aqui mesmo se você olhar bem vai ver
que as paredes não têm cor, que tem escada, que falta parque, essas coisas... A gente vive sonhando com uma escola de verdade. Falta quase tudo aqui. O que não falta é porque os meninos compram no início do ano, uma coisa que eu acho errado. Imagine! Eles não têm nem o que comer direito e têm que comprar papel, tesoura, cartolina, etc. (Margarida).
Embora as professoras e o professor se refiram às condições de trabalho como um fator de impedimento à realização de suas práticas do modo ―como deveria ser‖, sobretudo quando diz respeito à inclusão de crianças com necessidades especiais, uma vez mais, as narrativas sobre o tema concluem que o dia a dia com as crianças é gratificante, alegre e afetivo, o que me leva a crer que o prazer e a alegria decorrem da relação com a criança de 0 a 5 anos.
Mesmo para as professoras que demonstram “ansiedade‖ para se aposentar, o cotidiano nas instituições é descrito como algo criativo, em que nada se repete, em parte por se tratar de um trabalho com crianças pequenas. Isso quer dizer que há improvisos na creche e na pré-escola mediante as respostas e o comportamento das crianças? O professor Adairton diz que:
No ensino fundamental, a música, a historinha e o jogo eram aquele improviso nos momentos em que os meninos estavam agitados. O conteúdo era outro. Aqui não, está lá no planejamento qual música, qual brincadeira, qual história e em qual momento a gente vai fazer isso. E isso faz parte da nossa infância, não é? Quem nunca brincou na vida? (Adairton).
Primeiro aparece a comparação entre as práticas no ensino fundamental e na educação infantil, aliás, muito recorrente nas narrativas dos sujeitos. Segundo, a música, a brincadeira e a história são apontadas como conteúdos das práticas nas instituições enraizados na sua história de vida e na sua vivência. Estes apontamentos do professor me fazem pensar que os aspectos da prática educativa na educação infantil, como a relação com as crianças, os fazeres, o afeto, o cuidado, por estarem tão enraizado em práticas domésticas e, portanto, nas histórias de cada professora/professor, podem ter alguma relação com o bem estar que dizem sentir esses sujeitos na educação infantil, mesmo em condições adversas de trabalho.
4.4 Nas narrativas, a prática educativa na educação infantil: notas finais